Estreito - Faltando cerca de um mês para deixar o cargo por conta da desincompatibilização, o ministro de Minas e Energia, Edison Lobão, tem a sensação do dever cumprido. Nesta entrevista, após visita às obras da Hidrelétrica de Estreito, sexta-feira, ele lembrou ter recebido ano passado, em Londres, o prêmio de melhor ministro do setor no mundo. E garante que sob sua gestão o Maranhão encerrará o ano com 10% de todo atendimento do programa Luz para Todos no país.
O ministro afirma que a Hidrelétrica de Serra Quebrada, em Imperatriz, deve começar a ser construída até o início de 2011. No campo político, defendeu o nome do presidente do PMDB, deputado Michel Temer, como vice de Dilma, e acredita na aliança PT/PMDB no Maranhão. Sem descartar totalmente uma candidatura ao Governo do Estado, afirma que o caminho natural é ser candidato à reeleição ao Senado.
O Estado – Como o senhor avalia essa visita à Hidrelétrica de Estreito e a importância dessa obra?
Edison Lobão – Essa é uma obra estruturante. É a terceira usina hidrelétrica em construção no país. Está custando R$ 3,6 bilhões e gera atualmente 7 mil empregos diretos, mas já chegou em seu pico a 25 mil empregos diretos e indiretos. Será inaugurada ainda este ano e vai produzir 1.087 megawatts de energia. Uma vez funcionando, os municípios que ficam na periferia da grande obra – Estreito e Carolina (MA) e nove cidades do Tocantins – receberão royalties por toda vida. É, portanto, uma obra que não apenas servirá para aumentar a segurança energética do Brasil, como vai criar riqueza em toda essa região.
O Estado – O senhor também defendeu o emprego desses 7 mil trabalhadores e uma das saídas é transferi-los para os serviços na Hidrelétrica de Serra Quebrada, em Imperatriz…
Lobão - Muitas vezes os trabalhadores de uma hidrelétrica a ser construída ficam no desemprego. No caso presente, nós temos tido a preocupação de fazer com que mais brasileiros não percam seus empregos. E como fazê-lo? Nós estamos acelerando o lançamento de Serra Quebrada, que vai produzir 1.300 megawatts de energia. Os obstáculos que ao longo dos anos existiam – ambientais e com a Funai – estão sendo removidos de tal sorte que esta obra possa ser iniciada ainda este ano ou no começo do próximo ano.
O Estado – O senhor se envolveu em alguns debates com o ministro Carlos Minc (Meio Ambiente) por conta da construção dessas hidrelétricas, principalmente a de Belo Monte, no Pará. Essa questão já foi superada?
Lobão – Nós tivemos realmente muitas divergências. Entendíamos que as licenças ambientais poderiam ter sido emitidas há muito tempo. Houve um momento em que o próprio ministro do Meio Ambiente e o presidente do Ibama declaram ao presidente da República, na minha presença e da ministra Dilma Rousseff (Casa Civil), que a licença ambiental de Belo Monte seria emitida no dia 29 de novembro do ano passado. Bastou que eu tivesse dito isso à imprensa para que alguns técnicos – não o ministro – tomassem uma posição radical afirmando que não mais emitiriam a licença naquele dia porque o Lobão e a Dilma haviam marcado data. Ora, a data não havia sido marcada por mim e nem por ela, mas sim pelo ministro deles e o presidente do Ibama, ao qual esses técnicos estão subordinados. A esse ponto de intolerância chegamos no trato dessa matéria. A licença já foi emitida e perdemos em torno de um ano na construção de Belo Monte. Agora nos cabe tentar recuperar esse prazo perdido e acelerar esta obra que será a terceira maior do mundo, com capacidade de produzir 11 mil megawatts de energia – só perde para Três Gargantas (China) e Itaipu (Brasil e Paraguai).
O Estado – O senhor assumiu o ministério criticando o andamento do Luz para Todos no Maranhão. Como está essa questão hoje?
Lobão – Eu reclamei, continuo reclamando e ainda hoje reclamo. Nesta sexta-feira tive uma reunião em São Luís com os diretores da Cemar, Eletrobrás, Eletronorte e secretários do ministério sobre o programa. Mas posso dizer que o estado foi o mais bem aquinhoado no país. No Maranhão, temos 10% de todas as ligações do Luz para Todos no Brasil. Não é difícil entender que em se tratando de 27 estados, o Maranhão sozinho obteve 10% de todas as ligações do programa. Até dezembro deste ano pretendemos atender a todas as pessoas que ainda não têm luz elétrica em suas residências.
O Estado – O senhor deixa o cargo em abril e há receio que as obras, principalmente no Maranhão, não tenham continuidade.
Lobão – Eu vou deixar o ministério, mas não a vida pública – vou continuar sendo senador da República, apoiando o governo do qual me sinto honrado de participar. Estamos deixando, claro, a escolha para o presidente da República do meu sucessor. Provavelmente será o secretário executivo [Márcio Zimmermann], nomeado por mim. Com isso, nenhum diretor de estatal será substituído. Haverá continuidade de minha administração. E o próprio presidente da República, assim com a Dilma Rousseff, assumiram compromissos públicos no Maranhão de prosseguimento de todas as obras em caráter acelerado. A Refinara Premium da Petrobras, por exemplo, não terá retardamento com minha saída. Estarei vigilante e convencido de que o Governo Federal seguirá com esta obra com o ritmo que ela vem tendo, em benefício da nação brasileira.
O Estado – Ao assumir o ministério o senhor foi muito criticado por ser político e não técnico. Qual o legado que deixa no Ministério de Minas e Energia?
Lobão – A demonstração que os grandes ministérios podem ser sim administrados por políticos, desde que sejam administradores. O Ministério de Minas e Energia, que tem a metade do orçamento do país, ele sozinho, não precisa ter um técnico como seu titular. Basta ter um administrador com sensibilidade para as questões de natureza técnica. Foi o que eu fiz. Desde o primeiro dia estudei profundamente, dedicadamente, incansavelmente, as questões do ministério. Procurei assessorar-me com o que havia de melhor no Brasil. Jamais nomeei um diretor de órgão que não fosse pelo mérito. Jamais pelo apadrinhamento. Não sou contrário que políticos indiquem diretores de órgão públicos, desde que os indicados sejam honestos e competentes. Essa exigência eu sempre fiz e não me dei mal – me dei bem. Os que me ajudam são aqueles que no mercado profissional brasileiro foram considerados os melhores. Daí termos tido uma gestão vitoriosa a ponto de merecer prêmios internacionais, como o que eu recebi em Londres como tendo sido o melhor ministro de energia do mundo. Isto é uma honra não apenas para um maranhense, mas uma honra para todos os brasileiros.
O Estado – A partir de abril, qual será o futuro do ministro Lobão? Especula-se que o senhor possa tentar disputar o Governo do Estado. O que o hoje ministro e amanhã senador planeja?
Lobão – O futuro a Deus pertence, sempre. Sou senador, meu mandato está terminando agora e eu sou candidato a senador. No nosso grupo político não há choques, divergências que nos prejudiquem. Há unidade. Vamos prosseguir unidos eu, a governadora Roseana e todos os companheiros da vida pública maranhense para que possamos continuar tendo vitórias e servindo ao povo.
O Estado – Como o senhor vê uma possível candidatura à reeleição da governadora Roseana?
Lobão – Vejo com tranqüilidade. Ela sempre teve êxito assim como eu nas eleições que concorreu. Jamais perdeu uma eleição [em 2006, o TSE comprovou a fraude], assim como eu não perdi. E não há porque duvidar de nossa vitória no dia 3 de outubro.
O Estado – A chamada grande imprensa especula que o senhor poderia vir a ser o vice da Dilma…
Lobão – A imprensa tem falado isso com muita frequência sob o argumento de que sendo a ministra Dilma oriunda do Sul do país, do Rio Grande do Sul, embora filha de Minas Gerais, o vice dela deveria ser do Nordeste. E sendo do Nordeste há uma predileção pelo nome do maranhense Edison Lobão. Há também nomes outros de grande envergadura como o do presidente do PMDB, deputado Michel Temer, que merece essa posição. Ele lidera o nosso partido, é capaz de unir quase todas as alas, e é um nome muito forte a ser considerado para compor a chapa como candidato a vice-presidente da República. Além desse, há outros que o partido pode oferecer com elevação.
O Estado – Mas se o escolhido fosse o Lobão, o senhor toparia esse desafio?
Lobão - Não quero falar sobre hipóteses. Devemos pensar no nome do Michel Temer, presidente do PMDB e da Câmara. E quando chegar o momento próprio nós decidiremos.
O Estado - O senhor acha que essa aliança PT/PMDB se reproduz no Maranhão?
Lobão - É perfeitamente possível. Nós ganharemos com essa aliança e o PT ganhará muito mais. Estamos convencidos que o PT virá se aliar conosco para que juntos possamos ter resultados ainda mais positivos na eleição que se avizinha.
O Estado – A deputada Nice Lobão (DEM), sua esposa, será candidata à reeleição?
Lobão – Essa é uma decisão que ela tomará dentro de muito pouco tempo. Eu não gostaria de falar por ela. Ela é uma deputada de terceiro mandato, sempre muito bem votada, com bom desempenho na Câmara, onde mantém bons relacionamentos. Ela atende perfeitamente bem os municípios que representa. É uma deputada que dá satisfação e orgulho ao povo maranhense, mas a decisão de ser candidata ou não à reeleição é dela. Eu imagino que ela possa ser candidata.
O Estado – Como o senhor analisa o trabalho do grupo político do qual o senhor faz parte e a oposição no Maranhão?
Lobão – A existência da oposição eu vejo como naturalidade. É sempre bom e salutar uma corrente de oposição até para que possamos auferir melhor as posições que adotamos no exercício do poder. Ela cumpre o papel dela da maneira que acha que deve fazer. Já nosso grupo está sempre atento aos interesses legítimos do povo maranhense. Lutamos em bloco – cada senador e cada deputado tem seus deveres individuais – mas quando se trata dos interesses maiores do estado, nos unimos todos no sentido de resolvermos mais problemas. Por isso temos obtido êxito em nossas proposições. Eu mesmo, como senador, lutei pela implantação da Refinaria Premium da Petrobras. Não lutei sozinho. A governadora Roseana, o senador José Sarney, os outros senadores e deputados federais desejaram isso. Mas ela veio para o Maranhão graças ao fato de que eu, representando a política maranhense, me encontrava no Ministério de Minas e Energia. Se eu não fosse ministro nós teríamos perdido mais essa oportunidade.
(O Estado do Maranhão).