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Os camaleões e o muro

dom, 13/11/11
por Ivan Sarney |
categoria Sem categoria

Há algum tempo, em nossas caminhadas matinais pela lagoa da Jansen, venho observando, na diversidade das vidas que ali se exibem e desenvolvem,  alguns camaleões que costumam ficar sobre um muro mal cuidado que dá para um terreno baldio, onde brotam chananas amarelas, em qualquer estação.  

O muro, de média altura e tijolos aparentes, delimita um terreno edificado, cuja frente dá para a Rua das Andirobas, no bairro Renascença. O terreno baldio dá para a pista de Cooper e para a pista de bike; dá para o manguezal que margeia a lagoa, naquelas imediações; dá para a paisagem mais verde e bela da lagoa, que é bela pelo espelho de águas serenas, pelo mangue que emerge das águas, em ilhas de folhas, de sombras e verdes, onde garças, marrecas, jaçanãs, se abrigam e acasalam, enchendo de sons as manhãs alvorecidas. 

A lagoa dá para o verde que a margeia, em toda a sua extensão; dá para o dia que amanhece, com todos os bem-te-vis que ali cantam; dá para o verde que floresce em cada um de nós que ali caminhamos, independente do odor que dela se desprende, em algumas épocas, bem mais distante dali, do outro lado, já perto da Ponta D’areia.

No entanto, indiferentes ao dia que amanhece naquele espaço ou à manhã que alvorece em nós que os vemos e, ali, caminhamos, os camaleões se deixam ficar sobre o muro desprezado, como parte da paisagem daquele cenário, quase sempre no mesmo espaço, e nas mesmas posições.
Não passam de quatro, quando mais se exibem. Na maioria das vezes, são apenas três. Mas conseguem, mesmo sendo tão poucos, marcar as horas do dia e chamar a atenção dos que ali passamos, olhando, em torno de nós, o que há de forma e cor na paisagem que nos cerca.

Vendo de onde os vemos, numa distância não maior que quinze metros, parecem uma família. O maior, o mais robusto, tem rabo longo, tem crina alta, tem papo grande, a cabeça ornada de símbolos. O segundo maior não tem a opulência do primeiro, não tem a mesma robustez, nem tão acentuados sinais de espécie, como crina, papo, rabo. A ao vê-los, assim, de onde os vemos, parecem macho e fêmea, na tarefa de se reconhecerem, a cada dia, para decidirem se acasalar, para repetirem o acasalamento, para, simplesmente, se enternecerem à luz da manhã.

Por isso, se postam um diante do outro, a pouca distância, e ficam, quase estáticos, olhos nos olhos, numa troca de mensagens simbólicas, de energias que se enlaçam e os tornam muito verdes, sob um sol muito claro e uma manhã muito morna, ainda.  Assim, ficam, por muito tempo, por quase uma hora, talvez brincando de estátua, para ver quem primeiro se move, sabendo que aquele que primeiro se move é o perdedor.

Quando não caminhamos, conto o tempo de uma hora pelas quatro voltas de bicicleta que fazemos, completando o circuito de nosso condicionamento físico, em torno da lagoa, meu amor e eu.

Os camaleões menores, quando são dois, ficam bem mais distantes dos dois adultos, quase dispersos, como se fossem estranhos àquela relação, àquele quadro, àquele cenário que compõem. Mas eles, os menores, como filhotes que parecem ser, talvez observem, de longe, para sentir, para aprender os jogos de sedução que há entre machos e fêmeas, para saberem praticar na época de procriação.

Mas, se ainda não for isso, talvez estejam no aprendizado de viver com seus próprios esforços, buscando alimentos sem o auxílio, caçando nas imediações as presas possíveis a seus imaturos recursos. Tudo isso, sem a vigilância, sem a atenção dos pais que, em extremo magnetismo, vão se deixando ficar em contemplação, em atração absoluta, criando condições para multiplicação da vida, para a reprodução da espécie que representam, no estreito espaço de um muro mal cuidado.

Meses atrás, um camaleão macho, talvez o mesmo que vem chamando minha atenção em cima do muro, agora, era o mais destacado e exótico visitante de uma árvore, de copa muito vasta e viçosa, não muito distante do muro mal cuidado. Mas do lado oposto, margeando as águas da lagoa. Ficava ele, ali, no seu mimetismo, exuberante, curvando galhos com seu peso, tão verde e tonalizado como as próprias folhas da árvore que lhe servia de abrigo ou palco.
Muitas vezes, meus olhos não conseguiam distingui-lo entre as folhas, tal era a perfeição de sua camuflagem, para fugir ao risco que nossa presença humana trazia para sua segurança de camaleão.

Os camaleões que se deixam ficar sobre o muro, talvez por se sentirem mais seguros, não parecem necessitar da camuflagem para estarem ali, em plena manhã alvorecida. No entanto, talvez a usem, em menor intensidade, apenas para se seduzirem mutuamente ou, ainda, para o macho seduzir a fêmea, mostrando seus encantos, sua beleza cromática.

Muitas pessoas, a exemplo dos camaleões do muro mal cuidado, se deixam ficar sobre muros, na tentativa de atrair, de seduzir pessoas, de esconder propósitos, de não assumir posições que consideram inoportunas, de não mostrar, claramente, suas idéias, suas convicções, seus propósitos. Muitas pessoas, como os camaleões, usam seu mimetismo social, que tanto pode ser a roupa, quanto pode ser a mudez e a fala, o recolhimento ou os gestos, para enfrentarem dificuldades, para passarem em brancas nuvens, para não serem notados, para poderem se defender, para poderem atacar. Enquanto caminhamos, os camaleões do muro mal cuidado se enternecem ou se preparam para acasalar. E a vida vai oferecendo lições de viver, nas cenas que protagonizam na manhã alvorecida. Amar a cidade é aprender suas lições de vida. É preciso amar a cidade.

ivansarney@uol.com.br

Ante os olhos lenientes do estado

qui, 10/11/11
por Ivan Sarney |
categoria Sem categoria

Escrevi, há algumas semanas, um artigo, nesta coluna, sob o título: A família contra a parede, onde abordei o drama da instituição família, na sociedade contemporânea, entre o crescente aumento de violência perpetrada contra ela, por parte de descendentes drogados, ceifando vidas de pais, de avós, de tios, numa verdadeira síndrome, dramática, da violência doméstica de nosso tempo.

O artigo suscitou muitas manifestações positivas, por parte dos leitores, gerando solicitações que o republicasse, para atender a interesse de muitos que não puderam lê-lo, e de outros que gostariam de vê-lo mais difundido.

Para esses, e para aqueles que gostariam de relê-lo, estou reproduzindo o seu conteúdo, na íntegra, com o complemento do título atual, o que permitirá sua leitura, a partir do seguinte título: A família contra a parede, antes os olhos lenientes do estado. 

- A mídia eletrônica e impressa tem exposto, no dia a dia do noticiário que divulga, um drama que está atingindo a família, em boa parte do mundo civilizado, mas que alcança especial relevo em nosso país. Esse drama tem como protagonistas, de um lado, adolescentes usuários de drogas e, do outro lado, familiares desses mesmos adolescentes. O drama tem tido como desfecho a morte de familiares, quase sempre pais ou mães, mas, também, avós, irmãos, e todos os que possam representar obstáculos à sanha incontrolável de obtenção de dinheiro para a compra de drogas, por parte dos viciados agressores.

Esta semana, a mídia noticiou o caso do jovem que assassinou a mãe, por estrangulamento, no auge de uma discussão em que pretendia mais dinheiro para compra de drogas. Pretensão essa que não tem fim.

Na matéria em que noticiou o fato, uma rede de televisão fez divulgar, também, matérias alusivas a crimes pretéritos, recentes, com o mesmo drama familiar e as mesmas motivações de viciados. O jovem que assassinou a avó e uma servente da casa, que foi preso dopado, em estado de letargia, após os crimes e o uso das drogas que tanto buscara. Um outro jovem que assassinou o pai, por motivações semelhantes: desejo incontrolável de mais dinheiro para a compra de drogas, para alimentar um vício que pede para ser satisfeito a cada momento em que passam os efeitos da última ingestão, segundo os viciados e as pesquisas científicas.

Os criminosos, nesses casos, são criminosos ocasionais, que agem pelo impulso, por estarem tomados pela necessidade de viciados, que submete o corpo e a mente às ações mais cruéis e condenáveis como o assassinato de genitores ou outros familiares, pelo fato de representarem obstáculo e, ao mesmo tempo, meio para a obtenção das drogas que tanto precisam para alimentar seus vícios e suas próprias vidas.

Começam por gastar além do que podem, para alimentar um vício que acontece como um processo. Primeiro, provam gratuitamente. Depois, começam a comprar, em pequenas quantidades, drogas de custo mais barato. Depois, ainda, são induzidos a comprarem drogas mais pesadas e caras. E quando estão nos limites de suas dependências, de suas possibilidades financeiras, roubam dinheiro em casa; vendem aparelhos domésticos e bens móveis de seus familiares; pressionam os pais, cada vez mais, para que lhes dêm dinheiro e, quando não conseguem mais, até mesmo por os pais não disporem de mais, acabam por cometer os homicídios, num gesto inconseqüente e desesperado, ante a negativa dos pais ou outros familiares.

O arrependimento e a depressão vêm depois, quando, presos e em crise forçada de abstinência, conseguem compreender a extensão e o caráter criminoso de seus atos. Assassinos dos próprios pais a quem, quase sempre, eram ligados por fortes laços afetivos. Pais com quem viviam, e que os alimentavam e vestiam, cumprindo seus deveres paternos.

A família está contra a parede, sob os olhos lenientes do estado. Contra a parede pela dificuldade de criar e educar, dentro de padrões éticos e morais que sejam socialmente comprometidos com o passado, o presente e o futuro, num mundo que troca de valores como troca de moda: a cada estação. Contra a parede pela ausência de instituições públicas que apossam ampará-la, nos casos de graves conflitos, por usuários de drogas, adolescentes ou adultos. Contra a parede porque os pais têm sido as maiores e mais graves vítimas desse processo dramático, no cumprimento de seus deveres legais, afetivos, biológicos. Contra a parede porque, na medida em que cresce o número de usuários de drogas, entre adolescentes, e esses adolescentes, quase sempre, vivem com seus pais, aumenta potencialmente o número de pais que poderão ser vitimados por esse processo cruel.

Contra a parede, também, pois na medida em que a família estiver, estará a sociedade, que tem na família a sua base constitutiva, a sua principal célula. Contra a parede acabará ficando nosso país e alguns países do mundo, se não forem adotadas medidas eficazes de combate ao narcotráfico, aos traficantes, buscando estancar, por um lado, a oferta dessas drogas que tanto comprometem a juventude, e nosso futuro. Por outro lado, precisamos adotar medidas de proteção à família, instrumentando-a para o melhor cumprimento de suas responsabilidades, com o aval direto e determinado do estado.

Os jovens precisam de esperanças, de utopias que possam construir, e que constituam motivações positivas para as perspectivas do futuro. Essas motivações podem ser dadas pela família, com o exemplo dos pais, num primeiro momento. Em maior escala, devem ser dadas pelo poder público. A família está contra a parede, sob os olhos lenientes do estado. O tecido social continua apodrecendo, em função da criminalidade visceral dos jovens viciados. Amar a cidade é proteger a família. É preciso amar a cidade.

ivansarney@uol.com.br



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