Tempos atrás fui a uma solenidade de formatura universitária. Se me fosse permitido fazer uma sadia e louca sugestão, eu diria que, quando pessoas se reunissem em solenidades de formatura, fogueiras deveriam ser acendidas, sinos deveriam repicar, foguetes deveriam espoucar, corais deveriam entoar cânticos de hosanas e aleluias, comunidades deveriam se alegrar. Porque, mais uma vez, o que era intenção virou realização, o que apenas era vontade tornou-se realidade, e, principalmente, em mais espaços de mente onde havia penumbra fez-se luz. Ressalvados os casos de falta de oportunidade, uma formatura é a vitória do sangue, do suor e do cérebro — isto é, da vida, do trabalho e do talento — sobre a sedução da passividade, do comodismo e da ignorância. De alguma forma –– pode-se dizer ––, é a vitória do bem sobre o mal.
Porém, nas solenidades de formatura não há fogueiras nem sinos nem foguetes nem corais. Não há fogueiras –– só o calor da amizade, o fogo da alegria. Não há sinos –– mas palmas a soarem forte nos ouvidos e corações. Não há foguetes nem corais, mas vivas e hurras e outras palavras e sentimentos mais.
Assim, de uma maneira ou de outra, Universidades e pessoas cumprem sua missão de agentes e de gentes que não vêem outro sentido na vida e no mundo senão torná-los melhor, a partir, mesmo, da melhoria individual. Afinal –– e lembrando a frase inglesa ––, se a vida é curta, a cada um compete não torná-la miúda (“Life is too short to be litlle”).
Décadas atrás, fui um desses formandos, egresso da unidade da UEMA em Imperatriz. Fui um nesta Imperatriz única, exclusiva, cuja multiculturalidade a transforma numa espécie de São Paulo no interior do Maranhão. Sou um dos que compõem os mais de dois terços de pessoas que aqui não nasceram, mas que para cá vieram e empregam seu tempo, talento e trabalho na busca cotidiana e diuturna de melhoria pessoal, profissional, familiar e sociocomunitária.
Esta Imperatriz e a região por ela polarizada são municípios em busca de uma revelação. Imperatriz, sobretudo, está à procura de uma definição acerca do que ela vai ou deve ser. Há dez anos, desde janeiro de 1997, o município tornou-se apenas e menos de 10% do que era, por força de sucessivas redivisões territoriais ante à criação de novos municípios. Dos mais de 15 mil quilômetros quadrados que antes constituíam o patrimônio territorial imperatrizense, resta-lhe, desde 2002, pouco mais de 1.300 quilômetros quadrados.
Claro que o melhor seria pensarmos solidária e integradamente o processo de desenvolvimento desta parte do Estado. Mas, por enquanto, isso não prospera, face o tipo de mentalidade, de prática e de prioridades que assenhoreiam um número cada vez maior de governantes e, pelo efeito avalanche (de cima para baixo), contaminam as representações da sociedade civil organizada, do empresariado etc. São gestores ou inseguros ou com excesso de confiança. Neste caso, crêem poder movimentar a vontade das populações para onde quiserem; crêem abarcar todos os ângulos da multifacetada realidade local e regional, humana e econômica, sem falar nos desvios e vieses desse mal necessário (porque imposição legal) chamado “política partidária”, instituição fragmentada até no nome (imagine os interesses!).
Assim, errada e egoisticamente, vamos elucubrar localmente.
Talvez a partir da base física do território imperatrizense pudéssemos começar um início de discussões acerca do futuro desta cidade. O índice de densidade populacional de Imperatriz pulou de 30 para 170 habitantes vivendo em cada quilômetro quadrado do município, além de, considerada apenas a zona urbana, quase dois mil habitantes por quilômetro quadrado, um dos maiores índices do País. Começar os debates pela referência territorial é, tão-somente, uma sugestão. Outros indicadores e índices igualmente podem ser lançados à arena das discussões.
Se, em termos geoterritoriais, não nos sobram espaços maiores para um número maior de projetos industriais de grande planta nem, tampouco, para agricultura extensiva (como ocorre com o pólo agrograneleiro da vizinha Balsas), devemos insistir e investir no cultivo dos vastos, renováveis e permanentemente agricultáveis campos da mente humana. Se não há como cultivar intensivamente outros frutos da natureza, vamos optar pelo melhor e mais caro deles: o ser humano. Para uma Imperatriz, esse seria seu melhor traço de majestade. Além do que poderia representar de melhoria de qualidade de vida, mental e ecologicamente falando.
Transformar Imperatriz num real celeiro de homens e de idéias – é aí que se aproximam uma solenidade de formatura, a nova conformação geoterritorial do município de Imperatriz e o conseqüente afunilamento de sua base econômica. É aí que se encontra o espaço onde Universidades e seus formandos e formados deverão mais e mais investir. No ensino, na extensão e na pesquisa muito pode ser feito, se houver uma parceria com entes públicos e privados. Pesquisas, estudos, debates, trabalhos de sensibilização, energização e envolvimento comunitário. Ainda quando mostra só a ponta de seu “iceberg” (por exemplo, quando forma professores e técnicos), a Universidade despeja um conteúdo potencialmente rico: pessoas com formação, informação e afirmação. Particularmente quando diploma professores, a Universidade está disponibilizando agentes de transmissão de repertórios e de reflexão de conteúdos para a formação dos futuros herdeiros desta terra. Quanto melhor cada criança, cada jovem, cada aluno for cuidado, tanto melhor será o resultado. Não será demais alertar que diversos desses alunos, ou todos eles, têm condições potenciais de vir a cuidar dos destinos desta cidade, deste Estado, e, por que não?, deste País.
É necessário, portanto, redescobrir o óbvio: Universidades, Poderes Públicos de todas as esferas (municipal, estadual e federal; Executivo, Legislativo e Judiciário), empresariado, associações comunitárias, entidades culturais, organizações classistas e técnico-profissionais e tudo o mais, pessoas físicas e jurídicas que tenham bons propósitos, com uma experiente equipe de mediadores, devem se juntar, estabelecer uma pauta de discussões, prazos e resultados, se pretendemos ter uma cidade (ou uma região, se for o caso) que seja produto –– e orgulho –– de seus cidadãos. Desenvolvimento, só com envolvimento.
Apesar da inexistência de estudos técnicos nesse sentido, pode-se entrever que Imperatriz será naturalmente empurrada na direção de ser um grande centro de serviços, produtor, promotor e difusor de mercadorias intangíveis como educação, saúde, formação profissional, turismo ecológico e de eventos. Essa é a grande tendência do mundo e a realidade presente em diversos países, regiões, estados e municípios, com impactos econômicos que já superaram, há muito, os cinqüenta por cento da formação do PIB (produto interno bruto) desses lugares. Isso, claro, não descarta nem anula a permanência e o incremento de atividades ditas primárias, secundárias e terciárias já existentes, como a pequena agricultura, horticultura, fruticultura, piscicultura, pequenas indústrias e o comércio atacadista e varejista. Mas deve ficar patente que é em Imperatriz que deverão ser satisfeitas certas necessidades cujo suprimento tão cedo não será prioridade nos outros municípios da região sudoeste e sul do Maranhão, norte do Tocantins e sul do Pará. Por exemplo, ainda que mais pela força da imposição pragmática do que pelo desenvolvimento de ações programáticas, Imperatriz corre o saudável risco de, ao lado de ser uma referência médico-hospitalar, também se tornar em um centro de fazer saber (que é o ensino formal, acadêmico) e de saber fazer (que é o ensino instrucional, técnico, tecnológico, empresarial). Há espaço para as pequenas empresas de alta tecnologia, como a microeletrônica, a informática. Para os cegos e céticos, e para ficar só em um exemplo do interior do Nordeste: Campina Grande, no interior da Paraíba, já é referência internacional nesses campos, a partir da base instalada de instituições de ensino superior. Muitos outros exemplos se multiplicam pelo Brasil. Por que não Imperatriz?
Quantificou-se, acima, a elevada densidade demográfica imperatrizense. Qualifique-se, e reforce-se, agora, o seguinte: se existe muita gente habitando em Imperatriz, tem pouca gente lutando por ela. Muitos pensam em Imperatriz, poucos pensam ela. É mais cômodo, muitas das vezes mais urgente e vital, preocupar-se com a sobrevivência pessoal ou o progresso familiar e grupal do que enfiar-se em questões de visão de futuro, de planejamento estratégico de uma cidade — questões essas normalmente eivadas de discussões técnicas, abstratas e de realizações e resultados de médio e longo prazos, que demandam, nas suas várias fases, algumas “cobranças” e um determinado “preço”, a ser pago por todos.
Assim, confirma-se: tem muito pouca gente pensando esta cidade, seus rumos, suas tendências, os cenários para ela. Já hoje temos exemplos de que o futuro e a História não perdoam os que, podendo fazer, não o fizeram, podendo contribuir, se omitiram, podendo estimular, enfraqueceram, podendo somar, diminuíram, podendo multiplicar, dividiram, e, podendo acelerar, descansaram. Gente que não tinha consistência de propósitos –– às vezes, nem propósitos. Gente que, no seu instante de poder, transformou seu espaço público em instrumento de manutenção e ampliação de seu patrimônio político e/ou financeiro. Exemplos do passado, ainda hoje replicados, permitem perguntar: O que é de certas pessoas onipotentes, oniscientes de antanho? Eis o que são ou em que se tornaram: foram / são políticos que se transformaram em pó, líderes que viraram pedintes, empresários que viraram balconistas, assessores que viraram asseclas, “estrelas” que viraram sombras. Outros seguirão estes — ainda falta muito para pavimentar o caminho do Mal…
“Quem sabe, faz a hora; não espera acontecer”. Toda pessoa é culpada do bem que não quis fazer. É insana ingenuidade acreditar que um instante presente de louvação e poder reproduzir-se-á por muito tempo ou por toda a vida. A História não comporta fases estáveis eternas. Sua característica é a mudança. A estabilidade, paradoxalmente, só é conseguida via transformações.
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Energia, televisão, telecomunicações, sistema viário multimodal… Isso são subprodutos da ciência e da tecnologia. Não são modernidade. Modernidade é o que está no homem: saber fazer, fazer saber, saber por que saber, saber por que fazer. Não é fazer porque sabe (isso é coisa de bobos e de robôs); é saber porque faz (isso é centelha divina).
Para Imperatriz, certas “coisas” (como energia, viação multimodal) têm vindo mais pela força da Natureza (localização estratégica do município) do que pela capacidade de luta da comunidade. Somos, mais, uma gente que espera a grande mudança do que um agente que a faz. Achamos que o pioneirismo dos desbravadores, o ajuntamento de pessoas e a construção de prédios são credenciais para benesses posteriores. Isso é passado — e, já se disse, o que passou, passou, o passado não garante nada. Cada fração de segundo que vivemos morremos. A cada instante, somos, como o rio, elementos diferentes, que, inexoravelmente, sabe o seu destino: enquanto o rio sabe ao certo que se desaguará num mar de sal, nós sabemos que nos acabaremos em um mar de dúvidas –– existenciais, transcendentais. Portanto, para os seres humanos, sobra o momento presente, única faixa do espaço e do tempo em que podemos intervir, para transformar(-nos) e para sermos melhores. Não basta ser gente (existir); é preciso ser agente (transformar).
Pela prática política de que historicamente vinha sendo vítima, pelo modelo sociocomunitário pouco eficiente que ainda perdura, pelo pensamento e pela práxis empresarial repousada maiormente no faro, intuição, “feeling”, telurismo, tirocínio, reforçados por uma falta de apetite pelo que diga respeito a responsabilidade social, planejamento estratégico, visão de futuro, gestão de seres humanos, inserção no mundo e ser parte do Cosmos, enfim, pelo caráter epidérmico, fragmentário e descontinuado do ver e do viver desta sociedade, Imperatriz entrou o Terceiro Milênio pela porta dos fundos e com, pelo menos, meio século de atraso. E esta não é uma frase de efeito. É uma constatação, agora, do efeito dos defeitos de outrora. Vamos descobrir, discutir e combater as causas? O que é que, coletivamente, podemos fazer? Aceita-se colaboração, venha de onde vier, chegue de onde chegar.
Ao sul do Maranhão, uma cidade continua à espera de uma revelação.
Imperatriz precisa construir seu próprio milagre.
Cartas para: Edmilson Sanches – E-mails: esanches@jupiter.com.br / edmilsonsanches@uol.com.br . Caixa Postal 61 - CEP 65900-970 - Imperatriz - Maranhão - Meio-Norte - Nordeste - Brasil - América do Sul - Continente Americano - Terra - Sistema Solar - Via Láctea - Universo - Deus.
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(Ao leitor: Dez anos? Quinze anos? Já nem me lembro mais há quantos anos escrevi esse artigo aí de cima (atualizei os números estatísticos). Pois bem: não importa o tempo decorrido. A triste constatação é a de que, para meu sofrimento e glória, tudo continua muito atual. O atraso administrativo imperatrizense tem o mágico condão de repetir-se, indefinidamente… O tempora! O mores! – “Ó tempos! Ó costumes!”, era a exclamação com que se esgoelava catilinariamente Cícero aos romanos, em 63 a. C., 2070 anos atrás).