Caso Chiquinho Scórcio: mistério no ar
Esquecidas pela maioria dos brasileiros, as graves denúncias do senador Demóstenes Torres (DEM-GO) contra Renan Calheiros (PMDB-AL) ainda não foram apuradas pelo Senado Federal, e isso tem causado enorme surpresa nos bastidores do poder. O ex-presidente do Senado teria montado um esquema para espionar o próprio Demóstenes e o senador Marconi Perillo (PSDB-GO). Misteriosamente, as acusações formuladas em outubro de 2007 não foram objeto de inquérito administrativo ou sindicância interna. Calheiros teria orientado o então assessor especial, Francisco Escórcio, e a própria Polícia Legislativa do Senado para operarem sigilosamente a arapongagem.

O assunto veio à tona por meio de reportagem da revista Veja, e revelado durante discurso em Plenário do senador goiano. O silêncio torna-se ainda mais misterioso, porque uma das principais testemunhas desmente Demóstenes Torres. O ucho.info obteve com exclusividade o relatório taquigráfico do depoimento do empresário Pedro Abrão, tomado na noite do dia 17 de outubro, pelo corregedor do Senado, senador Romeu Tuma, e por um delegado da Polícia Federal.

Abrindo o bico
Condensadas em documento de vinte páginas, as notas taquigráficas trazem as perguntas de Romeu Tuma e do delegado Cavalheiro, bem como as respostas de Pedro Abrão. O ex-deputado federal (Abraão) teria sido sondado por Francisco Escórcio para instalar duas câmeras no hangar de sua propriedade, com o objetivo de filmar Marconi Perillo e Demóstenes Torres. Pedrinho, como é conhecido, desmente categoricamente as acusações de Demóstenes, em várias oportunidades. E diz que foi o senador goiano que o procurou para falar sobre a arapongagem.

Ao responder a Romeu Tuma, Pedro Abrão afirma: É uma coisa interessante. Eu até falei com o Demóstenes. Ele me especulando, como promotor público… Se eu soubesse de alguma coisa, avisaria primeiro ao Marconi. Eu não ia primeiro avisar ao Demóstenes! É uma questão de coerência.

Armação ilimitada
No depoimento tomado à noite em Goiânia, o empresário diz que não era preciso instalar nenhuma câmera no hangar para filmar Perilllo e Demóstenes. Aqui, na nossa empresa depois vou pedir para a minha menina (filha) ligar é tudo filmado… até por segurança. Admite que encontrou-se com Francisco Escórcio no escritório do advogado Eli Dourado. Fui chamado pelo senhor Eli Dourado, e garante que esse assunto de querer filmar não houve.

Moeda de troca
As denúncias contra Renan Calheiros, que demitiu Francisco Escórcio, foram a gota dágua no longo processo de esvaziamento político do então presidente do Senado, envolvido num obscuro pagamento de pensão alimentícia a uma filha fora do casamento com a jornalista Mônica Veloso.

Curiosamente, as acusações repetidas na mídia durante dias, não foram determinantes para a cassação do senador de Alagoas. Calheiros disse que era vítima de uma armação, mas também não fez questão de esclarecer o assunto da espionagem, assim como Demóstenes, Perillo e Tuma não exigiram a continuidade das investigações. Calheiros acabou livre de todas as denúncias, por conta de um acordo até agora inexplicável que envolveu parte dos 81 senadores. Na segunda votação para a sua cassação, obteve 46 votos favoráveis, seis a mais do que primeira votação realizada em sessão secreta.

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