1º DE JUNHO DE 2008: 200 ANOS DA IMPRENSA BRASILEIRA
“O primeiro dever do homem em sociedade é ser útil aos membros dela; e cada um deve, segundo as suas forças físicas, ou morais, administrar, em benefício da mesma, os conhecimentos, ou talentos, que a natureza, a arte, ou a educação lhe prestou. O indivíduo, que abrange o bem geral de uma sociedade, vem a ser o membro mais distinto dela: as luzes, que ele espalha, tiram das trevas, ou da ilusão, aqueles, que a ignorância precipitou no labirinto da apatia, da inépcia, e do engano. Ninguém mais útil, pois, do que aquele que se destina a mostrar, com evidência, os acontecimentos do presente, e desenvolver as sombras do futuro.” (Editorial de Hipólito José da Costa na edição nº 1 do Correio Braziliense - 1º de junho de 1808)
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Domingo, dia 1º, foi (ou deveria ter sido) lembrado o “Dia da Imprensa”, a maior data dos que trabalham na comunicação jornalística no Brasil. Mais que isso, completaram-se exatamente dois séculos, duzentos anos de existência da Imprensa brasileira.
O “Dia da Imprensa” ocorria antes em 10 de setembro, mas uma Lei (nº 9.831, de 13/09/1999), decretada pelo Congresso e sancionada pelo Presidente da República, estabeleceu que, a partir dali, o 1º de junho é que seria o Dia da Imprensa.
E por que houve a mudança de 10 de setembro para 1º de junho? Porque foi um pedido formalizado por entidades da imprensa. E em que se justificava esse pedido? Porque a data anterior, 10 de setembro, lembrava o dia de circulação do primeiro jornal impresso no Brasil, o Gazeta do Rio de Janeiro, um jornal dirigido pelo frei Tibúrcio José da Rocha, que se submeteu à censura do governo de Dom João 6º e só falava as coisas oficiais ou aquelas de que o governante não reclamasse. Isso foi há quase 200 anos, em 1808.
Acontece que, naquele mesmo ano (1808), em 1º de junho — portanto, cem dias antes da existência do Gazeta –, começara a circular o Correio Braziliense, de Hipólito José da Costa, que estava exilado em Londres, mesmo lugar onde era impresso o jornal, por não se submeter à censura reinol e reinante. O Correio vinha do continente europeu para o americano em porões de navios, e, aqui no Brasil, era distribuído clandestinamente aos assinantes. A luta solitária de Hipólito José da Costa durou 15 anos, e valeu a pena. É hoje referência de imprensa que não se dobra ao Poder — nem ao poder do dinheiro nem ao dinheiro do Poder. Não que não houvesse tentações. O Poder Público fez de tudo para atrapalhar a vida do jornal ou seduzir o jornalista. Pressionaram diplomatas ingleses para que o jornal deixasse de ser impresso em Londres. Ofereceram-se para pagar 500 (quinhentas) assinaturas do jornal, a fim de que o jornalista “maneirasse” suas críticas ou, melhor, não exercesse seu direito/dever de criticar.
Hipólito resistiu. Por causa dele, pode-se dizer que a história da imprensa e do jornalismo no Brasil começou bem. Não se pode afirmar com segurança se, no ambiente de hoje, com o tal capitalismo selvagem, o interesse político-eleitoral, o jornalista Hipólito José da Costa continuaria resistindo. Talvez sim. Talvez não. Neste caso, temos exemplos, maus exemplos, de veículos de imprensa que, seguindo apenas a ordem alfabética (já que trabalhamos também com letras), colocam o “D” de dinheiro antes do “V” da verdade, o “C” da conveniência antes do “F” dos fatos.
Enquanto Imprensa, temos um caminho bem largo e comprido a andar. Teríamos muito a explicar, a justificar. Pesquisadores e estudiosos no futuro vão ver o que fizemos com o quase-poder que tínhamos. Pesarão nossas opções e pensarão no porquê delas, seus motivos, limitações, imposições. Quem sabe até nos absolvirão de umas e outras culpas, concedendo-nos o benefício da dúvida, ao perguntarem-se se o que fizemos era o que queríamos fazer ou era o que podíamos fazer. Fazer como Cipriano Barata, que, mesmo preso, não parou de escrever em seu jornal e pregar a liberdade e verdade.
O certo é que, diariamente, continuam sendo postas tentações à mesa dos jornalistas. Estes têm que decidir se seguem o modelo de Tibúrcio (conveniência, oficialismo, dinheiro) ou o exemplo de Hipólito (idealismo, verdade, dificuldades).
Esses estudiosos do futuro talvez quisessem de nós atos de heroísmo. Mas não somos “Hipólitos” nem “Ciprianos”. E, meio sem jeito, diremos: “Tínhamos barrigas — e não apenas consciência – para alimentar…”
Parabéns, colegas da Imprensa.
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