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José Pereira Godão, produtor cultural

Godão 2010

Por Carla Melo

Um dos idealizadores do circuito São Pantaleão, que, na década de 90, foi palco da revitalização do Carnaval de rua de São Luís ao reunir blocos e outras manifestações do período momesco, José Pereira Godão fala, em entrevista a O Estado, sobre os 20 anos da retomada, traçando um perfil atual da folia nas duas últimas décadas.

Qual a importância do Circuito São Pantaleão, criado em 1991, e que de certa forma, revitalizou o Carnaval de rua de São Luís?
José Pereira Godão – O circuito São Pantaleão está completando 20 anos. De lá para cá passou por muitas modificações, reformas e adaptações. Ele foi fruto de uma aspiração coletiva dos foliões, que se reuniram em uma associação e, a partir daí, promoveram seminários nos quais se discutiu a volta das manifestações às ruas da cidade. Durante três anos, o circuito foi realizado por meio desta associação, já que não fazia parte das programações oficiais dos governos municipal e nem estadual. Nossa motivação foi a lembrança do Carnaval realizado nas ruas nas décadas de 60 e 70, algo espontâneo que foi se perdendo nos anos 80.

Em sua opinião, o que levou a esta desvalorização do Carnaval de rua na década de 80?
José Pereira Godão - Principalmente a influência da TV, que passou a transmitir os desfiles das escolas de samba do Rio de Janeiro. Nesta década não só em São Luís, mas no Brasil inteiro passou-se a valorizar  mais os desfiles de passarela em detrimento das manifestações de rua. As escolas de samba e o formato de arquibancada ganharam espaço e a Praça Deodoro, nos anos 80, ganhou a forma de passarela. Era, inclusive, proibida a passagem das brincadeiras espontâneas pela praça. Os grupos e cordões como Urso, Corso, entre outros, passaram a ser subgrupos das escolas de samba, uma espécie de ala. E não foram só estas manifestações que sofreram. Os bailes de clube, que eram tradicionais, também sentiram esse deslocamento, esta mudança de foco. 

Este hiato no Carnaval de rua acabou enfraquecendo algumas manifestações. Em sua opinião, quais foram as que mais sofreram?
José Pereira Godão -
Não havia mais espaço para as tribos de índio, as comédias, corsos, ursos, blocos de sujo… O que houve depois foi o surgimento de outras manifestações a exemplo dos blocos afros que não existiam, dessa coisa mais irreverente representada por grupos como a Máquina de Descascar’Alho que se firmou, do Jegue Folia e do próprio Bicho Terra. Esses grupos nasceram sem o comprometimento com aquela coisa dos concursos. Vimos também o renascimento dos bailes, que andavam esquecidos.

Quando o Circuito de São Pantaleão se tornou oficial?
José Pereira Godão -
Na década de 90 houve dois momentos: o primeiro foi em 1993, quando a Prefeitura oficializou o circuito. Nesse momento, aconteceu um certo confronto entre o Carnaval de passarela e o de rua. Em 1997, foi a vez do Governo do Estado torná-lo oficial. Foi nesse ano que ocorreu uma ampliação do circuito para a praça Deodoro e uma ligação com a passarela do samba que aí já recebia também um apoio substancial do governo e se levantam de uma certa decadência experimentada anos antes, posterior ao seu ápice na década de 80. 

E a expansão para os bairros, foi inspirada no circuito?
José Pereira Godão - Sim, a ampliação para os bairros aconteceu a partir deste circuito-mãe, foi uma forma de incentivar as comunidades a também levarem suas brincadeiras para a rua, para os projetos Vivas. É verdade que nos últimos anos, houve uma dispersão e não uma descentralização como estava sendo pregado. Foi uma quebra de unidade entre o circuito do Centro, os Vivas e a Passarela, o que levou a uma certa desmobilização do folião. O fato de terem segmentado as brincadeiras e da aprovação da lei que proibia o circuito Deodoro contribuiu muito para isto.

Este ano a Litorânea foi incluída no circuito oficial do Governo do Estado…
José Pereira Godão -
A princípio as praias estão recebendo a folia em dias alternados, sempre aos sábados para que não haja uma dispersão. Aos domingos, os blocos já fazem arrastões em suas próprias comunidades, o que é muito positivo e fortalece nosso Carnaval. Mas, nos quatro dias de Carnaval, todos estes espaços conviverão ao mesmo tempo como opções para os foliões. Costumo dizer que esse Carnaval é um Carnaval para todas as praias.

Você acha que há uma preocupação, por parte de quem faz a festa, em manter aspectos tradicionais do Carnaval maranhense?
José Pereira Godão - Acredito que o Carnaval de hoje é fruto da diversidade dos antigos carnavais. É claro que houve uma adaptação a esses tempos modernos, mas temos um Carnaval de peculiaridades únicas no qual se mesclam escolas de samba, blocos tradicionais, bandas de rua, blocos afros…Além disto, não se pode deixar de exaltar nossa consistência musical, que vem amadurecendo e criando sucessos que ganham destaque não só no Maranhão mas fora daqui também.

Em sua avaliação, qual manifestação carnavalesca inspira maior atenção quando se fala de preservação?
José Pereira Godão - As tribos de índio. Elas estão mais fragilizadas. Esta manifestação tem um ritmo único, uma batida forte, além disto eles levam para as ruas uma representação teatral. Atualmente, temos cerca de 12 grupos que se apresentam no período momesco, enquanto que, por exemplo, existem mais de 40 blocos tradicionais, que também são manifestações próprias do Maranhão.

O que falta para o Carnaval do Maranhão alcançar a projeção nacional a exemplo dos realizados em cidade como Recife e Bahia, por exemplo?
José Pereira Godão - Acho que até estivemos no foco na década de 90. Inspiramos, inclusive, algumas cidades, devido a projeção nacional e o envolvimento artistas como a Alcione. Um dos fatores responsáveis por isto foi nossa produção musical de alto nível. Hoje, almejamos este reconhecimento e creio que vamos conseguir. Para tanto, é necessário investir em uma mídia nacional com o viés voltado para o turismo regional.

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