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A juventude é o próprio incerto futuro

seg, 17/01/11
por Ivan Sarney |
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Tenho orgulho de ser o autor do texto, do projeto de lei que proibiu a venda de bebidas alcoólicas a menores de 18 anos, no Município de São Luís. Tive a coragem de apresentar esse projeto, sem medo de angariar a possível antipatia dos jovens menores de 18 e maiores de 16 anos, que já podem ser eleitores, em nosso país. Ela antecedeu o Estatuto da Criança e do Adolescente que a incorporou.

Considerei que tinha deveres inarredáveis a cumprir, como parlamentar, que estavam muito além da possível antipatia de um contingente impreciso de jovens, que poderiam entender minha atitude como algo que lhes fosse prejudicial. Aprovada a lei, pude ir constatando em nossas reuniões, que uma grande maioria dos jovens, com quem conversava, estava aplaudindo nossa iniciativa e coragem, nossa postura parlamentar determinada e lúcida.

Fiquei, então, com as forças redobradas e com elas pude cobrar nesta coluna, pude cobrar na tribuna da Câmara, nas entrevistas em rádios, nas matérias de jornais. Cobrei que as autoridades do Executivo estadual e municipal deflagrassem campanhas educativas sobre os riscos do álcool, sobre o cumprimento dos dispositivos legais, e realizassem ações repressivas àqueles que fossem flagrados, na prática transgressora prevista na lei.

Até hoje, no entanto, nenhuma campanha foi realizada, nenhuma autuação foi feita, que eu sabia, visando coibir esse abuso tão nocivo à juventude, tão destrutivo para o nosso presente, tão ameaçador para o nosso futuro. Mas a lei está em pleno vigor, à disposição das autoridades, com um explícito desejo de proteger a juventude, a família, o cidadão, a sociedade e o futuro.

Não podemos continuar assistindo ao verdadeiro massacre a que nossa juventude está sendo submetida, diariamente, a partir dos meios de comunicação de massa, que tentam nos induzir ao consumo de todos os produtos, inclusive as bebidas alcoólicas. Não podemos continuar assistindo ao assédio perverso, destrutivo que os fabricantes e comerciantes de bebidas alcoólicas promovem, usando a mídia em todas as suas formas de expressão, para seduzir os consumidores especialmente os jovens, usando imagens de atletas consagrados, para promover o consumo de suas marcas, como se o álcool fosse benéfico à saúde.

Sabemos que o álcool é a mais perversa e perigosa das drogas, por várias razões. A primeira delas é que não é proibida como droga. A segunda é que é muito barato. A terceira é que está em todo lugar, desde o mais exposto ao mais recôndito. Em qualquer quitanda de bairro pobre o álcool ali está, vendido a retalho e a varejo, a gosto do freguês. Infelizmente, esse freguês muito visado é o adolescente, o novo mercado de expansão irresponsável desse consumo.

Mas o álcool é a porta de ingresso para todos os vícios, que têm as drogas como suas motivadoras. Através do álcool vêm todas as outras, uma chamando a próxima, a mais grave, a mais desagregadora, a mais letal. Quase todas são potencialmente letais e, de uma forma ou de outra, acabam destruindo vidas, famílias e apodrecendo o próprio tecido social.

Os jovens estão pelas madrugadas, sem serem molestados, apesar de existirem leis que os resguardam de estar expostos, em local e horas indevidas. Nos bares, nas lanchonetes, nos botequins, não raro são encontrados jovens tomando bebidas alcoólicas, muitas vezes, diante dos próprios pais que os estimulam. Um pai pode assumir o risco de seu filho desencaminhar-se na vida, por conta de sua ação ou omissão voluntária, um comportamento não censurado, não reprimido. Poderá também responder por possíveis comportamentos transgressores de seu filho.

O poder público não pode ser tolerante, conivente com esse tipo de comportamento ilegal, porque submete uma ou mais gerações inteiras ao descaminho, com um gesto de omissão. Quantos jovens, nesta época de agora, estão iniciando uma vida de destruição interior, a partir da ingestão de bebidas alcoólicas? Quantos já estão iniciados e se encontram em fase mais avançada de compromisso, de dependência das drogas, tendo o beneplácito da omissão do poder público, no que toca ao uso álcool?

A quem interessa esse estado de coisas? Certamente não interessa aos pais, nem aos jovens, nem ao poder público. Não interessa a ninguém, senão aos traficantes, aos produtores, aos que têm vantagens econômicas com essas atividades nocivas à sociedade e ao futuro. Não interessa, com certeza, a mais ninguém, além dos que se locupletam com a degradação da condição humana.

Para esses, pouco importa saber se jovens meninas, que amanhã serão mães; se jovens rapazes, que amanhã serão os pais; se eles estão comprometendo sua felicidade, a saúde de seus futuros filhos; se eles mesmo estão em condições físicas e psicológicas de enfrentar desafios. Esses, que agem contra a proteção dos jovens, constituem uma ameaça à família brasileira, ao tempo presente e ao futuro que estamos querendo construir, mais luminoso e harmônico.

Os jovens são a riqueza mais delicada e emergente de um país. Não podemos tergiversar com os problemas que envolvem a juventude. Eles precisam de nossa ação urgente, de nossa ajuda.
Apelo ao poder público estadual e municipal para que promovam as campanhas educativas sobre os males do álcool, especialmente para os adolescentes; para que promovam a fiscalização, para evitar a prática que a lei proíbe. Apelo ao Juizado de Menores para que também se mobilize e use de suas competências, para coibir tais práticas nocivas à juventude.

Vamos de mãos dadas, de sentimentos dados, pela proteção da juventude, pela construção de um amanhã mais esperançoso para nossos descendentes. Amar a cidade é proteger sua juventude que é o seu futuro, sob todos os aspectos.

ivansarney@uol.com.br    

Por entre os pingos das primeiras chuvas

sáb, 08/01/11
por Ivan Sarney |
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Indiferente ao aroma, ao perfume que manhã vai exalando pelas folhas umedecidas, essas nuvens cinzentas e essa primeira tímida chuva parecem  indicar que o inverno chegou. O inverno? Alguns corrigirão: “Mas a estação oficial é o verão”. Nada a contestar. O verão é a estação oficial em nosso país.

Para nós ludovicenses, no entanto, é o nosso inverno. A estação das águas, das chuvas torrenciais que parecem acontecer somente em São Luís, entre noites que têm sapos, grilos, cigarras, tagarelando na escuridão dos charcos, dos mangues, dos terrenos baldios; que têm muriçocas renitentes; que têm manhãs luminosas de sol radiante e dias mormacentos, sombrios, nostálgicos, que vão cingindo a gente, até o entardecer.

Um novo inverno não acontece da mesma maneira que o inverno que o precedeu. Cada inverno, como cada dia, como cada manhã, como cada pessoa, é essencialmente único em si mesmo. Mas, como numa tela pictórica, contém os mesmos elementos em sua composição: conteúdo, forma, ritmo, massa, volume, textura, movimento, harmonia, luz, sombra, perspectivas, cores. Enfim, elementos componentes, de funções estruturais e estéticas, sob a ordem inelutável do supremo Criador.

O que torna um novo inverno diferente do outro que o precedeu ou o antecedeu, se quisermos retroceder de forma mais remota no tempo, não é necessariamente a profusão das águas que ele trás consigo, nem mesmo o cenário natural onde essas águas acontecem, com o inverno que lhes pertine.

Do mesmo modo, não é também o ritmo com que essas águas se precipitam sobre os telhados e a baía de São Marcos, depois de escorrerem pelas ladeiras da cidade. Não é isso, como também não é o cromatismo das nuvens e a umidade do ar que põe cheiro de mofo nas roupas, nos lençóis, nos travesseiros, em tudo mais que resta guardado nos aposentos.

O que torna um novo inverno diferente de outro inverno é o testemunho, o sentimento, a percepção das pessoas que o estão vivenciando, que o estão sentindo, interpretando e, com suas atitudes, dando-lhe existência sentimental e formalmente objetiva. Tudo como, considerando a metáfora da tela pictórica, essas pessoas estivessem escolhendo os elementos disponíveis de uma composição para, com eles, formularem outras composições, marcadamente suas, com os traços definidores de sua forma de ver, de sentir e de interpretar o mundo circundante.

Assim como todas as coisas, factuais ou materiais, só adquirem existência efetiva, para nós, na medida em que se tornam perceptíveis ao nosso intelecto e a nosso interesse. Assim como essas coisas precisam de nosso juízo crítico para integrar nossa escala de valores. O inverno, como não poderia deixar de ser, também integra essa escala de valores, na ordem de nossas lembranças, como todo o acervo daquilo que convencionamos chamar passado. Como um novo inverno não acontece igual a outro que o precedeu, uma lembrança também não acontece igual à outra, ainda que o mesmo motivo as tenha suscitado.

Os invernos referenciais de minha infância, por exemplo, nunca mais se repetiram, na ordem das coisas naturais. Aqueles invernos tinham chuvas torrenciais que, às vezes, duravam quatro a cinco dias seguidos, de forma quase ininterrupta. É claro que havia, em torno disso, um conjunto de ritos familiares que nos ajudavam a conviver com aquele período.
Saberes que a tradição foi conservando e transferindo, e que integram o acervo de nossas referências de vida.

Os invernos dos últimos anos não foram muito pródigos em águas. Mas foram invernos. Ansiados como invernos. Sentidos e vividos como invernos e, como invernos, partiram, deixando lembranças do que deixaram de ser e do que, de fato, foram. Para alguns, foram invernos de fartura, de semear e colher, de encher rios, lagos, fontes, de deixar recordações gravadas no tempo.

Para outros, não terá sido tanto assim. Haverá os que reclamam das enchentes, das inundações, dos barracos que ruíram, dos pertences que perderam e da destruição que viram em torno de si. Será sempre assim com todas as coisas  passíveis de nossa interpretação, do subjetivismo humano. Cada um definirá, sentirá, conforme a educação que recebeu, os valores que lhes foram transmitidos e ensinados, as circunstâncias que o motivaram, sua experiência de vida e as utopias que alimenta.

Mas, independente do juízo que fazemos dos fatos, das coisas, eles acontecem e acontecerão sem considerar nosso julgamento, a idéia que deles fazemos. A idéia que fazemos das coisas nos faz pessoas, nos faz particularizar nossa existência, definir os rumos que trilhamos, nos unir e nos afastar das pessoas que escolhemos, na ânsia de seguir nosso destino e construir os abrigos de nossa felicidade. Assim como os rios descem das serras e vão serpenteando, vencendo distâncias, desaguar no mar. Assim vamos todos, na metáfora da vida, desaguar no mar.

Um novo inverno, no entanto, só por ser inverno, será sempre festejado, sempre ansiado por trazer as chuvas, por trazer as águas que vão irrigar e percolar a terra, que vão alimentar as raízes, que vão fazer brotar os frutos, que vão saciar a sede, sendo o símbolo mais translúcido da fertilidade. Água como fonte de vida. Vida como dádiva de Deus e trajetória do homem. Amar a cidade é sentir e viver o inverno de suas águas e pessoas.

ivansarney@uol.com.br

Abrindo as janelas da alma para o ano Ano Novo

sáb, 08/01/11
por Ivan Sarney |
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Os jardins ainda exibem, na exuberância das flores, os sinais da primavera que há poucos dias nos deixou. Mas já estamos em janeiro, com todas as esperanças que iluminam o Ano Novo. O ano de 2010 já pertence ao passado, com todos os fatos que imprimiu em nossas vidas, independente do conceito que deles possamos ter. O que foi esperança, o que foi presente, muitas vezes ansiado, agora é simplesmente lembrança. É lembrança e é passado, respaldando os nossos passos presentes, projetando os nossos sonhos futuros e nos motivando a escrever nossos destinos, de forma renovada.

Cada dia é uma vida nova e nos convida a novos sonhos e novas esperanças, levando-nos à compreensão de que somos seres emergentes, propensos a nos descobrir, a nos desenvolver como pessoas, a amar, a buscar a nossa transcendência, nos elevando para a compreensão da energia difusa e una que é Deus.

Os dias que se sucedem vão registrando os referenciais de nossa vida presente, pretérita e futura, dando-nos a oportunidade de repartir com outros, um pouco da luz que conseguimos absorver, em nossa trajetória pessoal. Para onde vão nossos passos? Para onde levamos nosso amor, nosso ódio, nosso perdão, nossa iniquidade? Para que servem os instantes de êxtase, de perplexidade, de encanto e prazer, em que nosso corpo e nossa alma mergulham, ao longo de nossa existência temporal?

Estamos a serviço de quem, a serviço de quê, no curto tempo de nossa permanência na face da Terra? Estamos a serviço da vida, talvez; a serviço de um aprimoramento espiritual, de um aprimoramento humano, dada a essência de nossa espécie evolutiva. Estamos a serviço do ser e do tempo, a serviço de Deus.

Nossos ancestrais não amaram, certamente, como amamos, por que não tinham o acervo de conhecimento de que hoje dispomos sobre nós mesmos, sobre o amor e sua complexidade. Não tinham a compreensão que temos hoje, sobre as forças cósmicas do universo em movimento, com seus campos magnéticos, suas emanações de luz, suas distâncias e proximidades, suas forças em constantes movimentos, que a tudo e a todos nos fazem vivos.

Dessas lições cósmicas, talvez a mais permanente, a mais profunda e mais essencialmente útil para nós, seja a compreensão de que tudo no universo é movimento e que, a cada milésimo de segundos, os cenários da ordem universal mudam e não se repetem nunca, da mesma maneira.
Vivemos num mundo de exclusividades, de unicidades paisagísticas, que se transfere para todas as espécies vivas. Nenhum ser vivo é igual a outro ser vivo, ainda que da mesma espécie e gêmeos, de quaisquer tipos.

Somos seres únicos no mundo e somente isso já nos dá uma exata dimensão de nossa importância pessoal, da relevância de nossa vida, para a compreensão de outras vidas, para a celebração da supremacia humana, sobre todas as outras criaturas vivas, que Deus colocou na face da Terra. Além disso, de todas as criações Divinas, o homem é a única que pode refletir, raciocinar, emitir conceitos, formular teorias, conhecer intelectualmente, qualquer aspecto de uma realidade. Somos, por isso mesmo, a mais bela criação Divina, porque podemos emitir juízo crítico sobre todas as outras, julgando-as como belas, feias, inúteis, úteis, pela exclusiva capacidade intelectual de que somos dotados.

Como é útil poder raciocinar que toda a realidade física, em torno de nós, muda em segundos e que nós, por força dessa mudança, também mudamos sob o aspecto físico, emocional, sentimental, procurando, mesmo sem sabermos, nos adaptar às novas condições do meio e a ele sobreviver, buscando realizar nossa destinação para o amor e para a liberdade.

Muito além de cada um de nós, no entanto, está nossa alma coletiva, um sentimento que não é individual, e que reflete a condição humana como um todo, inclusive com heranças ancestrais de nossos antepassados. Essa alma coletiva traduz anseios, esperanças que muitas vezes nem sabemos que possuímos, mas que estão latentes em nossos atos, nos atos de nossos semelhantes e que por isso mesmo, nos irmanam. Por isso mesmo, também, nossa alma coletiva nos transcende, é maior que nós e se projeta por séculos, por gerações, se transformando em códigos genéticos e orais que determinam o caráter, a índole de um povo, com todos os seus usos e costumes.

A cidade em que nascemos tem esse dom de ser receptáculo de todo esse código ancestral, de ser o ponto de referência principal daquela parte nossa que não nos pertence, por que está irmanada com todas as outras almas, ao longo do tempo, no universo.

Somos seres coletivos portanto. Nossa vida não nos pertence isoladamente, egoisticamente. Mas pertence a um acervo de nossa espécie humana, com tudo aquilo que ela tem de grandeza e pequenez. Apenas as cidades parecem ser permanentes; transcendem o tempo, contemplando os séculos, como testemunhos vivos de tantos anseios, códigos e tempos que se dobraram, nos calendários finitos dos homens.

Olho a cidade na tarde sonolenta de janeiro. O ano 2011, com tudo o que o cercou de sonhos e esperanças, já está sendo vivido por nós como a tarde de janeiro, que é real com seu frescor, com sua paisagem nostálgica.

Abrindo nossas janelas pessoais para o novo ano, nos mostraremos mais coletivos aos olhos e aos sentimentos dos nossos semelhantes e poderemos, mais facilmente, ser iluminados pelos focos de suas luzes positivas, enquanto iluminamos seus espaços de sombra. Amar a cidade é reconhecer-se um ser coletivo e repartir-se com seus semelhantes.

ivansarney@uol.com.br

As sempre vítimas do erotismo sexual

sáb, 08/01/11
por Ivan Sarney |
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A crônica policial dos jornais impressos, o noticiário da televisão, os registros das delegacias de costumes expõem o crescimento permanente da ocorrência dos crimes de abuso sexual cometidos contra mulheres, em São Luís, e no Maranhão.

Basta ler as manchetes dos jornais da cidade para constatarmos essa triste realidade, que atenta contra as famílias, contra a dignidade da pessoa humana, contra a honra de todos nós. Ela vai crescendo, na medida em que vão crescendo as vítimas e os agressores, sem que consigamos estabelecer políticas públicas de prevenção desses crimes, que sejam eficazes como ações mitigadoras.

O sexo é instintivo, em todas as espécies de vida que Deus criou. Ele é um impulso primitivo, que une o ser masculino ao feminino, na tarefa de perpetuação das espécies. Essa união só é possível por interferência de complexos mecanismos biológicos, com componentes hormonais, formais, cromáticos, odoríferos, visuais, tácteis, que funcionam como verdadeiros imãs, atraindo corpos e envolvendo almas.

Essas forças constituem a energia sexual, tão definitivamente importante na existência de todas as formas de seres vivos, por permitir nossa multiplicação, nossa perpetuação, nossa perenidade, como espécies.

Foi com base nessa constatação que Freud desenvolveu a Psicanálise. Ele chamou essa energia sexual, de libido, e procurou demonstrar que sua força seria responsável, subjacente, por todos os atos da vida do ser humano. Seria ela a responsável, em última instância, por todos os projetos de vida que elaboramos, por todos os atos que realizamos, conscientes ou não, por tudo aquilo em que nos envolvemos. Todos esses atos teriam, como finalidade, a satisfação do desejo sexual e o desejo de ser importante.

Para Freud, a libido comandaria todos os nossos interesses, em todos os estágios de nosso viver. Desde quando a criança realiza a sucção do seio materno, tudo, em nossa vida, se resume a sexo, na substância do pensamento freudiano.

Esse impulso, instintivo, de nossa vida, é contido, domado, canalizado, através da razão crítica, estágio superior de nossa consciência, ao qual o mesmo Freud chamou de superego, que é o estágio da autocensura. Nesse estágio, a razão diz o que devemos ou não devemos fazer, em função das convenções sociais: leis, usos, costumes, e demais regras que delimitam nossa vida, em sociedade.

Não precisamos ir mais além, na teoria freudiana, para compreendermos a existência de fatores concorrentes nos atos humanos, inclusive os da criminalidade: fatores biológicos, de natureza endógena; e fatores culturais, de natureza exógena.

Os fatores biológicos vão nos acompanhar por toda nossa vida, desde a concepção. Eles trazem o nosso código genético, nossas características como espécie, nossos impulsos de vida. Os fatores culturais vão constituir o acervo de nossos conhecimentos, pelo uso de nossa razão crítica, de nosso livre arbítrio. Eles são frutos da educação, na família, na escola, no meio em que vivemos.

Os fatores culturais funcionam como um freio para os impulsos de nossos atos, dizendo não a certos desejos, pelo fato desses desejos serem rejeitados, repelidos e punidos pela sociedade em que vivemos. São as regras de nossa conduta que não devemos transgredir, moral ou legalmente.  

Quando a sociedade vai se tornando mais flexível, mais permissiva, em relação a seus códigos de conduta, moral e ética, vai incentivando certas práticas, conceituadas como ilícitas. Os abusos sexuais contra menores, o estupro, são crimes que parecem estar nessa categoria de ilícitos.

Tenho uma desconfiança, muito grande, que a erotização do corpo, através do modismo de certas danças, da forma de vestir das crianças (imitando as mini-saias dos adultos), sempre valorizando aspectos sensuais dos corpos; as letras das músicas de duplo sentido; os programas de televisão que veiculam todas essas coisas, valorizando-as com a beleza plástica daquelas que as expõem, podem estar contribuindo para o aumento e a diversificação dos crimes de abuso sexual contra menores.

Em outro extremo da criminalidade está o superego das pessoas, o que faz com que uma grande e imensa maioria não cometa crimes. Por esse viés de pensamento, poderíamos combater esses e outros crimes, aumentando os investimentos em educação, desde a pré-escola, até o nível médio, quando termina o ciclo de formação educacional juvenil.

Esse programa deveria ser auxiliado por um ousado programa de apoio à educação familiar, considerando as peculiaridades dos pais do educando. A idéia se aproximaria do programa “médico da família”, de modo a estreitar essas relações e possibilitar uma melhor educação familiar às crianças de áreas, previamente, inventariadas como áreas necessitadas de apoio especial.

Paralelamente, os veículos de comunicação, concessionários de serviços públicos, deveriam ter um código de ética, moral e social, para orientar os programas que produzem e veiculam, e os que veiculam sem produzir, estabelecendo mais rigorosas faixas de horário.

As crianças, as meninas, as mulheres não podem continuar sendo vítimas dos abusos sexuais que as está acometendo e que, a despeito de nossa indignação, continuam crescendo. Amar a cidade é proteger as crianças e as adolescentes da banalização do corpo e do sexo.
        
ivansarney@uol.com.br

Um Natal de paz no coração da cidade

sáb, 08/01/11
por Ivan Sarney |
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 Com o apelo de que haja paz, no coração da cidade, estou cumprimentando as pessoas, neste dezembro. Essa paz, que traduz o clima do Natal, é a mesma grande paz que precisamos ver espargida pelo Ano Novo, habitando os lares, as ruas, as escolas, o ambiente de trabalho, enfim, todos os lugares onde o homem vive e reina, cumprindo sua destinação divina.

É a mesma ansiada paz que queremos ver plantada no coração do homem, inspirando-o para as tarefas de harmonia com os seus semelhantes, com o meio-ambiente, com todas as forças energéticas que coordenam e regem a ordem universal.

Estou cada vez mais convencido, cada vez mais alimentado da convicção de que uma grande mudança acontecerá na ordem social – em todo o planeta Terra, no curso deste século – partindo da reflexão espiritual, do reencontro do homem com Deus e seus ensinamentos, sua identidade e suas referências.  Assim como a natureza é cíclica e, de tempos em tempos, ocorrem fenômenos naturais que vão modificando a conformação da Terra, determinando uma revisão dos cenários físicos, do meio-ambiente. Assim como, de tempos em tempos, se reorganizam, efervescem e explodem as forças cósmicas, modificando as faces do espaço sideral.

Assim, desse mesmo modo, decorrente talvez dessa ordem cósmica, que faz o dia e a noite se sucederem, como se sucedem as estações, os meses, os anos; e se sucedem as pessoas, na face da Terra. Assim, igualmente, assim, renascem os movimentos sociais, as esperanças do homem, porque o homem é feito de inconformismos e mudanças.

O processo da secularização vai produzindo as novas normas, as regras sociais que vão tolher e estimular as novas esperanças, e colocando o coração do homem, a serviço do tempo e da idéia de Deus. Isso parece contraditório, mas não acontece por acaso. Em verdade, tudo isso é forma de revelação da mais pura e real face de Deus. Tudo é forma abundante e incontestável de confirmação de que Deus é luz, é energia difusa que preside toda essa grandeza inelutável que integramos, como partículas tão pequenas que somos.

O Natal é um tempo propício para essas reflexões, para nos deixarmos conduzir por essa luz e por essa harmonia que orquestra a natureza inteira, e que é da mesma matéria de que é feita a nossa alma. Muitas vezes, um corpo se deixa mortificar porque a sua alma, que lhe anima os sentidos inteiros, mergulhou nos abismos do rancor, do ódio, da inveja, da ambição destrutiva e se deixou aprisionar na escuridão. O Natal vem sacudir nossos sinos, vem tocar nossas melodias, vem nos vestir de branco e nos falar de valores que estão postergados, dormindo na maioria dos corações humanos, tão presos às suas próprias ambições.

Um Natal de paz, no coração da cidade. O coração da cidade pulsa e vive, independente de nós. Ele é o coração coletivo, a alma coletiva, os anseios e os sentimentos que transcendem a cada um de nós, para ser um sentimento de muitos, sem sectarismos etnocêntricos. O coração da cidade somos todos nós, portanto, que aqui vivemos e aqui construímos nossas esperanças, nosso presente e nosso passado, com a mesma grande determinação com que superamos os obstáculos que foram interpostos em nossos caminhos, ao longo do nosso processo de formação e amadurecimento.

É esse espírito que precisamos recolher dessa festa cristã, que reúne e alimenta esperanças em povos, no mundo inteiro, celebrando o nascimento do Menino Jesus. Aquele que viria transformar a humanidade e que a transformou de forma tão marcante, que determinou a divisão de sua história evolutiva, em: Antes de Cristo e Depois de Cristo. E já iniciamos a contagem do terceiro milênio D.C.

Em verdade, o que precisamos no Natal está muito além de presentes materiais, que não dizem respeito ao verdadeiro sentido dessa festa universal. O que precisamos está implícito nos gestos solidários, nas ações que nos conduzam aos outros e posa trazer os outros até nós, para nosso convívio fraterno e pacífico, para a construção dessa grande corrente universal, pelo soerguimento do homem e seus valores mais imanentes e elevados. O que precisamos fazer é celebrar o amor, com todas as suas melodias, com todos os seus perfumes e suas cores, fazendo-o brotar nos corações mais surdos e mais mudos, o doce encanto da ternura, da cumplicidade, da harmonia com que os espíritos que amam sabem espalhar em todos os recantos do ser.

Estou em paz comigo e com todos. Deus é testemunha de que estou em paz, de que desejo a paz porque sou pacífico, e sei que é com ela que construiremos as bases da nova sociedade. Mas como conseguir a paz senão pela determinação de cada um de nós, que saia por aí estendendo as mãos, abrindo a alma, fugindo da violência, praticando uma fraterna e solidária harmonia. Este é o desafio que agora, em pleno Natal, pode estar mais presente, em nossos atos cotidianos, como uma verdadeira missão de evangelistas. Precisamos nos multiplicar, para que sejamos muitos mais a sonharem, e tentarem construir um mundo renovado, com renovado humanismo, que nos recoloque num plano espiritual superior, mais próximo de Deus, mais integrado com os anseios do homem, com a nossa finitude e nossa busca da transcendência. A todos, um Natal de paz no coração da cidade, no coração de cada um que nela habita e sonha. Amar a cidade é contribuir para sua harmonia.

ivansarney@uol.com.br

Um degrau para o futuro

sáb, 08/01/11
por Ivan Sarney |
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Todos somos responsáveis pela preservação do meio ambiente. Todos, no caso, significa cada cidadão, isoladamente, cada ser humano, independente de onde tenha nascido ou onde viva.  No mundo inteiro, a consciência da preservação ambiental está ocupando o centro das preocupações humanas, como um dever inelutável, para que possamos assegurar melhor qualidade de vida para as atuais e as futuras gerações, e para assegurar o uso sustentável dos recursos naturais de nosso Planeta.

Aos cientistas cabe estudar as causas e os efeitos, as pesquisas, a orientação do que deve ser feito, a constatação dos indicadores que nos avisam para os riscos da civilização predatória que desenvolvemos. A nós, os demais humanos, cabe a apropriação dessas informações e os procedimentos que vão nos conduzir a outros caminhos, com maior respeito ao nosso ecossistema, à biodiversidade, como uma aspiração da própria felicidade do homem ou ainda, como uma determinante para a própria sobrevivência da espécie humana, e de centenas de outras espécies de vida, na Terra.

Esse trabalho de mudanças, de fomento de uma permanente consciência preservacionista, tem que começar na família, como todo o processo de nossa formação humana. É no aconchego familiar, nos ensinamentos que as palavras e o exemplo dos pais vão incutindo na formação dos filhos, que começa a construção do homem integral.

O que pode ser entendido por homem integral? O homem integral pode ser entendido como aquele que desenvolve suas potencialidades emocionais e intelectuais, com harmonia. O homem que tanto pode ser um escritor ou um médico, mas que cultiva sua vertente emotiva, com as letras, com as artes, com as singelas coisas do cotidiano, sem constrangimentos de amar, de repartir seu universo interior com o seu semelhante; e que consegue ver, na grandeza de todas as coisas, a energia imarcescível do nosso Criador.

O homem do novo século, do terceiro milênio, será um homem renovado por muitos anseios, buscas e necessidades, um homem comprometido com uma vida mais coletiva e menos singular. Essas são as nossas esperanças, nossas expectativas com os rumos da humanidade, com o respaldo do conhecimento científico que a ciência põe, a cada novo dia, diante de nós. Uma vida que nos remeta ao gregarismo de nossa imanência humana, e que nos faça vivenciar a interdependência que há entre os seres humanos, para o exercício de nossas plenitudes, inclusive para a conquista da felicidade; para a compreensão, absoluta, de nossa dependência dos recursos naturais, como condição da própria vida, em nosso Planeta.

O epicentro da união dos homens e dos povos, em todo o mundo, será a questão ambiental. Como exemplo disso, vejo o elemento água, que é uma fonte de recurso esgotável, e que será um dos pontos críticos da vida humana, e de todas as outras formas de vida. Assim será se prosseguirmos com as devastações das matas ciliares, com o desmatamento de grandes áreas verdes, com as queimadas, acelerando a evaporação das águas, diminuindo o seqüestro de carbono, e contribuindo para o aquecimento da Terra, pelo efeito estufa.

Evoluímos para a criminalização dos danos ambientais, punindo seus autores, com prisão e com multas. Estão sendo criadas varas judiciais, para tratar especialmente das demandas ao meio ambiente. Nas escolas, no entanto, ainda não está inserida a educação ambiental, como conteúdo obrigatório, no ensino de primeiro e segundo graus, permeando todas as disciplinas.
 
A escola não pode estar ausente desse processo de formação do novo homem, do homem integral. Ela tem que participar, fazendo um esforço didático e metodológico, para ser um instrumento de transmissão de conhecimentos ambientais úteis aos cidadãos que ali se encontram, em busca de formação, para enfrentarem a vida competitiva e árdua de agora.

Como pais, temos o dever impostergável de transmitir aos nossos filhos o melhor que temos dentro de nós. Essa transmissão será tanto mais útil e marcante, quanto mais úteis e marcantes forem os exemplos que dermos, no dia a dia, ante os problemas e as situações do cotidiano.

Cada um de nós, também, como cidadão, deve dar a sua parcela de luta, de postura, de denúncia, de ação que seja edificante para a defesa do meio ambiente sim, mas também para a defesa da vida, como um todo, visando a construção do novo homem. A nenhum de nós é perdoado fugir desse embate, dessa contribuição para a vida de todos.

Afinal, a qualidade de vida das futuras gerações depende de nós, de nossos compromissos com o uso racional dos recursos naturais; de nossas determinações de legar-lhes um mundo em que eles possam desenvolver suas potencialidades humanas, desfrutando, de forma saudável, do conjunto de elementos naturais que concorrem para a vida, em nosso planeta.

Nossa responsabilidade, portanto, deve evidenciar seu compromisso de forma prática, dando exemplos de conduta, abrindo caminhos para outros seguirem por eles. É tarefa da família, da escola, das entidades de classe, dos agentes políticos, do poder público e de todo o conjunto da sociedade organizada.

A cada nova manhã, cabe a pergunta: o que fiz ontem como prática de uso sustentável dos recursos naturais?  E cabe a determinação do quê fazer, a cada novo dia, para que esse propósito de compromisso com a sobrevivência da espécie humana, e com a melhor qualidade de vida para todos nós, seja uma prática instintiva, natural. Amar a cidade é utilizar, de forma sustentável os recursos naturais.

ivansarney@uol.com.br

A violência legalmente estimulada

sáb, 08/01/11
por Ivan Sarney |
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A comunidade européia está tentando proibir a comercialização, nos países que a integram, de jogos eletrônicos que estimulem a prática da violência. O noticiário dos jornais, vez por outra, tem registrado as preocupações das autoridades com a crescente prática, por crianças e adolescente, dos jogos eletrônicos que estimulam a violência, temendo um amanhã sombrio para esses usuários, e para o meio social onde eles se encontram. Uma decisão como essa, em países onde a economia de mercado é pilar inamovível da democracia ou do parlamentarismo, não poderia ser buscada senão depois de muito estudo, de muita constatação, sobre a nociva contribuição desses jogos eletrônicos para a construção de uma cultura de paz.    O noticiário não cita esse ou aquele jogo. Identifica, apenas, jogos eletrônicos, indicando que essa é uma característica inerente a quase todos eles, que se constituem em verdadeiros treinamentos para a violência, para matar.

Esse treinamento é mais cruel porque os jogos são interativos, fazendo com que a criança que os está manipulando aponte e dispare a arma, matando, destruindo tudo o que aparece como alvo móvel. Não tenho dúvidas que as crianças, que crescem treinadas assim, vão banalizar a vida, a morte, e matarão sem piedade, sem se sentirem culpadas de nada, como se estivessem jogando no vídeo game.

Na sociedade americana, onde as crianças têm acesso mais fácil a computadores e a esses jogos, não tem sido raros os casos de crianças que, inexplicavelmente, executam colegas com armas de seus pais, mostrando que as fronteiras psicológicas da violência são mais amplas e mais imprevisíveis dos que podemos supor.

O quê leva uma criança de onze, doze, treze anos, de família de poder aquisitivo elevado, nos EUA ou Europa, matar colegas de aula, a tiros de revólver ou rifle, sem qualquer motivo aparente? Por outro lado, se há um motivo subjacente, e sempre haverá, que motivo seria tão grave que pudesse justificar atitude tão extrema?

É necessário indagar, que modelos estão servido de estímulo, de inspiração para esse tipo de comportamento. A criação, os métodos de resolver conflitos domésticos, adotados pelos pais? Os filmes que a televisão veicula, o noticiário que apresenta? Os livros, as revistas? Os jogos eletrônicos? A resposta mais adequada seria, talvez, um pouco de cada coisa, com agravante para os jogos eletrônicos que pedem um agente ativo, que é a criança, para comandar as chacinas que ali acontecem; o agente sente a emoção de escolher alvo móvel, de perseguir, de ser perseguido, de atirar e matar, de usar outros métodos para praticar a violência.     

A violência, por ser instintiva no ser humano, independe da condição social e econômica dos povos. Ela permanece em estado de latência e pode ser exercitada, a qualquer momento, despertada por uma situação que a estimule. Os fatores sociais são condicionantes de comportamentos violentos. Eles não são, no entanto, determinantes da violência na espécie humana. Ela é inata no homem e está ligada, biológica e ontologicamente, à sua história social, passando por todos os estágios de sua evolução.

Os jogos eletrônicos estão sendo instrumentos de treinamento para as crianças, na prática da violência pessoal e urbana. Estou convicto que não devemos nos omitir. Por isso, mais este artigo, pretendendo uma tomada de consciência e a deflagração de atitudes que nos levem à proibição da venda desses jogos eletrônicos violentos, em nome da sociedade atual e do futuro.

Mas essa tarefa, dado a abrangência de sua ação, e os interesses econômicos que a envolvem, é uma tarefa para ser formalizada por nossos senadores ou deputados federais, através de projeto de lei, objetivando a segurança, a proteção das crianças, dos adolescentes, da sociedade brasileira, como um todo.

Com o Estatuto do Desarmamento, está afirmada a prática de uma política pública federal contraposta à violência, no conjunto da sociedade brasileira, como forma de proteção da vida. A compra, a guarda, a devolução, o porte da arma de fogo está ali disciplinado, de modo assegurar maior proteção cidadã.

A essa política federal devem estar aliadas políticas publicas estaduais e municipais, que constituirão a grande base sobre a qual viremos assentar as campanhas e as práticas de uma cultura de paz, incluindo a educação familiar e escolar, como premissas indispensáveis à adoção de novas práticas culturais.

Portanto, é necessário que nos empenhemos para dar uma formação mais adequada aos nossos filhos, a partir do ambiente de nossa casa, de nossa família. A cada dia, devemos nos sentir mais responsáveis pelos destinos da espécie humana, pela segurança de cada cidadão, do conjunto da sociedade,  buscando ressaltar valores que engrandeçam a nossa espécie, evitando os que contribuam para sua degradação social.

Devemos, portanto, estar atentos para não darmos exemplos de violência em nossa própria casa, nos métodos de disciplina familiar que estabelecemos para a educação de nossos filhos, e em nossa relação conjugal. Do mesmo modo, os brinquedos com que presenteamos nossos filhos não devem representar um estímulo à violência, como armas, games de combates, de destruição, pela seqüela psicológica que essas práticas repetitivas, podem produzir, gerando  adolescentes mais motivados para a prática da violência social. Amar a cidade é praticar a paz e proteger as crianças e adolescentes. 

ivansarney@uol.com.br

Oportuno incentivo ao livro e ao autor maranhense

sáb, 08/01/11
por Ivan Sarney |
categoria 1

No ano de 2007, a Câmara Municipal aprovou um projeto de lei, de minha autoria, que instituiu a Semana Municipal do Livro e do Autor Maranhense, como forma de incentivar a produção do livro maranhense e divulgar seus autores para o grande público. Em especial, para os jovens leitores, nas escolas, nas bibliotecas, em outros espaços culturais, como as próprias livrarias e congêneres.

A idéia desse projeto de lei nasceu da constatação das dificuldades que o livro maranhense (livro de autor maranhense, editado no Maranhão) encontra para ser colocado como produto, nas livrarias e nos espaços congêneres, em nossa cidade. Além disso, emergiu do amplo desconhecimento do autor maranhense, por parte do público local, especialmente, dos jovens leitores, os estudantes das escolas do nível fundamental e médio.

Essa constatação foi fundamentada no convívio com livreiros, com leitores, há algumas décadas, sendo que esse fato ficou mais grave nos últimos anos, com o alto custo dos livros, com a proliferação de autores estrangeiros nas estantes das livrarias, com a multiplicação do autor nacional, com o aprimoramento técnico da editoração dos livros.

Tudo isso, no entanto, independente dos entraves que possa causar ao livro e ao autor maranhense, é muito bom para o mercado do livro, para o processo cultural deflagrado pela leitura, com exceção do alto custo do próprio livro.

Penso, porém, que seria importantíssimo a existência de uma política estadual para o livro e o autor maranhense. Uma política que tivesse por objetivo incentivar a edição de livros estaduais (produzidos em nosso Estado), com a redução radical dos impostos incidentes, incluindo todo o processo, desde a produção até a comercialização, de forma a baratear o custo final, significativamente.

Por outro lado, essa política de incentivo envolveria o autor maranhense, divulgando-o, promovendo-o, premiando-o, e adquirindo parte de sua produção, de caráter didático, literário, histórico ou científico, para bibliotecas públicas, comunitárias, escolares.

É claro que uma política dessa natureza deveria ser precedida de um processo seletivo permanente, de modo a referendar conteúdo e forma, conferindo a essas obras, da maneira mais ampla possível, uma espécie de manifestação oficial do interesse do Estado em subvencioná-las. Esse processo não poderia funcionar com patrulhamento ideológico. Apenas como forma de relacionar custo benefício, tendo em vista o interesse do público leitor.

No entanto, poderia não funcionar exatamente assim. O mais importante dessa idéia é a proposta da existência de uma política estadual para o livro e o autor maranhense, com intenção de incentivar a produção do livro maranhense e valorizar seu autor, permitindo uma reafirmação de nossa cultura, através do processo da leitura.

Como estava no exercício do mandato de vereador, conformei essa idéia ao âmbito municipal, realçando aspectos dessa política que poderiam ser previstos em lei, como o projeto que instituiu a Estante do Livro e do Autor Maranhense, também transformado em lei. As duas leis se completaram, do ponto de vista formal, buscando assegurar espaço para comercialização, divulgação do livro e promoção do autor, para um público, especialmente, composto de estudantes.

A Semana do Livro e do Autor Maranhense, já deveria estar sendo comemorada, anualmente, no mês de julho, do segundo ao terceiro domingo do mês, aproveitando o fato de ser um mês de férias escolares, quando é muito expressivo o número de turistas que visitam nossa cidade. A escolha desse período teve a concordância de livreiros que o sugeriram e endossaram.

Seriam realizados eventos, no curso da Semana, em vários espaços da cidade, a começar pelas livrarias e congêneres, pelas escolas municipais e estaduais localizadas em São Luís. A tônica seria a exibição comercial de livros de autores maranhenses, contemporâneos ou não, com a presença programada de autores para Encontros com os estudantes, no ambiente das escolas, nos espaços da livrarias.

Durante a Semana, a venda dos livros de autores maranhense seria, ainda, realizada com descontos promocionais, específicos para o período, oferecidos pelas livrarias e congêneres, em comum acordo com os autores. Saraus Literários, Encontros, Debates, Painéis, Mesas Redondas seriam realizados, ao longo da Semana, com grande mobilização da imprensa (rádio e televisão).

Além disso, toda a programação de eventos seria elaborada de forma conjunta pela Fundação Municipal de Cultura, pela Secretaria Municipal de Educação, pela Academia Maranhense de Letras, pela União dos Livreiros de São Luís, pela União ou Associação dos Escritores Maranhenses.

Com o Poder Executivo ficaria a promoção dos Encontros entre alunos, autores e livros, nas escolas públicas; a divulgação em seus espaços institucionais de mídia; a previsão orçamentária, a partir de 2008, para a realização da Semana e a previsão de recursos para compra de livros de autor maranhense para prover as bibliotecas das escolas do Município.
 
Esse tema me ocorre às lembranças nesta semana em que a 4ª Feira do Livro de São Luís está sendo realizada, ensejando dezenas de eventos culturais em sua programação de atividades e motivando jovens escritores e jovens leitores a se alinharem em defesa do livro. Uns e outros, no entanto, vivendo o drama de um país que ainda lê muito pouco, e sentindo a urgente necessidade de políticas públicas que incentivem, de forma objetiva e permanente, a produção e a comercialização do livro. Até quando? Amar a cidade é promover a inclusão cultural através do livro, de seus leitores e de seus autores.

ivansarney@uol.com.br

A feira e o universo mágico do livro

sáb, 08/01/11
por Ivan Sarney |
categoria 1

O convite para participar da abertura da 4ª Feira do Livro de São Luís chegou a meu endereço residencial na última quarta-feira, enviado pela Academia Maranhense de Letras, para onde foi remetido, a julgar pelo endereçamento constante no envelope que lhe serviu de contingente.

No envelope, de forma manuscrita, as palavras: “Ao Senhor Ivan Sarney/Academia Maranhense de Letras/Nesta“. Mesmo sendo, em minha avaliação, um tratamento essencialmente frio e inadequado, representa uma forma de convidar, sem dúvida alguma. Esta forma, no entanto, não é a mais elegante e correta. Afinal de contas, além de Senhores e Senhoras, na Academia somos, protocolarmente, Acadêmicos, independente de sermos escritores. Um convite para um Acadêmico, enviado para a Academia deveria, necessariamente, observar esta condição. Um convite enviado para a residência do Acadêmico poderia ser destinado ao Senhor ou Senhora, sem representar qualquer deslize, sem suscitar melindres. Para a Academia, não. Por isso, este registro de insatisfação.

Mas, independente do endereçamento, que credito a um grave descuido protocolar, o convite anuncia a realização da Feira, usando uma linguagem moderna e situando o livro, em sua importância de bem cultural, num contexto de Mundo. Para tanto, usa a forma circular, simbolizando o globo terrestre, numa proposta de inspiração cinética, criando a ilusão de movimento e 3D – lembrando Victor Vasarely e sua Optical Art – povoando-o de cubos e retângulos tridimensionais, que representam e sugerem livros. Bela concepção!

Entre esses cubos e retângulos um é dedicado ao rosto do grande Acadêmico, escritor maranhense, José Louzeiro, de quem tenho o orgulho de ser amigo, sendo seu admirador. É ele o Patrono da Feira este ano, e a engrandecerá com sua presença, a exemplo da Feira anterior. A beleza de concepção e forma do convite, no entanto, seria maior o nome do evento (Feira do Livro) não estivesse escrito com letras minúsculas e acanhadas, mesmo parecendo ser, essa, uma proposta do designer.

O texto do convite, no entanto, é que compromete a organização do evento, de forma cruel. Ali está escrito: “A Prefeitura Municipal de São Luís, por meio da Fundação Municipal de Cultura, tem a honra de convidá-lo para abertura da 4ª Feira do Livro de São Luís, que este ano tem como tema Livro, guia e instrumento da sabedoria”.  Pergunto: convidá-lo, quem? Convidá-lo é tratamento da terceira pessoa: convidar ele. O convite está dirigido para a segunda pessoa: a pessoa com quem se fala. Logo, o tratamento correto seria convidar-lhe.

A Academia Maranhense de Letras participou das duas primeiras Feiras, na administração do prefeito Tadeu Palácio, e deu sua contribuição na própria organização do evento, participando ativamente de sua realização, numa cooperação muito saudável e necessária. Na atual administração, a Academia não participou na 3ª e não está participando da atual, a julgar pela ausência de seu nome no convite, como parceira ou apoiadora.

Apesar de tudo, quando esta crônica estiver publicada, no domingo, a Feira já estará em seu 2º dia de abertura, em pleno funcionamento, cumprindo o seu destino e objetivo, no calendário cultural de nosso município. Estará reafirmando nossas tradições literárias, para as atuais e as futuras gerações. Congratulo-me com a administração do prefeito João Castelo, por seu empenho e sua realização.

Uma feira de livro, onde quer que seja realizada, representa um momento especial para a cidade que a acolhe, para as pessoas que nela residem, para os que por ela transitam, por toda a energia positiva que dela se desprende; pelas esperanças que semeia, pelos frutos que dela advêm e advirão sempre, contemplando e refletindo cenários que se renovam, sem fim.
Além disso, ela tem um imenso poder semeador. Ela representa um momento especial de apelo, ao público leitor, para que desbrave, cada vez mais, os horizontes do livro. Os mundos que ali estão retratados, e que são perceptíveis, por cada um de nós que temos oportunidade de interpretá-los, com a escala de conhecimentos e valores que estamos construindo, ao longo de nossas vidas, a partir de nossas famílias. E na escola, com a dedicada participação de nossas professoras.

Esses mundos parecem inatingíveis horizontes, na amplidão das abordagens que abrigam, na complexidade do real e do onírico que refletem; na perplexidade que o homem expõe e condensa, na compreensão do universo, refletindo o transitório e o perene, sob o mistério sensível, mas insondável de Deus.

Mundos que parecem se distanciar de nós, a cada esforço que desprendemos para alcançá-los, em suas plenitudes. Tal como o horizonte planetário, essa linha imaginária que parece limitar e unir o céu à Terra, por onde o sol parece mergulhar. Esse horizonte, que nos encanta e seduz, parece existir para nos atrair ao seu encontro, para nos seduzir a sonhar e a marchar, olhando para frente, sempre à distância.

Por isso, é preciso que estejamos preparados para viver esse evento como um dos mais importantes eventos de nossa cidade, agora e sempre. Amar a cidade é cultivar sua tradição cultural, a partir dos livros.
 
ivansarney@uol.com.br



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