Formulário de Busca

Saramago: gênio de luz e sombra

sex, 02/07/10
por alternativo |
categoria Crônica, Literatura

0,,21148944-EX,00

Por Ney Farias Cardoso*

A melhor palavra, acredito, para definir José Saramago: “coragem”. Quantos escritores, hoje, são capazes de produzir reações iradas de uma instituição naturalmente conservadora como a Igreja Católica? E quantos de nós, nestes tempos em que todo mundo quer ficar “de bem” com todo mundo, são capazes de afirmar que Deus não existe e que a história da humanidade se resume a um desastre após o outro?

Eu estava justamente lendo o derradeiro romance publicado de Saramago, “Caim”, quando fui informado pela Internet a respeito do falecimento do mestre de “Cadernos de Lanzarote”. De imediato, procurei saber como essa morte repercutiria. Encontrei desde pessoas que Saramago muito provavelmente arderia no mármore do inferno por seu ateísmo até intelectuais que afirmavam categoricamente que Saramago – no que afirma e reafirma que a humanidade não tem direito à vida – apóia o extermino de milhões de desajustados no sentido de se “purificar” os homens e este mundo de seus pecados e equívocos.

Saramago foi um pessimista ou ele apenas não fechava os olhos para o que nos recusamos a aceitar que está errado? Ele chamou o primeiro-ministro italiano Silvio Berlusconi de “vômito” e “delinqüente” e comparou a situação dos territórios palestinos com a de Auschwitz. Não satisfeito, certa vez ele propôs uma segunda união ibérica por entender que a missão histórica de Portugal já terminou faz tempo.

Segundo o escritor, essa postura “contra tudo e contra todos” se deve ao fato de ele ter sido uma criança séria e melancólica. Dizia que sempre via o “lado negro das coisas”. Podemos ratificar seu posicionamento com um trecho de “Este mundo da injustiça globalizada”, texto lido na cerimônia de encerramento do Fórum Social Mundial, ocorrido em Davos no ano de Nosso Senhor de 2002.

Suponho ter sido esta a única vez que, em qualquer parte do mundo, um sino, uma campânula de bronze inerte, depois de tanto haver dobrado pela morte de seres humanos, chorou a morte da Justiça. Nunca mais tornou a ouvir-se aquele fúnebre dobre da aldeia de Florença, mas a Justiça continuou e continua a morrer todos os dias. Agora mesmo, neste instante em que vos falo, longe ou aqui ao lado, à porta da nossa casa, alguém a está matando. De cada vez que morre, é como se afinal nunca tivesse existido para aqueles que nela tinham confiado, para aqueles que dela esperavam o que da Justiça todos temos o direito de esperar: justiça, simplesmente justiça.

Não é que ele tenha se deixado vencer pela patada inescapável de uma crise de fé ou se refugiado na sombra. Apenas não se conformava com o desemprego em massa, que ainda é marca registrada em países autoproclamadas “potências em desenvolvimento” e por isso se dão ao luxo de pleitear uma vaga no Conselho de Segurança das Nações Unidas; com a fome e a epidemia de Aids no continente africano, as quais voltarão à tona quando findar a Copa do Mundo, ou com os Estados Unidos acreditando piamente que os iranianos querem dar início à Terceira Guerra Mundial, ignorantes de que ninguém em sã consciência deve pensar na possibilidade de se promover um holocausto nuclear.

A respeito de tais preocupações – que ele tão acidamente deixava bem explícitas a seus interlocutores –, encontrei uma entrevista para Geneton Moraes Neto, na qual consta uma resposta bem divertida à pergunta “Se o senhor fosse fazer hoje o papel do escrivão Pero Vaz Caminha, quinhentos anos depois, qual seria a primeira frase que escreveria sobre o Brasil?”.

“Depende do lugar onde eu desembarcasse”, disse Saramago. “Se desembarcasse em Copacabana, quando se arrebentaram os esgotos nas praias no Rio de Janeiro, diria ao rei Dom Manuel que aqui não poderia viver ninguém, porque o lugar cheira mal.Se, pelo contrário, desembarcasse numa praia limpa, coberta não de índias despidas, mas de lindas moças quase despidas, diria que aqui é um sítio para viver, uma terra linda. Se, no entanto, começasse a encontrar as favelas, diria : ‘Mas o que é que se passa aqui ? Eu julgava que os índios viviam de outra maneira!’”.

Origem – Assim era José Sousa Saramago: gênio de luzes e sombras nascido a 18 de novembro de 1822. Na verdade, foi dado à luz a 16, mas teve “roubados” dois dias porque a família, humilde, precisava evitar a multa por registro fora do prazo. De origem camponesa, não pôde completar os estudos secundários por ter encontrado dificuldades financeiras. Nada capaz de impedi-lo de exercer diversas funções dentro do jornalismo, até conseguir o profissionalismo como escritor e, como se sabe, conquistar o Prêmio Nobel de Literatura em 1998.

Creio ter deixado bem esclarecidas as “sombras” do autor de “O evangelho segundo Jesus Cristo”. Para encerrar estas considerações, um pouco de luzes – e escolho algumas linhas de “O ano da morte de Ricardo Reis”.

A chuva parara. O ar fresco, húmido do vento que passou sobre o rio, entra pelo quarto dentro, corrige-lhe a atmosfera fechada, como de roupa por lavar em gaveta esquecida, um hotel não é uma casa, convém lembrar outra vez, vão-lhe ficando cheiros deste e daquela, uma suada insônia, uma noite de amor, um sobretudo molhado, o pó dos sapatos escovados na hora da partida, e depois vêm as criadas fazer as camas de lado, varrer, fica também o seu próprio halo de mulheres, nada disto se pode evitar, são os sinais da nossa humanidade.

*Ney Farias Cardoso é revisor de O Estado. Este texto foi publicado originalmente em O Estado do Maranhão 2/7/2010.

Alma de botequim

qua, 22/07/09
por alternativo |
categoria Crônica

O botequim é um templo. Pode sê-lo, também, estado de espírito. Os mais xexelentos então… Boteco é o reino onde os solitários se sentem comboiados de seus copos. Cismando. Refletindo. Arrazoando. Muitos, ainda que não desnudos, lembram O Pensador, do escultor parisiense Auguste Rodin.
Boteco é o habitat de confrades de copos ou tão somente o lugar de prosear com um amigo. Aliás, nada mais perfeito do que uma amizade de botequim. Os amigos não se visitam nas respectivas casas. Não tomam grana emprestada e não pedem para subscrever promissória.
No boteco fala-se de mulher – quase nunca da nossa –, e de política, música e futebol. Mas não vale debater de modo tenso. É que não se vai ao botequim para esquentar a cachola. Camaradas de boteco são como namorados recentes: um quer acarinhar o outro e não divergem nunca.
O botequim é um lugar sagrado. Numa mesma prosa, um companheiro de ensina as saídas para os problemas materiais, um outro traz as últimas novidades para resolver as questões no plano sentimental.
Desconfio de que até sejam melhores do que o gerente do banco, a psicanalista e a cartomante. Repetidas vezes disse a minha analista: – Deixe seu consultório com mais cara de boteco. O botequim é mais democrático, os dois podem falar. Ela não me ouviu. No consultório freudiano ou junguiano do boteco, ora se é analista, ora se é paciente. Desisti.
Fui buscar os santos. E boteco que se preze tem de ter imagem de santo. São José de Ribamar, São Sebastião, São Jorge, São Lázaro, São Francisco de Assis, enfim. Mesa de botequim é quase um confessionário.
Boteco é um lugar sagrado. Recinto que inspira porres e papos, músicas e cantadas, frases e compassos, verdades e mentiras. Ainda que se sobreponham as mentiras sobre as verdades. Viva o botequim! Se Deus quiser e cachaça não faltar.

Itevaldo Júnior



Formulário de Busca


2000-2012 globo.com Todos os direitos reservados. Política de privacidade