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1º DE JUNHO DE 2008: 200 ANOS DA IMPRENSA BRASILEIRA

dom, 01/06/08
por edmilson sanches |
categoria IMPRENSA

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“O primeiro dever do homem em sociedade é ser útil aos membros dela; e cada um deve, segundo as suas forças físicas, ou morais, administrar, em benefício da mesma, os conhecimentos, ou talentos, que a natureza, a arte, ou a educação lhe prestou. O indivíduo, que abrange o bem geral de uma sociedade, vem a ser o membro mais distinto dela: as luzes, que ele espalha, tiram das trevas, ou da ilusão, aqueles, que a ignorância precipitou no labirinto da apatia, da inépcia, e do engano. Ninguém mais útil, pois, do que aquele que se destina a mostrar, com evidência, os acontecimentos do presente, e desenvolver as sombras do futuro.” (Editorial de Hipólito José da Costa na edição nº 1 do Correio Braziliense  - 1º de junho de 1808)

* * *

Domingo, dia 1º, foi (ou deveria ter sido) lembrado o “Dia da Imprensa”, a maior data dos que trabalham na comunicação jornalística no Brasil. Mais que isso, completaram-se exatamente dois séculos, duzentos anos de existência da Imprensa brasileira.

O “Dia da Imprensa” ocorria antes em 10 de setembro, mas uma Lei (nº 9.831, de 13/09/1999), decretada pelo Congresso e sancionada pelo Presidente da República, estabeleceu que, a partir dali, o 1º de junho é que seria o Dia da Imprensa.

E por que houve a mudança de 10 de setembro para 1º de junho? Porque foi um pedido formalizado por entidades da imprensa. E em que se justificava esse pedido? Porque a data anterior, 10 de setembro, lembrava o dia de circulação do primeiro jornal impresso no Brasil, o Gazeta do Rio de Janeiro, um jornal dirigido pelo frei Tibúrcio José da Rocha, que se submeteu à censura do governo de Dom João 6º e só falava as coisas oficiais ou aquelas de que o governante não reclamasse. Isso foi há quase 200 anos, em 1808.

Acontece que, naquele mesmo ano (1808), em 1º de junho  — portanto, cem dias antes da existência do Gazeta –, começara a circular o Correio Braziliense, de Hipólito José da Costa, que estava exilado em Londres, mesmo lugar onde era impresso o jornal, por não se submeter à censura reinol e reinante. O Correio vinha do continente europeu para o americano em porões de navios, e, aqui no Brasil, era distribuído clandestinamente aos assinantes. A luta solitária de Hipólito José da Costa durou 15 anos, e valeu a pena. É hoje referência de imprensa que não se dobra ao Poder  — nem ao poder do dinheiro nem ao dinheiro do Poder. Não que não houvesse tentações. O Poder Público fez de tudo para atrapalhar a vida do jornal ou seduzir o jornalista. Pressionaram diplomatas ingleses para que o jornal deixasse de ser impresso em Londres. Ofereceram-se para pagar 500 (quinhentas) assinaturas do jornal, a fim de que o jornalista “maneirasse” suas críticas ou, melhor, não exercesse seu direito/dever de criticar.

Hipólito resistiu. Por causa dele, pode-se dizer que a história da imprensa e do jornalismo no Brasil começou bem. Não se pode afirmar com segurança se, no ambiente de hoje, com o tal capitalismo selvagem, o interesse político-eleitoral, o jornalista Hipólito José da Costa continuaria resistindo. Talvez sim. Talvez não. Neste caso, temos exemplos, maus exemplos, de veículos de imprensa que, seguindo apenas a ordem alfabética (já que trabalhamos também com letras), colocam o “D” de dinheiro antes do “V” da verdade, o “C” da conveniência antes do “F” dos fatos.

Enquanto Imprensa, temos um caminho bem largo e comprido a andar. Teríamos muito a explicar, a justificar. Pesquisadores e estudiosos no futuro vão ver o que fizemos com o quase-poder que tínhamos. Pesarão nossas opções e pensarão no porquê delas, seus motivos, limitações, imposições. Quem sabe até nos absolvirão de umas e outras culpas, concedendo-nos o benefício da dúvida, ao perguntarem-se se o que fizemos era o que queríamos fazer ou era o que podíamos fazer. Fazer como Cipriano Barata, que, mesmo preso, não parou de escrever em seu jornal e pregar a liberdade e verdade.

 

O certo é que, diariamente, continuam sendo postas tentações à mesa dos jornalistas. Estes têm que decidir se seguem o modelo de Tibúrcio (conveniência, oficialismo, dinheiro) ou o exemplo de Hipólito (idealismo, verdade, dificuldades).

 

Esses estudiosos do futuro talvez quisessem de nós atos de heroísmo. Mas não somos “Hipólitos” nem “Ciprianos”. E, meio sem jeito, diremos: “Tínhamos barrigas  — e não apenas consciência –  para alimentar…”

 

Parabéns, colegas da Imprensa.

PALESTRA SOBRE ÉTICA ABRE SEMINÁRIO TRANSDISCIPLINAR

ter, 13/05/08
por edmilson sanches |
categoria EVENTO

Tem início hoje, a partir das 19h30, no auditório da Faculdade Athenas Maranhense (FAMA), o 6º Seminário Transdisciplinar, que desenvolverá e debaterá diversos temas com estudantes universitários e demais pessoas interessadas da comunidade. O Seminário será aberto nesta terça-feira com a palestra “Ética Empresarial e Ética (na) Política”. Para discorrer sobre esse assunto, a equipe organizadora, constituída de alunos do 5º período do curso de Administração, convidou o jornalista Edmilson Sanches, que é também consultor empresarial e foi candidato a vereador, prefeito e deputado estadual em Imperatriz.

Segundo a estudante Selma Guimarães, da organização do evento, a palestra sobre Ética é a única, até o momento, que está com a lotação esgotada: são 330 lugares, e para ocupá-los a pessoa interessada inscreveu-se fornecendo produtos de higiene, cuja arrecadação será entregue a instituição de caridade do município. As palestras se estenderão até sexta-feira, com temas que vão de Gestão Financeira até Drogas.

QUEM É – O jornalista Edmilson Sanches, que faz hoje a noite a palestra de abertura sobre “Ética Empresarial e Política”, é escritor, professor e consultor empresarial. Licenciado em Letras. Técnico em Contabilidade. Pós-graduado em Administração e Negócios (Fortaleza – CE). Pós-graduado em Qualidade na Administração Pública (Brasília – DF). Pós-graduado em Comunicação e Desenvolvimento Regional pela ONU/UNESCO e Universidade Metodista (São Bernardo do Campo – São Paulo). Cursou, sem completar, o curso de Direito (Universidade Federal do Ceará) e pós-graduação em Psicopedagogia (UFRJ/Ministério do Exército). Como formação complementar, tem, entre outros, os cursos de “Update in Organizational Behavior” [Atualização em Comportamento Organizacional] pela Wharton School (São Paulo) e Gerentes de Classe Especial e de Primeira Classe (Banco do Nordeste, Fortaleza – CE). É presidente de honra do Conselho Municipal de Educação de Imperatriz. Suas atividades docentes incluem cursos de Gestão Pública, Polícia Cidadã, Assessoria de Imprensa e Pesquisa, Entrevista e Reportagem, todos na Universidade Estadual do Maranhão, e cursos de Liderança Comunitária, Motivação Pessoal e Profissional, e outros cursos de capacitação e pré-vestibulares. Escreveu e publicou diversos livros nas áreas de Comunicação, Administração e Desenvolvimento e é autor da “Enciclopédia de Imperatriz”, a maior obra de referência do município. Palestrante e conferencista em diversos pontos do País. Pesquisador nas áreas de Jornalismo, Segurança Pública e Violência, Desenvolvimento e Trabalho. Ex-funcionário do Banco do Nordeste, onde trabalhou mais de 20 anos, tendo sido Coordenador de Comunicação em Fortaleza e Assessor da Presidência em Brasília. No serviço público, foi Secretário do Desenvolvimento Integrado, Secretário da Comunicação e da Cultura e Subsecretário de Governo e Projetos Estratégicos.

TRÊS CRÔNICAS PARA MINHA MÃE LER LÁ DO CÉU

dom, 11/05/08
por edmilson sanches |
categoria CRÔNICA

(1) CRÔNICA DA MÃE AUSENTE

Minha mãe morreu. Foi numa quinta-feira, 1º de agosto, 6h50 da manhã.
Dona Carlinda Orlanda Sanches tinha 49 anos. Nasceu sob o signo de Escorpião, gostava de futebol (era vascaína) e desejava assistir a uma Copa do Mundo. Também queria ir a Roma e, claro, ver o papa também.
Católica, ia à igreja quando podia, mas estava com Deus sempre.
Só sabia fazer o bem. E bem feito. Desconfio de que a única coisa ruim que ela fez… foi fazer-me.
Acho que sempre lhe dei menos do que ela desejava, e dela sempre recebi mais do que merecia. Dizem que mãe e filhos são assim mesmo.

I I
Padecia de “doença limitante, de caráter progressivo, tendo como único tratamento o transplante de fígado”, que ela se recusou a aceitar (“O coração não pedia” –– desculpava-se). Quanto à doença, é um mal raro, comprido e indecifrável como o próprio nome: colangite esclerosante primária, detectável por meio de biópsia e exame de técnica e nome complicados: colangiotransparietohepática, ou colangiografia pancreática endoscópica retrógrada. Li quase tudo sobre a doença. Informei-me em Medicina, especializando-me em Hepatologia e em hepatopatias crônicas. Instigam-me particularmente os mistérios do processo das doenças classificadas como auto-imunes. Numa coleção de livros –– Clínicas Cirúrgicas da América do Norte, não lembro o ano –– anotava-se que a colangite primária tinha 32 casos registrados em todo o mundo.

I I I
Mãe foi a Brasília, São Paulo, e também foi atendida em Caxias, Teresina, São Luís… Não queria viajar mais. Queria ficar, tratar-se –– ou morrer –– em Imperatriz. E assim foi cumprida a sua vontade. Foram dois anos, ela carregando a sua cruz. E nós (Francisca Cláudia, Carlos Magno, Júlio César, Wendel e eu) sequer podíamos dividir o peso, sua dor. A dor é irrepartível (deixem passar o neologismo). A dor que sentíamos era outra, filial. A de mamãe, matriz. Uma dor tinha origem na doença; a outra, nascia daquela dor. Dores diferentes. A de mamãe, com certeza, maior. Sofria porque sentia dor, e sofria porque sentia por nós.

I V
Meu sono é como minha consciência –– leve. Assim, na madrugada, duas, três horas, bastava os pezinhos de mamãe roçarem a ardósia, à procura dos chinelos, para eu acordar e ir ao seu encontro. Era um escoteiro da noite, sempre alerta. Sem uma palavra, no meio do corredor fracamente iluminado, nos olhávamos, nos sorríamos um sorriso meio maroto meio triste e nos abraçávamos mudos e ternos. Seu corpo, debilitado pela doença; o meu, fragilizado pela emoção. E pela impotência ante o avanço do mal.

V
Mãe deu lições de dignidade e resistência, inclusive física. Enfrentou e venceu três comas e encefalopatias hepáticas, inúmeras cirurgias e pós-operatórios. Ficava dias só respirando quase imperceptivelmente, como um pássaro. Médicos arriscavam: poucas horas de vida, cérebro comprometido, vida vegetativa, uma pena, nada mais há o que fazer, agora é só esperar. E coisa e tal. Aí, mãe acordava, assombrosamente, aliás, divinamente lúcida. E se o corpo enfraquecia, a mente cada vez mais se fortalecia. Impressionante a memória. A lucidez. E isso doía: Mens sana in corpore… insano.

V I
Em um dos comas mais graves, familiares e amigos reunidos em volta do leito hospitalar, uma quarta-feira, sete para oito horas da noite, mãe desperta e diz: “Deus, Deus, Deus!” Reconheceu parentes que não via há anos e os chamou pelos nomes. De onde vinha aquela surpreendente vitalidade, só Deus sabe.

V I I
Mães morrem todo dia. Mas mãe –– como todas as mães –– queria viver. Continuar plantando plantas, floreando flores. Mulher “da mão boa”, o que tocava ficava bom. Porque assim era o seu coração. Coração de mãe. Mãe sofria –– mas queria viver.

V I I I
Não houve jeito. Ela, mais uma vez, sempre pioneira, tinha de ir na frente. Na terra, abrira o próprio ventre para dar os filhos ao mundo. Agora, ia na frente para abrir o céu aos filhos –– ou para convencer Deus de que nós mereceremos, ao menos, o purgatório.

I X
Sentados quietinhos no sofá, eu e ela, mãe olha um olhar longo assim em volta, vê a casa quase nua de bens materiais, bate os olhos nas diversas estantes e diz de um jeito indizível: “–– Os móveis do meu filho são livros”.

Ninguém jamais disse ou dirá algo tão belo.

X
Gotas de emoção e lágrimas desembucham o peito, sobem pra garganta, brotam dos olhos e caem em pingos, pontuando o texto e a vida.
Ah! mãe… Que saudade!… Que solidão!… Quanta dor!… Chove, chove muito dentro de mim.

* * *

(2) AUSÊNCIA PRESENTE

Este ano minha mãe faria 66 anos Dona Carlinda. Mas, em um dia 1º de agosto, aos 49, Alguém lá em cima sentenciou que precisava dela. Sabia que poderia contar com.

Aqui na terra, a energia, o conhecimento e bondade de minha mãe sempre estiveram mais a serviço dos outros do que de si mesma. Mal de família ou herança divina.

Era curioso observar como pessoas necessitadas passavam direto pelas casas das ruas em que moramos e paravam frente à nossa. Era como se a antena invisível que cada um de nós carregamos sintonizasse o sinal positivo que irradiava dali de dentro.

Quando voltava do serviço, mãe dizia: “Filho, aquelas roupas assim, aquelas coisas assado, dei a uma família cheia de necessidades que passou por aqui.” Isso fora alimentos, remédios (conhecia muito sobre medicina doméstica), “um dinheirinho” e freqüentemente orientações, conselhos, a palavra amiga, desinteressada.

Quantas vezes, no meio da madrugada, pessoas com dores, mulheres em trabalho de parto, idosos que acidentalmente tiveram queimada a pele inteira, crianças chorando desbragadamente e pais desorientados sem saber o que era e o que fazer; quantas vezes as orientações para a mãe de primeira vida; quantas vezes tudo isso e muito mais e Dona Carlinda (linda até no nome) era chamada para o aconselhamento honesto e correto, as primeiras e mais urgentes providências até o encaminhamento ao médico, que ela, pressurosa, logo recomendava ou providenciava. Para muita gente, era “Deus no céu e Dona Carlinda na terra”.

Desde que Deus a levou começo a acreditar que para o céu vão também almas carentes, aflitas, desesperadas, e que continuam assim, embora no Paraíso. Acredito nisso porque senão não tinha sentido minha mãe ser levada lá pro Alto assim tão jovem. Dona Carlinda não sabia fazer outra coisa senão o bem para o próximo, para o distante, para os amigos e principalmente para desconhecidos.

De modo que, se não tem gente no Céu passando dificuldades, é bom o Todo-Poderoso cometer um daqueles milagres que ele faz com tanta facilidade e devolver logo minha mãe aqui pra terra. Tem muita gente aqui precisando dela. Inclusive nós, seus filhos.

Perdão, mãe, molestar a senhora aí em cima. Neste dia das mães, e sabendo-a rediviva cá dentro de mim, seu filho pede desculpas, e a bênção.

Mas ainda chove muito dentro de mim.

* * *

(3) DIA DE VOLTAR AO VENTRE

É 1º de agosto e minha mãe está morta. Júlio César, meu irmão, um entre aqueles aos quais coubera naquele dia fazer a vigília no hospital, telefonara-me, 6h50 da manhã, e disse só: “Edmilson… aconteceu…”.

O que se faz em uma hora dessas? Caímos em choro? Assumimos o desespero, bradando a Deus nossa ignorância ante Seus desígnios e decisões? Fingimos uma força (que não há) e, autômatos, iniciamos a burocracia do pós-morte, as providências fúnebres? Prostramo-nos sentados, imóveis, fixando o olhar no nada? Engolimos em seco e passamos a mão sobre as lágrimas que vertem, escorrem e fazem um caminho líqüido e incerto atraídas pela gravidade da ciência e da situação?

As mães sempre querem ser enterradas pelos filhos. Não é por lógica da natureza, onde os mais velhos se vão primeiro que os mais novos. Mães querem morrer primeiro por causa do imenso amor que têm pelos filhos. A lei do amor substitui a ordem natural.

Sou muito grato à minha mãe. À sua coragem. À sua sabedoria. À sua capacidade de trabalho. Ao seu respeito pelo ser humano. À sua dedicação aos mais desfavorecidos. Ser bom e fazer o bem — eis a definitiva religião. Essa era a vida de minha mãe e essa foi a herança que dela seus filhos recebemos. Minha mãe era imensamente rica. Os bens de minha mãe era seu bem, sua bondade. E isso é algo que não se põe em testamento. É algo que não se converte em números e que não se guarda em cofres. E porque minha mãe dividia seu bem com os outros, mais se multiplicava a riqueza sua.

Dona Carlinda — linda até no nome — se doava toda aos filhos. Até na doença que simultaneamente a levou à terra e a elevou aos céus. Certa noite, como quem conta um segredo e dá uma lição, ela disse, cabeça recostada ao meu ombro: “Meu filho, se eu fosse chorar as dores que sinto, ninguém dormiria nesta casa. É preciso resistir.”

Sou o mais velho dos cinco filhos de mamãe. E, igual a ela, que ajudou a criar seus outros quatro irmãos, também se repetiu em mim, como arrimo e carma, a missão de auxiliar na condução de seus outros quatro filhos, meus irmãos Francisca Cláudia, Carlos Magno, Júlio César e Wendel (os nomes são referência à atriz tunísio-italiana Claudia Cardinale, a dois imperadores romanos e ao ex-goleiro do Botafogo — time da predileção de meu tio Raimundo João –, embora minha mãe fosse vascaína, pois em casa reinava também a democracia esportiva).

O bom humor da minha família — ainda lembro de minhas tias Isabel e Luíza e os tios Raimundo João e José Lourenço juntos… – é algo muito especial, e com minha mãe então… Tanto que, quando ela faleceu, seu Manoel (o “papai velho”, meu avô materno), não durou muito e morreu também, dizem que de desgosto pela perda da filha primogênita.

Cresci e fui ficando mais velho observando e absorvendo os modos e os medos de minha mãe. Os modos — o jeito de ser, de ser consigo, de ser com os outros. Os medos — “só dos castigos de Deus”.

Cresci e fui ficando mais velho buscando o que realmente vale a pena na vida. Não louvo a pobreza, mas não me encanto com o que o vulgo chama de riqueza. Aprendi a conviver com pouco sem ter inveja do que tem o outro. Aprendi a buscar o reino que não é deste — mas que começa neste — mundo. Eis o que importa: fortalecer a fé, aumentar o círculo de amizades, e dividir o pão da matéria, do conhecimento e do espírito — dividir, pois a grande representação da espiritualidade não está na cruz, mas na partilha.

Neste segundo domingo de maio, e em todos os dias, minha mãe continua viva. No cemitério Campo da Saudade, em Imperatriz, Dona Carlinda doou-se em último ato de repartição: ela entregou-se e integrou-se à terra de onde divinamente veio. O eterno retorno.

Neste segundo domingo de maio, minha mãe não está na sepultura. Ela renasce continuamente dentro de nós, seus filhos, familiares e amigos. Todos os nossos corações estão grávidos da presença e lembranças de minha mãe.

Nessa inversão de papéis (a mãe sendo gestada pelos filhos), cumpre-se a profecia: a roda grande dentro da menor. Mente, alma e coração estão repletos do grande espírito materno.

E ao sentir a presença de minha mãe em mim, a paz que se faz — depois de lágrimas e oração – é a que se poderia ter caso hoje fosse o dia de voltar ao ventre, onde minha mãe me abraça da forma mais íntima possível, só explicável pelos mistérios da Criação.

Ao longe, ouço a voz alegre de minha mãe menina, me ninando. Me mimando. Me amando.

Mãe: apesar dos anos, sua falta ainda faz chover muito dentro de mim.

A bênção, mãe.

IMPERATRIZ – UM CONVITE À REFLEXÃO E À AÇÃO

sex, 09/05/08
por edmilson sanches |
categoria IMPERATRIZ

Tempos atrás fui a uma solenidade de formatura universitária. Se me fosse permitido fazer uma sadia e louca sugestão, eu diria que, quando pessoas se reunissem em solenidades de formatura, fogueiras deveriam ser acendidas, sinos deveriam repicar, foguetes deveriam espoucar, corais deveriam entoar cânticos de hosanas e aleluias, comunidades deveriam se alegrar. Porque, mais uma vez, o que era intenção virou realização, o que apenas era vontade tornou-se realidade, e, principalmente, em mais espaços de mente onde havia penumbra fez-se luz. Ressalvados os casos de falta de oportunidade, uma formatura é a vitória do sangue, do suor e do cérebro — isto é, da vida, do trabalho e do talento — sobre a sedução da passividade, do comodismo e da ignorância. De alguma forma –– pode-se dizer ––, é a vitória do bem sobre o mal.

Porém, nas solenidades de formatura não há fogueiras nem sinos nem foguetes nem corais. Não há fogueiras –– só o calor da amizade, o fogo da alegria. Não há sinos –– mas palmas a soarem forte nos ouvidos e corações. Não há foguetes nem corais, mas vivas e hurras e outras palavras e sentimentos mais.

Assim, de uma maneira ou de outra, Universidades e pessoas cumprem sua missão de agentes e de gentes que não vêem outro sentido na vida e no mundo senão torná-los melhor, a partir, mesmo, da melhoria individual. Afinal –– e lembrando a frase inglesa ––, se a vida é curta, a cada um compete não torná-la miúda (“Life is too short to be litlle”).

Décadas atrás, fui um desses formandos, egresso da unidade da UEMA em Imperatriz. Fui um nesta Imperatriz única, exclusiva, cuja multiculturalidade a transforma numa espécie de São Paulo no interior do Maranhão. Sou um dos que compõem os mais de dois terços de pessoas que aqui não nasceram, mas que para cá vieram e empregam seu tempo, talento e trabalho na busca cotidiana e diuturna de melhoria pessoal, profissional, familiar e sociocomunitária.

Esta Imperatriz e a região por ela polarizada são municípios em busca de uma revelação. Imperatriz, sobretudo, está à procura de uma definição acerca do que ela vai ou deve ser. Há dez anos, desde janeiro de 1997, o município tornou-se apenas e menos de 10% do que era, por força de sucessivas redivisões territoriais ante à criação de novos municípios. Dos mais de 15 mil quilômetros quadrados que antes constituíam o patrimônio territorial imperatrizense, resta-lhe, desde 2002, pouco mais de 1.300 quilômetros quadrados.

Claro que o melhor seria pensarmos solidária e integradamente o processo de desenvolvimento desta parte do Estado. Mas, por enquanto, isso não prospera, face o tipo de mentalidade, de prática e de prioridades que assenhoreiam um número cada vez maior de governantes e, pelo efeito avalanche (de cima para baixo), contaminam as representações da sociedade civil organizada, do empresariado etc. São gestores ou inseguros ou com excesso de confiança. Neste caso, crêem poder movimentar a vontade das populações para onde quiserem; crêem abarcar todos os ângulos da multifacetada realidade local e regional, humana e econômica, sem falar nos desvios e vieses desse mal necessário (porque imposição legal) chamado “política partidária”, instituição fragmentada até no nome (imagine os interesses!).

Assim, errada e egoisticamente, vamos elucubrar localmente.

Talvez a partir da base física do território imperatrizense pudéssemos começar um início de discussões acerca do futuro desta cidade. O índice de densidade populacional de Imperatriz pulou de 30 para 170 habitantes vivendo em cada quilômetro quadrado do município, além de, considerada apenas a zona urbana, quase dois mil habitantes por quilômetro quadrado, um dos maiores índices do País. Começar os debates pela referência territorial é, tão-somente, uma sugestão. Outros indicadores e índices igualmente podem ser lançados à arena das discussões.

Se, em termos geoterritoriais, não nos sobram espaços maiores para um número maior de projetos industriais de grande planta nem, tampouco, para agricultura extensiva (como ocorre com o pólo agrograneleiro da vizinha Balsas), devemos insistir e investir no cultivo dos vastos, renováveis e permanentemente agricultáveis campos da mente humana. Se não há como cultivar intensivamente outros frutos da natureza, vamos optar pelo melhor e mais caro deles: o ser humano. Para uma Imperatriz, esse seria seu melhor traço de majestade. Além do que poderia representar de melhoria de qualidade de vida, mental e ecologicamente falando.

Transformar Imperatriz num real celeiro de homens e de idéias – é aí que se aproximam uma solenidade de formatura, a nova conformação geoterritorial do município de Imperatriz e o conseqüente afunilamento de sua base econômica. É aí que se encontra o espaço onde Universidades e seus formandos e formados deverão mais e mais investir. No ensino, na extensão e na pesquisa muito pode ser feito, se houver uma parceria com entes públicos e privados. Pesquisas, estudos, debates, trabalhos de sensibilização, energização e envolvimento comunitário. Ainda quando mostra só a ponta de seu “iceberg” (por exemplo, quando forma professores e técnicos), a Universidade despeja um conteúdo potencialmente rico: pessoas com formação, informação e afirmação. Particularmente quando diploma professores, a Universidade está disponibilizando agentes de transmissão de repertórios e de reflexão de conteúdos para a formação dos futuros herdeiros desta terra. Quanto melhor cada criança, cada jovem, cada aluno for cuidado, tanto melhor será o resultado. Não será demais alertar que diversos desses alunos, ou todos eles, têm condições potenciais de vir a cuidar dos destinos desta cidade, deste Estado, e, por que não?, deste País.

É necessário, portanto, redescobrir o óbvio: Universidades, Poderes Públicos de todas as esferas (municipal, estadual e federal; Executivo, Legislativo e Judiciário), empresariado, associações comunitárias, entidades culturais, organizações classistas e técnico-profissionais e tudo o mais, pessoas físicas e jurídicas que tenham bons propósitos, com uma experiente equipe de mediadores, devem se juntar, estabelecer uma pauta de discussões, prazos e resultados, se pretendemos ter uma cidade (ou uma região, se for o caso) que seja produto –– e orgulho –– de seus cidadãos. Desenvolvimento, só com envolvimento.

Apesar da inexistência de estudos técnicos nesse sentido, pode-se entrever que Imperatriz será naturalmente empurrada na direção de ser um grande centro de serviços, produtor, promotor e difusor de mercadorias intangíveis como educação, saúde, formação profissional, turismo ecológico e de eventos. Essa é a grande tendência do mundo e a realidade presente em diversos países, regiões, estados e municípios, com impactos econômicos que já superaram, há muito, os cinqüenta por cento da formação do PIB (produto interno bruto) desses lugares. Isso, claro, não descarta nem anula a permanência e o incremento de atividades ditas primárias, secundárias e terciárias já existentes, como a pequena agricultura, horticultura, fruticultura, piscicultura, pequenas indústrias e o comércio atacadista e varejista. Mas deve ficar patente que é em Imperatriz que deverão ser satisfeitas certas necessidades cujo suprimento tão cedo não será prioridade nos outros municípios da região sudoeste e sul do Maranhão, norte do Tocantins e sul do Pará. Por exemplo, ainda que mais pela força da imposição pragmática do que pelo desenvolvimento de ações programáticas, Imperatriz corre o saudável risco de, ao lado de ser uma referência médico-hospitalar, também se tornar em um centro de fazer saber (que é o ensino formal, acadêmico) e de saber fazer (que é o ensino instrucional, técnico, tecnológico, empresarial). Há espaço para as pequenas empresas de alta tecnologia, como a microeletrônica, a informática. Para os cegos e céticos, e para ficar só em um exemplo do interior do Nordeste: Campina Grande, no interior da Paraíba, já é referência internacional nesses campos, a partir da base instalada de instituições de ensino superior. Muitos outros exemplos se multiplicam pelo Brasil. Por que não Imperatriz?

Quantificou-se, acima, a elevada densidade demográfica imperatrizense. Qualifique-se, e reforce-se, agora, o seguinte: se existe muita gente habitando em Imperatriz, tem pouca gente lutando por ela. Muitos pensam em Imperatriz, poucos pensam ela. É mais cômodo, muitas das vezes mais urgente e vital, preocupar-se com a sobrevivência pessoal ou o progresso familiar e grupal do que enfiar-se em questões de visão de futuro, de planejamento estratégico de uma cidade — questões essas normalmente eivadas de discussões técnicas, abstratas e de realizações e resultados de médio e longo prazos, que demandam, nas suas várias fases, algumas “cobranças” e um determinado “preço”, a ser pago por todos.

Assim, confirma-se: tem muito pouca gente pensando esta cidade, seus rumos, suas tendências, os cenários para ela. Já hoje temos exemplos de que o futuro e a História não perdoam os que, podendo fazer, não o fizeram, podendo contribuir, se omitiram, podendo estimular, enfraqueceram, podendo somar, diminuíram, podendo multiplicar, dividiram, e, podendo acelerar, descansaram. Gente que não tinha consistência de propósitos –– às vezes, nem propósitos. Gente que, no seu instante de poder, transformou seu espaço público em instrumento de manutenção e ampliação de seu patrimônio político e/ou financeiro. Exemplos do passado, ainda hoje replicados, permitem perguntar: O que é de certas pessoas onipotentes, oniscientes de antanho? Eis o que são ou em que se tornaram: foram / são políticos que se transformaram em pó, líderes que viraram pedintes, empresários que viraram balconistas, assessores que viraram asseclas, “estrelas” que viraram sombras. Outros seguirão estes — ainda falta muito para pavimentar o caminho do Mal…

“Quem sabe, faz a hora; não espera acontecer”. Toda pessoa é culpada do bem que não quis fazer. É insana ingenuidade acreditar que um instante presente de louvação e poder reproduzir-se-á por muito tempo ou por toda a vida. A História não comporta fases estáveis eternas. Sua característica é a mudança. A estabilidade, paradoxalmente, só é conseguida via transformações.

* * *

Energia, televisão, telecomunicações, sistema viário multimodal… Isso são subprodutos da ciência e da tecnologia. Não são modernidade. Modernidade é o que está no homem: saber fazer, fazer saber, saber por que saber, saber por que fazer. Não é fazer porque sabe (isso é coisa de bobos e de robôs); é saber porque faz (isso é centelha divina).

Para Imperatriz, certas “coisas” (como energia, viação multimodal) têm vindo mais pela força da Natureza (localização estratégica do município) do que pela capacidade de luta da comunidade. Somos, mais, uma gente que espera a grande mudança do que um agente que a faz. Achamos que o pioneirismo dos desbravadores, o ajuntamento de pessoas e a construção de prédios são credenciais para benesses posteriores. Isso é passado — e, já se disse, o que passou, passou, o passado não garante nada. Cada fração de segundo que vivemos morremos. A cada instante, somos, como o rio, elementos diferentes, que, inexoravelmente, sabe o seu destino: enquanto o rio sabe ao certo que se desaguará num mar de sal, nós sabemos que nos acabaremos em um mar de dúvidas –– existenciais, transcendentais. Portanto, para os seres humanos, sobra o momento presente, única faixa do espaço e do tempo em que podemos intervir, para transformar(-nos) e para sermos melhores. Não basta ser gente (existir); é preciso ser agente (transformar).

Pela prática política de que historicamente vinha sendo vítima, pelo modelo sociocomunitário pouco eficiente que ainda perdura, pelo pensamento e pela práxis empresarial repousada maiormente no faro, intuição, “feeling”, telurismo, tirocínio, reforçados por uma falta de apetite pelo que diga respeito a responsabilidade social, planejamento estratégico, visão de futuro, gestão de seres humanos, inserção no mundo e ser parte do Cosmos, enfim, pelo caráter epidérmico, fragmentário e descontinuado do ver e do viver desta sociedade, Imperatriz entrou o Terceiro Milênio pela porta dos fundos e com, pelo menos, meio século de atraso. E esta não é uma frase de efeito. É uma constatação, agora, do efeito dos defeitos de outrora. Vamos descobrir, discutir e combater as causas? O que é que, coletivamente, podemos fazer? Aceita-se colaboração, venha de onde vier, chegue de onde chegar.

Ao sul do Maranhão, uma cidade continua à espera de uma revelação.

Imperatriz precisa construir seu próprio milagre.

Cartas para: Edmilson Sanches – E-mails: esanches@jupiter.com.br / edmilsonsanches@uol.com.br . Caixa Postal 61 – CEP 65900-970 – Imperatriz – Maranhão – Meio-Norte – Nordeste – Brasil – América do Sul – Continente Americano – Terra – Sistema Solar – Via Láctea – Universo – Deus.

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(Ao leitor: Dez anos? Quinze anos? Já nem me lembro mais há quantos anos escrevi esse artigo aí de cima (atualizei os números estatísticos). Pois bem: não importa o tempo decorrido. A triste constatação é a de que, para meu sofrimento e glória, tudo continua muito atual. O atraso administrativo imperatrizense tem o mágico condão de repetir-se, indefinidamente… O tempora! O mores! – “Ó tempos! Ó costumes!”, era a exclamação com que se esgoelava catilinariamente Cícero aos romanos, em 63 a. C., 2070 anos atrás).

AOS NAVEGANTES E NAVEGADORES

qui, 08/05/08
por edmilson sanches |
categoria BLOG

Desde a tarde de 7 de maio de 2008 que os blogs do Portal iMirante migraram para um novo sistema (ou algo assim). Para o blog Edmilson Sanches essa migração trouxe alguns problemas na forma de apresentação dos “posts” anteriores àquela data: ocorreu desconfiguração em todos os textos, em razão das características próprias de apresentação dos conteúdos deste blog.

Assim, em razão de uso de cor(es) e utilização de recursos editoriais como aspas, itálico, negrito e sublinha, o novo sistema não “absorveu” tudo direitinho e, como o leitor pode ver, os textos do dia 07/05/2008 para trás encontram-se desconfigurados, com mistura de cores, tamanho e desenho de fontes (as letras, números, sinais e outros caracteres). Menos mal que não houve perda de qualquer texto (este blog iniciou-se no final de agosto de 2007) nem, em cada texto, houve perda de parte dele. Apenas sumiu o texto colocado na tarde do dia 7, quando o processo de mudança(s) já estava em curso. Esse texto (“IMPERATRIZ — Um Convite à Reflexão e à Ação”) será recolocado.

Não há (informam os técnicos) como consertar automaticamente os textos desconfigurados. A possibilidade, a solução seria o responsável pelo blog fazer essa tarefa manual e lentamente. Há vontade, mas não tempo… nem paciência.

Todos nós blogueiros do iMirante estamos aprendendo a lidar com o novo modelo de edição do blog. Os textos (pelo menos os meus) devem sair mais ou menos feinhos em forma (já não são grande coisa em conteúdo…).

De qualquer modo, conto com a farta compreensão do internauta leitor. São os vieses e reveses da tecnologia. (Edmilson Sanches)

3 de maio

sáb, 03/05/08
por edmilson sanches |
categoria CULTURA, IMPRENSA


DIA MUNDIAL DA LIBERDADE DE IMPRENSA

“Toda pessoa tem direito à liberdade de opinião e expressão; este direito inclui a liberdade de, sem interferência, ter opiniões e de procurar, receber e transmitir informações e idéias por quaisquer meios e independentemente de fronteiras”. (Artigo 19 da Declaração Universal dos Direitos Humanos)

Ser censurado pode até “enriquecer” currículo, mas o ato continuará sendo o que é: uma violência.

Já fui censurado. Por diversas vezes. Na Imprensa escrita e eletrônica. No século 20 e neste século 21. (Tenho documentados os diversos casos — que nem precisam de luminol: dá para ver a olhos vistos.)

Nós, jornalistas — em especial os de veículos de Imprensa que se agarram às tetas de poderes públicos mais que piolho-de-cobra em veado, para lembrar uma imagem do antigo humorista Coronel Ludgero –, nós, jornalistas, somos por vezes cheios de falsos pudores: ao vermos uma verdade nua, corremos para (en)cobri-la (ou, de outro modo, fazemos de conta que não a vemos, que ela não existe, desviamo-nos dela)…

O é o Dia Mundial da Liberdade de Imprensa. Que isso não tenha sido objeto de comemoração, discussão etc. em Imperatriz ou no Maranhão nem me impressiona — não se comemora o que não existe… Ainda bem que blogs na rede mundial de computadores permitem maior, digamos, “expansividade” de idéias e comentários.

Lembrando, portanto, o Dia Mundial da Liberdade de Imprensa reproduzo um texto que há dez anos teve sua publicação impedida. É evidente que algumas coisas (fatos, idéias, nomes…) constantes do texto não são as mesmas (se continuam sendo, pêsames). Ao reproduzir o texto, o objetivo é o de se perguntar o que poderia haver nele de tão aterrador, tão desmoralizador, tão criminoso.

Proprietários, diretores, editores, chefes e subchefes na estrutura jornalística devem ter fixadas à sua frente as seguintes palavras do juiz Justice Brennan, da Suprema Corte dos Estados Unidos: “O debate sobre questões públicas deve ser livre, robusto e aberto, e pode muito bem incluir veementes, cáusticos e algumas vezes duros ataques ao governo e aos agentes públicos”.

Os que não quiserem dar atenção a isso é porque já têm, pendurada ao pescoço, uma frase anterior: “Manda quem pode, obedece quem tem juízo”.

Nem tudo o que é bom para os Estados Unidos é bom para o Brasil…

Fiquem com nosso artigo censurado há dez anos. Talvez assim, envelhecido, seja mais fácil “bebê-lo”. On the rocks. Tim-tim!

* * *

CULTURA CAPITAL, CULTURA ILHADA

A secretaria de Cultura do Maranhão só é estadual no nome. Pelo menos, essa é a percepção nada positiva que produtores culturais e gestores municipais têm em relação a esse órgão do Governo maranhense. É como se a capital –– que também é município –– não tivesse seus próprios órgãos públicos. A impressão é a de que, por morarem em uma ilha, os gestores culturais consideram-se também ilhados, comodamente circunscritos aos 831 km2 de São Luís e limitados à linha imaginária que separa o município-capital dos restantes 99,75% que constituem o Estado do Maranhão.

A maioria dos municípios maranhenses não se sente “prestigiada” pela atenção e atuação efetiva da secretaria de Cultura. Do interior, ninguém é ouvido, raros são atendidos, poucos são envolvidos, muitos são excluídos. Não há uma prática solidária, um projeto abrangente que integre o Estado e fortaleça ou faça renascer nele sua “maranhensidad”. A Secretaria de Cultura, infelizmente, não tem cultura de gestão participativa.

I
Não se está pregando, aqui, assembleísmo ou outros desvios de participação. Tampouco está-se pedindo dinheiro, esmolando favores, mendigando condescendências. O que se quer, inicialmente pelo menos, é informação, presença, diálogo, para, a partir daí, ver como é possível colaborar, estabelecer parcerias, selecionar alguns entre os muitos desafios e partir juntos para o combate. Ou seja, quer-se voltar à tabuada: somar recursos, diminuir dificuldades, multiplicar esforços, dividir responsabilidades.

II
Não precisa repisar a falada escassez de recursos. (Depois de “povo”, a palavra “recursos” deve ser a mais utilizada no dicionário político-eleitoral-administrativo –– uma, para firmar compromissos; a outra, para quebrar promessas.) Diz-se que a ausência de dinheiro pode ser suprida com talento e trabalho. Pois bem, aí estão duas coisinhas que produtores culturais têm de sobra! Mas os da capital devem se mostrar, trocar idéias, delegar atribuições e, exageremos, andar pelos bairros, ruas, vielas e becos igualmente históricos e pelos bares agradavelmente anti-higiênicos que existem também nos demais 216 municípios. Quantos departamentos ou secretarias de cultura dos municípios, ou, na ausência desses, os próprios prefeitos, quantos já receberam uma visita, um telefonema, uma carta, um minuto de atenção ou uma minuta de intenções da secretaria estadual para o quatriênio ou, mesmo, para cada ano no Estado? Quantos? Quais? Quem? Quando?

III
Hoje, no município de Imperatriz, publicam-se mais livros do que na capital. Cerca de 100 títulos novos foram editados e lançados em 1997 — praticamente um novo livro a cada três dias ou um título para cada grupo de 2,2 mil habitantes. A Fundação Cultural de Imperatriz não registra qualquer participação do Estado em suas realizações, à exceção da palestra de um técnico. A Academia Imperatrizense de Letras (e, dizem, também a AML [Academia Maranhense de Letras]) não recebe os poucos reais que lhe caberiam mensalmente por força de lei estadual. Santa Inês já tem seu teatro –– construído com recursos municipais. Recentemente, o município de Caxias, outro bastião da cultura maranhense e nacional, realizou a “Semana Gonçalves Dias”. A despeito de, com antecedência, ter recebido, sob protocolo, o projeto do evento; a despeito de contatos posteriores, a matrona estadual não prestou nenhuma ajuda financeira, não contribuiu com qualquer apoio logístico, não se dignou a dar nenhuma resposta aos ofícios, não se sensibilizou sequer para expedir um telegrama, uma nota de jornal, um fax de cumprimentos aos habitantes e aos gestores públicos da cidade. É vero: nem sempre cultura e educação andam juntas.

IV
É ótimo, sobretudo para o Estado, que cada município encontre internamente boas respostas para suas demandas. Entretanto, inações estaduais como essas, além de fragilizarem as bases de sustentação de certas estruturas governamentais, fortalecem, minimamente ao menos, os argumentos de grupos que pregam a redivisão territorial (no Maranhão, sobretudo pelas bandas do sul). No lado leste, a cidade de Caxias diz que, em termos de apoio cultural, está mais perto de Brasília do que da capital do Estado. O dicionário alerta para a, digamos, perigosa proximidade: “secretariar”, quando incompleto, pode dar em “secretar”, que significa “pôr de lado, marginalizar, afastar, se-pa-rar”. Veja-se: logo a cultura, que deveria ser ponte entre os povos, torna-se abismo entre irmãos.

V
“Para não dizer que não falei de flores”, sugiro que a secretaria estadual de Cultura solicite a cada prefeito a indicação de um servidor para ser o “agente de relacionamento” entre ela e o município e os produtores culturais. Uma das tarefas: coordenar o levantamento das manifestações sazonais, o recenseamento da produção, o mapeamento do patrimônio físico histórico-cultural e o encaminhamento de demandas e sugestões. Estabeleçam-se prazo e resultados. De posse dessas informações, fica mais fácil, mais honesto (porque mais legítimo), elaborar um plano de ação estadual mesmo, a ser discutido em fórum adequado, à luz do tempo, das tarefas e dos recursos existentes e considerada a possibilidade de parcerias com as diversas instâncias e órgãos do Poder Público, a iniciativa privada e as organizações do Terceiro Setor.

VI
A posse do novo secretário estadual de Cultura ocorreu dia 11. Sobre ele e sobre o que se espera dele, este jornal [O Estado do Maranhão] só ouviu opinião de pessoas de “dentro” da “Ilha”. O que foi falado e escrito seguiu pelo mesmo “caminho do bezerro”: cultura maranhense é a cultura de São Luís. Mas as cidades-estados são coisas da Antigüidade –– e, na maioria, vêm da hinterlândia os que fazem a ludovicense cultura. Nem o fato de distanciamentos dessa natureza ocorrerem em outros Estados ameniza: os maus exemplos são bons exemplos para não serem seguidos.

Que o novo secretário faça diferente. Existe cultura, existe vida inteligente após o Estreito dos Mosquitos. Permanecendo no cargo, ele terá a oportunidade de, em exatos 235 dias, mostrar que cultura não é somente um assunto “capital”. Ela é, também –– senão sobretudo ––, visão “interior”.

SER: NASCER… CRESCER… FENECER… RENASCER

qui, 01/05/08
por edmilson sanches |
categoria LEITORES


Das diversas mensagens que me chegaram pelo dia do aniversário (30 de abril), selecionei algumas cujo conteúdo creio ser interessante dividir com meus poucos leitores.

SENTIMENTAL (“DE QUEM AMA”)

“Feliz Aniversário, Edmilson! Você sempre se lembra do aniversário de quem ama, então nós não poderíamos esquecer de você!”

JORNALÍSTICA (“NOTÍCIAS”)
“Edmilson, hoje é o seu dia! Parabéns e tenha um feliz aniversário, repleto de boas notícias.”

CONTÁBIL (“BALANÇO”)

“Parabéns, Edmilson Sanches. Aproveite o dia de hoje para fazer um balanço da sua vida: repense os seus erros e relembre os seus acertos, perdoe-se pelos fracassos e orgulhe-se de suas vitórias. E entenda que erros, acertos, fracassos e vitórias são a sua história, a história da sua vida. E, por isso, devem ser valorizados por igual. Sem eles você não seria quem é hoje. Desejamos a você muita paz, saúde, alegria e, claro, muito amor. Feliz Aniversário!”

ESPERANÇOSA (“SONHOS”)

“Edmilson, parabéns pelo seu aniversário!
É o dia em que você renasce.
Agora que você renasceu,
Abra as portas à sua frente.
Deixe a luz deste dia aquecer sua nova vida.
Ouça a criança que mora em você.
Siga-a: ela sabe onde estão seus desejos.
A vida lá fora espera por você.
Não espere: realize seus sonhos, hoje e sempre.

Muito sucesso e que seus sonhos renasçam todos os dias com você.”

GLORIOSA (“VIVER VALE A PENA”)

“Olá, Edmilson. Hoje é um dia especial! Comece a sorrir mais cedo. Pense em coisas boas. Alimente seus sonhos. Escute uma música legal e dance, mesmo que sozinho. Valorize as pessoas próximas a você. Perca o controle. Grite. Espalhe alegria.

Lembre-se que você é um privilegiado. Nem todos têm as mesmas oportunidades. Agradeça. As coisas mais importantes são aquelas que você não pode ver.

Que tal começar hoje aquela mudança em sua vida que você vem adiando? Não espere para ser feliz. Não adianta tentar fugir de seus problemas. Ninguém consegue. Esqueça deles por um dia. Depois aprenda o que tiver que aprender e os enfrente. Não se deixe abater. Acredite. Tenha energia. O mundo começará a mudar quando você mudar. Viver vale a pena.

Lá no fundo, desejamos a você mais um ano com muita saúde, paz e amor. Sinceros parabéns. Feliz aniversário. Um abração.”

MAJESTÁTICA (“SINHÔ REI”)

“Caro Sanches, Sinhô Rei mandou dizer:

Sinhô Rei conhece os seus sonhos,
mas também as miragens da jornada,
os enganos das verdades e santices,
as catilinárias sempre alugadas
e as fórmulas do sucesso provisório.
Nada lhe escapa e está sempre a serviço.

Hoje, Sinhô Rei mandou dizer
que você arraste seus pensamentos
pra fora da ordem unida
e convide-os a brincar a cabra-cega
até matarem de raiva o Henry Ford.

Rei que é Sinhô,
está escondido no paiol de surpresas
que você só pode olhar uma vez no ano.
No sótão do aniversário
ele zomba dos Jack-Welches,
grato a você pela janela que lhe abriu
no dia de hoje. Tim-tim!

Feliz Repensar! Feliz Rei Pensar!”

1º DE MAIO

qui, 01/05/08
por edmilson sanches |
categoria POESIA


Eu trabalho.
Tu trabalhas.
Ele trabalha.

Nós trabalhamos.
Vós trabalhais.
Eles trabalham.

Tempo e pessoa.
Verbo e ação.

Falta governo.

30 DE ABRIL, DIA DA MULHER BRASILEIRA

qua, 30/04/08
por edmilson sanches |
categoria MULHER


A mulher brasileira tem, oficialmente, um dia só para ela — o Dia Nacional da Mulher, ou Dia da Mulher Brasileira. Instituído pela Lei 6.791, de 1980, sancionada pelo presidente João Batista Fiqueiredo, o dia 30 de abril é uma referência e homenagem à data de nascimento de Jerônima Mesquita, mineira de Leopoldina, que estudou na Europa no início do século 20 e retornou ao Brasil cheia de coisas e causas. Combativa, juntou-se a outras brasileiras igualmente destemidas e lutaram pelos justos direitos da mulher brasileira. No Rio de Janeiro, em 1972, Jerônima Mesquita morreu. Tinha mais de 90 anos. Ela e suas companheiras de luta(s) puderam viver o suficiente para testemunhar a vitória de seus esforços, como a instituição do voto para as mulheres. Hoje, a mulher brasileira é tida como uma das mais empreendedoras do mundo — e uma das mais prendedoras do coração e da admiração de nós homens. Pois, como já se disse, de uma mulher sedutora e de um tigre faminto… não há homem que escape…

Em homenagem à mulher brasileira, vale (re)ler os textos abaixo.

MULHERES E ESTRELAS

Há algo de diferente, muito diferente, no espírito feminino. As mulheres têm uma capacidade de suportação, de resignação e resistência que transcende a imaginação e a perplexidade do homem.

As mulheres merecem mais, muito mais: mais poder, mais participação, mais reconhecimento. As mulheres são melhores (eu, pelo menos, acho… e gosto).

Tem algo de múltiplo e vário na singeleza da mulher, de arrebatador em sua beleza, de premonitório em seu olhar, de indecifrável no seu ser, de irresistível em sua sedução. Talvez porque não haja um homem que, no íntimo, não se quede ante esse poder invisível, invejável, de que foi dotada, às escondidas, a mulher. O poder e a resistência, a sedução e o encantamento femininos — ante os quais impérios ruíram e também se alevantaram, vidas se ergueram e igualmente tombaram, fracos se fortaleceram e heróis se acovardaram…

Sim… Seja à frente de reinados ou nos bastidores de residências, sentadas em tronos como rainhas reais ou em pé em casa como rainhas domésticas, as mulheres têm, escondido ou explícito, um poder diferente, uma força indescrita, um segredo não revelado, um mistério indecifrado.

Mulher. Mar pouco navegado. Mata pouco desbravada. Alma quase nunca compreendida. Sentimentos quase sempre pouco correspondidos. Desejos simples contrafeitos. Vontades abissais insatisfeitas.

Uma mulher não é só um corpo, embora, mesmo quando acompanhada, seja uma alma só. Sozinha. Solitária.

Mulher — usada e ousada. Cifrada e indecifrada. Mulher — que acomoda e incomoda. Mulher — citação e excitação.

O homem veio do barro, mas, as mulheres, vieram do pó. Pó de estrelas.

Por isso brilham.

Por isso luzem.

Por isso ofuscam.

Por isso reinam.

Por isso voam.

Ave-mulher.

Ave, mulher!

Ave-Maria. •

* * *

LADIES FIRST

Primeiro, a mulher. A mulher primeira. A ciência confirma: Deus era Deusa. As descobertas da Arqueologia, os estudos da Antropologia comprovam: em qualquer lugar do mundo, as mais antigas estátuas, os mais primevos desenhos, todas as maneiras primeiras de representar entidades superiores (divindades) tinham as formas, os contornos, a parecença de mulher.

Mulher primeira na alimentação, na manutenção. O homem, caçador. A mulher, coletora. O homem primitivo não trazia comida suficiente, pois, afinal, os animais que eram caçados também queriam sobreviver… e corriam. E a mulher, primeira em contato com a natureza, alimentava sua tribo/comunidade, do pão da terra, do fruto das árvores, coletados no tempo certo pelas mãos mulheres.

O homem respeitava a mulher. Ela sustentava. Ela multiplicava a tribo, pois gerava, gestava e geria (“administrava”) o rebento que lhe rebentava o ventre. O homem, só instinto, primitivo, ainda não compreendia que ele era parte da concepção.

E admirava a mulher, pelo filho do vosso ventre, pelas frutas fruto da vossa coleta. Nisso tudo, a continuidade e a sustança da tribo.

Mas a admiração do homem transformou-se em paranóia. Ele queria dar à luz. E abria os próprios genitais… E abria o próprio ventre… E escalpelava um igual e se vestia com a pele dele, ensangüentada, e saía de dentro dela… Em todas esses antigos ritos, a vontade de ser igual à mulher.

Quando se apercebeu que o filho gerado era também parte dele, o homem não só retirou da mulher a imagem de sagrada, divina: também tirou dela o respeito humano.

E durante dez mil anos o homem tripudiou sobre a mulher. Quebrou as estátuas, substituiu-as por símbolos masculinos, fálicos. Erigiu deuses-animais e deuses-homens — e, não mais, a divindade primeira, a mulher-deusa, que dava a criança e trazia a bastança.

Menos que deusa, menos que mulher, menos que coisa… A mulher era só… nada. E ela, que só queria gerar, criar, proteger e amar sua maior obra — o homem.

O mal que te fizeram… O quanto te fizeram os que, durante nove meses, mulher, tu abrigaste da forma mais íntima possível, só explicável pelos mistérios da criação.

Mulheres-Carlindas, mulheres-Jeanes, mulheres-Isabel, mulheres-Luísas, mulheres-Cláudias, mulheres-Marias, mulheres-Madalenas, mulheres-mulheres, mulheres, mulheres…

Bem-ditas — benditas — sois, mulheres. De ente sagrado a ventre sangrado, vós permaneceis, no jardim da vida, como árvores-mães, de onde brotamos homens-Josés, homens-Jesus, homens-nós, todos nós, que de vós brotamos, filhos e frutos do vosso ser. Do vosso cerne. Da vossa dor. Do vosso amor.

PARA ONDE CAMINHA IMPERATRIZ

sáb, 26/04/08
por edmilson sanches |
categoria IMPERATRIZ

Fiz a palestra na Associação Médica de Imperatriz, que anunciei aqui no “post” anterior. Das 250 cadeiras do auditório, 14 do lado direito e quatro do lado esquerdo estavam desocupadas, mas havia pessoas em pé ou em cadeira de rodas, no fundo do amplo salão. Estudantes secundaristas e universitários, médicos, pedreiros, comerciários, professores, serralheiros, comerciantes, empregados domésticos, enfermeiras, motoristas de táxi, membros de grupos de jovens evangélicos e católicos, artesãs, administradores, políticos, advogados, famílias inteiras, funcionários públicos municipais, estaduais e federais — enfim, os quadros da ampla e diversificada teia social de Imperatriz abalançaram-se para ouvir a palestra “Imperatriz: Passado e Presente, Potencialidades e Perspectivas”, que proferi. O evento foi aberto com fala do deputado federal Sebastião Madeira, que, antes de apresentar o palestrante da noite, falou de vida e sonhos, política e administração pública, conclamando a todos para a (re)construção de Imperatriz.

Em uma sexta-feira (25 de abril de 2008) em que se realizavam grandes eventos (lançamento da 8ª Feira do Comércio e Indústria de Imperatriz – Fecoimp; festa literária na Academia Imperatrizense de Letras; e outros eventos empresariais e festivos), foi gratificante ver tanta gente interessada em… palavras. A palestra durou uma hora e meia e, após as 22 horas, os presentes foram brindados com um coquetel. Também todos receberam gratuitamente um pequeno livro com diversos textos. Um desses textos — “Para Onde Caminha Imperatriz” — reproduz-se a seguir.

Sou grato a todos.

* * *

INTRODUÇÃO

Imperatriz tem 155 anos de desenvolvimento de sua história, mas menos de 50 anos de história de seu desenvolvimento. Sua fundação ocorreu em julho de 1852, mas seu crescimento começou, verdadeiramente, a partir de 1960, com a inauguração da Rodovia Bernardo Sayão (o nome oficial da BR-Belém—Brasília).

DESCOMPROMISSO – Há anos o desenvolvimento de Imperatriz vem sendo eclipsado por forças políticas absolutamente descomprometidas com a visão de futuro, a linguagem político-social contemporânea, a formação técnica e a prática de Administração Pública que norteassem e conduzissem o município (e, por força de arrasto, a região) rumo a melhores condições de progresso econômico e social. Se os administradores públicos tivessem um pouco mais de boa vontade, esforço, sabedoria e competência, estariam gozando de avaliação melhor, base para um cenário de futuro mais estável. A adoção de ferramentas do planejamento estratégico deveria ser preocupação contínua e ação permanente por qualquer governante, sobretudo de municípios do porte econômico e localização estratégica como é o de Imperatriz.

ATRASO – Interesses menores, na maioria das vezes mesquinhos, engessam as pernas que poderiam ter dado o salto maior de progresso econômico e de qualidade de vida. Há muito tempo Imperatriz poderia estar ostentando o título de um dos melhores lugares do Brasil, em termos de desenvolvimento econômico e humano. Entretanto, o município exibe um atroz descompasso em ser um dos cem maiores do País em população e estar colocado na posição número 2.583 em desenvolvimento. A falta de ação planejada e contínua de quem tem poder, a miopia dos que têm dinheiro e influência nesta cidade, a ausência de compromisso sério, de formação de uma agenda permanente de desenvolvimento, com estabelecimento de prazos e resultados (como foi e está sendo feito no Ceará), o quase menosprezo, senão desdém, aos trabalhadores e produtos do conhecimento arremessaram Imperatriz para o atraso institucional e ampliaram o espaço para a degradação e “exportação” de seu nome, associado falsamente, durante algum tempo, a uma imagem de cidade bandoleira e violenta. Provavelmente, a inação, a omissão e a má ação das administrações públicas causaram muito mais mortes do que o disparo de armas de fogo nesta cidade.

MOINHO – Não há como recuperar o tempo perdido. O moinho do tempo continua a girar e as águas do passado no máximo servem para irrigar nossa memória e lembrar-nos de que já está completa a maior parte da quota de erros, medos, apropriações e omissões a que as administrações tinham direito.

* * *

(1) POTENCIAL – Imperatriz é, hoje, uma das cem maiores cidades do País em população, aí incluídas as 27 capitais, entre os 5.564 municípios brasileiros. Essa classificação coloca Imperatriz natural e automaticamente sob os olhos dos planejadores públicos, desperta os interesses de investidores privados, atrai a atenção de pessoas e instituições as mais diversas.

Só que os governos de Imperatriz nunca souberam ou quiseram capitalizar esse potencial.

O que custava aos governantes e gestores descer do podium e ir até as forças empresariais e comunitárias para, juntos, traçarem uma política consistente de “venda” de Imperatriz, de captação de recursos e atração de investimentos?

Não é tão difícil preparar um kit de informações, filmes, livros, CDs-ROM, mapas, fotografias, cartões postais e enviar emissários competentes para reunirem-se lá fora, nos salões das inúmeras entidades empresariais dos grandes centros econômicos. Chama-se a isso “road show”, isto é, cair na estrada (“road”) e mostrar (“show”) o potencial da cidade e da região que ela polariza.

Apoiando essa ação, uma campanha publicitária (que poderia ser irmãmente “bancada” pelas prefeituras da região mais o Estado mais a classe empresarial): páginas inteiras de dois grandes jornais e pelo menos uma revista de circulação nacional mostrariam as nossas vantagens comparativas e competitivas – água e terra na região, energia elétrica, transporte multimodal e coisa e tal.

(2) TÍTULOS – Surpreende a pouca vontade, o distanciamento, a frieza, o ceticismo de administradores públicos e assessores explicitamente sem alma, sem paixão e até sem razão na condução dos interesses (credo!) de sua pasta. Se fosse outro o município que tivesse o privilégio de ser conhecido como “Capital Brasileira da Energia” ou “Metrópole da Integração Nacional” ou “Portal da Amazônia”, tenho certeza, esses títulos há muito estariam sendo competentemente capitalizados por uma maciça campanha publicitária para atração de investimentos. Afinal, palavras como “Energia”, “Integração” e “Amazônia” são referências de fino trato, presentes em qualquer agenda ou diálogo da contemporaneidade. O atraso ou a preguiça são nossos, que mandamos “tocar” o enterro e morremos de fome só porque não queremos ou não sabemos cozinhar o arroz.

(3) DIAGNÓSTICO – Para desenvolver Imperatriz e, por conseqüência, induzir o desenvolvimento da região, urge redefinir modelos e práticas administrativas e atualizar o foco de desenvolvimento do município. Governantes devem deixar esse jeito desfibrado, invertebrado e desossado de fazer administração pública e partir para atitudes com mais cálcio… e fosfato. Ao lado de ações emergenciais (tipo estancar a sangria desatada), deverá haver procedimentos clínicos mais detalhados, com exames laboratoriais acurados, radiografias, ultrassonografias e tomografias localizadas, a fim de que seja elaborado o melhor diagnóstico possível das condições vitais desta paciente Imperatriz.

(4) HISTÓRIA – Todo governante administra para a História — admita ele ou não. Quem administra apenas de olho no seu próprio período (ou, no máximo, em mais um ou outro) pode até constar no caderno de atas, mas não aparecerá no livro de honra. Portanto, mais que administrar uma cidade, é necessário fundar e fundamentar as bases de uma nova sociedade — inteligente, ágil, participativa e de resultados.

(4.1) INFORMAÇÕES – No caso de Imperatriz, embora as promessas vãs e certezas enfáticas (e igualmente vãs), pronunciadas com — e em – solenidade, o Poder Público vem há muito se ressentindo de uma crônica falta de infra-estrutura de informações, para dar suporte ao processo de decisão. De há muito não há, em Imperatriz, nenhum gestor público nem empreendedor da iniciativa privada que possa, responsavelmente e acertadamente, dialogar sobre o desenvolvimento do município com apoio em informações consistentes, confiáveis, atualizadas. São vários os casos registrados de empresas interessadas em se estabelecer na cidade e baterem em retirada ante o descaso crônico e irresponsável de quem se julga autoridade… competente.

(5) PORTFOLIO – Dados básicos, séries históricas, informações mínimas que compõem o “portfolio” de apresentação de qualquer município não existem. Antes da difusão de nossos escritos, quase não se sabia ou se falava no PIB de Imperatriz. (PIB é o Produto Interno Bruto, que é a soma das riquezas, isto é, o total de tudo o quanto se produz em bens e serviços no município). Junto com o desconhecimento do PIB, não se sabia sobre a RPC. (RPC é a renda “per capita”, isto é, quanto cada imperatrizense, em média, estaria ganhando ao ano; esse número — hoje chamado “PIB per capita” — é alcançado pela divisão do valor do PIB municipal pelo número de habitantes do município). Os políticos e autoridades locais também não sabem o Potencial de Consumo do imperatrizense, a Base Econômica do município (quanto, percentualmente e monetariamente, cada setor e/ou segmento da economia entra para formar, com a sua fatia, o bolo da economia de Imperatriz). Igualmente, se for perguntado qual é a PEA de Imperatriz, ninguém sabe, ninguém viu. PEA é População Econômica Ativa, ou o total de pessoas que estão trabalhando e, se desempregadas, procurando ativamente um novo emprego.

(6) PRIMÁRIOS – Dados econômicos e sociais como PIB, RPC, PEA, Base Econômica, Massa Salarial, Potencial de Consumo etc., sejam eles índices e indicadores, percentuais e valores, deveriam estar na ponta da língua de cada gestor público que se preze. Afinal, é preciso ser muito irresponsável mesmo para não dar valor a informações tão primárias quanto básicas. Mas, em Imperatriz, por não passarem do básico e por serem tão primários, esses rascunhos de administradores públicos tornaram-se responsáveis por pelo menos 50 anos de atraso institucional, econômico, político e social deste município. Basta ver os índices imperatrizenses, comparados aos de outras cidades de porte semelhante e confrontados aos parâmetros estaduais, nacionais e mundiais.

(7) IRRESPONSABILIDADE – No ano de 1985, um completo diagnóstico para o desenvolvimento de Imperatriz, válido por dez anos, foi entregue às autoridades da época. Tratava-se do relatório técnico da “área-programa de Imperatriz” do Programa de Desenvolvimento Integrado da Bacia do Araguaia—Tocantins, desenvolvido nada mais nada menos do que por trezentos técnicos os mais diversos, financiados pela Organização dos Estados Americanos e Ministério do Interior. Em um verdadeiro crime de lesa-futuro, de lesa-informação, de lesa-pátria, nenhum gestor público (afora quem recebeu o documento), nenhuma liderança empresarial, nenhum líder comunitário ou classista tomou conhecimento de tão amplo diagnóstico. Não se tem conhecimento, na história deste município, de qualquer estudo mais amplo e completo do que aquele, que continha inúmeros mapas desdobráveis, séries históricas, levantamentos e análises, projeções e estimativas. A irresponsabilidade fechou no cofre da ignorância parte do futuro de Imperatriz. Anos depois, por falta de ar, parte desse futuro estava irremediavelmente morta.

(8) POPULAÇÃO – Nesta primeira década do primeiro século de um novo milênio, Imperatriz registra uma elevada densidade populacional. No período de apenas duas gerações, Imperatriz saiu de quatro habitantes por quilômetro quadrado (1963) para 168 (em 2007). É como se, numa casa onde só cabem quatro pessoas (pai, mãe e dois filhos), de repente tivessem de conviver um total de gente 41 vezes maior. O que ocorre numa situação dessas? Problemas, muitos problemas. Do imprensado nos quartos aos desconfortos no banheiro, da falta de água gelada na geladeira à falta de comida nas panelas, a situação vai correndo para uma situação de vexames e atritos.

(9) DESEMPREGADOS – Mais: em Imperatriz, cerca de 2.300 pessoas chegam todo ano à idade de trabalho. E a pergunta é: Quais são as políticas públicas e quais os esforços da iniciativa privada para absorver tal contingente de mão-de-obra? Não se sabe. Pior: não existem. Esses 2.300 jovens vão se juntar aos 2.300 jovens do ano anterior e de outros anos passados, juntam-se aos igualmente angustiados e enraivecidos jovens que ainda vão completar a idade. A todos estes juntam-se os desempregados, os subempregados e precarizados, os biscateiros, os sem-teto, os com-cola (de cheirar), as crianças e adolescentes que não entram nas estatísticas mas entram na realidade da vida (deles e nossa). Como miséria pouca é bobagem, a essa legião de quase desesperados e desesperançados, vão-se juntar os futuros desempregados, aqueles que não têm qualificação (pois o mercado e a tecnologia não regridem para absorvê-los), aqueles que perderam o emprego público (pela falta de capacidade de investimento do Governo). E contem-se, também, os loucos, os presos, os velhos, os doentes e os deficientes desempregados, enfim, todos aqueles que têm o direito de ser sustentados pela matriz pública e pela sociedade em geral.

(10) FOGO – Assim caminha Imperatriz. Apesar da aparente normalidade (será?), uma espécie de fogo social, como fogo de monturo, está queimando as bases da vida em comunidade. Políticas públicas tão urgentes quanto competentes têm de ser implementadas, inicialmente por torniquete, se for o caso, e, depois, após radiografia completa do corpus (a população) e do locus (o território) de Imperatriz.

Basta de rascunho! Chega de esboço! Imperatriz merece um futuro mais bem escrito.

Aguardam-se os a(u)tores dessa nova história. 



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