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palestra

ter, 22/04/08
por edmilson sanches |
categoria IMPERATRIZ


“IMPERATRIZ:
PASSADO E PRESENTE,
POTENCIALIDADES E PERSPECTIVAS”

Sexta-feira à noite, dia 25, estarei fazendo com o tema acima. Será no auditório da Associação Médica (o que implica dizer ar condicionado e poltronas estofadas…). O evento é gratuito, limitado a 150 convidados, pessoas de Imperatriz que dão algum crédito a nossas idéias e ideais. Após, será oferecido coquetel aos participantes. Retornarei ao blog no fim de semana. Interessados em ir à , corram e contatem pelos e-mails: edmilsonsanches@uol.com.br ou esanches@jupiter.com.br .</font<font face=”Times New Roman”
(Ilustração: Avenida Beira-rio, em Imperatriz. Foto do leitor deste blog Raoni Leite Dantas, 18 anos, estudante de Nutrição).

V I O L Ê N C I A

ter, 22/04/08
por edmilson sanches |


– O QUE MENTIRA E POLÍTICA TÊM A VER COM ISSO

Violência: todos somos vítimas; é uma questão de tempo
tornar-se o próximo alvo. Enquanto isso, os políticos…

Em Imperatriz os crimes de homicídio vitimam 60 pessoas por grupo de 100.000 habitantes (foram 138 mortes em 2007; o município tem 229,6 mil habitantes).
Compare-se esse número de assassinatos com a média do estado do Maranhão (12 homicídios para cada grupo de 100.000 habitantes), do Nordeste (19 homicídios), do Brasil (26 homicídios), do continente americano (19 homicídios). O que de concreto fazem os políticos? Nada. O que faz o imperatrizense? Reza para não ser a vítima da vez…

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INTRODUÇÃO
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Leitora, leitor: Dá para acreditar que estes textos foram escritos há oito anos, no primeiro semestre de 2000? Nesse ano foi a morte de uma professora, no Rio de Janeiro, e de um motorista de táxi, em Imperatriz, o que comoveu a população.

Dá para acreditar que, antes destes, outros textos semelhantes e similares também já tinham sido escritos e repetidos?

Dá para acreditar que os políticos imperatrizenses daquela época são os mesmos, alguns em pessoas e outros em procedimentos e omissões, preocupados em fazerem apenas o trivial, o que rende imagem mas despreocupados ou ignorantes das bases, das raízes,das estruturas e da essência do problema, que é a ausência de políticas públicas ou de competência para gerá-las e geri-las?

Leitor, leitora: Dá para acreditar em resultados diferentes com mesmas pessoas (ou em outras iguaizinhas àquelas), que ficam fazendo as mesmas coisas, inclusive o não-fazer? Dá para acreditar em legisladores que, pelo servilismo, não têm quatro anos de mandato, mas quatro anos de mandados?

Aguardem os próximos anos. Ou esperem um milagre…

* * *

LEI – Todos os políticos com mandato deveriam saber quais são as principais causas do recrudescimento da violência, até porque eles, políticos, são parte indescartável do problema, pelo alheamento social e falta de seriedade e continuidade na defesa dos interesses específicos do povo. A Lei Orgânica de Imperatriz está cheia de artigos que, se respeitados, poderiam atacar na origem as causas estruturais da marginalidade; entretanto, o “analfabetismo social” que distancia as ações da Câmara dos discursos da maioria de seus integrantes vai conduzindo a maior cidade do interior maranhense a uma existência destituída de qualquer planejamento estratégico e sem qualquer visão de futuro.

REBOQUE – Se há algum sonho realizador na cabeça de vereadores e administradores, ele não é repartido ou sonhado junto com a imensa maioria da população. E isto não é retórica; é perfeitamente comprovável objetivamente. A cidade de Imperatriz é grande porque seus habitantes a fizeram assim, não porque seus vereadores e administradores a planejaram. Infelizmente, estes vivem mais a reboque do que na vanguarda, apesar das falações… ou por causa delas. Praticamente tudo já está previsto em lei. Se houvesse consciência das leis, coerência na sua defesa e consistência na sua aplicação e fiscalização, vereadores no País inteiro não precisariam estar mendigando apoios, negociando a própria personalidade com representantes do Poder Executivo, ao qual, em tese, deveriam se igualar e não se subordinar.

DECISÃO – Se a comunidade não tomar a si a decisão de participar do combate e da prevenção à violência, estará fazendo opção pela catástrofe, pela dor, pela insegurança, porque, há muito tempo, o aparelho policial, sozinho, não dispõe de estrutura para combater a violência. Por sua vez, os Poderes Públicos já tiveram decretada a sua falência como únicos resolvedores dessa questão, sobretudo com os ainda alarmantes índices de desvios, desperdícios, corrupção, falta de conhecimento e de boa vontade que, infelizmente, ainda se detectam em grande número de administrações municipais no Brasil. A pior violência é a violência política, que, por ação, omissão ou corrupção é mãe, madrinha ou madrasta de todas as demais violências.

ENVOLVIMENTO – Por uma questão de disciplina, de hierarquia, comandantes e policiais (os militares, em especial, que vivem mais de perto o problema) não podem falar sobre esses assuntos nem denunciar essas condições de trabalho, e quase sempre o que se vê são oficiais e soldados aqui e acolá esmolando favores para cumprir sua tarefa de policiar. Nesse quadro, como querer mais poder de resolução de nossas polícias, militar e civil? A resposta é a comunidade envolver-se. Não adianta dizer que já pagamos impostos; devemos nos perguntar se cada um de nós já fez o que ainda poderia fazer, se já fizemos o máximo. Claro que não. Ainda há espaços para a comunidade ocupar e ajudar na solução dos problemas relacionados à criminalidade.

* * *

VIOLÊNCIA SOCIAL E MENTIRA POLÍTICA: CRIATURA E CRIADOR
“Cadáveres institucionais amontoam-se na cova rasa em que são jogados os cadáveres físicos. A morte das idéias, o assassinato do debate, a corrupção da vontade, o prevalecer-se das condições de indigência material e cultural de um povo em benefício eleitoral podem desatar a sutura com que alguns pretendem estancar a hemorragia social que, esta sim, levaria todos, figurativamente, a um ‘banho de sangue’”.

Em 2000 foi nunciado o lançamento de um programa nacional de segurança pública. O documento foi aprovado em prazo recorde pelo Congresso Nacional. Durante tempos havia permanecido nas gavetas. Talvez, nesse caso, os Senhores Parlamentares estivessem precisando de um “impulso”, que se traduziu na morte de mais um brasileiro, uma brasileira, uma professora.

Mas como o ser humano é ele e suas circunstâncias (obrigado, Ortega y Gasset), a morte da professora, por si só, não bastava. Foi necessário que seu calvário e sua morte tivessem sido expostos e “dourados” pelas ondas e tintas da mídia, dos meios de comunicação. Os políticos, portanto, parecem não ser sensíveis propriamente à violência e às mortes (que ocorrem todo dia), mas ao eventual destaque que se dá a elas. Políticos são movidos a mídia, a críticas, a pressões. No mesmo tempo em que se dava o martírio e morte da professora cearense no Rio de Janeiro, milhares de quilômetros acima, em Brasília, capital federal, pai, mãe e membros de uma mesma família foram mortos a tiros, na frente do filho mais novo, uma criancinha de menos de um ano de idade, que foi deixada viva e passou horas na solidão cadavérica de sua casa, acompanhada tão somente de corpos insepultos, até ser finalmente resgatada.

Quando o assunto é violência e segurança (insegurança), cadáveres são sepultados e outros são exumados para ressuscitar o debate acerca das coisas e causas ligadas à marginalidade. Todo dia pessoas, sobretudo as mais pobres, são vítimas da violência. Seus bens são roubados, seus corpos são chorados, tudo é noticiado, mas nenhuma providência estrutural “de resultados” é tomada para que os fatos não mais se repitam – ou repitam-se em menor “volume”.

Há muito “rompante” nas iniciativas políticas e comunitárias nesse sentido. Em Imperatriz, dá-se o mesmo. Em nível local, a comunidade, a mídia e o debate também são movidos a defuntos. O combustível é o corpo ensangüentado, a mulher estuprada, o menor seviciado, a residência arrombada, o comércio assaltado… Movimentos, fóruns e outras formas de ajuntamento de pessoas e idéias são iniciados, mas, assim como caminhões velhos, só têm arranque, não têm continuidade nem finalização.

Há uma grande covardia comunitária em Imperatriz. Os espaços políticos — que são o locus onde realmente podem ser operadas mais legitimamente as mudanças — estão sendo ocupados, no Poder Executivo, por uma maioria que apenas tem ou quer dinheiro (ou maneira de consegui-lo), como se Prefeitura fosse filial, sucursal ou subsidiária dos próprios negócios ou interesses.

No Poder Legislativo, uma maioria amorfa prefere estar com o Prefeito a estar com as Leis (inclusive as feitas na própria Câmara). Essa aproximação pecaminosa entre Executivo e Legislativo, essa miscigenação imprópria de Poderes, essa mestiçagem descabida de instituições, esse caldeamento não-virtuoso de interesses menores, esse cruzamento proibido de deveres chega ao ponto de um Prefeito ter um Presidente de Câmara como seu representante em atos oficiais. Que é isso?!… Um Presidente de Câmara até pode substituir um Prefeito, não representá-lo. Mostre onde está isso nas leis ou regimentos. Dessa forma, que vontade superior é essa, que mandonismo servil e que obediência serviçal são esses de alguns indivíduos acima da representatividade e da incolumidade das instituições?

Se dizem, em relação à violência, que “polícia é polícia, bandido é bandido”, também deve ser dito que “Prefeitura é Prefeitura, Câmara é Câmara”. Alguém já viu um Prefeito dizendo-se ser representante de Presidente de Câmara? Não. Pois a recíproca deveria ser verdadeira. O máximo que um representante de um Poder pode fazer pelo outro, na ausência deste e se autorizado, é trazer uma palavra, apresentar alguma escusa, mas não ser ou dizer-se representante um do outro. Para isso existem servidores legalmente constituídos e administrativamente mais recomendados (no caso do prefeito, seu vice ou algum secretário municipal; no caso do presidente da Câmara, seu vice, membro da Mesa Diretora ou um outro vereador).

E querem falar de independência de Poderes, quando essa sequer está existindo no conceito, na mente e na prática… — exceto, em muitos casos, o Poder Judiciário, aquele que tem em mãos o dever de julgar, o instrumento que pode ser, nas condições de hoje, um dos mais eficazes para tornar mais rápido o processo e mais plena a democracia (ou o projeto dela) existente no País. O Poder Legislativo até pode, institucionalmente, ser independente, mas, sobretudo em um município, a grande maioria dos seus membros é dependente — dependente de verbas “especiais”, de cargos e encargos atípicos, de benefícios incomuns, sobretudo em época eleitoral, que não teriam o aval de ninguém se fossem expostos publicamente.

Essa despersonalização contribui para o assassínio das instituições e torna-se mais um dos cadáveres permanentemente expostos, apodrecendo, por aproximação e contaminação, os contornos de uma sociedade que deveria ser redesenhada e fortalecida, rumo à construção cooperativa e solidária de uma cidade melhor, de uma felicidade maior.

Cadáveres institucionais amontoam-se na cova rasa em que são jogados os cadáveres físicos. A morte das idéias, o assassinato do debate, a corrupção da vontade, o prevalecer-se das condições de indigência material e cultural de um povo em benefício eleitoral podem desatar a sutura com que alguns pretendem estancar a hemorragia social que, esta sim, levaria todos, figurativamente, a um “banho de sangue”.

A violência da morte de mais uma professora (no Rio) ou de mais um taxista (em Imperatriz) é, tão-só, filha da pior das violências: a violência política, que, por sua vez, tem lastro na mentira, no faz-de-conta, na encenação, na enganação, na mise-en-scène, e qualquer que seja a forma de ilusionismo, prestidigitação, mágica ou não-verdade, manuseadas, manipuladas, malbaratadas por pessoas de personalidade desviante, eternamente carentes de patrimônio e poder.

Violência social e mentira política: criatura e criador. É Soljenitsin quem diz, em seu discurso ao receber o Prêmio Nobel (1972): “A violência não existe e não pode existir por si só; ela está invariavelmente entrelaçada com a mentira”.

As lideranças empresariais, classistas, culturais e comunitárias em geral deveriam se opor, mais firme, continuada e conseqüentemente possível, a esse verdadeiro estado de calamidade pública. A mídia, os meios de comunicação, também. Basta de sermos apenas espectadores ou registradores dos fatos. Temos de ser transformadores dessa situação. Transformar para melhor.

Quem não contribui para resolver um problema, contribui para piorá-lo. Se não estamos em um lado, estamos no outro. Não há, neste caso, posição intermediária. A omissão dos políticos, da mídia e de outros segmentos sociais pode, por exemplo, ser caracterizada como uma forma de crime.

Para começar, formação de quadrilha.

—–
(Nota: Textos publicados em 20 de maio e 20 de junho de 2000 na imprensa escrita e — infelizmente – ainda válidos para a eterna questão da violência, que vitima o povo imperatrizense e expõe cada vez mais a incompetência e falta de vontade dos nossos políticos. )

crônica de fim de semana

sáb, 19/04/08
por edmilson sanches |
categoria CRÔNICA


ÉS

É bom completar uma missão. É bom estar e sentir-se bem.

Dever a bancos, mas não dever à consciência.

Ser movido a desafio, e não a dinheiro.

Estar na sede do poder, mas não ter sede dele.

Não prejudicar, se não puder ajudar.

Não roubar. Não chantagear. Não iludir.

Abraçar, não apunhalar.

Estender as mãos para auxiliar, não para extorquir.

Elevar, ao invés de fazer cair.

Não buscar fora, no mundo, o que só se acha dentro do próprio ser.

Sobreviver após a vida e, ao ser lembrado, sê-lo com a lágrima, não com o cuspe. Com reconhecimento, não com desmerecimento.

Ser lembrado com saudade. Uma saudade que até possa ser brindada com um sorriso que imortaliza, não com o só riso que ironiza. Uma saudade que diga que valeu a pena a nossa existência.

Assumir, doce e espontaneamente, a ingenuidade. E não se conformar com a esperteza, a malícia, a corrupção, a violência, o desrespeito, que só escavam para si côvados de cova.

Que bom enfrentar as dificuldades — e que ótimo não criá-las para os outros.

Ser bom. Se possível, ser com.

Ser humilde, mas não humilhado. Ousado, não usado. Viver é incomodar-se; não é acomodar-se.

Ser um ser de esperança; portanto, um ser de inquietudes e angústias sadias.

Ser fúria e ser forte ante a violência menor; mas ser manso e criança ante o Mistério Maior.

Silenciar, quando estratégico; mas gritar, bramir, bradar, rugir, quando indispensável.

Reconhecer-se feito à imagem e à semelhança de Quem o fez, embora sem a perfeição do Bem/Feitor. Ter consciência de que é filho de Deus, não o próprio Deus.

Lembra-te, ó, ser humano: Tu não te tornarás pó — tu ÉS pó. És berro, és borra, és barro. És pá, és pé, és pó.

A terra que violentas é tua mãe. O solo que pisas é teu irmão. Tu és homem, tu és húmus.

Entretanto, o essencial de ti não veio com o barro. Veio com o toque cálido dos lábios soprando o sopro vívido de Deus.

Tu és a tua alma. E ela é só o que tu tens — para, espera-se, devolvê-la, ao final de tudo, a Deus.

Adeus.

(E. Sanches)

E AGORA, IMPERATRIZ?

qui, 17/04/08
por edmilson sanches |
categoria IMPERATRIZ

?


Imperatriz: sim aos que têm COISAS, não aos que têm CAUSAS.

Enquanto parte da Humanidade já foi apresentada ao Terceiro Milênio, outras partes do planeta ainda estão no século 20, ou até antes. Esta defasagem corresponde ao grau de qualidade de vida das diversas comunidades espalhadas em todos os continentes do globo terrestre em relação a outras comunidades onde as desigualdades socioeconômico-culturais de seus habitantes não guardam, no geral, maiores distâncias. Infelizmente para a raça humana como um todo, o avanço dos anos não corresponde, necessariamente, ao avanço nas condições de sobrevivência digna da grande maioria das pessoas.

Nesse quadro de conflitos, contrastes e confrontos inclui-se o município de Imperatriz. O desenvolvimento de sua história dá-se ao longo de 155 anos (foi fundado em 16 de julho de 1852), mas a história de seu desenvolvimento conta menos de 50. A força do seu progresso econômico e inchaço demográfico, que já lhe valeu o título de município de maior crescimento do Brasil, na década de 1970, vem da natureza estratégica da localização da cidade. Imperatriz é portadora da “síndrome do escorpião”, isto é, a de não negar a sua natureza, apesar de circunstâncias ou conseqüências prévias e/ou posteriores contra-indicarem. E a natureza de Imperatriz é a de crescer, independentemente do primarismo de visão estratégica de seus governantes e representações classistas e políticas.

Nada — insista-se: absolutamente nada — do que, em termos econômicos estruturais, estruturantes e estruturadores ocorreu ou se instalou no município foi resultado de uma demanda orgânica, sistêmica e sistematicamente planejada, defendida, buscada. Mais: não foi produto, também, de uma classe política forte, com identidade de propósitos. Pior: sequer foi parte de um plano de ações das muitas administrações municipais que tomaram de conta do verbo e das verbas públicas, calando e empobrecendo ainda mais o povo.

Quando, em 1995, uma movimentação popular depôs o prefeito do município, parte da comunidade deixou de ser povo-boi (o boi não sabe a força que tem e se deixa ferrar, matar e tirar o couro). Contudo, nessa época Imperatriz já havia irremediavelmente recuado pelo menos meio século, em termos de consciência cívico-comunitária e desenvolvimento humano — que é, no final das contas, o que interessa.

Uma lógica perversa, que chamo de “lógica patrimonial”, se foi essencial para o crescimento demográfico e econômico há 50 anos, já não serve para os padrões de hoje e tem encarcerado o desenvolvimento humano, político-administrativo e sociocultural da cidade. Essa lógica patrimonialista, que em nada contribuiu para o desenvolvimento humano de Imperatriz, funda-se numa visão esquemática e praxística, de balcão, que busca mais os bens que o Bem, que desvaloriza o conhecimento em função da “experiência”, que desconsidera a técnica e privilegia o “faro” (veja-se a expressão “ele tem faro para negócios”), que tem aversão à correção e transparência e aplaude s “jeitinhos”, “conchavos” e conluios. Ao final, conclui-se que Imperatriz, por enquanto e maiormente, é cidade onde pessoas de referência prestigiam os que têm COISAS e secundarizam os que têm CAUSAS.

Houve um tempo em que, em Imperatriz, a aplicação do que chamo de “lógica patrimonial” era a mais adequada (embora não se esteja, aqui, pregando a favor do que apenas é grosseiro, ilícito ou antiético). Mas é sabido que a Humanidade vem-se “refinando” ao longo da história. Saímos do tempo em que ter poder era ter força bruta e chegamos ao poder da hereditariedade, desta para o poder do capital e deste para o poder baseado no conhecimento e na ética. Um dia, haverá o predomínio do poder ancorado na espiritualidade, mas aí os tempos estarão muito, muito mudados…

Esse desvalor pelos produtos do conhecimento puxou para trás o desenvolvimento de Imperatriz. Há ordem em todas as coisas e até no caos. Desse modo, as “gerações espontâneas” que por décadas prosperaram na administração pública imperatrizense destituíram a sociedade de seu justo direito a um futuro mais organizado, melhor planejado, com resultados aproximados possíveis de serem projetados, a partir do concurso das diversas representações da sociedade civil organizada, cheia de vontade e disposta para o trabalho.

Mas não houve planejamento. Se houve, não foi dado ao conhecimento. Se foi, não mereceu acompanhamento. Tornou-se, tão-só, maçudos maços de papéis para cupim comer.

Por isso é que nenhum dos grandes projetos que se realizaram ou se realizam em Imperatriz ocorreu por detecção, demanda e co-realização da sociedade imperatrizense. Foi a natureza escorpiônica da cidade que, apesar dos pesares, impôs-se à doutrina e prática reacionária e retrogradista dos que, afora o trivial, à frente dos diversos poderes, pouco fizeram pela cidade e ainda fizeram pouco de sua população.

Houve melhoras sensíveis, é certo. Os últimos números indicam que o desenvolvimento de Imperatriz está crescendo. A questão não é de tendência, mas de velocidade do crescimento.

Para atingir mais rapidamente níveis superiores de desenvolvimento, o município (poderes públicos + sociedade civil organizada) deveria adotar um sem-número de instrumentos, práticas e processos disponíveis. Desde a adoção do planejamento estratégico, participação popular na formulação e realização das políticas públicas até a assunção de fato e de direito da liderança regional, entre outros. Há ainda as Agências de Desenvolvimento Municipal (ADMs), as EPCs (Empresas de Participação Comunitária), a identificação e correta exploração do potencial econômico do município (“site selection”), formação de clusters e APLs (Arranjos Produtivos Locais), a radiografia socioeconômica, a efetiva implantação de um Plano Diretor Urbano etc.

Para a adoção desses instrumentos, práticas e processos, não é preciso esperar o decorrer dos tempos, como querem os que defendem o processo lento e gradual dos avanços. Isso já foi feito por outras nações e comunidades. Não há demérito em se fazer benchmarking (adotar, adaptando, os bons exemplos de sucesso). Não é vergonha copiar a boa experiência de outras administrações públicas. Vergonha é comprometer-se com o atraso. É preferir o reboque à vanguarda. É contentar-se em ser mecânico quando pode ser designer.

Parcerias fora do município e até estrangeiras podem ser conseguidas. Há um sem-número de órgãos governamentais, organismos multilaterais, instituições fundacionais e organizações não-governamentais esperando um aceno. Por incrível que pareça, o processo mais difícil de firmatura de um novo “contrato social” (com licença, Rousseau) reside no município, dentro da cabeça das pessoas. É uma dessintonia tão grande, um desajuste tão incompreensível entre as forças (isoladas) da sociedade imperatrizense que é de dar graças a Deus o fato de o município, mesmo a fórceps, vir apresentando indicadores socioeconômicos menos ruins que os anteriores.

Como se vê, a força da natureza continua sendo maior que a (des)vontade dos homens. Pelo que, pode-se concluir, no dia em que a comunhão de idéias e vontades, a comum união de esforços das pessoas aliarem-se às potencialidades naturais deste município e sua região Imperatriz estará celularmente vacinada contra qualquer tentativa de retorno (ou continuidade) do atraso administrativo e desenvolvimentista e não mais permitirá a volta dos que nunca foram.

As eleições estão bem aí. Embora aconteçam nas urnas só em outubro, elas já são aspiração (e, para alguns, “realidade”) na cabeça de muita gente. De verdade mesmo, o único que ainda não está sabendo disso e é o principal dono da festa, é o mesmo que há décadas vem sendo coadjuvante por um dia (o dia da votação) num processo em que deveria ser protagonista o tempo todo — o povo, que vê usurpado seu direito à própria expressão e ao próprio futuro, entregue durante anos nas mãos de pessoas cuja visão de futuro não vai além do espelho de seu próprio banheiro e para as quais a palavra “mudanças” significa, no máximo, um caminhão que transporta móveis.

Como se vê, não parece ser tão complicada a coisa nem tão complexo o problema. Pelo menos, nada que honestidade pessoal, vontade político-administrativa, experiência profissional, formação educacional, competência técnica e participação comunitária não possam resolver. O desafio está posto.

E agora, Imperatriz?

ARTIGO DE FIM DE SEMANA

sáb, 12/04/08
por edmilson sanches |
categoria CRÔNICA


DE PEQUENAS DOENÇAS E GRANDES FELICIDADES
(E DE OUTRAS COISINHAS MAIS…)

O advogado, escritor e filósofo Ulisses de Azevedo Braga, de Carolina, já disse uma vez: “O Edmilson Sanches é mais dos outros do que de si”.

Deve ser verdade. É parte da herança que me deixou minha mãe, dona Carlinda — linda até no nome — (o restante da herança foram o dia e a noite). Até minha saúde se tem comprometido fazendo coisas para terceiras pessoas, todas pedindo de graça a única coisa — uma nesga de tempo e um quase-nada de talento — que Deus me deu para subviver neste lado de cá da vida.

Pois é. Já que vivo colocando à disposição dos outros até a minha saúde, decidi que a doença, pelo menos esta, seria minha. Minha. Só minha. Toda minha. Única e exclusivamente minha.

Tempos desses, fiquei acamado por mais de mês. Nos primeiros dias, telefonemas enchiam a paciência, pessoas sempre pedindo. Quase ninguém ofertando. De olho apenas em suas necessidades e urgências, o interlocutor geralmente não quer perceber que havia em mim, no falar, no olhar, no agir, algo de diferente, de indisposto, de malemolente. Diretores querem palestras em suas escolas. Professores querem discutir conteúdos. Alunos querem respostas a temas de “A” a “Z” para suas monografias e outros trabalhos de disciplina ou de conclusão de curso. Escritores querem prefácios para seus livros. Empresários querem projetos e informações empresariais. TVs pedem entrevistas. Lideranças comunitárias e classistas querem matérias em jornais. Políticos e profissionais liberais querem discursos para “arrebentarem” em desempenho e arrebatarem platéias.

Todos esses vêm com a história: “É pouca coisa, umas duas ou três páginas, pra você é fácil, tenho acompanhado seus escritos” e outras coisas de quem até parece que não sabe o trabalho que escrever dá. Não sabem o quanto, para escrever, se leva de tempo, esforço, recursos. E saúde.

E, repita-se, tudo deve ser de graça. Já disse que, por aqui, escritor e esmoler têm algo em comum além da sílaba inicial: são obrigados a pedir — com a diferença de que o esmoler consegue alguma coisa… É… Imperatriz é ainda cidade de pessoas que prestigiam quem tem COISAS, não quem tem CAUSAS.

Assim, no período dodói, desliguei celular, desconectei os telefones fixos, esqueci Internet…

Oh felicidade! Ninguém vai mesmo morrer por minha causa. Nada tenho a ver com o sobe-e-desce das bolsas mundiais, o vai-e-vem das marés, o puxa-encolhe dos preços, o esconde-esconde da política. Tampouco vai aparecer algum advogado d’além-mar, comunicando-me uma herança trilionária deixada por meus insabidos e incertos antepassados europeus de linhagem nobiliárquica. (Nobreza e pobreza, quanta proximidade…).

Os políticos imprestáveis, corruptos — essas desgraças em forma de gente –, igualmente estão se lixando para mim, querem mais é me comprar (valho alguma coisa?), querem mais é que eu me “exploda” ou nem querem saber de minha existência, embora alguns ainda queiram confirmar se sou candidato a isso ou a aquilo, se vou pra baixa da égua ou se para a puta que pariu. (Não sei por que alguns ainda se preocupam comigo, a ponto de, antes de outubro de 2007, terem me oferecido de treze a trinta salários mínimos por mês, para “assessorá-los”, apoiá-los ou para deixar o processo eleitoral e não sair candidato por algum tempo. Cada proposta!… A um deles, na sua terceira visita, disse: “Meu único patrimônio é um resto de nome — que eu tenho — e uma presunção de que eu seja ‘gente boa’ – que alguns têm de mim –; assim, por que haveria eu de associar meu nome ao seu se na cidade dizem que você não é flor que se cheire?” Disse assim, na lata; o cara se mexeu, se coçou, e ficou nisso mesmo. A outro, um pau-mandado, sugeri o recado: “Diga ao seu patrão que o que ele tem de dinheiro no banco eu tenho de vergonha na cara; e se a conversa é só esta, por mim está terminada”. A um terceiro, agradeci a proposta e nunca mais voltamos a nos falar.

Tem gente que acha que o dinheiro compra tudo. Que o dinheiro compra o corpo da mulher. Que o dinheiro compra a decisão do juiz. Que o dinheiro compra a coluna do jornalista. Que o dinheiro compra o voto do eleitor. Que o dinheiro compra a nota do professor (“Pagou, passou”). Que o dinheiro compra os olhos semicerrados dos carcereiros nas prisões. Dinheiro compra, sim, compra todos esses. Dinheiro compra gente que tem preço — mas não compra pessoas que têm valor. Preço, dá-se a coisas. Valor, a pessoas.

Voltando aos passados (ô, glória!) dias de doença. Graças a Deus, o mundo não sente falta de mim. Entretanto, e graças a Deus também, sinto falta dos “meus mundos”. Sem condição de manter suas extorsivas mensalidades, assinei o atestado de óbito do plano de saúde, recolhi-me ao meu canto de casa e cama e, na base de medicação e alimentação domésticas, líqüidas e certas (caldo de carne e canja de galinha), fiquei quase em estado basal, ajudando o organismo a ajudar a recuperação do corpo combalido e combatido. Desse jeito não-recomendável (adoeceu, procure um médico), a volta à “vida” torna-se lenta, muito lenta, quase parando. Fazer o quê, se não sei fazer dinheiro…

Desse modo, restava-me o “suplício” suplicyano do relaxar-e-gozar. Aproveitei os momentos de não-torpor, não-sono, não-fadiga, não-dores e, com tantas horas disponíveis, (re)vivi muitos momentos dos meus muitos mundos: o Mundo da Leitura, o Mundo da Música, o Mundo do Cinema, o Mundo das demais Artes. Quanto tempo sem rever textos de Drummond, Pessoa, Euclides da Cunha, Wilde, Shakespeare, autores de Imperatriz das décadas de 1970 e 1980, literatura amazônida e geopolítica. Quanto tempo sem ouvir do “A” do Abba, do Aznavour, ao “Z” do ZZTop e dos Zés Geraldo e Ramalho, jazz, chorinho, blues, sertanejas antiqüíssimas, aquelas e aqueloutras óperas e balés (que tal “Copélia”?), peças pianísticas de Schubert (já que só falam em Chopin, Mozart)… Quantas novas “(re)descobertas”, (re)leituras e (re)aprendizados na “reestréia” de filmes clássicos e raros em VHS e DVD — Fellinni, Antonioni, Kurosawa… Quantos novos olhares em bem conservadas reproduções de pinturas renascentistas, tanto aquelas que se adquirem em bancas de revistas quanto outras que já nem sei como me caíram em mãos, sem falar nalgumas peças assinadas (e pagas) de Antonio Peticov e outros trabalhos modernos e modernosos de pintores regionais por enquanto menos cotados…

E, à maneira drummondiana, enquanto eu retirava ouro do nariz, ser municipal que sou, na minha entressafra de enfermo sequer quis saber de respingos de lama e cuspe e baba e sangue de brigas de seres políticos estaduais e federais e alguns endinheirados municipais. Todos estes, seres voluntariosos (faça-se a vontade deles…), salvacionistas (salve-se – e amplie-se — a riqueza deles…), todos autoproclamados honestos até a ascendência mitocondrial, todos merecedores de loas de mídia paga, todos únicos, exclusivos, superdotados. Uns gênios! Tanta genialidade que o disfarçado e multidecenal pugilato de vaidades que praticam, ao longo de décadas, só tem mesmo levado à lona este país, só tem feito cair este estado, só tem atrasado esta cidade.

Queda por queda, prefiro as minhas, sobre a cama, canjinha ali do lado, agüinha no ponto ao alcance da mão e, à volta, muitos mundos a (re)descobrir.

Pois é: até na doença pode-se ter tempo para coisas boas.

Que felicidade!!!…

Bom fim de semana a todos.

YEHOSHUA MAOR,

qua, 09/04/08
por edmilson sanches |
categoria IMPERATRIZ, PESSOAS

TALENTO IMPERATRIZENSE


Yehoshua Maor no laboratório em Jerusalém.
(Foto: Jerusalem Post)

Dia 4 de abril recebi a visita de Yehoshua Maor, que faz pós-doutorado na Harvard University. Conversamos por cerca de duas horas (conhecemo-nos há mais de vinte anos). Mais sobre ele está em uma matéria que escrevi em junho de 2006, aqui republicada com breves atualizações.

* * *

Sim, há algo de novo sob o sol — pelo menos, sob o sol que ilumina pesquisadores, submetidos anos a fio a um teste de paciência, persistência e resistência, para, de preferência, trazer o novo e útil para a Humanidade.

O imperatrizense Josué Bezerra (que adotou a cidadania israelense e o nome Yehoshua Maor, há cerca de doze anos [resumo biográfico no texto "Quem é Yehoshua Maor", abaixo]) é um exemplo dessa nova geração de cientistas que começa a ganhar destaque e reconhecimento internacional. Nesta semana [terceira semana de junho de 2006] foi destaque nos maiores jornais de Israel, entre eles o Jerusalem Post, o Yediot Aharonot e o Maariv. Os leitores puderam acompanhar, em inglês e em hebraico, o que está fazendo o maranhense nascido em Bacabal que, desde menos de dois anos, cresceu e estudou em Imperatriz.

O que ele fez? Bem; imagine você descobrir ou “inventar” uma substância “B” que pode produzir os mesmos efeitos positivos da substância “A”, sem — e aqui a diferença vital –, sem os efeitos colaterais negativos desta.

Quase todo mundo sabe dos efeitos psicotrópicos imediatos e posteriores que a Cannabis sativa L. (nome científico do cânhamo, ou maconha) traz aos seus usuários, ditos viciados ou maconheiros. Após ter suas folhas, flores e ramos secados e transformados em cigarro, esse arbusto vem sendo há quatro mil anos um fantástico “veículo” que tem proporcionado “diferentes viagens” (para dizer o mínimo), muitas das vezes conduzindo a destinos sem volta.

Mas o mesmo arbusto que proporciona fibras de uso industrial teria de ter outras utilidades. E tem. Até uma Sociedade Internacional para a Pesquisa de Canabinóides (International Cannabinoid Research Society — ICRS) foi fundada, e já tem como membros mais de 300 respeitados cientistas de trinta países.

É na pesquisa de novas aplicações dos elementos químicos constituintes da Cannabis que se vem destacando o imperatrizense Yehoshua Maor. Às vésperas de completar 36 anos (em 8 de julho de 2006), ele já é um nome de destaque no difícil mundo da Ciência.

Após ter se formado em Farmácia-Bioquímica na Universidade Federal do Maranhão, Josué Bezerra foi para São Paulo e, a seguir, ganhou o mundo (leia mais no texto “Quem é Yehoshua Maor”, abaixo). Atrás de respostas para a alma (é estudioso e praticante do judaísmo) e para o seu interesse científico, Josué Bezerra chegou a Israel e prosperou como ser de espiritualidade e de cientificidade. É Mestre em Química Médica, conclui doutorado agora em agosto [de 2006] e já aceitou convite da mais famosa universidade do mundo – Harvard University — para fazer o pós-doutorado em Boston, nos Estados Unidos, para onde se transfere logo após o doutorado. Pretende ficar três anos em terras norte-americanas.

A qualidade e inovação das pesquisas e descobertas de Yehoshua Maor o tem levado para muitos cantos do mundo. Ele conta que, só no último ano, entre outros países, esteve no Estados Unidos (EUA), no National Institutes of Health, em Washington (a capital norte-americana); no Canadá, proferindo palestras na Universidade de Dalhousie; e já está [junho de 2006] de malas prontas para a Hungria (Budapeste), e China (cidades de Shanghai e Beijing / Pequim). Em 2004, na Itália, e em 2005, na Flórida (EUA) foi premiado por seus estudos e descobertas.

Sobre os estudos que levaram aos prêmios, ele conta: “Eu trabalho com o pioneiro mundial em canabinóides, professor Raphael Mechoulam, o primeiro no mundo que isolou o princípio ativo da planta Cannabis sativa L. Foi no laboratório dele que foram descobertos os ligantes endógenos que o próprio corpo produz e que se ligam aos receptores canabinóides. O professor Mechoulam é altamente benquisto no seio da Sociedade Internacional para a Pesquisa de Canabinóides. Anualmente esta sociedade se encontra com participantes de mais de 30 países para discutir o que há de mais novo no assunto. Em 2004, o congresso foi na Itália e eu me inscrevi para proferir uma palestra sobre minhas descobertas. Na Itália eu dissertei sobre os primeiros passos na síntese química de um composto semelhante à substância ativa da Cannabis que pode baixar a pressão arterial de ratos e não produz efeitos psicotrópicos, ou seja, não atua no cérebro. Este é um grande avanço, pois uma das barreiras que impedem o uso da Cannabis como medicamento é o efeito psicotrópico produzido por ela. No mesmo congresso, anunciei que fiz a caracterização de um produto endógeno (produzido pelo corpo – nesse caso, o cérebro) que produz os mesmos efeitos. A descoberta de uma nova substância é de extrema importância para a Fisiologia. Então, pela combinação das duas descobertas, fui premiado por uma excelente apresentação científica. Foram conferidos sete prêmios num universo de 300 alunos de Ph.D. [doutorado] das melhores universidades de 30 países. Em 2005, apos um ano de exaustiva pesquisa, já sabíamos muito mais sobre os dois produtos e descobrimos como o produto endógeno age sobre a comunicação intercelular e o mecanismo pelo qual o produto sintético destituído de atividade psicotrópica age sobre os vasos sangüíneos levando à ação vasorrelaxante. Com isso trouxemos para a família dos canabinóides mais dois membros, e novamente fui premiado por uma apresentação científica de destaque na Flórida”.

O cientista Yehoshua Maor explica mais sobre suas pesquisas: “Meu trabalho [em junho de 2006], apesar de ser feito no Hospital Universitário Hadasah, em Jerusalém, não envolve seres humanos, pois estamos trabalhando com pesquisa básica e não pesquisa aplicada. Creio que muita dedicação à pesquisa e vontade de aliviar — mesmo que um pouco — o sofrimento humano é o que me leva a receber esses prêmios. A importância do nosso trabalho se expressa no fato de que, ao conhecermos como o corpo funciona na saúde e na enfermidade, nós temos a oportunidade de localizar alvos que podemos atingir com novas drogas e assim chegamos mais perto do desenvolvimento de novas terapias. No meu caso, o trabalho é feito concentrando-se no sistema vascular. No caso do produto sintético, além de levar à diminuição da hipertensão arterial, o produto tem propriedades anti-inflamatórias. Hoje é sabido que estados de inflamação crônica dos vasos sangüíneos, associados à hipertensão, são a principal causa de doencas cardíacas, que, por sua vez, são a principal causa de óbito no mundo ocidental (industrializado)”.

Sobre o encontro na Hungria, Yehoshua Maor, modesto, mas técnico, comenta: “Para a Hungria, não tenho expectativa de destaque, já que por dois anos seguidos apresentamos algo muito novo, e é impossível manter esse ritmo. No último ano do doutorado fiz muitas viagens e escrevi mais sobre o que fiz nos últimos três anos do que desenvolvi nova pesquisa. Assim, é que o congresso será mais para ver o que outros estão fazendo na área, aprender mais, rever amigos de outros países, trocar idéias, e fazer um social”.

Quanto à “nova substância endógena” recentemente descoberta por ele, Yehoshua Maor relata: “Sabemos que se um produto químico sintético produz um efeito no corpo é porque ele se liga a um receptor, que inicia uma série de reações intracelulares levando ao efeito desejado. Estes receptores não estão lá para receber um produto exógeno, ou seja, um produto que não foi produzido pelo corpo. Estes produtos coincidentemente abrem as mesmas ‘fechaduras’, por assim dizer, mas a ‘chaves’ originais são produzidas pelo corpo. Então, à medida que aprendemos sobre o produto sintético, vamos em busca do produto natural no corpo. Temos uma idéia de como possa ser sua estrutura química e onde possa se localizar e começamos todo um projeto de isolamento e identificação do mesmo. Como disse antes, uma nova substância endógena nos dá pistas para lidarmos com o organismo na saúde e na enfermidade, e isso é um avanço da ciência médica”.

Perguntado sobre se tem planos para o Brasil (retorno, pesquisas, palestras) e se aqui alguém desenvolve algo semelhante ao seu trabalho em Israel, o mais imperatrizense dos nascidos em Bacabal responde: “Creio que o ritmo de trabalho em Harvard vai exigir muito de mim. Estive três vezes no Brasil nos últimos quatro anos, e deslocar-se do Oriente Médio até Imperatriz custa bastante. No Brasil, quase ninguém trabalha com canabinóides, com uma exceção para um grupo na Universidade de São Paulo em Ribeirão Preto, mas o [estudante de] doutorando deles, que tive o privilégio de conhecer na Itália, está deixando o Brasil para o seu treinamento de pós-doutorado na Alemanha”. Também, Yehoshua Maor e Mazal, sua mulher, estão esperando o terceiro filho [nasceu Elisheva, a terceira filha]. Embora as saudades do país e de Imperatriz, ele acha que deve diminuir o ritmo de idas ao Brasil, mas, pragmático, abre uma exceção: convites de universidades (que ele chama de ‘oportunidades acadêmicas’), caso em que todas as despesas são subsidiadas”.

O cientista não tolhe — ao contrário, fortalece — o pensador. E Yehoshua Maor faz breves considerações escatológicas, isto é, reflexões sobre as finalidades últimas da humanidade: “Morando numa área de conflito tenho visto de perto problemas que não sao piores ou melhores que a violência no Brasil e a desigualdade social. Problemas estão em todas as partes do globo. Eu não tenho muito espaço para filosofar aqui com você agora, mas afirmo que sou otimista e que vejo o mundo caminhando para melhor a cada dia. Temos continuado a evoluir como espécie humana em todos os aspectos”. (Aqui, Josué Bezerra faz um parêntese para o entrevistador: “Sanches, gosto de um texto seu que fala que o mundo já foi dominado pela forca, depois pelo dinheiro e no futuro será dominado pelo conhecimento. Acho que, com todos os problemas, continuamos avançando neste sentido”.)

O imperatrizense Yehoshua Maor acena positivamente para o planeta e para a espécie dita dominante. Com um toque de ciência e um retoque de religiosidade, ele encerra: “Sou otimista quanto ao futuro da nossa espécie. Acredito na evolucão do ser humano, de milhões de anos atrás até um futuro muito distante de hoje. Mas, acima de tudo, acredito na mão guiadora do Criador, que conduz a história da humanidade”.

Não; Salomão que fique lá, no bíblico Eclesiastes, com o seu nihil sub sole novum. Há sim algo de novo sob o sol: a renovada esperança de que, enquanto raça, iremos melhorar, em matéria e espírito, corpo e alma, pesquisa e fé. Pelos vãos da Ciência e pelos vôos da Religião, o novo haverá de se apresentar, e a coisa criada se aproximará o máximo possível da imagem e semelhança do Ser Criador.

Amém.

Quem é Yehoshua Maor

Yehoshua Maor (Josué Bezerra) é farmacêutico-bioquímico imperatrizense. Tem as cidadanias israelense e francesa. Mestre em Química Médica pela Hebrew University, de Jerusalém (Israel). Aí, além do mestrado em Medicina (M. D. – Medical Doctor), concluiu em agosto de 2006 o doutorado (Ph. D.) em Química Médica e Terapêutica Experimental, na área de Biologia Molecular de canabinóides para descoberta de novos medicamentos e terapias contra o câncer e pressão arterial. Poliglota, é fluente em inglês, francês, espanhol e hebraico. Graduou-se em Farmácia, com habilitação em Bioqúmica, na Universidade Federal do Maranhão, em São Luís. Seu trabalho de conclusão de curso tratava de Nutrição Parenteral, assunto pouco conhecido na época pela área de Farmácia do Maranhão, o que o levou para a Universidade de São Paulo, em Ribeirão Preto, após receber nota máxima (10) da comissão examinadora maranhense. Em São Paulo, trabalhou como farmacêutico nos hospitais Evaldo Foz e Ipiranga, entre outros. Imigrou para Israel em outubro de 1996. Até transferir-se para os Estados Unidos, morava no bairro de Mekor Haim, em Jerusalém. Tem interesses em assuntos relacionados a Ciência, Judaísmo, Filosofia, Política Internacional e Turismo.

Descendente de judeus (cristãos-novos) que foram expulsos de Portugal no século 16, Yehoshua Maor fez estudos em Portugal, Espanha, Inglaterra e Estados Unidos. Fez palestras e apresentações em sua especialidade na Bélgica, Áustria, França, Japão, Itália, Canadá e Estados Unidos, entre outros. Tem diversos trabalhos técnicos publicados em jornais americanos de alcance mundial, como o Neuropharmacology, e recentemente foi prestigiado pela publicação PNAS — Proceedings of the National Academy of Sciences, também dos Estados Unidos. Casou-se em março de 2002, em Jerusalém, com a francesa Mazal Sabine Korchia, formada em Marketing e Publicidade e mestrado (MBA) em Administração. Com Mazal, tem três filhas, Shira, Aviva Ines e Elisheva, que nasceu em BVoston (EUA), para onde Yehoshua Maor se transferiu (final de agosto de 2006), a convite, para fazer o pós-doutorado. Sobre as filhas, ele se desmancha: “[São] lindas, meu apoio em todas as horas. É lindo vê-las todas falando português, francês e hebraico, e agora vão aprender inglês também”.

Yehoshua Maor nasceu em Bacabal, em 8 de julho de 1970. Ele lembra : “Meus pais [João Alves de Moraes Bezerra e Alice Maria Aguiar Pereira Bezerra] vêm de família simples. Papai nascido no interior do Pará, filho de cearenses e mamãe nascida no interior do Maranhão, perto de Bacabal, também descendente de cearenses e rio-grandenses-do-norte. Tiveram pouco acesso à educação formal mas deram a mim e aos meus irmãos muito apoio para prosseguirmos os estudos. Todos temos no mínimo graduação. Somos oito filhos, dos quais eu sou o número sete. Meu pai trabalhava como funcionário da Fazenda Estadual e é aposentado. Mora em Imperatriz com minha mãe, que foi minha primeira professora. Aprendi a ler em casa com ela e se cheguei tão longe ela merece muito credito, aliás, ambos. Meus irmãos continuam no Maranhão, parte em São Luís, outros em Brasília e Mato Grosso. Tenho um irmão em Imperatriz e outra em Porto Franco”.

Antes de completar dois anos de idade, Josué Bezerra veio com os pais para Imperatriz. Aqui fez todos os seus estudos até o segundo ano do 2º Grau (hoje Ensino Médio) em Imperatriz. Foi estagiário do Banco do Nordeste do Brasil, agência de Imperatriz, nos anos de 1985 e 1986. Concluiu o 2º Grau em São Paulo, fazendo o curso de Técnico em Contabilidade, em 1987. Nesse mesmo ano, estudou Música no conservatório paulista Acarte. Morou em Brasília (DF) em 1988. Faz questão de se manifestar favoravelmente e apoiar a criação do Estado do Maranhão do Sul.

7 de abril, Dia do Jornalista

seg, 07/04/08
por edmilson sanches |
categoria IMPERATRIZ, IMPRENSA


A IMPRENSA INIMIGA
(ou DO JORNALISMO DE VIZINHANÇA)

Jornalistas: Precisamos ser alarmes — e não abafadores.
Precisamos ser sirenes — e não silenciadores.
Precisamos fazer-nos ouvidos — e não só repercutir a voz dos outros.
Precisamos influir — e não apenas sofrer influências.
Basta de sermos USADOS. Temos de ser OUSADOS.

Tive, e construí, oportunidades de estudar fora do Maranhão, fazendo cursos de pós-graduação e aperfeiçoamento em Fortaleza, Brasília e São Paulo. Habituei-me, como estudante e como jornalista, a observar alguns comportamentos e práticas da Imprensa como um todo e dos jornalistas, em particular. Uma conclusão (epidérmica e empírica, é verdade) é a de que, nos grandes centros, os meios de comunicação de massa (jornal, rádio, televisão) não dedicam assim tanto espaço e agressividade direcionados aos próprios fazedores de Imprensa. Quando existem reclamações, críticas a serem feitas, elas ocorrem (ressalvadas as exceções de praxe) com uma elegância, uma competência que normalmente é mais finamente contundente do que o simples abrir (ou bater) de boca ou a listagem de adjetivos e substantivos que, muitas das vezes, mais do que expressarem uma troca de insultos verbais, fazem é configurar ilícitos penais, no campo do dano moral (calúnia, injúria, difamação e quejandos).

É impressionante a facilidade com que, via de regra, em cidades menores (comparadas às três metrópoles citadas no primeiro parágrafo), (in)certas atitudes são igualmente menores. Lembram-me muito aqueles atritos de vizinhos, sobretudo de donas de casa em povoados, que um dia estão amicíssimas e confidentes, trocando xícaras de açúcar e quartinhas de azeite através da cerca do quintal, e, em outro dia, estão se “pegando”, se azunhando e se descabelando de raiva, com muita violência verbal na rua, na frente da casa, cheias de ódio e nenhuma razão (racionalidade).

Na maior parte das vezes, em cidades menores, jornalistas e radialistas conhecem-se tanto, sabem tanto das virtudes e dos “podres” dos outros e de si que até parece que moram uns com os outros, de “parede-meia”, em casas geminadas.

Se assim é, qual é a lógica que sustenta ataques e contra-ataques, futricas e fofocas na própria categoria (não é nem o caso de se falar em “classe”)? Por que as atitudes de desagregação, de fragilização dos trabalhadores da Comunicação Social têm um poder maior do que as ações em prol da união, do fortalecimento e do aperfeiçoamento profissional?

Dá para perceber uma certa satisfação íntima ou um sorriso explícito quando um insucesso, um vexame, enfim, algo de profissionalmente ruim acontece com um colega. Que coisa! Que almas penadas são essas que se alimentam de fracassos? Em que base profissional, em que baldrame ético, em quais fundações morais se assenta e se alevanta um edifício humano assim, que preexiste à construção profissional?

Os jornalistas já gastamos tantas laudas anunciando o novo milênio, já destacamos o predomínio do “império dos sentidos” sobre o da matéria, do valor (que se deve dar a pessoas) sobre o preço (que se dá a coisas). Já exploramos, e ainda iremos explorar muito mais, a supremacia do Bem sobre os bens, da alma sobre o corpo, do abstrato sobre o concreto. Tudo isso está dito, escrito e irradiado. Entretanto, a prática nega a prédica e nos atolamos na areia movediça da pregação que só é encenação, mise en scène. E, quanto mais nos movemos, mais nos afundamos.

É aí que castigamo-nos uns aos outros e ainda ao leitor, ouvinte ou telespectador, que fica sem saber o que significam aquelas notinhas cifradas, aqueles pequenos (no sentido moral e material) textos para iniciados, aqueles comentários com endereço certo, enfim, crimes de lesa-consumidor, pois que subtraímos espaços de papel e de tempo que deveriam ser profissionalmente ocupados com informação de qualidade.

Esses pequenos crimes funcionam à maneira de centenas de minúsculos cortes de gilete: nenhum deles mata, mas todos eles sangram e levam à morte. No caso, o corpo é o da Imprensa, que, por autofagia ou suicídio, teima em ser uma Fênix, morrendo hoje, renascendo amanhã, como um jornal.

Acabar, ou reduzir, esse jornalismo de vizinhança, essa Imprensa de recados (somos jornalistas ou office-boys?), essa Comunicação Social que não é social, é tarefa não apenas para profissionais competentes, mas sobretudo para seres humanos conscientes — conscientes de que há um consumidor esperando um produto ou serviço cada vez melhor. Conscientes de que há um processo permanente de (re)construção de si mesmo.

É assim que se faz crescer uma categoria e uma classe: com categoria e com classe. A cidade também depende disso. Fazê-la crescer a partir do crescimento de cada um é o desiderato.

O contrário disso é briga de vizinhos, que torna distante quem nos é próximo.

Que transforma em contrário o que é comum.

Que faz de meu semelhante meu inimigo.

* * *

Será que custa a todos nós, comunicadores, que somos alvo da admiração e às vezes da sadia inveja de outros segmentos, custa a nós admitir que temos uma função nem maior nem menor mas DIFERENCIADA em relação àqueles outros segmentos ou categorias? É tão difícil assim potencializar, otimizar e canalizar nossas energias pessoais e nossa capacidade profissional para, coletiva e solidariamente, auxiliar na construção mais veloz e mais consistente de nossa própria cidade? Por que parece nos custar tanto a nossa união, a união entre nós? Por que somos um sucesso no estímulo aos nossos leitores, ouvintes, internautas e telespectadores e por que somos um fracasso como categoria? Por que, para os outros, parece ser fácil pregarmos que a união faz a força enquanto dentro de nossa própria classe falta-nos força (de vontade) para fazer a união (da Imprensa e pela comunidade)?

Não. O leitor sabe. O telespectador sabe. O ouvinte sabe. O internauta sabe. A lógica confirma que o inimigo da Imprensa não é, não pode, não deve ser a própria Imprensa. Todo mundo sabe disso. Mas, pelo jeito, não contaram para nós. Aí a “grande” (é brincadeira!) Imprensa imperatrizense e maranhense vai à luta (contra si mesma), briga (contra si mesma). Colegas disparam a metralhadora (verbal) giratória. Outro lança a chama, escrita. E a nave vai. Cremo-nos Titanic e não cuidamos do próprio casco. Adernamos. Afundamos.

Não; o inimigo da Imprensa não está na Imprensa, embora possa estar dentro de alguns de nós. Está na hora de gritar: “Sai, Satanás!”

A Imprensa de Imperatriz e do Maranhão precisamos amadurecer. Basta dessa nossa vidinha de ir escapando por aqui ou por ali. Precisamos de uma causa coletiva, comunitária, permanente, continuada, ampliada. Precisamos ser necessários à nossa população como o são, para ela, o ar, a água e o pão de cada dia. Basta de sermos apenas passatempo! A Imprensa Imperatrizense não quer o fútil, mas o útil. Basta de sermos USADOS. Temos de ser OUSADOS.

Precisamos urgentemente empregar toda nossa energia emocional, toda nossa sensibilidade cívica, nossa coragem física e nosso quinhão de credibilidade perante nossos públicos e estruturar, de modo solidário, um projeto (um projeto mesmo, com começo, meio e finalidade) a ser discutido coletiva e comunitariamente.

Precisamos ser alarmes — e não abafadores. Precisamos ser sirenes — e não silenciadores. Precisamos fazer-nos ouvidos — e não só repercutir a voz dos outros. Precisamos influir — e não apenas sofrer influências. Precisamos cascar fora a etiqueta de preço e mostrar o nosso valor.

Podemos fazer acontecer a transformação. Vamos largar de procurar alvos em nossas próprias fileiras. É hora de ajustar a mira para outro(s) lado(s). Vamos mostrar que, sendo seres humanos, podemos ser amigos e, sendo comunicadores, podemos ser inimigos…

…Inimigos do atraso. Inimigos da corrupção. Inimigos dos “esquemas”. Inimigos de quem infelicitar qualquer ser vivo — animal, vegetal ou espiritual — que habite EM e ENTRE nós.

E se esse inimigo achar que uma Imprensa assim é apenas um sonho, é melhor acordar. Tem um bocado de gente aí fora — leitores, ouvintes, telespectadores, internautas — pensando com a gente.

ENTREVISTA COM EDMILSON SANCHES

qui, 03/04/08
por edmilson sanches |


“FALTA MAIS VERGONHA DO QUE DINHEIRO AOS GOVERNANTES”


Sem fiscalização ou punição, alimenta-se a corrupção… que gera a fome e a miséria.

Neste “post” trago uma entrevista que concedi em 2004 a estudantes da UNISULMA, instituição de ensino superior de Imperatriz. Pelo visto, tudo permanece muito atual — aliás, o que tem motivado a reprodução / republicação de muitos textos meus neste “blog”, textos transcritos da imprensa impressa. A perenidade, a não-desatualização desses textos não é motivo de orgulho; ao contrário, é razão de permanente decepção com a forma desumana e criminosa com que muitos políticos – sobretudo os que detêm mandatos – se comportam em relação ao desempenho de sua função e à administração dos recursos públicos. Não importam as aparências, as defesas, a mídia mercenária — eles roubam mesmo, em todo o país e no mundo todo. Resultado: miséria. Miséria física. Miséria moral.

Nesta entrevista discorro sobre questões que tratam de ideologia e desenvolvimento, ética e corrupção, saúde e educação. Com uma abordagem franca e direta, nossa campanha para prefeito de Imperatriz em 2004 foi considerada destaque. A campanha gerou em muitos a avaliação de que era o candidato “mais preparado”, embora sem estrutura financeira para competir. Ainda assim, foi arregimentada uma multidão de milhares de admiradores e eleitores, segundo eles, em função do “conhecimento” e da “forma ética” com que o candidato teria se comportado durante a campanha, afastando-se dos golpes baixos desferidos pelos demais concorrentes e colocando-se mais próximo do eleitor, apresentando naquela eleição apenas propostas de administração e desenvolvimento para o município de Imperatriz.

Existe um vazio ético na política que precisa ser preenchido — embora os canalhas sempre procurem contaminar, com invencionices e boatos, todos os que procuram se localizar nesse espaço. Mas, se a política é já quase um caso perdido, em termos de ética, os eleitores, não. A postura mais correta continua a merecer a admiração por parte das pessoas.

No caso de estudantes, tenho prestado intensa colaboração através de palestras, entrevistas, resumos e orientações por “e-mail”. O que vamos ler em seguida é uma dessas manifestações.

1) QUAL SUA IDEOLOGIA DE GOVERNO?
EDMILSON SANCHES: — Desenvolvimento com envolvimento. Um governante só pode desenvolver a cidade se este processo envolver o cidadão. E o envolvimento não deve ser mera retórica social-filosófica ou político-eleitoral — deve ser de cunho prático, alimentado por mecanismos de participação os quais, inclusive, têm previsão na Lei (por exemplo, na Lei Orgânica do Município de Imperatriz, que acaba de completar 15 anos e é quase desconhecida da população, aí incluídos os estudantes universitários).

No curso da história, creio que as pessoas já esperaram demais por governantes que conduzissem as comunidades rumo a estágios gradualmente mais elevados de desenvolvimento e qualidade de vida. Por isso que é necessário envolver-se. Não basta conhecimento, experiência e relacionamento como características de um governante se tudo isso não se deposita sobre uma base de sensibilidade social, capacidade administrativa, liderança e ética ou honestidade, vale dizer, não roubar o dinheiro do povo. Nos dias de hoje, cada vez mais é necessária a qualidade moral, pois muitas das vezes o que mais falta aos governantes não é dinheiro, mas vergonha na cara. Querem exemplos? 1)A imprensa descobriu que mais de R$ 690 bilhões já foram roubados e/ou desperdiçados do povo brasileiro, de acordo com processos julgados pela Justiça; 2) mais de 80% das prefeituras brasileiras são corruptas ou apresentam algum tipo de irregularidade em suas contas, segundo a Corregedoria Geral da União; e 3) 75% dos recursos do FUNDEF, o dinheiro da educação, não chega às escolas, aos professores, aos alunos, segundo o Ministério Público Federal. Infelizmente, roubos e desonestidades como essas são o que consome parte considerável dos quase R$ 650 bilhões que nós brasileiros pagamos anualmente (2004) para manter a tal máquina pública. Isso corresponde a R$ 74 milhões por hora ou mais de R$ 1 milhão e 200 mil por minuto.

2) COMO VOCÊ VÊ A QUESTÃO DA EDUCAÇÃO DE IMPERATRIZ E REGIÃO?
EDMILSON SANCHES – Vejo com preocupação. A cidade e a região reproduzem, em termos de Educação, a pouca qualidade do ensino público do país e do estado. Temos cerca de 100 mil estudantes em Imperatriz, no ensino público e privado, do pré-escolar à pós-graduação. O município é responsável por metade desse contingente, em mais ou menos 130 escolas públicas próprias ou alugadas (“municipalizadas”). Submeta estes alunos a testes de redação, matemática, raciocínio lógico e cidadania e veremos a qualidade dos herdeiros que estamos formando para tomar de conta desta cidade e da região por ela influenciada. Tenho projetos de ordem prática para alterar para melhor essa realidade, mas deixo o detalhamento para um futuro encontro presencial nesta sala de aula.

Outra coisa: Imperatriz já tem cerca de 50 cursos superiores (graduação e pós-graduação). É uma irresponsabilidade de um governante não se aproximar desse potencial de massa crítica, de conhecimento técnico e humanista, que pode ajudar, e muito, na busca de soluções para o município e a região.

3) QUAIS SUAS INTENÇÕES NA ÁREA DE SAÚDE?
EDMILSON SANCHES – Saúde não é apenas tratar ou curar, mas sim, e sobretudo, não deixar adoecer. Imperatriz é responsável, na área pública municipal, por cerca de 1 milhão e 500 mil atendimentos anuais, desde as consultas até os exames clínicos e outros procedimentos médicos e hospitalares. É necessário ser forte e ter pulso, estourar os esquemas de favorecimentos com os recursos do SUS, para implementar procedimentos que beneficiem mais e melhor as pessoas mais carentes, que não têm outra opção em termos de atendimento médico-hospitalar. Também é preciso pressionar as estruturas da burocracia pública federal para fazer com que, através de cartões eletrônicos, Imperatriz tenha ressarcidos os recursos investidos no atendimento a habitantes de outros municípios e estados. Igualmente, deve ser investido em informática e teletecnologia, para diminuir a movimentação de pessoas, que se deslocam repetidas vezes para simplesmente ter acesso a um número de senha de uma futura consulta ou exame. Deve ser ampliada a rede de unidades básicas de saúde (postos médicos) nos cerca de cem bairros e povoados de Imperatriz, o que reduziria substancialmente a procura ao Hospital Municipal (“Socorrão”), que sequer é do município (o prédio é alugado, de propriedade de um grupo de médicos). É evidente que processos de prevenção devem ser implementados e ampliados, para evitar que as pessoas adoeçam de causas simples, como as ligadas ao saneamento, limpeza urbana, cuidados domésticos, vícios, violência etc.

4) A POLÍTICA BRASILEIRA NÃO É ÉTICA. RELACIONE ALGUNS FATOS.
EDMILSON SANCHES – A percepção (ou impressão) geral do povo brasileiro em relação à classe política é das piores possível. Pesquisas nacionais, feitas por empresas especializadas, comprovam: os padrões da política brasileira são muito baixos. Segundo esses dados, o político brasileiro, no geral, não é ético — significando dizer que o político brasileiro, no geral, é desonesto, aproveitador, esperto, insensível, e outros termos nada positivos. Os fatos vêm à tona diariamente, seja no jornal, na rádio ou na televisão. São escândalos aqui, são brigas e até mortes acolá. É propina para um lado, é compra de voto para outro. É desvio de verba (dinheiro) e mau uso do verbo (agressões com palavras) etc.

5) DE QUE FORMA A INDIGNAÇÃO COM OS POLÍTICOS PODE SER BOA PARA O BEM COMUM?
EDMILSON SANCHES – Quando essa indignação das pessoas for corretamente canalizada, orientada, visando a uma reação organizada, sadia, sem extremismos, sem radicalismos. Uma das poucas armas do povo é o seu sentimento de indignação, de insatisfação com a ordem das coisas no que se refere à compostura dos políticos. Desse modo, as pessoas devem se reunir em associações de moradores, em clubes de mães, em grupos de jovens, em sindicatos de empregados e outras formas de ajuntamento de gente para cobrarem às representações dos poderes Executivo, Legislativo e Judiciário, além do Ministério Público, ações e fiscalizações e, se for o caso, punições. Todos devemos pressionar para acabar com a tal “imunidade parlamentar”, que virou “impunidade do parlamentar”, isto é, só porque o vereador, o deputado ou o senador, além de prefeitos, governadores e o presidente da República, têm mandato político eles não são julgados nem condenados pelos seus crimes, e, quando o são, não é com a mesma rapidez nem com o mesmo “peso” que uma pessoa comum o é. Não pode haver dois pesos e duas medidas se a Constituição diz que todos são iguais perante a Lei.

6) COMO PODEMOS ESCOLHER OS POLÍTICOS SEM PROMOVER CORRUPTOS? QUE CUIDADO PRECISAMOS TOMAR?
EDMILSON SANCHES – Os corruptos e malfeitores, as pessoas ruins, como se diz, não andam com um letreiro na testa, dizendo: “EU NÃO PRESTO”. Assim, para não diminuir as chances dos corruptos, um dos remédios é se informar muito bem sobre os candidatos antes da eleição e, se o seu candidato for eleito, acompanhar suas ações e cobrar dele o cumprimento das promessas. Mande cartas, envie bilhetes, escreva para os jornais, ligue para as rádios, abuse a paciência, encha o saco… mas não fique calado. É por causa do comodismo, da passividade, da quase covardia dos eleitores que muito candidato que não presta continua não prestando durante todo o mandato e ainda se reelege.

Entre os cuidados que se deve tomar, os quais se inserem na questão de informar-se cada vez mais e melhor sobre os candidatos, estão: a leitura de jornais, a discussão em grupos, a visita, a participação e o acompanhamento dos trabalhos dos representantes do povo. Esse deve ser um trabalho permanente. Não se deve esmorecer nem alegar que há outras coisas para fazer do que se preocupar com políticos. Se a gente não se preocupar com os políticos eles não vão se preocupar com a gente. Nada melhor para um político do que agir sem ter ninguém fiscalizando, sem ninguém se preocupando, sem ninguém olhando, sem nenhuma sirene tocando, sem nenhum alarme funcionando.

A cidadania não é só voto. O menor trabalho que o eleitor consciente tem é no dia da eleição. Após a eleição é que o grande trabalho do cidadão consciente começa.

Se você quer ajudar um político a ser bom, competente, produtivo, honesto… pressione-o, cobre-o, reclame, exija, denuncie. Porque nem o político nem ninguém sabe o que é que calado quer…. embora saibamos no que isso vai dar.

“QUAL A DISTÂNCIA CORRETA ENTRE IMPERATRIZ E SÃO LUÍS?”

qua, 02/04/08
por edmilson sanches |
categoria Sem Categoria

“QUAL A DISTÂNCIA CORRETA ENTRE IMPERATRIZ E SÃO LUÍS?”

(Sobre o assunto deste “post” leia os textos “MAIS ERROS EM APOSTILA PARA O CONCURSO DA PREFEITURA DE IMPERATRIZ” e “APOSTILAS DE CONCURSO TÊM MUITOS ERROS E VIOLAÇÃO DE DIREITOS”)

Pelo menos uma pessoa, candidata a vaga no concurso da prefeitura de Imperatriz realizado dia 30 de março, ligou para agradecer as correções de apostilas, que publicamos aqui neste blog. Segundo ela, seria uma resposta errada não fosse a lista de “consertos” aqui divulgada.

Abaixo, publico algumas perguntas (como a do título acima) e observações enviadas por candidatos, que receberam as respostas e correções um dia antes da realização das provas. Espero que a contribuição tenha feito diferença na prova e nos conhecimentos gerais de cada um.

1. Questões:

1.1 – “QUAL O RELEVO DO MARANHÃO?” (sem identificação)

 —> Segundo o Almanaque Abril, edição de 2008, página 682, o relevo do Maranhão é caracterizado por “costa recortada e planície litorânea com dunas e planaltos no interior”. O ponto mais elevado é a “chapada das Mangabeiras (804 metros)”. O clima é “tropical”. Os rios principais são: “Balsas, Gurupi, Itapecuru, Mearim, Parnaíba, Pindaré, Tocantins e Turiaçu”. A vegetação é constituída de “matas dos cocais a leste, mangues no litoral, floresta Amazônica a oeste, cerrado ao sul”.

1.2 – “QUAL A DISTÂNCIA CORRETA ENTRE O MUNICÍPIO DE IMPERATRIZ E A CAPITAL (SÃO LUÍS)?” (sem identificação)

 —> Para tirar a dúvida, vamos ao Departamento Nacional de Infra-estrutura de Transportes (o DNIT, antigo DNER), órgão do Governo federal para esses assuntos. No seu site há um local chamado “Distância entre Cidades”, cujo endereço eletrônico é: http://www1.dnit.gov.br/rodovias/distancias/distancias.asp . Pois bem, lá está a distância oficial: 636 quilômetros, de Imperatriz a São Luís. No site da Prefeitura de Imperatriz está 629,5 km.

1.3 – “QUAL É A VERDADEIRA ALTURA DO PICO DA NEBLINA?” (Rosângela)

 —> Diz o Almanaque Abril, edição 2008, na página 191: “Com 2.993,78 [dois mil, novecentos e noventa e três metros e setenta e oito centímetros], medidos em 2004, o pico da Neblina é o ponto mais alto do relevo brasileiro”. O pico da Neblina fica na serra Imeri, no estado do Amazonas. Em segundo lugar, o pico 31 de Março, com 2.972,66 (também no Amazonas). Em terceiro, o pico da Bandeira, com 2.891,98 metros, na serra do Caparaó, entre os estados de Minas Gerais e Espírito Santo. Em quarto lugar, a Pedra de Mina, com 2.798,39 metros, na serra da Mantiqueira, entre os estados de Minas Gerais e São Paulo. Em quinto lugar, o Pico das Agulhas Negras, com 2.791,55, na serra do Itatiaia, entre Minas Gerais e Rio de Janeiro.

Abaixo, tabela com a nova medida de alguns pontos culminantes, feita pelo IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, órgão do Governo Federal) com utilização de moderna tecnologia, inclusive satélite. A tabela foi feita pelo IBGE e consta no site do órgão, versão em inglês.

1.4 – LOCALIZAÇÃO DE IMPERATRIZ NO MARANHÃO. (Raimunda)

 —> O site oficial da Prefeitura Municipal de Imperatriz registra: “Localização Geográfica do Município – O município de Imperatriz localiza-se no oeste do Estado do Maranhão, na microrregião nº 38 [na parte oeste, Imperatriz fica no sul, isto é, sudoeste]. Tem limites com os municípios de Cidelândia, São Francisco do Brejão, João Lisboa, Davinópolis, Governador Edison Lobão e com o Estado do Tocantins. O município encontra-se a 629,5 quilômetros da capital do Estado [leia resposta à questão 1.2, acima]. Suas coordenadas geográficas são 5º 31′ 32′ latitude sul; 47º 26′ 35′ longitude a W Gr., com altitude média de 92 metros acima do nível do mar.”

2. Opinião:

“NÃO FIQUE CHATEADO COM A MINHA PERGUNTA, PORQUE SÓ TEM POLÍTICO PARA PEDIR VOTO E NÃO PARA FISCALIZAR OS PROBLEMAS. PORQUE O QUE ACONTECEU COM ESSAS APOSTILAS FOI UM DESRESPEITO COM A SOCIEDADE”. (sem identificação; candidato/a participante de cursinho gratuito preparatório, na escola Hebe Cortez, em bairro de população carente de Imperatriz )

—> Parabéns! Você tem toda a razão. E o cursinho na escola Hebe Cortez também serviu para isso, quando vi que alunos (candidatos ao concurso da Prefeitura) estavam com algumas informações erradas acerca de aspectos sociais, econômicos, políticos e sobre a história e a geografia do Maranhão e/ou de Imperatriz. Imediatamente foram-me emprestadas algumas apostilas e consegui fazer a revisão da parte de “Conhecimentos Gerais”. Os participantes do cursinho da Hebe Cortez tiveram oportunidade e, no mínimo, têm informações auxiliares que muitos outros concorrentes não têm. Novamente, parabéns! (EDMILSON SANCHES)

NAVALHAS

ter, 01/04/08
por edmilson sanches |
categoria Sem Categoria


A “navalha” que, verdadeiramente, está sendo enterrada mais fundo não é a que visa políticos e empresários: é a que acerta a barriga dos famintos de todo o país, a que escalpela os despossuídos, a que, certeira, faz sangrar o coração do povo brasileiro — e, no que me diz respeito, a alma dos verdadeiros maranhenses.

– Então o senhor é de Imperatriz.
– Sou.
– Você conhece Fulano de Tal.
– Sei quem é.
– Você pode me dizer como é ele?
– Desculpe-me, mas por que o senhor não me fala logo qual é o assunto?

Eu estava em São Paulo, acompanhando a finalização de um projeto. Um diretor de uma grande empresa foi deixar-me de carona lá no hotel Íbis, em frente ao aeroporto de Congonhas. (O Íbis é aquele mesmo hotel em que se deu um rolo de mala preta com dinheiro envolvendo partidos políticos e que durante meses foi notícia nacional, nas eleições de 2006).

Há quase um mês na capital paulista, aqui e acolá eu era convidado para encontros em torno de almoços ou jantares. Foi num desses encontros, como convidado do diretor da empresa onde se desenrolava a finalização do projeto que eu acompanhava, que se deu o diálogo acima. Acontece que meu interlocutor representava os interesses de uma outra grande empresa paulista, que tinha prestado serviços para uma prefeitura da região sul-maranhense. Os recursos para o pagamento vinham do Governo Federal e transitavam por rubrica(s) da prefeitura, que deveria repassar o valor diretamente para a empresa de São Paulo, prestadora do serviço.

Assim, em resumo, o que ouvi do executivo paulista. Segundo ele, o dinheiro não fora repassado, embora os produtos ou serviços já tivessem sido feitos e/ou entregues. Quando telefonaram para saber o porquê da demora no repasse da verba, o Fulano de Tal, secretário do município sul-maranhense, na maior cara-de-pau respondeu:

– O senhor está pensando que é só telefonar?!… Tem de vir aqui, para discutir nossa parte…

O tom com que foi dito isso, segundo meu interlocutor, foi de quase ameaça. Por causa disso, e acreditando que a região sul-maranhense era mesmo de violência e morte como por algum tempo a Imprensa retratou, o executivo paulista, temeroso, queria saber o “perfil” da pessoa com quem ele falara ao telefone.

Disse-lhe que o referido sujeito estava mais para frouxo do que para brabo ou pistoleiro e que a região há muito passara dessa fase apregoada como violenta, de matar um hoje e deixar salgando outro para amanhã.

Não sei como a coisa terminou, se a empresa paulista e paulistana recebeu ou não o dinheiro. Mas o fato de, a milhares de quilômetros de distância, minha região e meu estado estarem sendo confundidos com terra de bandidos, de corruptos, de pistoleiros, isso me chateou demais. Deu-me azia (besta que sou – quem manda somatizar problemas que, para o vulgo, não são meus?)

A gente faz um esforço desgraçado para tentar sobreviver e subviver com alguma dignidade, reveste-se de algum verniz cultural e civilizatório e, aí, vem uma realidade acachapante e leva de enxurrada, de água abaixo, o pouco da imagem que você ajudou a construir — não é para deixar no mínimo descontente quem tenha orgulho sadio de sua terra?

É uma coisa assim meio fresca meio cidadã que dá na gente quando a gente vê, mais uma vez, o nome da nossa terra ser colocado no liquidificador ético que reduz a um substrato visguento os falares, as posturas e os fazeres de cidadãos autoproclamados acima de qualquer suspeita.

Sei que em política não existem candidatos a santo nem santo lançado candidato. Não é à toa que, em vez de alvas vestes (como a etimologia da palavra “candidato” sugere), os políticos geralmente usem roupas escuras — serve para disfarçar, mimetizar, camaleões que são na política. (Ah… a política!… — essa mistura de arte, técnica, ciência e ilícito penal…).

No íntimo, no íntimo a gente se envergonha quando, pela força da mídia, alguém associa — às vezes inadvertidamente — o nome da pátria estadual a uma falta de vergonha, a um crime, a um mau exemplo, a uma grande mentira, a atos de corrupção. Não. Veementemente, não! Meu estado, o Maranhão, é muito mais que uma convenção política ou dúzias de notícias na mídia. Meu Maranhão é, em essência, um estado de espírito, exemplo histórico de coragem, uma idéia de futuro, um orgulho cultural e, por que não, uma paixão pessoal, uma ainda acanhada vontade coletiva. Meu estado não é um prenda a ser apropriada por pessoas, famílias, grupos ou quadrilhas.

Pela média de vida brasileira, homens e mulheres chegam a pouco mais de 70 anos. Por que esse encantamento material, essa frouxidão moral pelo Poder e pelo dinheiro? De maneira simples ou simplória, pergunte-se qual o sentido de governantes e gestores públicos municipais, estaduais e federais quando usam e abusam de toda uma rede de relacionamentos, toda uma teia de contatos, toda uma corrente de atravessadores para tirar vantagens ilícitas dos recursos públicos dos órgãos públicos que deveriam ser transformados em obras e serviços públicos?

Você acha que é querer ser inocente demais para fazer questionamentos assim, nos tais dias de hoje? Então, você é dos que, frente ao palácio de Pilatos, se ajuntariam em coro à multidão que gritava “Barrabás! Barrabás!” e, delirantemente, desbragadamente, condenava Cristo à cruz. Porque, para você, o que vale é a realidade ali, nua, crua, do é-assim-que-é-feito, assim-é-que-é, política-é-desse-jeito-mesmo — …e quem disser ou fizer algo diferente é metido a besta, é imbecil, idiota, idealista, sonhador, pobre-coitado. O que vale é a vida na prática.

Então, deixa ver se entendi: Políticos são assim mesmo — corruptos. Justiça é assim mesma – vendida. Pobre é assim mesmo – teimoso. Colunistas são assim mesmos – pretensiosos.

Tá bem. Não importa o que digam, estarei sempre ao lado do meu município, do meu estado e do meu país, e não de pessoas que dizem que os amam, que falam que fazem — e, quando vai se ver, no final são uns aproveitadores, uns dilapidadores, uns malbaratadores, uns ladrõezinhos caros. Segundo jornal do Rio de Janeiro, em desperdício e em roubalheira, já roeram do povo brasileiro cerca de 700 bilhões de reais (com 170 bilhões acabar-se-ia a pobreza e construir-se-iam todas as casas que faltam para as famílias sem-teto brasileiras). O problema do Brasil, dos estados e dos municípios não é de falta de dinheiro – mas de falta de vergonha na cara…

Por que essa sede permanente, essa compulsão eterna por negociatas, sujeiras, propinas, imundícies? Por que essa crença de intocáveis, essa empáfia de todo-poderosos, essa arrogância de semideuses?

Uma das operações da Polícia Federal chamava-se “Navalha”. Não sei o porquê do instrumento cortante. O que sei é que a carne que navalhas assim há séculos vêm perfurando, cortando, rasgando, dilacerando não é a dos tais senhores que roubam, roubaram e continuarão roubando o patrimônio do povo.

A navalha que, verdadeiramente, vem sendo enterrada mais fundo não é a que visa políticos e empresários: é a que acerta a barriga dos famintos de todo o país, a que escalpela os despossuídos, a que, certeira, faz sangrar o coração do povo brasileiro — e, no que me diz respeito, a alma dos verdadeiros maranhenses.

Que dor… Que vergonha…



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