Ubiratan Teixeira, jornalista e teatrólogo

Por Anderson Corrêa e André Sales
O teatrólogo, crítico teatral, professor e jornalista maranhense Ubiratan Teixeira chega aos 80 anos ciente de sua contribuição para a arte do Maranhão. Para celebrar a data, o escritor lança, hoje, às 20h30, no Cine Praia Grande, edição comemorativa do conto “Vela ao crucificado”, com ilustrações de Jesus Santos. O livro organizado por Arlete Nogueira traz ainda os roteiros para teatro de Wilson Martins e, para cinema, de Frederico Machado, inspirados no referido conto. Na ocasião também haverá reestréia do curta-metragem homônimo, dirigido por Frederico Machado, vencedor de prêmios em festivais por onde já foi exibido. Mesmo sem nunca ter assistido ao filme, Ubiratan Teixeira conversou com O Estado, falou sobre a carreira e pontuou projetos futuros.
O início
Foi ainda no jardim de infância, sob influência da diretora da escola, que Teixeira comeceu a ler. “Ela colocava todos os alunos para ler os textos dos Irmãos Grimm, que faziam literatura de terror, para adulto, e não para criança como se costuma pensar. Escrevia minhas redações e essa prática foi despertando em mim o gosto pela literatura”, recordou o escritor. “Já no primário, a professora Maria Freitas foi responsável por me apresentar ‘Dom Quixote’, de Cervantes, que custei a ler e entender. Li como se fosse uma grande aventura, que me empolgou muito. Creio que precisamos de bons professores que incentivem a leitura, pois sem ela não se pode ser um bom escritor”, completou.
Mas dentro de casa não havia o mesmo incentivo. Diferentemente dos pais biológicos, que eram artistas, do teatro, seu pai de criação, militar reformado, limitou, de certa forma, suas leituras. “O cruel de tudo é que ele só tinha lido três livros em toda sua vida. Isso bastava para ele. Mas esse homem me ensinou a ser disciplinado, que foi fundamental para minha vida. Eu tinha hora para comer, para estudar, para brincar, para dormir”.
Recriando a cidade
Sua literatura traduz a verdade cotidiana, ela parte de vivências, de coisas que viu e viveu. “É como eu vivo a cidade. Foi assim com meus romances ‘Labirintos’ e ‘A Ilha’. Eles têm muito de minha vida. Neles eu reflito a nossa cultura. As pessoas estão lá vivas. Negreiros, um dos maiores macumbeiros que tivemos aqui em São Luís, de grande responsabilidade dentro da área dele; aquela casa, lá da Praça Benedito Leite, onde funcionou o Jornal do Povo, tudo existe, nada foi criado. Tudo foi recriado de maneira artística. Eu não crio, eu não sou mentiroso” (risos).
O mesmo aconteceu com “Vela ao crucificado”. O conto foi baseado em uma história real. “Um amigo foi pegar o carro, e quando deu a ré, não viu que a criança estava atrás e acabou esmagando o menino. O pai não tinha dinheiro para enterrar a criança. Ele, então, enrolou o corpo em jornais, pegou o bonde e levou para o cemitério do gavião, carregando o filho nos braços”.
De fotógrafo a cronista
Antes de tudo, fotógrafo. O convite foi feito por Neiva Moreira. “Ele me presenteou com uma Rolley Flex que trouxe do Rio de Janeiro. Foi então que comecei a fotografar, mas eu não gostava dos textos dos jornalistas. Eles não compreendiam a essência das imagens. Então eu mesmo fui escrever. A partir daí o povo começou a dizer que eu tinha um bom texto. Mentira! Eu não era bom coisa nenhuma. Nunca fui. Mas a vida me deu essa oportunidade de escrever. Ver o cotidiano me ajuda em minha profissão. No Rio de Janeiro, trabalhei no Diário de Notícias. Ganhava bem, mas lá o povo era muito chato. Aí decidi voltar para São Luís e novamente caí na miséria. Mas a impressa me propiciou um melhor manejo com a língua”.
Teatro
A viagem para Europa, onde passou três anos, teve como meta o estudo do teatro. “Passei por cidades como Roma e Milão. Nesta, participei da montagem de ‘Nostro Milano’, em comemoração a uma data importante da cidade, dirigida por Giorgio Strehler. Ele me admitiu como seu assistente e comecei a dar algumas opiniões. Uma audácia, petulância de um suburbano do terceiro mundo. Mas o interessante é que ele me escutou e aceitou algumas das minhas sugestões. Quando terminou meu estágio ele queria que eu ficasse, fez de tudo. Não aceitei. Decidi ir para a Inglaterra”.
Mesmo com as garantias de bons salários e toda a documentação necessária para permanecer no exterior, a volta para a terra natal era irremediável. “Fique no Rio um tempo, mas queria ir mesmo era para o Maranhão. Salvar a arte no meu estado. Fui para a Itália fazer cursos para me aperfeiçoar, para ensinar o que aprendi ao povo daqui. Chegando aqui entrei pelo cano. Nem mel, nem cabaça. Talvez se tivesse permanecido na Europa, hoje teria alcançado o cume. Mesmo assim, não me arrependo em nada de não ter ficado lá”.
O palco maranhense
Crítico, como sempre foi, Ubiratan é bastante incisivo. O teatro no Maranhão é uma vergonha! “O que falta para esse estado é vergonha. Em Milão, é obrigação do governo público manter o teatro. O Piccolo faz temporadas o ano inteiro. Sai peça, entra peça do próprio grupo do teatro. Mas o governo da cidade se acha no direito de contribuir. Nos Estados Unidos a mesma coisa. Porque só aqui no Brasil não pode. Há projetos de incentivo à cultura, mas não é o suficiente. Eles dão R$ 20 mil que mal dá para fazer um espetáculo dentro de uma sofisticação. E depois? A platéia não tem dinheiro para encher todo dia o teatro. O governo tem de dar sua parcela de contribuição.
Mesmo com as dificuldades, novas companhias surgem e mantêm viva a arte no estado. “Graças a Deus os grupos estão aparecendo. Só não sei como estão passando, que tipo de recursos estão tendo. No teatro, qualquer intervenção pública implica dinheiro, mesmo que seja para pagar transporte. Sinceramente, não sei como eles administram isso. Penso que a gente pode sair dessa miséria fazendo alguma coisa. O teatro maranhense pode se recuperar, mas tem de ser com disciplina, com estudo. Não basta só talento”.
Projetos para o futuro
Ele já havia anunciado em primeira mão ao Alternativo, quando recebeu o prêmio ‘Apolônia Pinto’, na V Semana do Teatro do Maranhão, o lançamento da coletânea dos textos de teatro de Fernando Moreira. A parceria será com o Instituto Geia. “Fernando Moreira deixou um legado teatral maravilhoso. Seu texto é de uma sutileza; penetra com muita propriedade na alma humana, muito influenciado pelo teatro americano. Suas peças foram bastante montadas por jovens companhia de estudantes do Rio e de São Paulo”.
Acreditando que não haviam mais registros de seus textos, se surpreende quando o teatrólogo Aldo Leite chega à sua casa e lhe entrega os originais manuscritos e datilografados da obra de Moreira. “Eu não ia ficar com aquilo entulhado na minha casa. Entrei em contato com Jorge Murad e o Instituto aceitou fazer a publicação. Primeiro da obra teatral, que deve ser lançado durante o Festival Geia de Literatura. Mais tarde iremos publicar toda a prosa de Fernando. Precisamos resgatar esses autores. A nossa cultura é muito rica”.
Vela para todas as linguagens
Um de suas mais importantes obras, “Vela ao crucificado” (1972), passou pelo teatro e chega ao cinema. Formas diferentes que dão vida nova ao conto. “A prosa, o teatro, o cinema, são linguagens diferentes, às vezes complementares. Qual a melhor? Não sei. Depende. Você às vezes vê um filme, gosta do roteiro, não gosta da trilha, mas gosta da montagem, por exemplo. Isso vai de cada um. O mesmo no teatro. Figurino, cenário, são elementos importantes, mas dependerá do ponto de vista de cada um. Fazer arte não é fácil”, finalizou.
Entrevista publicada em O Estado
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