Releituras: “Desejo e reparação”

Por Anderson Corrêa
“Prefiro o livro ao filme. Esse deturpa a história original. Não é fiel àquele!” Essas costumam ser as expressões usadas por muitas pessoas que vão ao cinema para assistir a uma produção com roteiro adaptado de uma obra literária. Sim, as diferenças são bem evidentes. Mas não haveria como não ser. São linguagens distintas, que utilizam recursos próprios. Todavia se deve reconhecer que no cinema as abstratas cenas, antes concebidas pela fértil imaginação do leitor, agora ultrapassam as barreiras inventivas e se concretizam diante dos nossos olhos.
Imagens que valem, por vezes, muito mais que o próprio texto, ou ainda aliado a esse valorizam tal obra. Um bom exemplo é “Desejo e reparação”, filme do jovem diretor Joe Wright (o mesmo de “Orgulho e Preconceto”), que, com louvor, consegue levar para as telas imagens surpreendentes a partir de uma irresistível adaptação da obra “Reparação”, do escritor inglês Ian McEwan. O espetáculo visual criado por Wright, contudo, não se sobrepõem à história, até porque o roteiro criado por Christopher Hampton é a força motriz para a excelente fotografia, edição e montagem tomem posição destaque na película.
Dividida em três atos, a trama desenvolve em torno de Briony (Saoirse Ronan), jovem inventiva que depois de sucessivos mal-entendidos, tomada de ciúmes, dispõe-se a pôr um ponto final no relacionamento de sua irmã mais velha Cecília (Keira Knightely) e o filho da governanta, Robbie (James McAvoy), que evitavam, devido à diferença de classes, tornar público o romance. Ele é preso sob acusação de estupro. No segundo ato, Robbie se junta ao exército britânico na Segunda Guerra Mundial, Cecília trabalha como enfermeira, enquanto Briony luta para reparar seu erro, culminando em um final surpreendente. O elenco é bastante afinado, com destaque para as três intérpretes de Briony. Assim como Ronan, Romola Garai e a experiente Vanessa Redgrave dão o tom perfeito a bem construída personagem.
Ademais o excepcional trabalho do elenco, os louros do filme ficam mesmo para o diretor e sua equipe técnica. Talvez os jovens cineastas, que comumente têm preferência por uma edição mais dinâmica, não concordem, mas “Desejo e reparação” é tecnicamente espetacular. A ousadia do diretor vai desde a utilização de um plano seqüência – cena filmada sem cortes e sem edição – com duração de um pouco mais de cinco minutos, até mesmo a trilha sonora que dá ritmo ao filme e traduz as inconstâncias de suas personagens, e uma fotografia belíssima, fugindo ao trivial.
Na referida cena Joe Wright consegue reunir harmonicamente mais de mil figurantes e em única tomada mostra Robbie, agora soldado, cruzando chocado a praia francesa de Dunquerque que serviria de ponto de retirada das forças britânicas, num momento crítico da II Guerra Mundial. A cena pormenoriza ações consecutivas que descrevem o desespero e a falta de expectativas dos soldados, e sobretudo mostram Robbie dilacerado por dentro, por conta das situações passadas que envolvem Cecília, que caminha sem dar a mínima atenção para os mortos, feridos e bêbados espalhados pelo trágico cenário. A guerra é o que menos importa neste momento. O plano seqüência evidencia a dor de sua separação. (Veja a cena)
A trilha de Dario Marianelli soma-se à excepcional cena, assim como é imperioso elemento durante todo o filme. Entre os pontos positivos está na utilização do som ambiente como base para a construção das músicas, a exemplo dos ruídos das teclas da máquina de escrever que insinua o texto escrito por Briony, elemento chave da história que liga os três atos da trama. A trilha, quando permitido pelo diretor, chama atenção para si retirando da imagem o epíteto de maior importância dentre os elementos da linguagem cinematográfica. Tudo na medida.
De fato, o brio de “Desejo e reparação” se deve a uma história sensível, inteligente e intimista, e especialmente à produção impecável e eficiente, sem exageros, com detalhes pontuais responsáveis pelos momentos mais intensos do cinema mundial que prende o espectador do início ao fim.
Filme: “Desejo e Reparação” (Atonement, Inglaterra, 2007). Romance / Drama. De Joe Wright. Com Keira Knightley, James McAvoy, Romola Garai, Saoirse Ronan, Brenda Blethyn, Vanessa Redgrave, Juno Temple.
Livro: “Reparação”, de Ian McEwan. 2002. Companhia das Letras. 448 p. Preço: R$ 60.
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