O planeta egocêntrico
Pouca gente sabe, mas recentemente soprei as velinhas e completei 23 anos.
Isso me fez pensar.
Refletir sobre o que minha tia tinha dito quando eu ainda era adolescente.
Ela falou que o auge da beleza feminina é nessa idade e a partir daí nada mais será como antes.
Podem me chamar de fútil, mas sempre me assustei com a simples ideia de estar perdendo o vigor da juventude. Sendo assim, completamente desesperada após o banho, fui dar uma sincera olhada em meu corpo em frente ao espelho.
Suas palavras tinham razão. Algumas coisas realmente foram alteradas e o que estava impecável aos 15 anos, hoje em dia deixa um pouco a desejar.
Tudo bem, não posso esquecer que cirurgiões plásticos existem e possuem família para sustentar. Mas algo me impressionou e chamou minha atenção nesta aventura narcisista de observar o físico que tenho.
Meu umbigo. Ele ainda está aqui, mas algo de radical tinha acontecido ao seu redor. O mundo que antes o contornava grande e imponente tinha diminuído levemente de tamanho.
O suficiente para me fazer perceber que foi dada a largada para o processo da maturidade.
Muitos acreditam que crescer é trabalhar, casar, comprar a casa própria e trocar de carro conforme a chegada dos novos modelos do mercado. Eu digo que tais ações são meramente pueris quando comparadas ao complexo desafio que é amadurecer emocionalmente.
E isso não acontece no recebimento do primeiro contracheque ou na perda da virgindade. Trata-se de entender que no fim das contas, somos absolutamente irrelevantes. Uma conclusão dolorosa e que por isso é tão difícil de ser aceita.
O homem é, se não me engano, o único ou um dos raros animais que passam boa parte da vida associados aos pais. Qualquer filhote de onça quando desmamado já sai à caça com suas próprias patas.
Nós não. Ficamos um longo tempo dependendo dos progenitores e sendo alvo de todos os zelos a nossa volta. É a partir daí que o mundo toma forma em volta do umbigo. E vai aumentando cada vez mais influenciando diretamente no cotidiano.
Achamos que professor brigou porque não foi com a nossa cara, que o namorado desmarcou o encontro porque não nos quer mais e tá com outra ou que o motorista do ônibus passou reto na parada por ser um total idiota.
Esse corpo celeste pessoal não admite acreditar que cada uma dessas atitudes talvez tenham respostas que não sejam relacionadas com a nossa existência.
É provável que a esposa deste mesmo professor tenha pedido divórcio na noite anterior, o namorado não poderá sair porque teve uma discussão feia com os pais e o motorista não foi capaz de esperar os passageiros porque o carro estava com defeito.
Mas é assim mesmo. Ninguém disse que é rápida a destruição de um mundo. Não há bombas atômicas ou meteoros de impacto para este caso.
Resta abrir os olhos vez ou outra na frente do espelho e acompanhar a leve e gradativa redução deste planeta que envolve o umbigo conhecido como egocentrismo.
PS: Gente, esse da foto abaixo, é meu primo Armando. Ele chegou recentemente de viagem. Sim, está também de férias neste planeta.
PS2: Veja como se divertir em dias chuvosos, sinais que indicam uma traição e se um namoro virtual vale a pena.
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