Lili Marques, uma mestra da cultura.

Por Bruna Castelo Branco
Fundadora do grupo de Pastor do Menino Deus, a folclorista, referência na cultura popular do Maranhão, Aliete Ribeiro de Sá, ou simplesmente Dona Lili, foi homenageada 9 de dezembro de 2009, no Hotel Luzeiros de São Luís (Calhau) durante a entrega do Prêmio Fapema 2009. Contemplada na categoria Desenvolvimento Humano, Dona Lili, já é considerada uma mestre da cultura popular, recebeu a insígnia como uma forma de reconhecimento pelo seu engajamento com a cultura popular do Maranhão, pela qual tem organizado e comandado grupos de pastores natalinos e de bumba-meu-boi.
Com a simplicidade e o carisma que lhe são característicos, Dona Lili tem em suas raízes diversos vestígios da cultura popular que se misturam em uma manifestação de fé, exaltação e alegria. Nasceu na praia de Cumã, no município de Guimarães, mas nunca vai à praia porque não gosta. Dona Lili começou a relacionar com a cultura popular ainda bem cedo. Vinda de uma família que organizava grupos de bumba-meu-boi, sua trajetória teve início ainda nos primeiros anos de vida. Aos três anos de idade, ela já era uma das integrantes do grupo de pastorinhas da cidade de Guimarães. “Mamãe era muito ligada ao bumba-meu-boi e quando eu tinha três anos de idade pediram a ela que eu fosse uma pastorinha. Eu ainda era uma criancinha”, recorda.
Essas lembranças da infância fizeram com que ela, ainda adolescente, organizasse seu primeiro grupo há 64 anos. Com 15 anos, criou o grupo Pastor Filhas de Jerusalém, embora tenha surgido em Guimarães e depois ter sido levado para São Bento, Cajapió e Cajari, para em seguida fixar raízes em São Luís. Inicialmente chamado de Pastor Filhas de Jerusalém, o grupo mudou de nome a pedido da filha, a pesquisadora, professora e jornalista Ester Marques, para Pastor do Menino Deus, mas não foi só o nome que mudou. No início, a manifestação tinha apenas 10 integrantes e, hoje, já chega a 60 participantes que começam a ensaiar em outubro para as apresentações em dezembro. “Todo domingo é uma festa aqui. Os músicos todos ensaiando aqui em casa”, conta.
Pastores
A manifestação de Pastores tem suas origens na Europa Medieval. É um Auto de Natal que, por meio da dança e teatro, reproduz cenas que lembram o nascimento e a visita dos pastores ao Menino Jesus. A representação mostra o nascimento de Cristo em dois ou três atos. O primeiro ato é protagonizado pelos personagens: Maria, José e o anjo Gabriel. No segundo, destacam-se as personagens: Estrela, pastor guia, pastores mestres, pastora perdida, pastorinhas, cigana pobre, cigana rica, cefeira, borboleta, primavera, florista, espanholas, portuguesas, japonesas, holandesas, galegos e matutos. Destes personagens, a organizadora da festa tem uma admiração por um, em especial: a cigana rica. “Como é linda a minha cigana, tão lindo este personagem”, admira.
Originalmente, as apresentações em presépios e igrejas são iniciadas no dia 24 de dezembro e se estendem até o dia 6 de janeiro, mas essas datas não são tão rígidas. Os grupos podem iniciar as apresentações um pouco antes. No caso de Os Pastores do Menino Deus, a encenação é dividida em dois atos, cantados com composições de Dona Lili. Essa é uma das preocupações da coordenadora do grupo, que também muda de figurinos, a cada ano. Além de compor para o seu grupo, ela presenteia outros organizadores da brincadeira com composições de sua autoria. “Eu mesma escrevo. Acho que o grupo tem que mudar todo ano, para não ficar aquela coisa chata. Sempre é bom a gente trazer uma novidade. Este ano, eu estou com vontade de colocar os Três Reis Magos”, planeja.
Mesmo cuidando pessoalmente de todos os detalhes do grupo, Dona Lili ainda tem tempo de participar de outras manifestações populares na época de Natal. Há 12 anos, ela é uma das integrantes da Natalina da Paixão, organizada pela Cia. Barrica e também representa a Deusa das Flores, no grupo de pastores do Sesc.
Bumba-Meu-Boi e procissão
Além do grupo de pastores, Dona Lili é apaixonada por grupos de bumba-meu-boi de orquestra. Uma paixão que envolve a família toda, os filhos e netos participam das brincadeiras e, todos os anos, como agradecimento e admiração, vários grupos de bumba-meu-boi fazem apresentações na porta de sua casa, no bairro do João Paulo. Essa relação com grupos de bumba-meu-boi é bem antiga, desde o seu nascimento no dia 29 de junho, curiosamente Dia de São Pedro. “Nasci no Dia de Pedro, aquele assanhado, deve ser por isso que eu sou assim. Minha história com bumba-meu-boi tem 80 anos”, conta.
No entanto, o seu envolvimento com a cultura não para por aí. Todos os anos, entre 1º e 13 de maio, ela organiza a festa e a procissão de Nossa Senhora de Fátima. Os festejos, cuja direção lhe foi repassada após o falecimento de Dona Mundica, existem desde 1959. “Eu tenho que fazer a festa para a minha santinha linda todos os anos, mas meus filhos me ajudam muito. Todos os filhos me ajudam muito, principalmente, a Esterzinha. Quando ela chegou de Portugal, eu estava doente com Pneumonia, aí ela se empenhou bastante para me ajudar a organizar o grupo”, conta.
Homenagem
Organizadora de um dos mais antigos entre os seis grupos de pastores que ainda realizam o auto de Natal em São Luís, a grande maioria foi extinta com o tempo, a premiação para Dona Lili é recebida com bastante simplicidade e uma alegria modesta de quem faz a festa para preservar uma tradição e uma paixão construída ao longo de 80 anos de vida. “Eu fico muito feliz, lá vai ter muitos amigos, gente que eu gosto bastante. Lá o nosso grupo vai se apresentar pela primeira vez este ano”, frisa.
Entre os presentes, Dona Lili cita alguns nomes que para ela são importantes na ocasião. Além da família, o amigo de longas datas, o compositor e cantor Cláudio Pinheiro e a governadora Roseana Sarney, por quem nutre um carinho quase maternal. “Eu gosto muito da Roseana, faço promessa pela saúde dela, gosto dela sem nenhuma razão aparente. Para mim, a Roseana é como uma filha que eu não tive”, define.
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