O poeta se fez verbo
Que destrua desde já o supérfluo e o ilusório
e me alucine na essência de mim e das coisas,
trazer-me à tona do poema
com um grito de alarma e de alarde:
ser poeta é duro e dura
e consome toda
uma existência.
(Trecho do poema “O Parto”, de 1958.)
A primeira vez que li Nauro Machado no Farol da Educação, no Vinhais, eu não entendi nada. Hoje, ao ler seus poemas, ao menos, compreendo o imenso nada. Sim, eu já o compreendo os motivos. As histórias. O conteúdo. A loucura presa naqueles olhos de orbes rubras. O velho dos pelos brancos no rosto, que assombra a Praia Grande.
Se a literatura maranhense conheceu algum demônio, ele figura-se naquela carranca que guarda a existência da poesia original, elevada, hermética, dura, escorregadia e extremamente sensível. Assim, o lirismo está grudado à alma do ébrio poeta e de sua praça, vivos em suas mais videntes poesias, em suas mais românticas interpretações. Em Nauro, o homem completo / o poeta auto-incompleto a loucura e a consciência dolorosa da vida dedicada a poesia se fizeram verbo e jubilaram-se liricamente sobre a sua existência.
Taquicardia
Há vinte nove anos que eu ouço os grilos
sobre o silêncio da minha matéria.
Cresci com eles os rios e as campinas,
sabendo-lhes o gosto das manhãs.
Há vinte e nove anos que eu ouço em mim
a natureza – como um coração.
(Poema escrito em 1964)
“Gosto de viver individualmente. Gosto muito da solidão. Eu gosto de cultuar a minha solidão”, declara em uma entrevista na qual o poeta fala sobre sua dedicação à arte da forma verbal em entrevista num clipe, produzido pela Prole Filmes para o Evento do Patrimônio Histórico do Maranhão. Nauro comenta a devoção pela corruptível São Luís em sua poesia. Sobre sua obra. “Se eu tiver 20 leitores – e eu os tenho – estou satisfeito”, fala. Sua expectativa de que seus versos sejam estudados e sobre o ofício do poeta.
“O que me dói, de certa, quando vejo os jovens por aí, quando me cai às mãos, inclusive como julgador de concursos literários, livros e mais livros de pessoas que são talentosas – a gente vê que têm talento. Querem ser poeta porque eles acham que ser poeta é uma coisa fácil. É uma dor de cotovelo. É uma coisa boêmia. Não é uma escolha de vida. Não é uma maneira de encontro o que não se sabe. Acho que está havendo uma certa facilidade. Um certo descompromisso com a poesia enquanto linguagem”
- Nauro Machado, poeta, de São Luís (MA).
André Sales.
* Texto extraído do blog Última Frase.
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