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Elza Gonçalves e Auro Juriciê, atores

Elza 2 

Por Anderson Corrêa

Baseado no roteiro do escritor maranhense Ubiratan Teixeira, “Vela ao Crucificado”, filme de Frederico Machado, revela duas grandes apostas do cinema local. Auro Juriciê, vencedor de melhor ator no Festival de Cinema do Amazonas, e Elza Gonçalves conversaram com o estado e falaram sobre o processo de filmagens e as expectativas para a exibição do filme no Box Cinema. Com roteiro premiado em primeiro lugar no Concurso para Roteiros da secretaria de Cultura do Estado do Maranhão, o filme conta a história de um velório de uma criança em um bairro da periferia de São Luís. A fome permeia o enredo e possibilita a discussão da condição miserável de muitas famílias pobres do país.

O Estado – Como foi a surpresa de saber que tinha sido escalados para fazer “Vela ao crucificado”?

Elza Gonçalves – Para mim foi uma surpresa quando fui escolhida, até porque existiam vários atores, inclusive de outros estados, concorrendo ao papel. Para nós é um privilégio saber que os artistas da área Itaqui-Bacanga, que é conhecida principalmente pela violência, estão sendo valorizados e reconhecidos. Isso fortalece a comunidade. Diferentemente do Auro Juriciê que já teve contato com as câmeras antes participando de comerciais de televisão e fazendo uma pequena participação no filme “O Dono do Mar”, eu, até então, não havia participado de nenhum trabalho semelhante. Mas com a ajuda de todos tudo acabou saindo bem e o filme já ganho projeção internacional.

O Estado – Houve um entrosamento rápido entre vocês, já que tudo foi feito em apenas 10 dias?

Auro Juriciê – Como no cinema tudo é muito caro, teríamos de estar bem afinados com o texto e com a equipe. Não podíamos desvincular o lado comercial e o lado artístico, pois cada volta que fazíamos, cada cena que se repetia custava mais dinheiro e menos ônus para o filme. Eu e Elza ficávamos o tempo todo juntos. Fizemos laboratório – uma preparação para compor as personagens -, depois ensaiamos, primeiramente, no Teatro Itapicuraíba, no Anjo da Guarda, e posteriormente, no Teatro do Museu Histórico e Artístico do Maranhão (MHAM). Já venho em uma caminhada com a Elza há quatro anos. Eu a dirijo durante a Via Sacra em que ela faz o papel de Maria. Isso nos deu uma estreiteza de afinidades na hora de trabalhar.

O Estado – Em se tratando da equipe de filmagens, como se deu a dinâmica de trabalho, tendo em vista que boa parte de seus integrantes são de renome nacional?

Auro Juriciê - A equipe técnica que veio fazer o filme é a mesma de “Dois filhos de Francisco”. Eles são top de linha e estão entre os melhores do Brasil. Eles pensaram que teriam maior problema para fazer o filme por se tratar de atores inexperientes. Confessaram que para eles os atores não corresponderiam à maratona de trabalho pretendida, já que o Maranhão é um estado sem tradição alguma no cinema. Mas para eles foi uma surpresa quando chegaram e encontraram um grupo completamente entrosado. Quando nos viram perceberam que antes de mais nada havia em nós confiança e profissionalismo. Da nossa parte não houve nenhuma deslumbramento por se tratar de cinema, nem por ser uma equipe de fora. Eles foram de extrema competência no sentido do respeito com o nosso trabalho. O resultado foi que conseguimos gravar em apenas dez dias todo o filme. O previsto era finalizar as filmagens em 20 dias.

O Estado – Como foi a preparação para as gravações?

Elza Gonçalves – O filme precisava de uma mulher forte que transparecesse toda uma tristeza diante as circunstâncias em que ela vivia, vendo o filho morto. Para mim não foi tão difícil compor a personagem, porque também sou mãe. O sentimento maternal já está presente em mim. Mesmo assim não teve como eu não desabar em lágrimas. Não havia fortaleza que suportasse aquela situação. No cinema é tudo diferente do teatro. Quando me avisaram que faria o papel, fui informada de que teria de emagrecer 8kg. Para mim não foi nenhum sacrifício e dentro de um mês alcancei o peso estabelecido. Mas tenho de parabenizar também à equipe de caracterização e maquiagem. Eu tinha que passar a aparência de uma mulher muito sofrida. Envelheci aproximadamente 20 anos. Na tela estou irreconhecível.
Auro Juriciê – A construção da personagem passa muito pelo diretor e ele nos deixou muito à vontade para a composição delas. A diferença do nosso teste para o resultado final é avassalador. O ator é um criador, caso contrário é melhor pôr um boneco. Uma coisa me chamou bastante atenção durante as gravações: a dignidade com que se trabalha no set de filmagens. Ralf Tambke é uma cara que tem 30 anos de cinema e é uma cara que te pede desculpas quando era. Tratamento que não existe dentro do teatro de São Luís. Também não podemos esquecer do assistente de direção Wilter Frazão, uma pessoa de extrema visão que soube conduzir as cenas e participou da construção mais amiúde das personagens.

O Estado – E como foi o processo de gravação? Soube que há histórias curiosas que valem ser contadas.

Elza Gonçalves – Sim. Começamos as gravações nos dia 21 de abril e finalizamos no dia 28. Auro ficou um dia a mais para gravar a última cena final, do enterro do filho. A sequência foi feita ao som do boi da Maioba. Quando eles paravam, nós aproveitávamos para gravar, porque não podia haver nenhum ruído. Passava um carro por perto e nós também parávamos. As filmagens foram feitas pela madrugada. A locação foi a comunidade das Mercês, na Estrada de Ribamar, em Paço do Lumiar. Inclusive todo o cenário ainda está intacto lá. Nossa pretensão é fazer uma exposição com as peças.
Auro Juriciê – As gravações foram bastante exaustivas. A Elza, inclusive, teve de interromper muitas vezes as filmagens para recompor seu rosto. Por ela chorar muito nas cenas, os olhos ficavam inchados. Nesse intervalo de tempo a produção afinava a luz, ajustava alguma coisa e nós conversávamos sobre o texto, sempre buscando aprimorar as cenas. De fato, foi uma delícia gravar esse filme.

O Estado – Agora que o filme está pronto e já foi exibido em vários lugares do país e no exterior, quando o público maranhense vai poder conferir a atuação de vocês?

Elza Gonçalves – Em breve. O filme estréia no Box Cinemas em março. Já houve uma exibição no Cine Praia Grande, mas a qualidade técnica do filme não foi potencializada já que o equipamento deste cinema é inferior. No Box, o som e a imagem são melhores e proporcionará uma melhor exibição e uma visão mais próxima da proposta do filme. Esperamos que o público compareça ao cinema e prestigie o cinema nacional. Nosso objetivo é atingir 30 mil pessoas, especialmente estudantes.
Auro Juriciê – Infelizmente o curta-metragem ainda não tem o reconhecimento dos brasileiros. Nem mesmo os longas ainda são visto com a importância que merecem. É necessária maior sensibilidade para o segmento curta-metragem no país. Mas estamos esperançosos de que o filme seja sucesso nas salas de exibições locais. Deveríamos seguir o exemplo dos europeus. Na Europa,, durante a programação diária há exibição de curtas de vários países, sem discriminação. Para nossa alegria, o “Vela ao crucificado” á foi comprado por 20 canais europeus. Espero que isso seja um incentivo para nós.

O Estado – Como vocês avaliam os prêmios recebidos pelo filme?

Elza Gonçalves – Além do FestCine Amazonas, o filme também participou do FestCine Pantanal e da Mostra internacional de Cinema de São Paulo. A grande surpresa foi o Festival Internacional de Cine Cartagena de Indias (FICCI 50) – Colômbia, que será realizado no dia 25 de fevereiro a 5 de março. Nossa intenção é poder participar da cerimônia de premiação. Estar lá é muito importante para fazer a divulgação do filme para que ele possa concorrer também outros festivais. Mas para isso precisamos de apoio financeiro. Nós não temos condições de bancar nossa viagem e estadia. Por isso seria interessante se empresas pudessem nos apoiar e, dessa forma, contribuir para divulgação da cultura brasileira que está de parabéns.
Auro Juriciê – “Vela ao Crucificado” já foi selecionado para vários festivais competitivos nacionais e internacionais, entre eles o FestCine Amazonas, onde ganhou 4 dos principais prêmios, entre eles melhor filme, melhor direção, melhor ator e melhor roteiro no segmento de curta-metagem. Para nós é maravilho ter o trabalho reconhecido. Recentemente a Revista Bravo! Também fez uma crítica sobre o filme bastante consistente, o que demonstra o valor de um trabalho feito com carinho e competência.

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