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Os camaleões e o muro

dom, 13/11/11
por Ivan Sarney |
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Há algum tempo, em nossas caminhadas matinais pela lagoa da Jansen, venho observando, na diversidade das vidas que ali se exibem e desenvolvem,  alguns camaleões que costumam ficar sobre um muro mal cuidado que dá para um terreno baldio, onde brotam chananas amarelas, em qualquer estação.  

O muro, de média altura e tijolos aparentes, delimita um terreno edificado, cuja frente dá para a Rua das Andirobas, no bairro Renascença. O terreno baldio dá para a pista de Cooper e para a pista de bike; dá para o manguezal que margeia a lagoa, naquelas imediações; dá para a paisagem mais verde e bela da lagoa, que é bela pelo espelho de águas serenas, pelo mangue que emerge das águas, em ilhas de folhas, de sombras e verdes, onde garças, marrecas, jaçanãs, se abrigam e acasalam, enchendo de sons as manhãs alvorecidas. 

A lagoa dá para o verde que a margeia, em toda a sua extensão; dá para o dia que amanhece, com todos os bem-te-vis que ali cantam; dá para o verde que floresce em cada um de nós que ali caminhamos, independente do odor que dela se desprende, em algumas épocas, bem mais distante dali, do outro lado, já perto da Ponta D’areia.

No entanto, indiferentes ao dia que amanhece naquele espaço ou à manhã que alvorece em nós que os vemos e, ali, caminhamos, os camaleões se deixam ficar sobre o muro desprezado, como parte da paisagem daquele cenário, quase sempre no mesmo espaço, e nas mesmas posições.
Não passam de quatro, quando mais se exibem. Na maioria das vezes, são apenas três. Mas conseguem, mesmo sendo tão poucos, marcar as horas do dia e chamar a atenção dos que ali passamos, olhando, em torno de nós, o que há de forma e cor na paisagem que nos cerca.

Vendo de onde os vemos, numa distância não maior que quinze metros, parecem uma família. O maior, o mais robusto, tem rabo longo, tem crina alta, tem papo grande, a cabeça ornada de símbolos. O segundo maior não tem a opulência do primeiro, não tem a mesma robustez, nem tão acentuados sinais de espécie, como crina, papo, rabo. A ao vê-los, assim, de onde os vemos, parecem macho e fêmea, na tarefa de se reconhecerem, a cada dia, para decidirem se acasalar, para repetirem o acasalamento, para, simplesmente, se enternecerem à luz da manhã.

Por isso, se postam um diante do outro, a pouca distância, e ficam, quase estáticos, olhos nos olhos, numa troca de mensagens simbólicas, de energias que se enlaçam e os tornam muito verdes, sob um sol muito claro e uma manhã muito morna, ainda.  Assim, ficam, por muito tempo, por quase uma hora, talvez brincando de estátua, para ver quem primeiro se move, sabendo que aquele que primeiro se move é o perdedor.

Quando não caminhamos, conto o tempo de uma hora pelas quatro voltas de bicicleta que fazemos, completando o circuito de nosso condicionamento físico, em torno da lagoa, meu amor e eu.

Os camaleões menores, quando são dois, ficam bem mais distantes dos dois adultos, quase dispersos, como se fossem estranhos àquela relação, àquele quadro, àquele cenário que compõem. Mas eles, os menores, como filhotes que parecem ser, talvez observem, de longe, para sentir, para aprender os jogos de sedução que há entre machos e fêmeas, para saberem praticar na época de procriação.

Mas, se ainda não for isso, talvez estejam no aprendizado de viver com seus próprios esforços, buscando alimentos sem o auxílio, caçando nas imediações as presas possíveis a seus imaturos recursos. Tudo isso, sem a vigilância, sem a atenção dos pais que, em extremo magnetismo, vão se deixando ficar em contemplação, em atração absoluta, criando condições para multiplicação da vida, para a reprodução da espécie que representam, no estreito espaço de um muro mal cuidado.

Meses atrás, um camaleão macho, talvez o mesmo que vem chamando minha atenção em cima do muro, agora, era o mais destacado e exótico visitante de uma árvore, de copa muito vasta e viçosa, não muito distante do muro mal cuidado. Mas do lado oposto, margeando as águas da lagoa. Ficava ele, ali, no seu mimetismo, exuberante, curvando galhos com seu peso, tão verde e tonalizado como as próprias folhas da árvore que lhe servia de abrigo ou palco.
Muitas vezes, meus olhos não conseguiam distingui-lo entre as folhas, tal era a perfeição de sua camuflagem, para fugir ao risco que nossa presença humana trazia para sua segurança de camaleão.

Os camaleões que se deixam ficar sobre o muro, talvez por se sentirem mais seguros, não parecem necessitar da camuflagem para estarem ali, em plena manhã alvorecida. No entanto, talvez a usem, em menor intensidade, apenas para se seduzirem mutuamente ou, ainda, para o macho seduzir a fêmea, mostrando seus encantos, sua beleza cromática.

Muitas pessoas, a exemplo dos camaleões do muro mal cuidado, se deixam ficar sobre muros, na tentativa de atrair, de seduzir pessoas, de esconder propósitos, de não assumir posições que consideram inoportunas, de não mostrar, claramente, suas idéias, suas convicções, seus propósitos. Muitas pessoas, como os camaleões, usam seu mimetismo social, que tanto pode ser a roupa, quanto pode ser a mudez e a fala, o recolhimento ou os gestos, para enfrentarem dificuldades, para passarem em brancas nuvens, para não serem notados, para poderem se defender, para poderem atacar. Enquanto caminhamos, os camaleões do muro mal cuidado se enternecem ou se preparam para acasalar. E a vida vai oferecendo lições de viver, nas cenas que protagonizam na manhã alvorecida. Amar a cidade é aprender suas lições de vida. É preciso amar a cidade.

ivansarney@uol.com.br

Ante os olhos lenientes do estado

qui, 10/11/11
por Ivan Sarney |
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Escrevi, há algumas semanas, um artigo, nesta coluna, sob o título: A família contra a parede, onde abordei o drama da instituição família, na sociedade contemporânea, entre o crescente aumento de violência perpetrada contra ela, por parte de descendentes drogados, ceifando vidas de pais, de avós, de tios, numa verdadeira síndrome, dramática, da violência doméstica de nosso tempo.

O artigo suscitou muitas manifestações positivas, por parte dos leitores, gerando solicitações que o republicasse, para atender a interesse de muitos que não puderam lê-lo, e de outros que gostariam de vê-lo mais difundido.

Para esses, e para aqueles que gostariam de relê-lo, estou reproduzindo o seu conteúdo, na íntegra, com o complemento do título atual, o que permitirá sua leitura, a partir do seguinte título: A família contra a parede, antes os olhos lenientes do estado. 

- A mídia eletrônica e impressa tem exposto, no dia a dia do noticiário que divulga, um drama que está atingindo a família, em boa parte do mundo civilizado, mas que alcança especial relevo em nosso país. Esse drama tem como protagonistas, de um lado, adolescentes usuários de drogas e, do outro lado, familiares desses mesmos adolescentes. O drama tem tido como desfecho a morte de familiares, quase sempre pais ou mães, mas, também, avós, irmãos, e todos os que possam representar obstáculos à sanha incontrolável de obtenção de dinheiro para a compra de drogas, por parte dos viciados agressores.

Esta semana, a mídia noticiou o caso do jovem que assassinou a mãe, por estrangulamento, no auge de uma discussão em que pretendia mais dinheiro para compra de drogas. Pretensão essa que não tem fim.

Na matéria em que noticiou o fato, uma rede de televisão fez divulgar, também, matérias alusivas a crimes pretéritos, recentes, com o mesmo drama familiar e as mesmas motivações de viciados. O jovem que assassinou a avó e uma servente da casa, que foi preso dopado, em estado de letargia, após os crimes e o uso das drogas que tanto buscara. Um outro jovem que assassinou o pai, por motivações semelhantes: desejo incontrolável de mais dinheiro para a compra de drogas, para alimentar um vício que pede para ser satisfeito a cada momento em que passam os efeitos da última ingestão, segundo os viciados e as pesquisas científicas.

Os criminosos, nesses casos, são criminosos ocasionais, que agem pelo impulso, por estarem tomados pela necessidade de viciados, que submete o corpo e a mente às ações mais cruéis e condenáveis como o assassinato de genitores ou outros familiares, pelo fato de representarem obstáculo e, ao mesmo tempo, meio para a obtenção das drogas que tanto precisam para alimentar seus vícios e suas próprias vidas.

Começam por gastar além do que podem, para alimentar um vício que acontece como um processo. Primeiro, provam gratuitamente. Depois, começam a comprar, em pequenas quantidades, drogas de custo mais barato. Depois, ainda, são induzidos a comprarem drogas mais pesadas e caras. E quando estão nos limites de suas dependências, de suas possibilidades financeiras, roubam dinheiro em casa; vendem aparelhos domésticos e bens móveis de seus familiares; pressionam os pais, cada vez mais, para que lhes dêm dinheiro e, quando não conseguem mais, até mesmo por os pais não disporem de mais, acabam por cometer os homicídios, num gesto inconseqüente e desesperado, ante a negativa dos pais ou outros familiares.

O arrependimento e a depressão vêm depois, quando, presos e em crise forçada de abstinência, conseguem compreender a extensão e o caráter criminoso de seus atos. Assassinos dos próprios pais a quem, quase sempre, eram ligados por fortes laços afetivos. Pais com quem viviam, e que os alimentavam e vestiam, cumprindo seus deveres paternos.

A família está contra a parede, sob os olhos lenientes do estado. Contra a parede pela dificuldade de criar e educar, dentro de padrões éticos e morais que sejam socialmente comprometidos com o passado, o presente e o futuro, num mundo que troca de valores como troca de moda: a cada estação. Contra a parede pela ausência de instituições públicas que apossam ampará-la, nos casos de graves conflitos, por usuários de drogas, adolescentes ou adultos. Contra a parede porque os pais têm sido as maiores e mais graves vítimas desse processo dramático, no cumprimento de seus deveres legais, afetivos, biológicos. Contra a parede porque, na medida em que cresce o número de usuários de drogas, entre adolescentes, e esses adolescentes, quase sempre, vivem com seus pais, aumenta potencialmente o número de pais que poderão ser vitimados por esse processo cruel.

Contra a parede, também, pois na medida em que a família estiver, estará a sociedade, que tem na família a sua base constitutiva, a sua principal célula. Contra a parede acabará ficando nosso país e alguns países do mundo, se não forem adotadas medidas eficazes de combate ao narcotráfico, aos traficantes, buscando estancar, por um lado, a oferta dessas drogas que tanto comprometem a juventude, e nosso futuro. Por outro lado, precisamos adotar medidas de proteção à família, instrumentando-a para o melhor cumprimento de suas responsabilidades, com o aval direto e determinado do estado.

Os jovens precisam de esperanças, de utopias que possam construir, e que constituam motivações positivas para as perspectivas do futuro. Essas motivações podem ser dadas pela família, com o exemplo dos pais, num primeiro momento. Em maior escala, devem ser dadas pelo poder público. A família está contra a parede, sob os olhos lenientes do estado. O tecido social continua apodrecendo, em função da criminalidade visceral dos jovens viciados. Amar a cidade é proteger a família. É preciso amar a cidade.

ivansarney@uol.com.br

Vivendo o novo século, a era de Aquários

sáb, 29/10/11
por Ivan Sarney |
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Na passagem do ano dois mil, para o ano de dois mil e um, vivemos a perspectiva de início de um novo século e de um novo milênio. Essa perspectiva constituiu-se na grande motivação de nossos sonhos e de nossas esperanças, movendo-nos para a busca de resultados positivos para nossos projetos pessoais e sociais. O século XXI foi esperado como o Século do Homem. Essa diretriz deve continuar norteando todas as nações e povos, dos cinco continentes do mundo, impregnando seus grandes líderes, seus agentes políticos; impregnando-os dessas aspirações coletivas, para a implantação de políticas públicas que sejam indutoras desses anseios, quanto aos destinos do homem.

Essas aspirações, esses anseios, no entanto, precisam de práticas que os materializem.
Podemos ser agentes de transformação, como pessoas. E as transformações do mundo podem começar em nós.  A crença do século XXI como O Século do Homem deve implicar numa renovação antropocêntrica, que possibilite a reabilitação individual e social do homem, resgatando-lhe valores culturais, morais e éticos, com objetivos de construção de uma cultura da paz, da solidariedade, da liberdade, como condições indispensáveis para qualidade de vida na Terra.

Em algumas palestras que realizei, tive oportunidade de expressar, vivendo a perspectiva do novo século, que nenhum projeto humano ou institucional, elaborado naquele momento, deveria acontecer sem considerar essa perspectiva, esse paradigma das luzes do século XXI e do Terceiro Milênio. Havia muita energia envolvida naquele processo de mudança, incluindo as condições cósmicas, as influências energéticas dos demais planetas e todos os demais corpos celestes que nos influenciam e, de alguma forma, também conduzem nossos passos para a trajetória de nossos destinos.

Já tivemos a graça de viver os primeiros dez anos do século XXI. Esses anseios precisam ser realimentados em nós, em nossas relações pessoais, em nossa forma de ver e de viver a vida. O Século do Homem é também o século do conhecimento e das grandes transformações sociais.
  
Portanto, é preciso que olhemos para nós mesmos, pequenos seres temporais nesse universo cósmico, com uma visão mais exógena, mais extensa e ampla, de uma forma holística; relacionando todas as coisas e nos relacionando com elas também, porque nada está isolado no universo.

Somos energia e, como energia, nos alimentamos de outras fontes de luz. Somos fontes de luz para outros seres e para outras formas de vida, no universo. Por isso, temos uma imensa responsabilidade com os destinos do nosso planeta; esse planeta lindo, que é feminino em seu nome, em seu gênero; que tem dois terços de sua superfície ocupado por água; que nutre nossa existência com todos os elementos vitais para a sobrevida de nossa espécie.

Temos compromissos com a sustentabilidade do planeta Terra. Essa sustentabilidade inclui a diminuição das desigualdades sociais, além da busca de novos modelos de crescimento econômico, que possam assegurar melhor qualidade de vida para o homem, e não comprometa a existência das gerações futuras.

Cada um de nós deve ser agente desse compromisso. Essa responsabilidade está escrita no artigo 222 de nossa Constituição e encontra-se imanente na Declaração Universal dos Direitos do Homem. Portanto, é preciso que nos disciplinemos para uma vida mais solidária, no tocante ao uso dos recursos naturais, à busca da geração de emprego e renda, à diminuição das desigualdades sociais.       

É claro que mudanças de atitudes, especialmente em pessoas adultas, constituem-se em processos que, muitas vezes, são extremamente penosos, mas que também podem ser altamente compensadores. Afinal, todo o universo que integramos é movimento puro e constante. Todos os corpos celestes; todo o nosso sistema planetário; todo o nosso planeta; tudo está em constante movimento e esse movimento deve presidir nossa vida e nossos atos, fazendo-nos mais dinâmicos, em busca de novos rumos e diretrizes que contribuam para o nosso aperfeiçoamento pessoal e social.

Por conta disso, estamos nos aproximando da Era de Aquários, que deve começar em 2015. A Era de Aquários será era do amor; a era em que as pessoas estarão mais predispostas, pela influência de energia cósmica, para viver a dor e as delícias de amar. Acreditando que será assim, assim será. O mundo precisa de utopias para induzir sonhos pessoais e coletivos.

A paz, com certeza, é a mais bela e mais permanente utopia do homem, na face da Terra. Ela é condição indispensável para a construção da felicidade, para o equilíbrio social, para exercício do amor e de todos os outros valores mais elevados do homem. Devemos ter a nossa própria agenda para viver nossa vida e nosso século, contemplando atitudes que favoreçam o estabelecimento de um estado de harmonia entre nós e nossos semelhantes; entre nós e os recursos naturais; entre nós e o Deus, que nos criou e nos dotou de razão. Uma agenda pessoal deve ser o ponto de encontro dos diversos Eu que existem em nós, harmonizando nossa energia para apascentar os nossos semelhantes.

Agir de forma pacífica é não praticar a violência. Não praticar a violência é um ato de muita meditação e força interior; um gesto deliberado de disciplina, resultante da educação familiar e formal; um compromisso com a vida. 

Alguns compromissos, a partir de agora, devem-se constituir diretrizes de nossa vida cidadã,  imantando-nos para a busca de melhores condições de vida para a espécie humana. Nossa vida não começa e termina em nós. Ela é decorrente de outras vidas, e tantas outras vidas dela decorrem. Uma parte de nós é unitária a outra é coletiva. Desse dualismo é feita a nossa alma, em sua síntese mais representativa. Não devemos esquecer isso, e não podemos deixar de aprimorar essa nossa essência, andando na contramão dos anseios da humanidade. Amar a cidade é pensar de forma global e agir no seu espaço local, fazendo a sua parte. É preciso amar a cidade.

ivansarney@uol.com.br

A bela Festa da Juçara no Maracanã

sáb, 29/10/11
por Ivan Sarney |
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Há mais de 40 anos, a Festa da Juçara acontece no bairro do Maracanã. Uma festa inspirada na natureza, em seus encantos sazonais e verdes, em nossas tradições alimentares. Uma festa criada pelo dinamismo, pelo amor, pela devoção ao meio ambiente e à nossa cultura, que movia a professora Rosa Mochel.  Foi ela a grande idealizadora desse evento, quando residia no Maracanã, num belo e frondoso sítio, onde produzia  mudas e cultivava plantas ornamentais e frutíferas. Ali ela criou um projeto de educação infantil, denominado Casa de Alice; um projeto para educar e promover o lazer das crianças do bairro, com inspirações nitidamente  ambientais. Ali ela deixou plantadas as sementes dessa festa, hoje transformada numa tradição popular, pela determinação, pela garra dos moradores daquele bairro que organizam os festejos.

Quando ela se encantou para a eternidade, seu sítio foi desmoronando. Hoje perdeu seu encanto, e tudo o que ali restou foram as recordações de um passado construtivo e próspero para as crianças daquela localidade. Sua experiência, seu trabalho pioneiro, tudo o que ela deixou edificado, como fruto de sua sabedoria e seu prestígio social, foi esquecido pelo poder público, que não foi capaz de reconhecer, de enxergar e recolher aquela experiência, exemplarmente bem sucedida, para mantê-la viva; para implantá-la em outros locais, onde houvesse condições propícias.

A Festa da Juçara permaneceu. Vem sendo realizada, nos sucessivos anos, sempre no mês de outubro, nos quatro domingos, que é quando a juçara está mais madura e abundante no Maracanã e em toda a nossa ilha. Transformou-se, logo nos primeiros anos, em uma festa popular, por excelência. Mas onde as autoridades, os intelectuais se misturavam e misturam com a gente simples do povo, irmanados pelo prazer de saborear, na mais autêntica de nossas tradições de preparo, a melhor juçara da cidade.

O poder público, estadual, tinha um envolvimento muito grande com a promoção dessa festa, fazendo-a integrar o calendário de eventos do estado, e dando o apoio devido para que ela acontecesse, todos esses anos. Com maior ou menor participação, dependendo dos recursos alocados, o estado esteve presente, cumprindo o seu dever como indutor de desenvolvimento, como promotor e protetor da cultura. Tudo isso, foi benéfico para as nossas tradições, para o nosso turismo, para a alma popular dos ludovicenses.

Nos últimos anos, a festa vem perdendo a sua força promocional, o seu caráter de evento turístico para o Maranhão, sendo cada vez menor a presença do poder público na infra-estrutura de apoio aos seus realizadores,  que são um grupo de homens e mulheres daquele bairro. O local é um belo sítio, de propriedade do do estado, se não me egano, que fica ocioso durante todo o ano e só no mês de outubro assume a sua importância comunitária, abrigando a festa.

Além disso, a luz, a água, as barracas de palha, os shows atrativos, o caminhão para transporte da juçara; tudo isso era bancado pelo poder público, em anos pretéritos. Hoje, com o chamado processo de “modernização do estado” está sendo difícil ao governo estadual cumprir esses compromissos, apesar da importância do evento. Especialmente, há muitas  carências, passando pela necessidade de promover a festa de forma mais adequada.

É interesse dos organizadores a constituição de uma cooperativa de barraqueiros, para ser comodatária do sítio onde a festa se realiza, para que eles possam explorar, durante todo o ano, aquele local, angariando fundos que os permitam promovê-la, sem ônus para o estado. Assim aconteceu com o Parque do Folclore, na Vila Palmeira, entregue à Associação dos Bumba-Meu-Boi de Matraca. Aconteceu também com o Parque Independência, onde se realiza a Expoema, hoje entregue à Associação dos Criadores do Estado do Maranhão.

Acho que essa é a solução mais sensata e mais lúcida para que a Festa da Juçara continue e para que a tenhamos, como um dos pontos altos do nosso calendário de eventos, que tem que se consolidar definitivamente, se quisermos desenvolver o fluxo turístico em nosso estado.

Por outro lado, o estado não pode se omitir de alguns de seus deveres essenciais. Entre esses, está o dever de proteção à cultura. Essa cultura deve ser entendida, em seu sentindo antropológico, ou seja, em sua concepção mais genérica possível, como produto de todo o esforço do conhecimento e da experiência humana, acumulada e transmita por processos orais ou não, mas formadores da identidade dos povos, das sucessivas gerações.

Vamos todos ao Maracanã com sentimentos de esperança, sabendo que a força do querer pode transformar todas as coisas; sabendo o povo é sábio em todas as suas decisões, porque elas nascem de uma alma coletiva, de uma alma popular. Amar a cidade é celebrar seus usos e costumes. É preciso amar a cidade.                     

ivansarney@uol.com.br

O alegre canto do galo urbano

sáb, 29/10/11
por Ivan Sarney |
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Na rua onde moro, com Janaína, minha mulher e meu amor, entre modernos prédios de dez pavimentos, num dos bairros elegantes da cidade, mora também um galo cantador. É dele o privilégio de anunciar o dia, como acontece nas fazendas, nos sítios, nas chácaras, tão distantes da agitação urbana, tão mais propícios a esses encantos naturais. É dele o privilégio de viver, num bem montado galinheiro, dividindo essa regalia com o assédio, o afago de três fêmeas.

Nós e o galo temos endereço certo. Ele, no final da área de lazer e grama, da creche Conviver. Nós, no aconchego de um apartamento, de onde podemos ver-lhe, chegando, apenas, na sacada. Ambos, na Rua dos Sabiás.

Os galos que cantam nas fazendas, nos sítios, nas chácaras, têm o dom de anunciar o dia, quando a barra do dia vem surgindo no horizonte, bem cedinho da manhã; quando a alvorada começa a realçar as formas das coisas, iluminando-as com os primeiros raios do sol.

O galo que canta na rua onde moramos, no entanto, parece ter pressa em ver nascer o dia, em ver passar as horas, em encurtar o sono dos que dormem, em torno de seu canto, anunciando uma alvorada que ainda não veio, que ainda tardará pelo curso das horas, mas que não deixará de vir. O galo da rua onde moramos, quase sempre, canta às quatro e trinta da manhã. Ele é pontual. Não costuma atrasar, em seu canto alvissareiro.

O galo que canta na rua onde moramos, canta para o bairro inteiro, acordando a vizinhança, partilhando a insônia dos notívagos, abreviando o sono dos justos, rompendo o silêncio da madrugada soturna, na ânsia de prazeres e pecados.

Mas, o galo de nossa rua não canta sozinho. Um galo, para quem já ouviu um galo cantar, onde quer que um galo cante, jamais canta sozinho. Há, sempre, um outro galo que responde, perto ou longe. Distante, cantará sempre, um outro galo, mais distante ainda. E os cantos repetidos dos galos, nas manhãs ou nas tardes, são gestos de cumplicidade, de resposta, de uma certa aquiescência a propósitos, a propostas que só os galos podem entender.
 
Quando ele canta, e reafirma o canto, como um desafio, um galo, distante, aceita o convite e repete o canto, quase como um eco. E o dueto, alternado, toma conta da madrugada, envolvendo o bairro inteiro, a partir da rua onde nasce e onde esplende, em que pese a escuridão.

Em verdade, um galo parece cantar para outro galo ouvir e responder, para outro galo imitar, aprender a cantar, numa espécie de desafio expresso, onde o canto mais alto, mais compassado, mais estridente, possa ser uma espécie de charme e sedução para atrair fêmeas, assegurar domínio ou mando de espaço territorial.

Um canto de galo na madrugada, à moda do galo de nossa rua, todavia, parece estar além do desafio a outro galo, de uma espécie de aviso sobre quem domina o espaço onde ele habita, sobre quem manda no galinheiro.

O canto parece mais um brado, um alerta para o dia que vai amanhecer. Porque o dia que vai amanhecer, muito além do canto do galo, é um desafio de intensas e intermináveis melodias, de renovados cantos, de ecos e aparentes repetições, e deve nos sacudir, nos despertar como o canto dos galos.

Sempre me intrigou o canto dos galos. A beleza sonora de seu toque de alvorecer, seus enfáticos e repetidos dobrados. Sempre me intrigou pela característica melódica de suas notas, pela pontualidade de seus horários, pela cumplicidade de outros galos e outros cantos, que vão se completando, intermitentes, como se fosse um canto só.

Um galo, então, pode transmitir uma mensagem a outros galos, distantes. O mais próximo vai levando ao mais longínquo, numa festa de tons e semitons, repetidos, cheios de sonoridade, encanto e magia.

O que faz um galo cantar, sempre, às mesmas horas do dia, no curso de sua existência? O que faz o galo cantar, quase sempre, às seis horas da manhã, anunciando o dia que vai acontecer? O que leva um galo a cantar, ainda, depois do almoço, na hora da sesta, nas fazendas, nas chácaras, nos sítios, onde quer que ele esteja? O que faz um galo cantar, de forma diferente, nessas horas distintas?

Sim, porque o canto do galo que anuncia o dia que alvorece, não é o mesmo  canto, do mesmo galo, que consagra a hora da sesta. O canto do alvorecer é forte, vibrante e curto. Tem ar de trombeta, saudando a alvorada. O canto que consagra a sesta é nostálgico, longo, morno, dolente. Basta sentir os dois para perceber essas nuances, em seus perfis.

O galo que canta na rua onde moramos, no entanto, não é dado ao canto de depois do almoço. Posso entender que ele não é chegado a essa nostalgia, preferindo ser arauto da manhã. Mas, nem por isso deixa de ser nostálgico, também, cantando, vez por outra, às três horas da tarde.

O galo que canta na rua onde moramos é um privilégio, um presente que o pessoal da Creche nos deu, a todos, da rua, do bairro, da cidade inteira. O privilégio de encontrar, num espaço essencialmente urbano, a realidade telúrica dessa maravilha da vida rural, essência pura de nossas vidas. Encontro com nossas referências, com nosso passado, com as sutilezas de nossa alma, de nosso espírito, para nos enternecer, nos acordar, e para acordar e educar as crianças que, com o galo, convivem, todas as manhãs de atividades escolares.

O canto do galo de nossa rua deve amanhecer em cada um de nós, como uma esperança, como um toque de sentido para o dia que amanhece. O dia que amanhece deve ser a semeadura do galo que canta, fora e dentro de nós.

Notas na mão, cidadãos! O Estado precisa!

sáb, 29/10/11
por Ivan Sarney |
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Ainda se encontra muito viva, na memória de todos os esportistas do Maranhão, a lembrança de um dos mais populares programas do governo de Roseana, denominado Nota na Mão. Através dele, o cidadão participava, com entusiasmo, do esforço de arrecadação do Estado, exigindo a Nota Fiscal de suas compras, no comércio.

Em contrapartida, essas Notas Fiscais eram trocadas por ingressos de acesso ao estádio Castelão, nos jogos dos campeonatos maranhenses, o que possibilitou algumas dezenas de jogos com estádio lotado, torcedores mais felizes e reforço financeiro no caixa dos clubes, por um lado.

Por outro lado, aumentou significativamente a arrecadação estadual que era o outro objetivo do programa Nota na Mão. O próprio nome do programa já sintetizava esse aspecto fiscal de seu conteúdo, a partir do exercício responsável desse aspecto da cidadania que é a fiscalização, inerente a todo cidadão enquanto consumidor e contribuinte, evitando a sonegação tributária.

Nunca o estádio Castelão, em jogos estaduais, foi tão freqüentado, tão lotado, como nos anos em que esse programa de governo foi executado. Com suas acomodações em perfeito estado de conservação, com sua estrutura física intacta, o estádio e o nosso futebol viveram dias de glória especial, com a presença de famílias, de torcidas organizadas que proliferaram, de comércio informal, que se multiplicou em torno e dentro do estádio; com mais ampla transmissão de rádios de televisões.

Foram tempos exemplares para o nosso futebol, sob o aspecto de presença de público, de gente no estádio, de torcidas que davam vida, cores e sons a todos os jogos que ali se realizaram, sob a égide desse programa que teve uma felicíssima concepção.

Estádio lotado sem qualquer custo adicional aos torcedores, ao público que o lotava; sem pagamento de ingressos, porque os ingressos tinham sido obtidos pela simples troca de Notas Fiscais, das compras que cidadãos realizávamos no comércio, como um todo. Esse foi o maior mérito do programa. Estimular o aumento da arrecadação, através do combate à sonegação fiscal, ao mesmo tempo em que estimular o desenvolvimento do nosso futebol, através da presença do público nos jogos, e do apoio financeiro aos clubes.

Hoje, quem passa pelo estádio Castelão, abandonado há quase dez anos, por estar com parte de sua estrutura física comprometida, sente uma tristeza profunda com a perspectiva de seu futuro de abandonado, com o vazio e o silêncio de lembranças que vivem ali, gritando, pedindo, querendo atenção, cuidado, socorro, que certamente não virão, também, no próximo ano.

Bons tempos, aqueles! Centenas de pessoas, amantes do futebol, fieis torcedoras de nossos principais times, já exclamaram esta frase, em algum momento, nestes últimos anos, em nosso Estado, vendo o abandono e o descaso com o nosso futebol e com a nossa principal praça esportiva que é o Castelão.

Bons tempos, aqueles! Sim, com estádio cheio, sem pagar ingressos e, algumas vezes, com a carismática presença da Governadora Roseana, vibrando, torcendo, compartilhando com o povo seu charme, sua simpatia,  suas alegrias e esperanças.

Nossos principais clubes, Moto, Maranhão, Sampaio, Imperatriz, já foram e continuarão sendo prejudicados com a interdição do estádio. Ainda o serão, por mais algum tempo, até que as obras do estádio, já determinadas pela governadora Roseana, sejam realizadas; como resultado do trabalho comprometido, com entusiasmo e obstinação, do atual secretário de Estado de Esporte e Lazer, o querido amigo Joaquim Haickel. 

Tomara que o rigoroso inverno deste ano, não tenha agravado, de forma comprometedora, a parte de sua estrutura física  que está danificada e que motivou a interdição pelo CREA e a Defesa Civil. E que ele continue a resistir a todo o descaso a que foi condenado por omissão, e volte a viver seus dias plenos de outrora.

Por outro lado, a governadora Roseana instituiu um novo programa “Nota na Mão”, no interesse da arrecadação estadual e do incentivo ao esporte, através do futebol. Para tanto, buscou a motivação dos cidadãos para êxito do programa que já mostrou, em sua versão primitiva, uma grandiosa participação popular. Eles irão incentivar seus clubes e proporcionar, a todos os amantes do futebol, melhores dias de entusiasmo, de participação, de crescimento, orgulhando a todos os maranhenses.

Nossas congratulações a governadora Roseana, ao secretário Joaquim Haickel, a todos os cidadãos maranhenses, torcedores fervorosos  e pacíficos de seus clubes, aos nossos clubes de futebol. Amanhã será outro dia. Amar a cidade é crer no amanhã. É preciso amar a cidade.
 
ivansarney@uol.com.br

Uma esperança contra a violência social

sáb, 29/10/11
por Ivan Sarney |
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No exercício do mandato de vereador, através de um Projeto de Resolução de minha autoria, instalamos, na Câmara Municipal, uma campanha permanente pela paz, no município de São Luís. Era o ano de mil novecentos e noventa e nove e esse trabalho atravessou o meu mandato de presidente da Câmara, com o mesmo vigor e entusiasmo com que foi concebido e implantado, com o apoio e o estímulo dos vereadores de então. Envolvemos escolas públicas e privadas, famílias, instituições como a Unicef, empregando uma metodologia sistemática, com respaldo teórico.

Tal campanha, com o nome de Adeus às Armas, representou e pode continuar a representar um gesto muito explícito de valorização da vida humana, uma contribuição do poder legislativo municipal, contrapondo-se à violência que está grassando entre nós, ceifando dezenas de vidas, todos os dias.

Precisamos incentivar nas crianças e nos adolescentes, a partir de nossos laços paternos, uma cultura de paz que os estimule a serem adultos plenos de valores morais e éticos, praticando a fraternidade, a solidariedade, a própria paz, como premissas da amizade e do amor, em seu sentido mais amplo, para uma vida mais saudável e construtiva.

Sabemos que a violência é um dos instintos da espécie humana, convivendo conosco, de forma latente, por toda a nossa vida. A paz é um ideal, um sonho a ser alcançado, sendo produto de reflexão, de determinação de conquistá-la, como uma condição para nossa própria felicidade.

A violência, por ser instintiva no ser humano, independe da condição social e econômica dos povos. Ela permanece em estado de latência e pode ser exercitada, a qualquer momento, despertada por uma situação adversa que a estimule. Os fatores sociais são condicionantes de comportamentos violentos.
Eles não são, no entanto, determinantes da violência na espécie humana. A violência é inata no homem e está ligada, biológica e ontologicamente, à sua história social, passando por todos os estágios de nossa evolução.
Não podemos esquecer, no entanto, que o homem é o reflexo de sua criação, daquilo que lhe foi ensinado na mais tenra idade, na família e na escola, até em torno dos 10 anos, quando os traços fundamentais de nosso caráter e de nossa personalidade se formam.

Valores como amor, solidariedade, fraternidade, respeito aos mais velhos, às leis e regras de convívio em grupo; os princípios éticos, o sentido da liberdade responsável, os limites do possível e do não possível; todos esses valores, que são éticos também e definitivos, só podem ser aprendidos nessa fase de formação do futuro adulto.

Portanto, é necessário que nos empenhemos para dar uma formação mais adequada aos nossos filhos, a partir do ambiente de nossa casa, de nossa família. A cada dia, o mundo fica mais amplo para o cidadão de qualquer país, motivado pelos avanços de uma sociedade cada vez mais globalizada em seus valores, sua comunicação, seus códigos de conduta, e nos torna responsáveis pela sustentabilidade do planeta e pela sobrevivência da espécie humana.

A cada dia, no entanto, devemos nos sentir mais responsáveis pelos destinos da espécie humana, pela segurança de cada cidadão, do conjunto da sociedade, buscando ressaltar valores que engrandeçam a nossa espécie, evitando os que contribuam para sua degradação social.

Pretendemos formar gerações mais pacíficas, que se identifiquem com os valores mais elevados do homem e possam contribuir para uma vida mais construtiva, respaldados no amor, na solidariedade, na paz. Para isso, a educação que nós pais devemos dar a nossos filhos tem que ser compatível com esses valores positivos, com os sentimentos e os anseios de um mundo melhor, evitando estimular a violência sob quaisquer que sejam as suas formas. 

Devemos, portanto, estar atentos para não darmos exemplos de violência em nossa própria casa, nos métodos de disciplina familiar que estabelecemos para a educação de nossos filhos e na relação que temos com o nosso cônjuge. Do mesmo modo, os brinquedos com que presenteamos nossos filhos não devem representar um estímulo à violência.

A maioria dos jogos eletrônicos representa um virtual treinamento para a violência, para matar. Esse treinamento é mais cruel porque os jogos são interativos, fazendo com que a criança que os está manipulando aponte e dispare armas, matando, destruindo tudo o que aparece como alvo móvel. 

É claro que as crianças que crescem treinadas assim vão banalizar a vida e matarão sem piedade, como se estivessem jogando no vídeo game. Crianças e adolescentes estão passando cada vez mais tempo ante a tela do computador e jogos eletrônicos estão no âmago de seus interesses lúdicos.

Não comprando esses jogos, não presenteando com armas de brinquedos, não estimulando as crianças a praticarem a violência, sob qualquer forma, não deixando armas ao alcance de das crianças, estaremos contribuindo para um mundo mais pacífico, dentro dos anseios de paz universal que deve ser a grande utopia do novo milênio. Um adeus às armas, portanto, deve ser praticado, como precondição ao amor e à paz. Amar a cidade é praticar a paz e proteger as crianças e os adolescentes. É preciso amar a cidade.

ivansarney@uol.com.br

O canoeiro solitário e o encanto da lagoa

sáb, 29/10/11
por Ivan Sarney |
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Acostumei-me a vê-lo nas manhãs de verão, logo no início delas, quando a luz do sol ainda é branda e o verde do manguezal viçoso mais resplende, nas lufadas de vento que agitam os pássaros e as águas da lagoa. Acostumei-me a vê-lo, então, em cima do cedo, na gostosa expressão popular que consagra as primeiras horas do dia, logo depois do alvorecer.
 
Assim acostumei-me a vê-lo, quase todas as manhãs, nos longos meses de estio. Eu entregue à tarefa de cuidar de mim, de malhar meu corpo, pedalando a bike ou caminhando simplesmente, em ritmo puxado, em companhia, e sob os cuidados, o carinho e a orientação de Janaína, meu amor.

Ele, distante, talvez trezentos metros, quase entre as ilhas vegetais, feitas de mangue e sal, que povoam a lagoa e a tornam mais bela. Ele sozinho, em uma pequena canoa, quase imóvel aos meus olhos que o distinguem à distância, talvez parado sobre as águas, como se contemplasse, como se perquirisse, como se soubesse ouvir claramente a voz, o som do silêncio que de todo esse encanto se irradia.

Vendo-o de onde sempre o vejo e, da forma como o vejo, me parece um pescador, incansável, insistente, buscando a solidão da lagoa e de sua própria embarcação, para dialogar com os peixes, para enfeitiçá-los com sua rede ou com seus anzóis. Mas nem anzóis, nem rede, meus olhos vêem quando o alcançam nas manhãs, como parte da paisagem da lagoa. Vêem, apenas, um canoeiro solitário compondo o cenário da lagoa e da manhã.
 
As manhãs de pouco vento, com águas paradas, remetem o espelho das águas a refletir o entorno; mergulhando edifícios, árvores, nuvens, na luz e na sombra de uma grande tela classicista, pela própria natureza de sua composição. As manhãs de vento farto agitam as águas, partilhando a luz, turvando as formas materiais que nela se refletem, como numa composição impressionista, onde as formas não têm contorno e a luz se reparte, em fragmentos, quase sem sombras, sobre a superfície da tela.
 
Não consigo dizer, embora possa acreditar, que o homem que vejo na paisagem da manhã é um pescador. Não seria correto afirmar, por absoluta falta de convicção, e por falta de provas também. O que posso assegurar, sob a fiança dos meus olhos, é que se trata de um homem, um solitário homem, em uma canoa, na paisagem da manhã urbana.

Mas que faria um homem, solitário, em uma canoa pequena, quase toda manhã, parado sobre as águas da lagoa, além de pescar? Talvez não fizesse muito se não pudesse se aproximar das garças, das gaivotas, dos maçaricos que ali andam fazendo morada, nessa época do ano, também. Talvez não fizesse muito se não me desse o exemplo de sua presença, de sua determinação, de sua vontade de estar sempre ali, como se fosse uma árvore, alegrando e fertilizando a paisagem. Talvez não fizesse muito se seu exemplo não fosse um estímulo, uma força para os projetos e os anseios que brotam em nossas vidas, e que não devem fenecer sem nossa luta, para que vivam e nos dêem vida também. Talvez não fizesse muito se a vida não estivesse latente além de nós, nas coisas que Deus criou e destinou à nossa serventia.
Talvez não fizesse muito se sua presença, na paisagem da lagoa, não fosse tão simbólica e real, como a imagem da própria lagoa.

Vendo-o de onde o vejo, do lado da lagoa que dá para a Avenida Ana Jansen, não posso distinguir sua fisionomia, nem ver sua face. Não sei, portanto, se ele é jovem, se é maduro, se é idoso. Não sei se tem bigode ou barba, mas sei que usa chapéu. Não sei se tem esperanças, se tem filhos, se tem mulher, se tem dívidas, se tem bens, se tem sorte, se tem lembranças a brandir ou a sufocar, nas águas da lagoa e das manhãs, às quais pertence.

De que me valeria saber tanto ou saber coisas sobre ele, agora? Talvez não me valesse nada. Mas fico pensando que um homem, uma pessoa, não é só um corpo físico, na paisagem cotidiana. Ele é um universo imenso de emoções, de anseios, desejos, prazeres e frustrações. Ele é o próprio infinito, o infinito maior, para lembrar Tribuzzi.

Mas mesmo que nada eu saiba sobre ele, ou que nada me valesse saber, se me fosse dado saber, penso, ao vê-lo parado ali, dentro da canoa, canoeiro ou pescador, nos versos de uma canção de Chico Buarque: “… Pedro Pedreiro espera o carnaval/ E a sorte grande num bilhete, pela federal/ Todo mês/ Esperando, esperando, esperando, esperando o sol/ Esperando o trem/ Esperando aumento para o mês que vem/ E a mulher de Pedro está esperando um filho/ Pra esperar também…”.

Não sei se o canoeiro solitário espera alguma coisa, na pequena canoa que parece inamovível na paisagem da manhã. Caso seja pescador, pode ser espera sim, com o anzol ou a rede dentro d’água, peixes e camarões desavisados.

Caso seja um contumaz contemplador, pode ser espera também, o esboço do cenário cotidiano. A gaivota que pesca na lagoa; as garças que disputam a primazia de um lugar, na espreita da presa, como predadores naturais Há sempre uma razão, um porquê para o verbo esperar. A espera é parte do viver.

Nossos sonhos não prescindem da espera. Ela os integra, desde quando os fomentamos ou construímos, até quando os damos por alcançados.

A imagem do canoeiro solitário, na manhã de estio, tem o dom de encantar quem a contempla, à distância, como sempre me ocorre contemplar, enquanto pedalo ou caminho, como uma motivação recorrente, para as lições que o cotidiano nos pode dar. Amar a cidade é ver, sentir e aprender com as lições  do cotidiano. É preciso amar a cidade.

ivansarney@uol.com.br

A síndrome da crescente violência urbana

sáb, 29/10/11
por Ivan Sarney |
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A televisão não cansa de mostrar, em detalhes dramáticos, os fragrantes dos mais diversos crimes que ocorrem, no dia a dia de nossa vida urbana, em todos os recantos do país.
Indignados, vamos assistindo a toda essa barbárie moderna, banalizando a vida, fugindo amedrontados dos riscos que nos ameaçam, contabilizando as vítimas, e questionando as previsões positivas de um futuro mais luminoso para nossos descendentes, para as novas gerações.

Os crimes se multiplicam, nas grandes cidades, com requintes de especializações, e vão migrando para as cidades de porte médio e, já agora, para as pequenas cidades, onde o sistema de segurança pública exibe maior precariedade.

O elenco de crimes vai desfilando sua nomenclatura, indo do crime passional ao crime político, com assassinatos de encomenda, seqüestros relâmpagos, assaltos a bancos e residências. Além disso, roubos, latrocínios, incestos, estupros, homicídios, cárceres privados, torturas. Não falta criatividade e motivos, muitas vezes banais, para justificar tanta violência, ceifando preciosas vidas humanas, até por balas perdidas. Tem crime para toda indignação.

Para agravar essas constatações, a cada dia, cresce o número de jovens, menores de 18 anos, envolvidos nesses crimes, como autores ou co-autores de crimes hediondos, com todos os requintes da maior crueldade. Esse indicador (aumento da criminalidade juvenil) é o suficiente para acender todas as luzes vermelhas de alerta, em nossa sociedade, exigindo políticas públicas de profundo alcance social, para a reversão desse problema, começando pelo fortalecimento da família.

São Luís não foge a essa dura realidade nacional, muito embora, em proporções de menor ocorrência, mas da mesma natureza e complexidade. O índice de violência urbana, em nossa cidade, está crescendo de forma assustadora e cruel.Basta olhar o noticiário que a imprensa, diariamente, estampa nas páginas policiais, nas manchetes e nas fotografias que publica, nos relatando os mais cruéis e frios homicídios, assaltos, roubos, estupros, sob o império de quadrilhas organizadas, como as gangues ou de criminosos ocasionais, sob o incentivo do álcool. O álcool e outras drogas estão, quase sempre, presentes em todo esse elenco de comportamentos criminosos, que tantas vidas tem ceifado ou tanto trauma tem causado a suas vítimas.

Por onde andamos, sentimos que está crescendo o número de excluídos sociais e que essa exclusão, com absoluta certeza, está alimentando o crescimento vertiginoso da violência que grassa em torno de nós, e ameaça a paisagem de nosso amanhã.

Quais são esses excluídos? Os analfabetos, os que não têm escola, não têm empregos, não têm moradia, não têm assistência à saúde, não têm vestuários dignos e não têm sequer o que comer, no dia a dia. São aqueles para quem a sociedade atual fechou suas portas, negou o exercício de seus direitos de cidadãos e não tem qualquer perspectiva de futuro melhor para lhes oferecer. Esse contingente vem crescendo, atingindo a classe média empobrecida, tolhendo a dignidade humana, numa sociedade que privilegia o capital, a tecnologia e o mercado de consumo. 

No meio disso está o poder público, o Estado institucional, com suas políticas neocapitalistas, e o mundo de economia globalizada, que nos faz prisioneiros de interesses econômicos dos países ricos (agrupados em blocos), interessados sem ampliar o mercado de consumo para seus produtos, e em afirmar seus domínios sob os destinos do mundo.

Tudo isso leva a uma situação de agravamento de nossas tensões sociais, do aumento da disparidade entre pobres e ricos, da excessiva concentração de riquezas nas mãos de poucos. Esse é, em síntese, o panorama que nos envolve, e que está exigindo sacrifício de todos nós, que pagamos impostos, e temos deveres a cumprir com a criação de nossos filhos.  
      
Como não vejo nenhuma ação pública consistente, que possa estancar em curto prazo esse processo conjuntural da exclusão, é sensato supor que essa situação ainda perdurará por vários anos, com gravíssimas conseqüências para o nosso país, em longo prazo.    

Precisamos, como homens de boa fé, em nome de alguns postulados morais, éticos, adotar medidas protetoras da sociedade, para que ainda possamos cumprir a trajetória de nossas vidas, com sonhos, com esperanças, com algo que nos conforte como seres humanos, nascidos para a liberdade, para o amor e para a busca da plenitude.

A segurança deve ser um dos pontos de maior determinação e empenho do poder público, porque ela envolve a vida, os projetos futuros, a ordem social, sem cujo estabelecimento a própria governabilidade se esvai e deixa de ser exercida, para imperar a desordem, a impunidade, a lei dos mais fortes, o império do crime.

Precisamos construir perspectivas de melhor participação social dos jovens, através da educação, do esporte, do trabalho – com respaldo da família – livrando-os do assédio das drogas e da sedução do ócio e da violência.  
Amar a cidade é adotar medidas preventivas para proteção de seus cidadãos.

ivansarney@uol.com.br     

A responsabilidade de cada um de nós

sáb, 29/10/11
por Ivan Sarney |
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Todo cidadão é responsável pela preservação do meio ambiente. No mundo inteiro, a consciência da preservação ambiental está ocupando o centro das preocupações humanas, como um dever inelutável, para que possamos assegurar melhor qualidade de vida, em nosso planeta.
 
Aos cientistas, aos técnicos, cabe estudar as causas e os efeitos, as pesquisas, a orientação do que devemos fazer; a constatação dos indicadores que nos avisam para os riscos da civilização predatória que desenvolvemos. A nós, como cidadãos de um mundo cada vez mais globalizado, cabe a apropriação dessas informações e os procedimentos que vão nos conduzir a outros caminhos, como uma aspiração da própria felicidade do homem; com maior respeito aos nossos ecossistemas, à biodiversidade, ou ainda, como uma determinante para a sobrevivência da espécie humana e de centenas de outras espécies de vida, na Terra.

Esse trabalho de mudanças, de fomento de uma permanente consciência preservacionista, tem que começar na família, como todo o processo de nossa formação humana. É no aconchego familiar, nos ensinamentos que as palavras e o exemplo dos pais vão incutindo na formação dos filhos, que começa a construção do homem integral.

O que entendemos por homem integral? O homem integral é aquele que desenvolve suas potencialidades emocionais e intelectuais, com harmonia. O homem que tanto pode ser um escritor ou um médico, mas que cultiva sua vertente emotiva, com as letras, com as artes, com as singelas coisas do cotidiano, sem constrangimentos de amar, de repartir seu universo interior com o  seu semelhante; e que consegue ver, na grandeza de todas as coisas, a energia imarcescível do nosso Criador.

O homem deste novo século deve ser um homem renovado por muitos anseios, buscas e necessidades, um homem comprometido com uma vida mais coletiva e menos singular. Um epicentro de união dos homens e dos povos, em todo o mundo, será a questão ambiental. Como exemplo disso, vejo o elemento água, que é uma fonte de recurso esgotável, e que será um dos pontos críticos da vida humana, a prosseguirmos com as devastações das matas ciliares, com o desmatamento de grandes áreas verdes, com as queimadas, com a destruição da camada de ozônio, que tornam a Terra mais quente, pelo efeito estufa, acelerando a evaporação das águas, em nosso planeta.

Evoluímos para a criminalização dos danos ambientais, punindo seus autores, com prisão e com multas. Estão sendo criadas varas judiciais, para tratar especialmente das demandas ao meio ambiente. Nas escolas, no entanto, ainda não está inserida a educação ambiental, como conteúdo obrigatório, no ensino de primeiro e segundo graus, permeando todas as disciplinas.
 
A escola não pode estar ausente desse processo de formação do novo homem, do homem integral. Ela tem que participar, fazendo um esforço didático e metodológico, para ser um instrumento de transmissão de conhecimentos ambientais úteis aos cidadãos que ali se encontram, em busca de formação, para enfrentarem a vida competitiva e árdua de agora.

Como pais, temos o dever impostergável de transmitir aos nossos filhos o melhor que temos dentro de nós. Essa transmissão será tanto mais útil e marcante, quanto mais úteis e marcantes forem os exemplos que dermos, no dia a dia, ante os problemas e as situações do cotidiano.

Cada um de nós, também, como cidadão, deve dar a sua parcela de luta, de postura, de denúncia, de ação que seja edificante para a defesa do meio ambiente sim, mas também para a defesa da vida, como um todo, visando a reconstrução social do homem. A nenhum de nós é perdoado fugir desse embate, dessa contribuição para a vida de todos.

Afinal, a qualidade de vida das futuras gerações depende de nós, de nossos compromissos com o uso racional dos recursos naturais; de nossas determinações de legar-lhes um mundo onde os cidadãos possam desenvolver suas potencialidades humanas, desfrutando, de forma saudável, do conjunto de elementos naturais que concorrem para a vida, em nosso planeta.

Nossa responsabilidade, portanto, deve evidenciar seu compromisso de forma prática, dando exemplos de conduta, abrindo caminhos para outros seguirem por eles. Todos somos responsáveis e essa é uma tarefa da família, da escola, das entidades de classe, dos agentes políticos, do poder público e de todo o conjunto da sociedade organizada.

A cada nova manhã, cabe a pergunta: o que fiz ontem para a proteção do meio ambiente?  E cabe a determinação do quê fazer, a cada novo dia, para esse propósito de compromisso com a sobrevivência da espécie humana, melhor qualidade de vida para todos nós. Amar a cidade é viver de forma harmônica com seus recursos naturais.

ivansarney@uol.com.br



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