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Os camaleões e o muro

qua, 31/03/10
por Ivan Sarney |
categoria 1

Há algum tempo, em nossas caminhadas matinais pela Lagoa da Jansen, venho observando, na diversidade das vidas que ali se exibem e desenvolvem,  alguns camaleões que costumam ficar sobre um muro mal cuidado, que dá para um terreno baldio, onde brotam chananas amarelas, em qualquer estação.  

O muro, de média altura e tijolos aparentes, delimita um terreno edificado, cuja frente dá para a Rua das Andirobas, no bairro Renascença. O terreno baldio dá para a pista de Cooper e para a pista de bike; dá para o manguezal que margeia a lagoa, naquelas imediações; dá para a paisagem mais verde e bela da lagoa, pelo espelho de águas serenas, pelo mangue que emerge das águas, em ilhas de folhas, de sombras e verdes, onde garças, marrecas, jaçanãs, se abrigam e acasalam, enchendo de sons as manhãs alvorecidas. 

A lagoa dá para o verde que a margeia, em toda a sua extensão; dá para o dia que amanhece, com todos os bem-te-vis que ali cantam; dá para o verde que floresce em cada um de nós que ali caminhamos, independente do odor que dela se desprende, em algumas épocas, bem mais distante dali, do outro lado, já perto da Ponta D’areia.

No entanto, indiferentes ao dia que amanhece naquele espaço ou à manhã que alvorece em nós que os vemos e, ali caminhamos, os camaleões se deixam ficar sobre o muro desprezado, como parte da paisagem daquele cenário, quase sempre no mesmo espaço, e nas mesmas posições.
 
Não passam de quatro, quando mais se exibem. Na maioria das vezes, são apenas três. Mas conseguem, mesmo sendo tão poucos, marcar as horas do dia e chamar a atenção dos que ali passamos, olhando torno de nós o que há de forma e cor na paisagem que nos cerca.

Vendo de onde os vemos, numa distância não maior que quinze metros, parecem uma família. O maior, o mais robusto, tem rabo longo, tem crina alta, tem papo grande, a cabeça ornada de símbolos. O segundo maior, não tem a opulência do primeiro, não tem a mesma robustez, nem tão acentuados sinais de espécie, como crina, papo, rabo. A ao vê-los, assim, de onde os vemos, parecem macho e fêmea, na tarefa de se reconhecerem, a cada dia, para decidirem se acasalar, para repetirem o acasalamento, para, simplesmente, se enternecerem à luz da manhã.
Por isso, se postam um diante do outro, a pouca distância, e ficam, quase estáticos, olhos nos olhos, numa troca de mensagens simbólicas, de energias que se enlaçam e os tornam muito verdes, sob um sol muito claro e uma manhã muito morna, ainda.  Assim, ficam, por muito tempo, por quase uma hora, talvez brincando de estátua, para ver quem primeiro se move, sabendo que quem se move primeiro é o perdedor.

Quando não caminhamos, conto o tempo de uma hora, pelas quatro voltas de bicicleta que fazemos, completando o circuito de nosso condicionamento físico, de vinte quilômetros, em torno da lagoa, meu amor e eu.

Os camaleões menores, quando são dois, ficam bem mais distantes dos dois adultos, quase dispersos, como se fossem estranhos àquela relação, àquele quadro, àquele cenário que compõem. Mas eles, os menores, como filhotes que parecem ser, talvez observem de longe, para sentir, para aprender os jogos de sedução que há entre machos e fêmeas, para saberem praticar na época de procriação.

Mas, se ainda não for isso, talvez estejam no aprendizado de viver com seus próprios esforços, buscando alimentos sem o auxílio dos pais, caçando nas imediações, as presas possíveis para seus imaturos recursos. Tudo isso, sem a vigilância, sem a atenção dos pais que, em extremo magnetismo, vão se deixando ficar em contemplação, em atração absoluta, criando condições para multiplicação da vida, para a reprodução da espécie que representam, no estreito espaço de um muro mal cuidado.

Meses atrás, um camaleão macho, talvez o mesmo que vem chamando minha atenção em cima do muro, agora, era o mais destacado e exótico visitante de uma árvore, de copa muito vasta e viçosa, não muito distante do muro mal cuidado. Mas do lado oposto, margeando as águas da lagoa. Ficava ele, ali, no seu mimetismo, exuberante, curvando galhos com seu peso, tão verde e tonalizado como as próprias folhas da árvore que lhe servia de abrigo ou palco.
Muitas vezes, meus olhos não conseguiam distingui-lo entre as folhas, tal era a perfeição de sua camuflagem, para fugir ao risco que nossa presença humana trazia para sua segurança de camaleão.

Os camaleões que se deixam ficar sobre o muro, por se sentirem mais seguros, talvez, não parecem necessitar da camuflagem para estarem ali, em plena manhã alvorecida. No entanto, talvez a usem, em menor intensidade, apenas para se seduzirem mutuamente ou, ainda, para o macho seduzir a fêmea, mostrando seus encantos, sua beleza cromática.
Algumas pessoas, a exemplo dos camaleões do muro mal cuidado, se deixam ficar sobre muros, na tentativa de atrair, de seduzir pessoas, de esconder propósitos, de não assumir posições que consideram inoportunas, de não mostrar, claramente, suas idéias, suas convicções, seus propósitos.

Muitas pessoas, como os camaleões, usam seu mimetismo social, que tanto pode ser a roupa quanto pode ser a mudez e a fala, o recolhimento e os gestos, para construírem oportunidades de sucesso.

De certo modo, quase todas as pessoas, em algum momento da vida, acabam se camuflando, também, para se protegerem, para reverterem situações adversas, para assegurarem a própria sobrevivência muitas vezes, sabendo que a vida tem armadilhas no cotidiano de nosso viver. E assim vamos vivendo, como os camaleões do muro. 

O canto do galo urbano

qua, 31/03/10
por Ivan Sarney |
categoria 1

Na rua onde moro com Janaína, minha mulher e meu amor, entre modernos prédios de dez pavimentos, num dos bairros elegantes da cidade, mora também um galo cantador. É dele o privilégio de anunciar o dia, como acontece nas fazendas, nos sítios, nas chácaras, tão distantes da agitação urbana, tão mais propícios a esses encantos naturais. É dele o privilégio de viver, num bem montado galinheiro, dividindo essa regalia com o assédio, o afago de três fêmeas, num festivo harém.

Nós e o galo temos endereço certo. Ele, no final da área de lazer e grama, na creche Conviver. Nós, no aconchego de um apartamento, de onde podemos vê-lo, chegando apenas na sacada. Ambos, na Rua dos Sabiás.

Os galos que cantam nas fazendas, nos sítios, nas chácaras, têm o dom de anunciar o dia, quando a barra do dia vem surgindo no horizonte, bem cedinho da manhã; quando a alvorada começa a realçar as formas das coisas, iluminando-as com os primeiros raios do sol.

O galo que canta na rua onde moramos, no entanto, parece ter pressa em ver nascer o dia, em ver passar as horas, em encurtar o sono dos que dormem, em torno de seu canto, anunciando uma alvorada que ainda não veio, que ainda tardará pelo curso das horas, mas que não deixará de vir. O galo da rua onde moramos, quase sempre, canta às quatro e trinta da manhã. Ele é pontual. Não costuma atrasar, em seu canto alvissareiro.

O galo que canta na rua onde moramos, canta para o bairro inteiro, acordando a vizinhança, partilhando a insônia dos notívagos, abreviando o sono dos justos, rompendo o silêncio da madrugada soturna, na ânsia de prazeres e pecados.

Mas, o galo de nossa rua não canta sozinho. Um galo, para quem já ouviu um galo cantar, onde quer que um galo cante, jamais canta sozinho. Há sempre um outro galo que responde, perto ou longe. Distante, cantará sempre um outro galo, mais distante ainda. E os cantos repetidos dos galos, nas manhãs ou nas tardes, são gestos de cumplicidade, de resposta, de uma certa aquiescência a propósitos, a propostas, a convites que só os galos podem entender. 

Quando ele canta, e reafirma o canto como um desafio, um galo, distante, aceita o convite e repete o canto, quase como um eco. E o dueto, alternado, toma conta da madrugada, envolvendo o bairro inteiro, a partir da rua onde nasce e onde esplende, em que pese a escuridão.
Em verdade, um galo parece cantar para outro galo ouvir e responder, para outro galo imitar, aprender a cantar, numa espécie de desafio expresso, onde o canto mais alto, mais compassado, mais estridente, possa ser uma espécie de charme e sedução para atrair fêmeas, assegurar domínio ou mando de espaço territorial.

Um canto de galo na madrugada, à moda do galo de nossa rua, todavia, parece estar além do desafio a outro galo, além de uma espécie de aviso sobre quem domina o espaço onde ele habita e reina, sobre quem manda no galinheiro.
O canto parece mais um brado, um alerta para o dia que vai amanhecer. Porque o dia que vai amanhecer, muito além do canto do galo, é um desafio de intensas e intermináveis melodias, de renovados cantos, de ecos e aparentes repetições, e deve nos sacudir, nos despertar como o canto dos galos.

Sempre me intrigou o canto dos galos. A beleza sonora de seu toque de alvorecer, seus enfáticos e repetidos dobrados. Sempre me intrigou pela característica melódica de suas notas, pela pontualidade de seus horários, pela cumplicidade de outros galos e outros cantos, que vão se completando, intermitentes, como se fosse um canto só.
Um galo, então, pode transmitir uma mensagem a outros galos distantes. O mais próximo vai levando ao mais longínquo, numa festa de tons e semitons, repetidos, cheios de sonoridade, encanto e magia.

O que faz um galo cantar, sempre, às mesmas horas do dia, no curso de sua existência? O que faz o galo cantar, quase sempre, às seis horas da manhã, anunciando o dia que vai acontecer? O que leva um galo a cantar, ainda, depois do almoço, na hora da sesta, nas fazendas, nas chácaras, nos sítios, onde quer que ele esteja? O que faz um galo cantar, de forma diferente, nessas horas distintas?

Sim, porque o canto do galo que anuncia o dia que alvorece, não é o mesmo canto, do mesmo galo, que consagra a hora da sesta. O canto do alvorecer é forte, vibrante e curto. Tem ar de trombeta, saudando a alvorada. O canto que consagra a sesta é nostálgico, longo, morno, dolente. Basta sentir os dois para perceber essas nuances, em seus perfis.

O galo que canta na rua onde moramos, no entanto, não é dado ao canto de depois do almoço. Posso entender que ele não é chegado a essa nostalgia, preferindo ser arauto da manhã. Mas, nem por isso deixa de ser nostálgico, também, cantando, vez por outra, às três horas da tarde.

O galo que canta na rua onde moramos é um privilégio, um presente que o pessoal da Creche nos deu, a todos, da rua, do bairro, da cidade inteira. O privilégio de encontrar, num espaço essencialmente urbano, a realidade telúrica dessa maravilha da vida rural, essência pura de nossas vidas. Encontro com nossas referências, com nosso passado, com as sutilezas de nossa alma, de nosso espírito, para nos enternecer, nos acordar, e para acordar e educar as crianças que, com o galo, convivem, todas as manhãs de atividades escolares.

O canto do galo de nossa rua deve amanhecer em cada um de nós, como uma esperança, como um toque de sentido para o dia que amanhece. O dia que amanhece deve ser a semeadura do galo que canta, fora e dentro de nós. Amar a cidade é ter ouvidos para aprender com a sinfonia da natureza. É preciso amar a cidade.

Policiamento ostensivo e segurança pública

ter, 23/03/10
por Ivan Sarney |
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A presença do policiamento ostensivo nos espaços públicos de maior risco, em nossa cidade, aos poucos, vai devolvendo à população o sentimento de que estamos mais protegidos. Isso nos induzirá, gradativamente, a uma postura mais descontraída em relação à nossa própria segurança como cidadãos, tão intimidada, nos últimos meses, por um noticiário cotidiano de intensa e cruel ocorrência criminal.

No entanto, é necessário que essa presença ostensiva de policiais seja, cada vez mais, aperfeiçoada com o reforço do contingente policial, com a multiplicação das pequenas patrulhas, com a ampliação dos espaços protegidos, abrangendo os bairros periféricos; com a adoção de modernos instrumentos de comunicação à distância, com o monitoramento eletrônico do deslocamento de viaturas, com a ampliação ou construção de novas delegacias, com a prisão dos culpados.

Além disso, com a ampliação do contingente de pessoal da policia civil, necessário à lavratura das ocorrências, dos autos de prisão em flagrante; à abertura dos inquéritos, à tomada de depoimentos, ao recolhimento das provas materiais, à realização de perícia, ao cumprimento de diligências e demais atos necessários à conclusão do inquérito, com ou não indiciamento do acusado.

Isso porque, como vivemos em um estado de direito, a realização de procedimentos policiais, que precedem ou ocorrem durante o inquérito, sem observar as formalidades legais, assegurando amplo direito de defesa ao acusado, acabam motivando relaxamento de prisões, passando idéia de impunidade e onerando o Estado e os cidadãos.

Considero essencial o trabalho que está sendo realizado pela polícia militar, efetivando as fiscalizações rápidas, em diversos pontos da cidade, buscando detectar armas de fogo e armas brancas, drogas, documentos pessoais ou do veículo, irregulares; carteira de habilitação, uso de bebidas alcoólicas por motoristas, entre outras evidências de possíveis irregularidades que possam colocar em risco a vida dos ocupantes dos veículos vistoriados, e dos outros cidadãos.

Tenho visto, com freqüência, patrulhas realizando essas pequenas blitzen e tenho prazer em parar, para ser fiscalizado por elas. Elas nos proporcionam uma sensação pessoal de que estamos mais seguros, de que o Estado está atento à nossa segurança, enquanto cidadãos. E, realmente, cada arma retirada de circulação, seja ela de fogo ou branca, aumenta a nossa sensação de segurança pública, assim como cada marginal que é posto na cadeia.

Os policiais são agentes dessa segurança. Gosto de cumprimentá-los, quando os encontro, no cumprimento de suas missões, de desejar-lhes boa sorte. E torço para que voltem para suas casas, sempre, com a certeza do dever cumprido, como representantes do Estado, na garantia da segurança dos cidadãos.

Afinal de contas, os policiais são pessoas como nós que trabalham por uma necessidade de viver, de sustentar ascendentes ou descendentes, de manter suas famílias. E sonham, como todos os cidadãos, com uma melhor qualidade de vida, entre soldos, condições de trabalho, moradia, férias, aposentadoria. Sonham como todos os cidadãos que trabalham honestamente, que vivem no batente, cada dia, crendo que a vida vai ser melhor.

Mas os policiais enfrentam, no dia a dia, a crueldade das ruas, do crime organizado e, muitas vezes, são vitimados por representarem o lado oposto ao crime. Eles precisam, portanto, de nossa compreensão para o cumprimento de seus deveres e obrigações. Eles precisam de nós para que exerçam, melhor, suas funções e possam nos transmitir, cada vez mais, maior segurança quando estiveram diante de nós, quando estiverem em missões que necessitem de nós, quando estiveram distantes de nós.

O governo do Estado, por decisão da governadora Roseana, está investindo, de forma obstinada na segurança pública, aparelhado a Polícia Militar (500 novas viaturas); criando a Patrulha dos Bairros; modificando comandos e buscando a utilização estratégica do contingente policial disponível, buscando aproximar polícia e cidadão, com presença, com exemplos construtivos, com dedicação e competência. 

Isso representa, no entanto, apenas indicadores de que podemos estar no caminho certo, para domar a violência de uma cidade que hoje está transformada em uma região (Região Metropolitana, abrangendo: São Luís, Paço do Lumiar, Raposa, São José de Ribamar e Alcântara), com quase um milhão e trezentos mil habitantes.

Considero necessário que haja, na Polícia Militar, quadro de profissionais que possam subsidiar suas ações de longo médio e longo prazo, com estudos sócio-econômicos e psicológicos, sobre o aumento da criminalidade em nossa região Metropolitana, considerando a tipicidade dos crimes, as épocas, os autores, as vítimas, o contexto, as causas que os motivaram, as formas com que foram cometidos.

Considero, ainda, da maior importância a fiscalização em forma de barreiras, nos acessos a nossa cidade e à região Metropolitana, por terra, rios e mar, evitando que criminosos possam entrar e sair, facilmente; que pessoas possam entrar com armas de fogo ou armas brancas, nesse espaço; além de drogas, que tantas vidas de adolescentes têm destruído. Uma política de segurança pública deveria envolver a sociedade, na definição de sua forma operacional. Estamos prontos para participar e contribuir com essas discussões, muito além das palavras aqui comprometidas. Amar a cidade é proteger os cidadãos da escalada da violência urbana.

A difícil missão de educar os filhos

ter, 23/03/10
por Ivan Sarney |
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Nenhum ser humano nasce bom ou mau. A educação que recebemos é que vai definir o que seremos na vida adulta. Do nascimento, até em torno dos 10 anos de idade, quando a personalidade do ser humano está definitivamente formada, tudo aquilo que nos é transmitido em casa, define o adulto que seremos e aponta os rumos de nossa vida futura.

O que seremos e o que não seremos, parece incrível, mas é decorrente da educação familiar que tivemos, a partir dos estímulos de nossos pais, passando pela compreensão, pelo carinho, pela ternura, pela repreensão, pelos limites que nos são impostos, pelos gestos de amor com que nos brindaram a vida.

As crianças precisarão sempre de carinho, compreensão, estímulo, amor, limites, para que possam crescer e atingir o pleno desenvolvimento de suas potencialidades humanas, como seres destinados a amar e a viver em sociedade. Estes valores, que vão fazer parte da personalidade do futuro adulto, devem essencialmente lhes ser administrados na idade infantil, dentro da família, especialmente por seus pais.

A escola, com todos os níveis do melhor ensino e padrão que tenham, não consegue transmitir os valores morais, éticos e humanísticos, que uma boa educação familiar pode dar às crianças, desde a fase mais tenra, até o final da infância, quando a personalidade está basicamente formada. 

O que a escola pode transmitir, com eficiência, é o conhecimento científico, técnico, como conteúdo de muitas disciplinas. Mas ela não pode modificar a personalidade já formada daqueles que ali chegam, já iniciando a adolescência. E é bom que seja assim mesmo, para que os filhos sejam, de fato, uma perfeita decorrência da educação familiar que receberam, de zero aos dez anos.

Penso isso, a propósito de cenas que tenho visto, em nossa cidade, e que me deixam muito abalado, com toda a crença e a esperança que tenho, no dia de amanhã, na construção de um mundo melhor. A cena que vi tem como protagonistas menores fardados, na Av. Litorânea, em plena manhã de um dia útil, bebendo cerveja, próximo a um veículo, com mala aberta, tocando músicas a todos os decibéis possíveis.

Ao lado dessa cena, a cena dos menores dirigindo automóveis, em flagrante desrespeito às leis e pondo em risco a vida de tantas pessoas, inclusive as suas próprias vidas. Onde estão seus pais que não vêem e, se conseguem ver, por que consentir com essa transgressão à ordem legal?

Por conta disso, é alarmante o número de acidentes com jovens, em nossa terra, ceifando vidas, invalidando outras e mutilando outras tantas, numa evidência de que os pais estão, de certa forma, sendo também vítimas desses acidentes, como iludidos ou ludibriados.
É necessário, então, que não abdiquemos do nosso direito de ser pais, de ensinar tudo o que sabemos sobre o amor, no sentido mais elevado dessa palavra. Mas, também, é necessário que saibamos por limites nos desejos, nas vontades de nossos filhos, guardando-os para que possam viver suas vidas de adultos, no momento em que forem adultos. Pais que não exercem o seu direito de tutelar seus filhos, acabam sendo vítimas passivas de seus próprios erros.

Crianças que não conhecem limites, em casa, vão ser traumatizadas na rua, no confronto com os interesses e as vontades dos seus semelhantes. Precisamos agir com rigor paterno, sabendo dizer não quando tivermos que dizer não. E dizendo sim, quando pudermos dizer sim às suas pretensões.

Digo isso, também, porque meninos e meninas, menores de 18 anos, podem ser encontrados, às altas horas da madrugada, em bares, restaurantes, boates, ou outro qualquer local, de diversão pública. Onde estão seus pais? Estão dormindo. Enquanto seus filhos estão expostos a todos os tipos de violência e assédios possíveis, inclusive o das drogas, que é o mais terrível de todos.

Com quem andam nossos filhos? É bom fazermos sempre essa pergunta, para que tenhamos uma idéia aproximada de como eles podem estar se comportando, longe de nossos olhos. O meio exerce uma pressão muda e imensurável, sobre nossas pretensões e desejos. Mesmo os pequenos e simples grupos exercem uma força considerável sobre todos os seus membros, levando-os a adotarem condutas coletivas, prescrevendo-lhes padrões de comportamento irrefutáveis.
Minha mãe costumava dizer, do alto de sua bondade e sabedoria: “Diz-me com quem andas e te direi que és…”. Outra forma era mais cruel e afirmava: “Quem com porcos se mistura, farelos come.”

São ditados que demonstram o pensamento dos adultos para com seus filhos, protegendo-os da sanha criminosa dos traficantes e outros. Não podemos transigir com a segurança e as ameaças à integridade física, moral, psicológica de nossos filhos. Temos que enfrentar essa grave situação de ameaça, que pode até comprometer o futuro da humanidade.
Sou o ator da lei que proibiu a venda de bebidas alcoólicas a menores de 18 anos, em São Luís. Porém menores continuam bebendo nos lugares públicos, sem qualquer repressão oficial consistente. Precisamos que o poder público se preocupe muito mais com saúde, educação e segurança. 

Inúmeras meninas e meninos já estão experimentando drogas pesadas como crack, cocaína e outras, em nossa cidade. Precisamos dar maior proteção a eles, a partir de nosso próprio exemplo, de nossas palavras, de nossa presença. 

As vítimas do erotismo sexual

qua, 10/03/10
por Ivan Sarney |
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A crônica policial dos jornais impressos, o noticiário da televisão e os registros das delegacias, expõem um crescimento permanente da ocorrência dos crimes de abuso sexual, cometidos contra mulheres, em nossa cidade e em nosso país.
Essa realidade atenta contra as famílias, contra a dignidade da pessoa humana, contra a honra de todos nós. Ela vai crescendo, na medida em que vão crescendo as vítimas e os agressores, sem que consigamos estabelecer políticas públicas de prevenção desses crimes, que sejam eficazes como ações mitigadoras.

O sexo é instintivo, em todas as espécies de vida que Deus criou. Ele é um impulso primitivo, que une o ser masculino ao feminino, na tarefa de perpetuação das espécies. Essa união só é possível por interferência de complexos mecanismos biológicos, com componentes hormonais, formais, cromáticos, odoríferos, visuais, tácteis, que funcionam como verdadeiros imãs, atraindo corpos e envolvendo almas.
Essas forças constituem a energia sexual, tão definitivamente importante na existência de todos as formas de seres vivos, por permitir nossa multiplicação, nossa perpetuação, nossa perenidade, como espécies.

Foi com base nessa constatação que Freud desenvolveu a Psicanálise. Ele chamou essa energia sexual de libido, e procurou demonstrar que sua força seria responsável, subjacente, por todos os atos da vida do ser humano. Seria ela a responsável, em última instância, por todos os projetos de vida que elaboramos, por todos os atos que realizamos, conscientes ou não, por tudo aquilo em que nos envolvemos. Todos esses atos teriam, como finalidade, a satisfação do desejo sexual e o desejo de ser importante.

Para Freud, a libido comandaria todos os nossos interesses, em todos os estágios de nosso viver. Desde quando a criança realiza a sucção do seio materno, tudo, em nossa vida, se resume a sexo, na substância do pensamento freudiano.
Esse impulso, instintivo, de nossa vida, é contido, domado, canalizado, através da razão crítica, estágio superior de nossa consciência, ao qual o mesmo Freud chamou de superego, que é o estágio da autocensura. Nesse estágio, a razão diz o que devemos ou não devemos fazer, em função das convenções sociais: leis, usos, costumes, e demais regras que delimitam nossa vida, em sociedade.

Não precisamos ir mais além, na teoria freudiana, para compreendermos a existência de fatores concorrentes nos atos humanos, inclusive os da criminalidade: fatores biológicos, de natureza endógena; e fatores culturais, de natureza exógena.
Os fatores biológicos vão nos acompanhar por toda nossa vida, desde a concepção. Trazem o nosso código genético, nossas características como espécie, nossos impulsos de vida. Os fatores culturais vão constituir o acervo de nossos conhecimentos, pelo uso de nossa razão crítica, de nosso livre arbítrio. Eles são frutos da educação, na família, na escola, no meio em que vivemos.

Os fatores culturais funcionam como um freio para os impulsos de nossos atos, dizendo não a certos desejos, pelo fato desses desejos serem rejeitados, repelidos e punidos pela sociedade em que vivemos. São as regras de nossa conduta que não devemos transgredir, moral ou legalmente.  
Quando a sociedade vai se tornando mais flexível, mais permissiva, em relação a seus códigos de conduta, moral e ética, vai incentivando certas práticas, conceituadas como ilícitas. Os abusos sexuais contra menores, o estupro, são crimes que parecem estar nessa categoria de ilícitos.

Tenho uma desconfiança, muito grande, que a erotização do corpo, através do modismo de certas danças, da forma de vestir das crianças (imitando as minissaia dos adultos), sempre valorizando aspectos sensuais dos corpos; as letras das músicas de duplo sentido; os programas de televisão que veiculam todas essas coisas, valorizando-as com a beleza plástica daquelas que as expõem, podem estar contribuindo para o aumento e a diversificação dos crimes de abuso sexual contra menores.

Em outro extremo da criminalidade está o superego das pessoas, o que faz com que uma grande e imensa maioria não cometa crimes. Por esse viés de pensamento, poderíamos combater esses e outros crimes, aumentando os investimentos em educação, desde a pré-escola, até o nível médio, quando termina o ciclo de formação educacional juvenil.
Esse programa deveria ser auxiliado por um ousado programa de apoio à educação familiar, considerando as peculiaridades dos pais do educando. A idéia se aproximaria do programa “médico da família”, de modo a estreitar essas relações e possibilitar uma melhor educação familiar às crianças de áreas, previamente, inventariadas como áreas necessitadas de apoio especial.

Paralelamente, os veículos de comunicação, concessionários de serviços públicos, deveriam ter um código de ética, moral e social, para orientar os programas que produzem e veiculam, e os que veiculam sem produzir, estabelecendo mais rigorosas faixas de horário.
As crianças, as meninas, as mulheres não podem continuar sendo vítimas dos abusos sexuais que lhes estão acometendo e que, a despeito de nossa indignação, continuam a crescer.

O canoeiro solitário e a lagoa

qua, 10/03/10
por Ivan Sarney |
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Acostumei-me a vê-lo nas manhãs de verão, logo no início delas, quando a luz do sol ainda é branda e o verde do manguezal, viçoso, resplende mais ainda, nas lufadas de vento que agitam os pássaros e as águas da lagoa. Acostumei-me a vê-lo, então, em cima do cedo, na expressão popular que consagra as primeiras horas do dia, logo depois do alvorecer.

Assim acostumei-me a vê-lo, quase todas as manhãs, nos longos meses de estio. Eu entregue à tarefa de cuidar de mim, de malhar meu corpo, pedalando a bike ou caminhando simplesmente, em ritmo puxado, em companhia, e sob os cuidados, o carinho e a orientação de Janaína, meu amor.

Ele, distante, talvez trezentos metros, quase entre as ilhas vegetais, feitas de mangue e sal, que povoam a lagoa e a tornam mais bela. Ele sozinho, em uma pequena canoa, quase imóvel aos meus olhos que o distinguem à distância, talvez parado sobre as águas, como se contemplasse, como se perquirisse, como se soubesse ouvir claramente a voz, o som do silêncio que de todo este encanto se irradia.

Vendo-o de onde sempre o vejo e, da forma como o vejo, me parece um pescador, incansável, insistente, buscando a solidão da lagoa e de sua própria embarcação, para dialogar com os peixes, para enfeitiçá-los com sua rede ou com seus anzóis. Mas nem anzóis, nem rede, meus olhos vêem quando o alcançam nas manhãs, como parte da paisagem da lagoa. Vêem, apenas, um canoeiro solitário compondo o cenário da lagoa e da manhã.

As manhãs de pouco vento, com águas paradas, remetem o espelho das águas a refletir o entorno; mergulhando edifícios, árvores, nuvens, na luz e na sombra de uma grande tela classicista, pela própria natureza de sua composição. As manhãs de vento farto agitam as águas, partilhando a luz, turvando as formas materiais que nela se refletem, como numa composição impressionista, onde as formas não têm contorno e a luz se reparte, em fragmentos, quase sem sombras, sobre a superfície da tela.

Não consigo dizer, embora possa acreditar, que o homem que vejo na paisagem da manhã é um pescador. Não seria correto afirmar, por absoluta falta de convicção, e por falta de provas também. O que posso assegurar, sob a fiança dos meus olhos, é que se trata de um homem, um solitário homem, em uma canoa, na paisagem da manhã urbana.

Mas que faria um homem, solitário, em uma canoa pequena, quase toda manhã, parado sobre as águas da lagoa, além de pescar? Talvez não fizesse muito se não pudesse se aproximar das garças, das gaivotas, dos maçaricos que ali andam fazendo morada, nessa época do ano, também. Talvez não fizesse muito se não me desse o exemplo de sua presença, de sua determinação, de sua vontade de estar sempre ali, como se fosse uma árvore, alegrando e fertilizando a paisagem. Talvez não fizesse muito se seu exemplo não fosse um estímulo, uma força para os projetos e os anseios que brotam em nossas vidas, e que não devem fenecer sem nossa luta, para que vivam e nos dêem vida também. Talvez não fizesse muito se a vida não estivesse latente além de nós, nas coisas que Deus criou e destinou à nossa serventia. Talvez não fizesse muito se sua presença, na paisagem da lagoa, não fosse tão simbólica e real como a imagem da própria lagoa.

Vendo-o de onde o vejo, do lado da lagoa que dá para a Avenida Ana Jansen, não posso distinguir sua fisionomia, nem ver sua face. Não sei, portanto, se ele é jovem, se é maduro, se é idoso. Não sei se tem bigode ou barba, mas sei que usa chapéu. Não sei se tem esperanças, se tem filhos, se tem mulher, se tem dívidas, se tem bens, se tem sorte, se tem lembranças a brandir ou a sufocar, nas águas da lagoa e das manhãs, às quais pertence.

De que me valeria saber tanto ou saber coisas sobre ele, agora? Talvez não me valesse nada. Mas fico pensando que um homem, uma pessoa, não é só um corpo físico, na paisagem cotidiana. Ele é um universo imenso de emoções, de anseios, desejos, prazeres e frustrações. Ele é o próprio infinito, o infinito maior, para lembrar Tribuzzi.
Mas mesmo que nada eu saiba sobre ele, ou que nada me valesse saber, se me fosse dado saber, penso, ao vê-lo parado ali, dentro da canoa, canoeiro ou pescador, nos versos de uma canção de Chico Buarque: “… Pedro pedreiro espera o carnaval/ E a sorte grande num bilhete, pela federal/ Todo mês/ Esperando, esperando, esperando, esperando o sol/ Esperando o trem/ Esperando aumento o para o mês que vem/ E a mulher de Pedro está esperando um filho/ Pra esperar também…”.

Não sei se o canoeiro solitário espera alguma coisa, na pequena canoa que parece inamovível na paisagem da manhã. Caso seja pescador, pode ser espera sim, com o anzol ou a rede dentro d’água, peixes e camarões desavisados.

Caso seja um contumaz contemplador, pode ser espera também, o esboço do cenário cotidiano. A gaivota que pesca na lagoa; as garças que disputam a primazia de um lugar, na espreita da presa, como predadores naturais Há sempre uma razão, um porquê para o verbo esperar. A espera é parte do viver.
Nossos sonhos não prescindem da espera. Ela os integra, desde quando os fomentamos ou construímos, até quando os damos por alcançados.

A imagem do canoeiro solitário, na manhã de estio, tem o dom de encantar quem a contempla, à distância, como sempre me ocorre contemplar, enquanto pedalo ou caminho, como uma motivação recorrente, para as lições que o cotidiano nos pode dar. Amar a cidade é estar atento para seus cenários  as lições que eles podem nos dar.

A pequena e astuta gaivota

qua, 10/03/10
por Ivan Sarney |
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No encanto do dia que amanhece, a pequena gaivota adeja e amanhece. Amanhecer, independente de ser gaivota, é renovar-se com a manhã molhada de orvalho e tocada pelo canto matinal dos pássaros. Pelo canto, pelas formas, pelas cores, pelo verão que recolhe a luz e vai cedendo, ao outono que se anuncia, as folhas que se desprendem das árvores para intumescer a terra e celebrar a vida, nesta quinta-feira de março.

Amanhecer, no universo da lagoa, é manter-se vigilante ao movimento dos peixes, dos pequenos cardumes que se movem sob o espelho das águas rasas, independente de seu odor. Amanhecer é sentir-se num mundo novo, onde moldamos sonhos, onde esperanças transitam, em cores e formas humanas, dialogando com Deus e celebrando a vida.
Amanhecer, pelo menos do ponto de vista da pequena gaivota, é estar vigilante, adejando as asas e pairando no céu, na corrente do vento, e manter o olhar aguçado nas vidas que se movem sob as águas, porque ali está o alimento de seu corpo alado. Desse modo é que a pequena gaivota amanhece, independente de meus olhos e de minhas emoções.

Ela parece brincar ao vento, com as asas estendidas para manter-se sem esforço, pairando sobre as águas, numa estratégia de busca, de avaliação, de espera. E assim fica até que, de súbito, recolhe as asas e desce veloz, como uma seta disparada certeira, e mergulha para logo emergir batendo as asas e levando no bico sua presa fatal.
Por seu pequeno porte, ela não busca as presas maiores, os peixes maiores, que tornariam inútil sua caçada e breve a sua vida. A natureza, no mundo animal, aguça o instinto dos predadores para a harmonia que se impõe na  cadeia alimentar. Uns se alimentam de outros, com absoluto respeito à saciedade da fome, ao sistema de defesa e de ataque que Deus lhes deu, respeitando o porte, as forças e a capacidade de reagir de suas vítimas.

A pequena gaivota é pródiga nas lições que vai dando, no exercício de sua caçada. Algumas vezes, mesmo veloz e decidida, bem próximo das águas de seu mergulho, ela abre as asas e de novo adeja, subindo sem finalizar seu intento de captura. A fugidia caça, então, num movimento de pura casualidade e sorte, terá escapado daqueles bicos afiados. E segue seu destino natural, cumprindo o equilíbrio da cadeia alimentar.

O que parece, portanto, ser o momento adequado, o exato momento do ataque fatal, pelo menos para a pequena gaivota, pode mostrar-se ilusão pelo concurso de uma pretensa vítima. O que torna inglória, muitas vezes, a caçada da pequena gaivota é o instinto de sobrevivência de que somos todos dotados. A luta imanente pela vida é parte da vida e do viver, em todas as espécies vivas que Deus colocou na face da Terra.

Por isso, a pequena gaivota não desiste, enquanto a manhã vai mostrando suas luzes. Ela permanece atenta, fiel à sua natureza caçadora, fiel à sua gênese, fiel à sua história, fiel ao sentido de sua própria existência. Ela não nega e não trai a si mesma, a seu instinto de ave predadora, às suas companheiras que voam em pequenos bandos, no mesmo cenário matinal, tocadas pelas mesmas motivações que até ali as trouxeram.
Elas são obstinadas e valem-se dos olhos e do olhar para identificar suas caças, para sentirem e avaliar suas possibilidades de sucesso ou insucesso de captura, nos ataques que empreendem. Com os olhos elas fazem mais que ver, elas quase pressentem, elas quase perscrutam o que é vida, o que se move sob o espelho de águas que parecem turvas a olhos humanos.  

A pequena gaivota adeja e amanhece, no encanto do dia que amanhece. A manhã nos oferece lições orvalhadas, entre flores que desabrocham anônimas, e pássaros que gorjeiam intermitentes, nas hostes do manguezal, na paisagem e no bioma da lagoa.

Uma gaivota intrusa, no entanto, surpreende nossa pequena gaivota, em pleno vôo, tentando arrancar-lhe dos bicos fechados, a pequena presa há pouco conquistada, num exaustivo trabalho de paciência e perícia. Ela tenta e chega a ameaçar, mas é repelida pelo vôo sinuoso, rápido, quase em semicírculo, que a pequena gaivota lhe impõe, numa demonstração clara de resistência e argúcia.

A gaivota intrusa, usando a lei do menor esforço, parece desistir ludibriada, e vai pousar no mangue seco, a espera de uma nova chance para poder atacar. Pura esperteza é o que demonstra a gaivota intrusa, pequena como a nossa gaivota, mas incapaz de aventurar-se no mergulho caçador, de medir e avaliar suas possibilidades de vitória, contra uma presa interessada em manter-se viva.

Que motivações teria a gaivota intrusa para agir dessa maneira? O instinto do predador é caçar. A caça, nesse caso, pertence a quem caçou. Tomar é a lei do menor esforço, é o desvio que desnatura o bando, o grupo, e o divide. Tomar, na lei dos homens, é roubar. Roubar é crime. No mundo animal, tomar também é caçar, é a busca da sobrevivência.

Dessa maneira ainda, a pequena gaivota é pródiga nas lições que vai dando, ensinando a resistência, negando aos pretensamente espertos – aos que tentam se beneficiar do trabalho dos outros, incapazes talvez de gerar seus próprios frutos -  a colheita fácil de frutos que não semearam.        
A pequena manhã voa com a gaivota que amanhece. A pequena gaivota amanhece na manhã que voa. De uma ou de outra forma, um pouco desta manhã vai ficando em mim, que caminho e penso na manhã que voa. Amar a cidade é refletir e aprender as lições da natureza.

A garça solitária e seu charme na lagoa

qua, 10/03/10
por Ivan Sarney |
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Costumo vê-la, sempre, bem cedinho, no encanto de minhas caminhadas matinais, em torno da Lagoa da Jansen. Eu, na tarefa de cuidar de mim, sentindo meu corpo harmonizar-se, inteiro, com o que há de energia no verde vegetal das árvores, das folhas, no vento fresco e brando que as sacode; no sol, que vai aquecendo as peles e dourando os corpos; nas pessoas que ali registro, em encontros fortuitos e pontuais; nos pássaros que voam, cruzam nosso caminho e cantam, tagarelas, se exibindo para chamar a atenção de Janaína, especialmente os bem-te-vis.  

É sempre ali que costumo vê-la, sentindo a presença de Deus na sinergia da vida que esplende, em torno de nós. Nem a manhã, na umidade de suas relvas orvalhadas, nem o sibilo dos pássaros, nem a sonata do vento nas cordas verdes do mangue e das palmeiras que ali vicejam; nada a ela se compara, pelo charme, pela beleza, pela elegância com que resume a paisagem que integra.

Refiro-me a uma garça majestosa que pode ser vista ali, mais ou menos em frente ao Buteko da Lagoa, onde árvores frondosas emergem das águas como ilhas de preces, como mãos de súplicas, destacando-se no cenário pela curiosa paisagem que compõem.
É dela o privilégio de mirar-se no espelho d’água em que se encontra e de mover-se, com serena elegância, como quem confere as formas, como quem avalia seus domínios, como quem consagra seu espaço e confere, com seu    olhar de conquista, a extensão de sua posse, onde parece reinar sobre os peixes, ás águas e tudo o que há de vida no cenário que a realça.

É dela o privilégio de andar devagar, quase com mesma leveza do vento; de pisar suave, como as manequins; de alongar o pescoço sinuoso e recolhê-lo em seguida, com a mesma elegância com que evita molhar suas penas, e faz exibir sua formosura no espaço que domina. Passo a passo, com gestos comedidos, move seu corpo elegante entre as águas mansas, ora alongando o pescoço, como quem quer ver mais adiante; ora o recolhendo, para manter a postura de quem se deu, finalmente, por convencida.
Refiro-me a ela, dentro de mim, como a dona da lagoa, pela forma com que parece dominar a vida natural que ali se encontra. Mas esse domínio, se ele de fato existe, ela o exerce com extrema naturalidade, a notar pelo modo silencioso com que se move e pára, como quem cumpre uma rotina de inspeção e conclui pela normalidade.

Gosto de vê-la em seus gestos elegantes, em seu garbo, em seu narcisismo, quando se mira e move-se, contemplando-se no espelho das águas que lhe servem de cenário. Nem o vento forte, tão próprio da estação, parece alterar o rito de seus movimentos, a saudação que faz às manhãs e à primavera que se denuncia toda, em cores, em formas e perfumes.

Do outro lado da lagoa, e em quase toda a sua extensão, a beleza de muitas outras garças brancas enche de vida a paisagem cotidiana. Mas essas outras garças, conquanto belas e elegantes, não ostentam o mesmo charme e não inspiram os mesmos sentimentos que a garça que me seduz, exatamente ali, onde quase perfuma o vento fresco da manhã.

Pelo porte que ostenta, pela forma como se impõe, é como se fosse a mãe de todas as outras garças que ali vivem. E vivendo semeiam, na alma de cada um de nós que as vemos, a reflexão sobre a pluralidade da vida, em suas formas variadas e em sua importância natural.
Aos meus olhos, repletos de humanismo, a primeira emoção sugere o encanto de viver entrelaçado ao belo; a reflexão de que a vida é arte, em que os elementos leveza, cor, forma, ritmo, textura, luz, sombra, perspectiva, são explicitados por tudo o que tem movimento próprio, tudo o que é vivo, na natureza. A paisagem como símbolo de fusão desses elementos, como cenário natural, como ponto de fuga, de toda a obra criada por Deus.    

Uma garça branca e bela, integrada à paisagem da manhã, pode ser motivo de outras reflexões e o símbolo de muitas esperanças que construímos em nossa vida, e que não podem estar contrapostas à vida que existe na lagoa. Uma garça na lagoa é mais necessária ao equilíbrio da vida na lagoa, como predadora de pequenos peixes, do que aos meus olhos de contemplação. Ou ainda, a garça está na lagoa não para que eu a veja, para que a vejamos e com ela nos encantemos. Uma garça está na lagoa para completar seu ciclo de vida, para perpetuar sua própria espécie, para dar vida a outras formas de vida que ali se desenvolvem.

Mas nem por isso é menos bela e menos garça, em sua aparente solidão. E falo de solidão, porque sempre a vejo sozinha. Talvez não seja essa uma peculiaridade das garças, que voam em bandos, que vejo em bandos do outro lado da lagoa, a defenderem seus espaços de caça, mas quase sempre, juntas.
A garça que me encanta, não. Ela está sempre sozinha, solitária em seu espaço de domínio, como se bastasse a si própria, como se estivesse além de si, além daquele espelho d’água, onde se mira e onde é refletida em sua brancura e solidão.

Às vezes, precisamos estar como a garça solitária, para refletir e nos recompor, para nos aprimorar e nos encontrarmos em nossa unidade de corpo, alma e espírito. Outras tantas vezes, não. Precisamos estar entre os outros, na comunhão de nossos sentimentos, de nossos seres transitórios, construindo a beleza o encanto de ver, de sentir, de sonhar e projetar esperanças. Amar a cidade é extrair do exemplo da natureza o encanto de viver. 

Apesar de tudo

qua, 10/03/10
por Ivan Sarney |
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Há um poema de Jacques Prévert, um dos mais expressivos nomes da poesia francesa contemporânea, em que ele diz: “Pai nosso que estás no céu / Permanecei lá / Que nós ficaremos pela Terra / Que algumas vezes é tão bela…/ Com os bens meninos e os caras maus /  Com todas essas maravilhas do mundo / Que estão aqui / Na terra, simplesmente / De graça para todo o mundo…/ Com as estações / Com os anos / Com as belas moças e com os velhos chatos /  Com a palha da miséria apodrecendo  no aço dos canhões…”

Apesar de tudo, como é maravilhoso estar vivo! Esta frase me parece ser a mais sintética e eloqüente tradução do poema de Prévert, que representa um foco de luz sobre nossas própria vidas, no sentido de torná-las menos amargas e mais construtivas.

O que o poeta sugere não é a negação de Deus, de Sua hipótese e de Seu mundo metafísico, mas a valorização de nossa própria existência, física e espiritual, atributos das criaturas que somos, criadas à Sua imagem e semelhança. Sugere, ainda, a valorização do mundo cósmico em que nos inserimos, como seres e como elementos componentes desse mesmo mundo, partículas vivas de um universo em constante movimento, emergente como a nossa própria espécie de vida, que convencionamos chamar de humana.

O mundo de nossa existência temporal é nossa realidade mais objetiva e plausível, mais emocionalmente plena de carga efetiva, porque nele exercemos a parcela de nossa vida. A vida terrena é, essencialmente, sensorial; é matéria e faculdades da matéria. É espírito, capaz de elevar-se a Deus, pelo sentimento do amor e pela percepção dos mistérios da vida que reina em torno de nós, e de nossos sentidos.

O mundo de Deus é essencialmente metafísico. É a antimatéria, a libertação definitiva do tempo, das formas e das propriedades materiais.

“O que será mais nobre para o espírito? Sofrer as pedradas e as flechadas do infortúnio ou tomar armas contra o mar de aborrecimentos, e exterminá-los por oposição?” Ser ou não ser, eis a questão. Foi esse o drama do Hamlet de  Shakespeare. É esse o drama dos Hamlet em que nos transformamos, sempre que mergulhamos na dúvida, a perscrutar os mistérios insondáveis de Deus e as agruras de nossa vida temporal.

A manhã que amanhece sobre os enfermos, nos leitos dos hospitais, nos casebres, nas ruas, é a mesma manhã que amanhece sobre as crianças sadias, a caminho das escolas, e amanhece sobre os jardins, e faz desabrochar as flores e cantar os pássaros, com os mesmos raios de luz, ou os mesmos pingos de chuva.

Do mesmo modo é a chuva, a chuva fina que cai no telhado e que, segundo a canção religiosa, é cantiga de ninar, para os ricos. Mas, para o pobre vai entrando em seu barraco e faz lama pelo chão. Do mesmo modo é o vento que assobia, noturna melodia para os que moram em casas bem construídas. Mas que, ao pobre, vai, maldosamente, lhe desmanchando o barracão.    

A mesma escuridão noturna, pontilhada de estrelas, encobre as favelas e as mansões. E o mesmo clarão da lua, projeta sombras sobre todas as raças e todos os povos, e sobre toda sorte do que é vivo e se move, do que inanimado e se queda, diante de nós, com suas formas mudas e estáticas, mas que é natureza e compõe o nosso mundo.

A vida, então, é o conceito que dela fazemos; o que podemos erguer como nossos pensamentos, sonhos e esperanças, mas, especialmente, com nossas ações e atitudes construtivas, solidárias e fraternas.

Por mais dura que seja a vida, ela é a nossa única e mais cara verdade, o mais precioso bem que possuímos; o bem inalienável que nos atribui que nos atribui nossa própria identidade, condição sem a qual não existe o amor nem o ódio, nenhum paradoxo, nenhuma hipótese e nenhuma tese. Sem ela não existe ser humano. Sem ser humano não existe sociedade. Sem sociedade não há história. Sem história não há presente, nem futuro. Sem futuro, não há eternidade.

Como é maravilhoso, portanto, estar vivo. Poder refletir sobre as coisas que nos cercam, os problemas que nos afligem, as emoções que nos compensam; poder sorrir, chorar, sentir a beleza das grandes e das pequenas maravilhas que a vida põe diante de nós; especialmente, provar o gosto agre-doce do amor, e ver um dia suceder ao outro, cheio mudanças e alimentos, para a ansiedade de nossas almas.

Este é o nosso reino. O reino das virtudes e dos pecados, o reino dos nossos prazeres, da nossa felicidade fugidia, dos nossos afagos e dos nossos afetos; o reino temporal das almas apascentadas e das almas aflitas, mas, sobretudo, o reino da razão e da emoção de nossos corpos e mentes.

“Pai nosso que estás no céu / Permanecei lá / Que nós ficaremos pela Terra / Que algumas vezes é tão bela…”

Por uma cidade mais solidária

qua, 10/03/10
por Ivan Sarney |
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Ainda são muito tímidos os passos, os gestos que nossa cidade consagra, nos rumos de um amanhã mais propício ao convívio solidário e fraterno das pessoas, em seus espaços urbanos. Quem caminha pelas principais ruas do Centro Histórico, ou mesmo de nossos bairros mais bem urbanizados, pode constatar, facilmente, a ausência quase absoluta de equipamentos  essenciais para o ofício de viver, em centros urbanos, para a prática dessa imanência humana que é a necessidade de convívio com seus semelhantes, a carência do outro.

Entre esses equipamentos, é importante mencionar as áreas especialmente destinadas a pedestres, as floreiras, os bancos para as conversas, para ver passar o tempo, para fazer uma pausa e encontrar-se no turbilhão das pessoas e das horas; as rampas para acesso de cadeirantes, de outras pessoas portadoras de necessidades especiais; as informações em braile, para os deficientes visuais; as sinalizações, verticais e horizontais, para correta orientação dos transeuntes; as calçadas mais largas e desobstruídas, para a locomoção de pedestres; um claro e indiscutível predomínio do homem sobre os automóveis, nos espaços urbanos.

Sob esses aspectos, essenciais para o cotidiano exercício de viver, Curitiba, é soberba, como uma das cidades de melhor qualidade de vida, em nosso país. Além dela, São Paulo, Rio de Janeiro, Niterói são outras cidades que avançam, a passos largos, para contemplar esses aspectos de humanização das cidades, como uma resposta, também, aos pressupostos de cidadania, previstos em nossa Constituição.

Há outros aspectos, contudo, que essas cidades exibem, como clara demonstração de convite ao convívio urbano humanizado, como a existência de muitos parques ambientais, a relação metro quadrado de área verde por habitante, veículos de transporte de massa, com elevadores mecânicos, para facilitarem o acesso de portadores de necessidades especiais. Tudo isso, para assegurar melhor qualidade de vida aos seus habitantes, compensando o estresse de viver em centros urbanos cada vez mais superpovoados.      

A cada dia, as cidades estão abrigando um número maior de cidadãos, quer pelo aumento da taxa de natalidade social, que pela migração interna, entre estados, entre municípios, com as capitais ou os grandes centros urbanos, exercendo maior poder de atração desses migrantes, na maioria das vezes, egressos de zonas rurais.

Especialmente, as capitais, estão cada vez mais demandadas por pessoas, em seus espaços públicos: ruas, avenidas, praças, edifícios, equipamentos de laser, centros comerciais, shoppings, na busca interminável do homem, por satisfazer suas necessidades sociais.

Tudo isso dificulta a nossa vida, e a vida de um grande contingente de cidadãos, nossos irmãos de espécie, quem têm, muitas vezes, que permanecerem reclusos em suas residências, pelas dificuldades de acesso a locais singelos como cinemas, escolas, teatro, restaurantes, igrejas, e a toda uma gama de espaços de necessidades habituais para um cidadão comum, sem restrições locomotoras. Refiro-me aos portadores de necessidades especiais, aos paraplégicos ou tetraplégicos, em geral, cadeirantes.

Quem anda, no dia a dia, em nossa cidade, tão bela em sua história; tão exuberante em suas riquezas naturais; tão expressiva em sua arquitetura; tão acolhedora, na fidalguia de seus filhos que a habitam; quem anda, por nossas ruas, é levado a pensar que não temos deficientes físicos por aqui. Ledo engano. Os nossos deficientes, semelhante ao que acontece na maior parte das cidades, em nosso país, estão em casa, guardados, inibidos, cerceados, em aspectos essenciais de suas vidas, por que essas cidades não estão preparadas para acolhê-los como cidadãos, como seres humanos, com suas imanências e com seus anseios.

Sou o autor da lei municipal que determinou que 10% da frota de ônibus, de transporte coletivo, seja equipada com elevador mecânico para acesso rápido e fácil aos portadores de necessidades especiais. Os ônibus equipados com elevadores mecânicos oferecem maior comodidade aos deficientes, especialmente àqueles que são paraplégicos, tetraplégicos, deficiente visuais e outros, que têm dificuldades locomotivas e que precisam de auxílio para exercer uma considerável parcela de suas vidas. Na prática, não atingimos o percentual determinado, inicialmente, pela lei e os portadores de necessidades especiais continuam a amargar o dissabor de verem negados, no dia a dia, direitos que nossa Constituição cidadã lhes outorgou, como cidadãos, entre eles o direito de ir e vir.

Precisamos realizar conquistas, precisamos avançar em busca dos ideais, dos sonhos, em busca do futuro, contemplando as esperanças que podem nos conduzir à construção de um nível de felicidade, de satisfação com a vida, de forma mais fraterna e solidária. Como cidadãos, temos a responsabilidade de contribuir, de apontar os rumos para onde deverão seguir nossos destinos de povos, e não podemos abdicar desse direito, nem nos omitir dessas responsabilidades.

Uma cidade mais solidária, que promova a inclusão de cidadãos que precisam de nós, para exercerem suas parcelas de vidas, de forma mais plena e compensadora.



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