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Quando é preciso ouvir o cidadão

seg, 08/11/10
por Ivan Sarney |
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De repente, sem o menor debate, sem qualquer aviso, sem qualquer consideração, a área da Avenida Litorânea, aonde existe uma pracinha e um pequeno parque público com livre acesso para crianças, foi tomada por cones proibindo o estacionamento de veículos automotivos, dos dois lados da avenida, numa faixa de extensão de quase quinhentos metros.
Era domingo, com um fim de semana prolongado pelo feriado do Dia de Finados, na terça-feira. Aquela área, no entanto, sempre muito movimentada nos fins de semana e nos feriados, estava iluminada. Mas, nem de longe, tinha o fulgor, o brilho do movimento que habitualmente ostentava nos fins de semana precedentes.

Frequentadores habituais daquele local, onde costumamos levar nosso pequeno Caio para divertir-se no passeio a cavalo, no pula-pula, no escorregador, meu amor e eu, quando chegamos ali, fomos tomados por aquela surpresa: a existência profusa de cones, um ameaçador caminhão de reboque, vários pequenos grupos de guardas de trânsito, com talonários nas mãos e em ostensivas posições de vigilância.

O primeiro olhar veio sucedido ao primeiro choque. E o primeiro choque ficou por conta da paisagem humana, social e cidadã que nos acostumamos a ver, a sentir e integrar com nosso convívio, nosso aval, nossa presença. Presença de pessoas, presença de pais, no processo de conviver e educar seus filhos, como tantos outros que, de forma cúmplice, encontramos com os mesmos empenhos e dedicação, cuidando de seus filhos.

Onde estavam as tantas crianças que nos habituamos a ver ali, com faces repetidas, com faces renovadas, mas com o mesmo encanto lúdico, correndo, pulando, vivendo, construindo e fortalecendo traços de suas personalidades, de suas histórias de vida, no convívio de pais, familiares, de amigos ocasionais que ali se encontravam? Onde estavam elas? Onde estavam seus pais?

Nós estávamos ali e podíamos, naquele instante, entre a surpresa do cenário que nos espreitara e a inconformação que nos fremia a alma, sentir a extensão do dano que aquela decisão causava. Estávamos ali, como sempre, um entregue ao outro, na comunhão do amor que nos envolve os corpos e as almas, sem o nosso pequenino que ficara em casa da avó. Tínhamos ido rápido, apenas para tomar o guaraná da Vânia, local onde tudo é de excelente qualidade e sabor: o guaraná, os sucos, as tortas, os bolos, os doces, os pasteis, os quibes. Tudo preparado por ela, que é exímia doceira e ama o que faz, com dedicação, com paciência, com incrível e obstinada teimosia. Por tudo isso, estamos entre seus inúmeros fregueses cativos.
 
Tínhamos um problema comum a todos os que ali não estavam, aos que ali não paravam ou não pararam, aos que se indignaram antes de nossa chegada. O problema era: onde estacionar. Do lado direito, sem qualquer sinalização horizontal ou vertical que indicasse proibição havia anos, estavam os cones indicando proibição, agora. Do lado esquerdo, sobre o capim nativo, num espaço sem qualquer arborização, sem qualquer sinalização proibitiva havia anos também, agora estavam os cones proibitivos.

Depois de duas longas voltas pelo mesmo local, finalmente estacionamos há quase dois quilômetros da praça, e fomos caminhando com receio de assalto, bafejados por um vento incessante e forte, e uma incontida vontade de chegar aonde pretendíamos. Queria compreender, mais de perto, algumas coisas daquele cenário que nos afrontava.

A presença de guardas municipais revelava que a ação era da Secretaria Municipal de Trânsito. Os guardas estavam no cumprimento de ordens recebidas e procuravam cumpri-las com extremo zelo, mas não pareciam muito entusiasmados com aquela ação. Afinal de contas, desde que a Litorânea foi inaugurada que o estacionamento naquela área ficou consagrado como prática legal (administração de Conceição Andrade, de Jackson Lago de Tadeu Palácio).
 
Na praça e ao longo dela, desde a concepção da avenida, foram implantados bares, lanchonetes, quiosques, barraquinhas de artesanato e comidas típicas; comércio informal de passeio público, com coreanos, brasileiros, paraguaios. Ali, portanto, há trabalho empresarial, com empregados, com patrões, com impostos sendo pagos, e vários outros serviços que não pagam, mas fazem circular dinheiro. Trabalho, emprego, renda, tudo isso está consolidado ali, com contas a pagar e receber.

A decisão de proibir o estacionamento de veículos automotivos, nos fins de semana, a partir das sextas, e nos feriados, fere de morte as atividades comerciais que ali existem instaladas e as eventuais que ali se instalam e desinstalam no final das noites, como em muitos lugares, no resto do país.

Decisões como esta, de proibir estacionamento em locais como esse – um dos poucos locais que à cidade possui para diversão, lazer familiar e pessoal, ao ar livre, a beira-mar, com atividades comerciais consolidadas – não poderiam ser tomadas sem a precedência de debates, de audiência pública. Tudo isso, para aferir os sentimentos da população, dos cidadãos que utilizam esses espaços, dos cidadãos que neles exercem atividades comerciais, porque impactam negativamente sobre suas atividades econômicas e interesse social da população.
Qual o ganho que uma decisão dessa natureza acrescenta à cidade? Fluidez de trânsito? Não acredito. A presença de apenas um agente de trânsito, na saída da rotatória que desemboca na Litorânea resolveria qualquer problema nesse sentido.

Proibição total e extrema, na área limítrofe com a praça. No entanto, um caminhão que se transforma em bar (vendendo bebida alcoólica e tocando música em altíssimos decibéis) com a marca do Mateus estampada em todos os lados, estava ali, sobre o canteiro, sobre o capim nativo, exatamente onde nenhum veículo automotivo podia estacionar, como se estivesse licenciado legalmente, com o beneplácito de alguma autoridade municipal ou o compadrio, a conivência dos guardas que ali estavam.

A Câmara Municipal de São Luís poderia abraçar essa causa, pois ela interessa à nossa cidade, sob vários aspectos. Amar a cidade é estar ao lado das causas que lhe dizem respeito.
ivansarney@uol.com.br 
 

O Censo 2010 e o país real

qui, 04/11/10
por Ivan Sarney |
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Este ano o país está realizando o seu censo geral que, tradicionalmente, é realizado a cada 10 anos. Para este Censo 2010, o IBGE, com uma extensa e bem treinada equipe de recenseadores, já está em fase de conclusão dos trabalhos de coleta de dados, para a grande tarefa de conhecer a realidade populacional de nosso país, neste primeiro decênio do século XXI.

O que pretendem os censos, de forma geral? Saber quantos somos, onde estamos e como vivemos. Conhecer, dessa forma, é realizar um profundo inventário sócio-econômico das famílias e da sociedade brasileira. Conhecer essa nossa realidade é essencial para planejarmos o nosso desenvolvimento, com ênfase a áreas e aspectos de maior necessidade de investimentos. Essa é uma grandiosa tarefa que o IBGE realiza, com todo o respaldo de seu corpo técnico e com o acervo de experiências que vem desenvolvendo ao longo de décadas.

O Censo 2010 teve início no dia 01de agosto e deverá estar concluído em 120 dias, em sua fase de coleta de dados em campo. Para isso, o IBGE contratou e treinou recenseadores, em todo o país, mostrando-lhes a responsabilidade que lhes cabe na busca das informações censitárias que tanto precisamos conhecer.

Esses recenseadores ainda podem ser vistos, em todos os recantos do país, em suas gloriosas tarefas de coletar dados, através de entrevistas em cada residência, buscando o conhecimento de nossa realidade econômico-social e política, para melhor conhecermos nossa realidade. Ao todo, são 5.565 municípios, distribuídos em nossos 8 milhões de km2. É uma tarefa gigantesca a coleta dos dados censitários, num espaço de tempo consideravelmente curto.

Portanto, é de fundamental importância que saibamos receber bem os recenseadores, que saibamos identificá-los e que possamos fornecer-lhes as informações corretas, para o Censo reflita verdadeiramente nossa realidade.

O recenseador não é um agente fiscal, e as informações prestadas ao Censo não podem ser utilizadas para outros fins senão para fins estatísticos, para fins sociais que ajudem a projetarmos a melhoria da qualidade de vida de nossa população e o desenvolvimento de nosso país, partindo de bases reais da nossa realidade.

A Lei 5.534, de 14 de novembro de 1968, assegura o caráter sigiloso das informações prestadas, para fins estatísticos, e isso deve tranqüilizar a todos, na hora de responder ao censo.

Considerando a responsabilidade, o imenso trabalho que os recenseadores estão realizam, enfrentando dificuldades de todas as naturezas, propus à Câmara Municipal, exercício do mandato de vereador, no ano 2000, um projeto de lei para isentar de pagamento de transporte coletivo os recenseadores do Censo 2000, no Município de São Luís. Essa isenção estava restrita  ao período da fase de coleta de dados, para facilitar o deslocamento dessas pessoas, sem que isso as onerasse ou onerasse o Censo. A justificativa é que a tarefa que eles realizam é de interesse público e essas pessoas, enquanto no exercício da tarefa de recenseadores, devidamente, identificados por documentos e indumentárias, pudessem ter direito a esse benefício, em nome do interesse público que o Censo representa.

Considerei esse projeto de lei de elevada importância para nossa cidade e tive esperanças de vê-lo copiado, para ser utilizado em outros municípios, especialmente nas capitais.
Raciocinei que tal isenção, por ser temporária, e beneficiar um contingente de pessoas que não chega a ser grande, no universo dos usuários do sistema de transporte coletivo, poderia obter uma urgente aprovação da Câmara, pela importância da matéria que disciplinava. Tal projeto de lei, no entanto, não chegou a ser aprovado pela Câmara Municipal.
O Censo 2010 é, com certeza, o maior levantamento de dados estatísticos que o país já realizou.

 Esse levantamento precisa de nossa participação efetiva para que seu êxito seja pleno, na composição de um perfil de nosso país. Nossa forma de participação é receber bem o recenseador e prestar-lhe as informações que ele busca, através do questionário que deve aplicar.

Quando o Censo 2010 estiver concluído, e conhecidas suas informações, poderemos melhor redefinir um planejamento em áreas como saúde, habitação, educação, trabalho. Além disso, alterar a distribuição de cotas do Fundo de Participação de Estados e Municípios; redefinir a representação política, para deputados e vereadores.

Uma política de desenvolvimento, que incorpore definição de áreas para instalação de estabelecimentos comerciais, industriais e serviços; demanda municipais e estaduais por água e esgoto, postos de saúde, hospitais, estradas; todas as demandas sociais podem valer-se do Censo 2010, uma vez que ele retratará a população do país, em seus aspectos quantitativos e em seu ambiente familiar, onde de renda, escolaridade, filhos, sexo, idade, composição familiar fornecerão o espelho social de nosso país. 

Portanto, conclamo a todos a participarem desse processo de realização do Censo 2010, com esperanças, com sonhos, com a certeza de que nós vamos construir um país mais confortável para nosso anseio de viver melhor. O IBGE, para tanto, contratou 240 pessoas, entre coletadores, supervisores, apoiadores e administrativos. Além disso, visando assegurar maior rapidez e confiabilidade nos dados coletados, além de centenas de comutadores em rede nacional e rede de comunicação em banda larga, os recenseadores estão equipados com computadores de mão, (220 mil) com receptores de GPS.  Amar a cidade é contribuir para conhecermos melhor a nossa realidade.  
ivansarney@uol.com.br
 

A pequena e astuta gaivota

qui, 04/11/10
por Ivan Sarney |
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No encanto do dia que amanhece, a pequena gaivota adeja e amanhece. Amanhecer, independente de ser gaivota, é renovar-se com a manhã molhada de orvalho e tocada pelo canto matinal dos pássaros. Renovar-se pelo canto, pelas formas, pelas cores, pelo verão que recolhe a luz e vai cedendo ao outono que se anuncia, pelas folhas que se desprendem das árvores para intumescer a terra e celebrar a vida, nesta quinta-feira de março.

Amanhecer, no universo da lagoa, é manter-se vigilante ao movimento dos peixes, dos pequenos cardumes que se movem sob o espelho das águas rasas, independente de seu odor. Amanhecer é sentir-se num mundo novo, onde moldamos sonhos, onde esperanças transitam, em cores e formas humanas, dialogando com Deus e celebrando a vida.
Amanhecer, pelo menos do ponto de vista da pequena gaivota, é estar vigilante, adejando as asas e pairando no céu, na corrente do vento, e manter o olhar aguçado nas vidas que se movem sob as águas, porque ali está o alimento de seu corpo alado. Desse modo é que a pequena gaivota amanhece, independente de meus olhos e de minhas emoções.

Ela parece brincar ao vento, com as asas estendidas para manter-se sem esforço, pairando sobre as águas, numa estratégia de busca, de avaliação, de espera. E assim fica até que, de súbito, recolhe as asas e desce veloz, como uma seta disparada com perícia, e mergulha para logo emergir batendo as asas e levando no bico sua presa fatal.

Por seu pequeno porte, ela não busca as presas maiores, os peixes maiores, que tornariam inútil sua caçada e, breve a sua vida. A natureza, no mundo animal, aguça o instinto dos predadores para a harmonia que se impõe na  cadeia alimentar. Uns se alimentam de outros, com absoluto respeito à saciedade da fome, ao sistema de defesa e de ataque que Deus lhes deu, respeitando o porte, as forças e a capacidade de reagir de suas vítimas.

A pequena gaivota é pródiga nas lições que vai dando, no exercício de sua caçada. Algumas vezes, mesmo veloz e decidida, bem próximo das águas de seu mergulho, ela abre as asas e de novo adeja, subindo sem finalizar seu intento de captura. A fugidia caça, então, num movimento de pura casualidade e sorte, terá escapado daqueles bicos afiados. E segue seu destino natural, cumprindo o equilíbrio da cadeia alimentar.

O que parece, portanto, ser o momento adequado, o exato momento do ataque fatal, pelo menos para a pequena gaivota, pode mostrar-se ilusão pelo concurso de uma pretensa vítima. O que torna inglória, muitas vezes, a caçada da pequena gaivota é o instinto de sobrevivência de que somos todos dotados. A luta imanente pela vida é parte da vida e do viver, em todas as espécies vivas que Deus colocou na face da Terra.

Por isso, a pequena gaivota não desiste, enquanto a manhã vai mostrando suas luzes. Ela permanece atenta, fiel à sua natureza caçadora, fiel à sua gênese, fiel à sua história, fiel ao sentido de sua própria existência. Ela não nega e não trai a si mesma, a seu instinto de ave predadora, às suas companheiras que voam em pequenos bandos, no mesmo cenário matinal, tocadas pelas mesmas motivações que até ali as trouxeram.

Elas são obstinadas e valem-se dos olhos e do olhar para identificar suas caças, para sentirem e avaliar suas possibilidades de sucesso ou insucesso de captura, nos ataques que empreendem. Com os olhos elas fazem mais que ver, elas quase pressentem, elas quase perscrutam o que é vida, o que se move sob o espelho de águas que parecem turvas a olhos humanos.  

A pequena gaivota adeja e amanhece, no encanto do dia que amanhece. A manhã nos oferece lições orvalhadas, entre flores que desabrocham anônimas, e pássaros que gorjeiam intermitentes, nas hostes do manguezal, na paisagem e no bioma da lagoa.

Uma gaivota intrusa, no entanto, surpreende nossa pequena gaivota, em pleno vôo, tentando arrancar-lhe dos bicos fechados, a pequena presa há pouco conquistada, num exaustivo trabalho de paciência e perícia. Ela tenta e chega a ameaçar, mas é repelida pelo vôo sinuoso, rápido, quase em semicírculo, que a pequena gaivota lhe impõe, numa demonstração clara de resistência e argúcia.

A gaivota intrusa, usando a lei do menor esforço, parece desistir ludibriada, e vai pousar no mangue seco, a espera de uma nova chance para poder atacar. Pura esperteza é o que demonstra a gaivota intrusa, pequena como a nossa gaivota, mas incapaz de aventurar-se no mergulho caçador, de medir e avaliar suas possibilidades de vitória, contra uma presa interessada em manter-se viva.

Que motivações teria a gaivota intrusa para agir dessa maneira? O instinto do predador é caçar. A caça, nesse caso, pertence a quem caçou. Tomar é a lei do menor esforço, é o desvio que desnatura o bando, o grupo, e o divide. Tomar, na lei dos homens, é roubar. Roubar é crime. No mundo animal, tomar também é caçar, é a busca da sobrevivência.

Dessa maneira,ainda, a pequena gaivota é pródiga nas lições que vai dando, ensinando a resistência, negando aos pretensamente espertos – aos que tentam se beneficiar do trabalho dos outros, incapazes talvez de gerar seus próprios frutos – a colheita fácil de frutos que não semearam.        

A pequena manhã voa com a gaivota que amanhece. A pequena gaivota amanhece na manhã que voa. De uma ou de outra forma, um pouco desta manhã vai ficando em mim, que caminho e penso no dia que amanhece e na manhã que voa. Amar a cidade é se deixar embevecer pela exuberante maravilha que a natureza nos oferece.

A violência e seu recorrente estímulo

qui, 04/11/10
por Ivan Sarney |
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Leio, no noticiário internacional, que a comunidade européia está tentando proibir a comercialização, nos países que a integram, de jogos eletrônicos que estimulem a prática da violência. Uma decisão como essa, em países onde a economia de mercado é pilar inamovível da democracia, não poderia ser buscada senão depois de muito estudo, de muita constatação, sobre a nociva contribuição desses jogos eletrônicos para a construção de uma cultura de paz.    O noticiário não cita esse ou aquele jogo. Identifica, apenas, jogos eletrônicos, indicando que essa violência é uma característica inerente a quase todos eles, que se constituem em verdadeiros treinamentos para a destruição, para matar.

Esse treinamento é mais cruel porque os jogos são interativos, fazendo com que a criança que os está manipulando aponte e dispare a arma, matando, destruindo tudo o que aparece como alvo móvel. Não tenho dúvidas que as crianças, que crescem treinadas assim, vão banalizar a vida, a morte, e matarão sem piedade, sem se sentirem culpadas de nada, como se estivessem jogando no vídeo game.

Na sociedade americana, onde as crianças têm acesso mais fácil a computadores e a esses jogos, não têm sido raros os casos de crianças que, inexplicavelmente, executam colegas com armas de seus pais, mostrando que as fronteiras psicológicas da violência são mais amplas e mais imprevisíveis dos que podemos supor. Esses crimes de coletivos parecem constituir um arquétipo da sociedade americana, acometendo jovens e adultos como agentes costumeiros, vitimando centenas de dezenas de pessoas, anualmente.

O quê leva uma criança de onze, doze, treze anos, de família de poder aquisitivo elevado, nos EUA ou Europa, matar colegas de aula, a tiros de revólver ou rifle, sem qualquer motivo aparente? Por outro lado, se há um motivo subjacente, e sempre haverá, que motivo seria tão grave que pudesse justificar atitude tão extrema?

É necessário indagar, que modelos estão servido de estímulo, de inspiração para esse tipo de comportamento. A criação, os métodos de resolver conflitos domésticos, adotados pelos pais? Os filmes que a televisão veicula, o noticiário que apresenta? Os livros, as revistas? Os jogos eletrônicos? A resposta mais adequada seria, talvez, um pouco de cada coisa, com agravante para os jogos eletrônicos que pedem um agente ativo, que é a criança, para comandar as chacinas que ali acontecem; o agente sente a emoção de escolher alvo móvel, de perseguir, de ser perseguido, de atirar e matar, de usar outros métodos para praticar a violência.     

A violência, por ser instintiva no ser humano, independe da condição social e econômica dos povos. Ela permanece em estado de latência e pode ser exercitada, a qualquer momento, despertada por uma situação que a estimule. Os fatores sociais são condicionantes de comportamentos violentos. Eles não são, no entanto, determinantes da violência na espécie humana. Ela é inata no homem e está ligada, biológica e ontologicamente, à sua história social, passando por todos os estágios de sua evolução.

Os jogos eletrônicos estão sendo instrumentos de treinamento para as crianças, na prática da violência pessoal e urbana. Estou convicto que não devemos nos omitir. Por isso, mais este artigo, pretendendo uma tomada de consciência e a deflagração de atitudes que nos levem à proibição da venda desses jogos eletrônicos violentos, em nome da sociedade atual e do futuro.

Mas essa tarefa, dado a abrangência de sua ação, e os interesses econômicos que a envolvem, é uma tarefa para ser formalizada por nossos senadores ou deputados federais, através de projeto de lei, objetivando a segurança, a proteção das crianças, dos adolescentes, da sociedade brasileira, como um todo.

Com o Estatuto do Desarmamento, está afirmada a prática de uma política pública federal contraposta à violência, no conjunto da sociedade brasileira, como forma de proteção da vida. A compra, a guarda, a devolução, o porte da arma de fogo está ali disciplinado, de modo assegurar maior proteção cidadã.

A essa política federal devem estar aliadas políticas publicas estaduais e municipais, que constituirão a grande base sobre a qual viremos assentar as campanhas e as práticas de uma cultura de paz, incluindo a educação familiar e escolar, como premissas indispensáveis à adoção de novas práticas culturais.

Portanto, é necessário que nos empenhemos para dar uma formação mais adequada aos nossos filhos, a partir do ambiente de nossa casa, de nossa família. A cada dia, devemos nos sentir mais responsáveis pelos destinos da espécie humana, pela segurança de cada cidadão, do conjunto da sociedade,  buscando ressaltar valores que engrandeçam a nossa espécie, evitando os que contribuam para sua degradação social.

Devemos, portanto, estar atentos para não darmos exemplos de violência em nossa própria casa, nos métodos de disciplina familiar que estabelecemos para a educação de nossos filhos, e em nossa relação conjugal. Do mesmo modo, os brinquedos com que presenteamos nossos filhos não devem representar um estímulo à violência, como armas, games de combates, de destruição, pela seqüela psicológica que essas práticas repetitivas, podem produzir, gerando  adolescentes mais motivados para a prática da violência social. Amar a cidade é praticar a paz e proteger as crianças e adolescentes. 

ivansarney@uol.com.br



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