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Brinquedos e crescente violência urbana

seg, 05/03/12
por Ivan Sarney |
categoria Sem categoria

A partir da entrada em vigor do rigoroso Estatuto do Desarmamento está afirmada a prática de uma política pública federal contraposta à violência, no conjunto da sociedade brasileira, como forma de proteção da vida. A compra, a guarda, a devolução, o porte da arma de fogo está ali disciplinado, de modo assegurar maior proteção à vida.

A essa política federal devem estar aliadas políticas públicas, estaduais e municipais, que constituirão a grande base sobre a qual poderão ser assentadas as campanhas e as práticas de uma cultura de paz, incluindo a educação familiar e escolar, como premissas indispensáveis à adoção de novas práticas culturais.

A ação do governo representa uma resposta a um anseio de todos nós, pais de famílias e cidadãos pacíficos, à onda de violência que está grassando em nosso país, neste início de século. Violência que insiste em exibir seus tentáculos, cada vez mais longos, mais diversificados, mais densos e perversos, envolvendo, preferencialmente, jovens de menor idade, como vítimas ou autores.   

Sabemos que a violência é um dos instintos da espécie humana, convivendo conosco, de forma latente, por toda a nossa vida. A paz é um ideal, um sonho a ser alcançado, sendo produto de reflexão, de determinação de conquistá-la, como uma condição para nossa própria felicidade.
A violência, por ser instintiva no ser humano, independe da condição social e econômica dos povos. Ela permanece em estado de latência e pode ser exercitada, a qualquer momento, sob o estímulo de uma situação que a desperte.

Os fatores sociais são condicionantes de comportamentos violentos. Eles não são, no entanto, determinantes da violência na espécie humana. A violência é inata no homem e está ligada, biológica e ontologicamente, à sua história social, passando por todos os estágios de sua evolução.

Não podemos esquecer, no entanto, que o homem é o reflexo de sua criação, daquilo que lhe foi ensinado na mais tenra idade, na família e na escola, até por volta dos dez anos, quando os traços fundamentais de nosso caráter e de nossa personalidade se formam.
Valores como amor, solidariedade, fraternidade, respeito aos mais idosos, às leis e regras de convívio em grupo; os princípios éticos, o sentido da liberdade responsável, os limites do possível e do não possível; todos esses valores, que são éticos também e definitivos, só podem ser aprendidos nessa fase de formação do futuro adulto.

Portanto, é necessário que nos empenhemos para dar uma formação mais adequada aos nossos filhos, a partir do ambiente de nossa casa, de nossa família. A cada dia, o mundo fica mais amplo para o cidadão de qualquer país, motivado pelos avanços de uma sociedade cada vez mais globalizada em seus   valores, sua comunicação, seus códigos de conduta, e nos torna responsáveis pela sustentabilidade do planeta e pela sobrevivência da espécie humana.

A cada dia, no entanto, devemos nos sentir mais responsáveis pelos destinos da espécie humana, pela segurança de cada cidadão, do conjunto da sociedade,  buscando ressaltar valores que engrandeçam a nossa espécie, evitando os que contribuam para sua degradação social.

Para isso, a educação que nós pais devemos dar a nossos filhos tem que ser compatível com esses valores positivos, com os sentimentos e os anseios de um mundo melhor, evitando estimular a violência sob quaisquer que sejam as suas formas. 
Devemos, portanto, estar atentos para não darmos exemplos de violência em nossa própria casa, nos métodos de disciplina familiar que estabelecemos para a educação de nossos filhos e na relação que temos com o nosso cônjuge.

Do mesmo modo, os brinquedos com que presenteamos nossos filhos não devem representar um estímulo à violência: armas de brinquedos, fitas de vídeo games que são combates, jogos de destruição, do mesmo modo não devem constituir-se em presentes que os pais devemos dar aos nossos filhos ou aos filhos dos outros.

A maioria dos jogos eletrônicos que se encontram à venda são verdadeiros treinamentos para a violência, para matar. Esse treinamento é mais cruel porque os jogos são interativos, fazendo com que a criança que os está manipulando aponte e dispare a arma, matando, destruindo tudo o que aparece como alvo móvel. 

É claro que as crianças que crescem treinadas assim vão banalizar a vida, a morte, e matarão sem piedade, sem se sentirem culpadas de nada, como se estivessem jogando no vídeo game. O que dizer dos adolescentes que estão se digladiando em gangues, com vítimas fatais; que estão matando colegas no ambiente da escola; que estão matando cidadãos, com requintes de crueldades, por motivo mais fútil e torpe, até para se divertirem?

Os jogos eletrônicos, também, estão treinando as crianças para matarem. Vamos cruzar os braços para isso? Estou convicto que não devemos nos omitir. Proibindo a comercialização desses jogos que treinam para matar. Não comprando esses jogos, não comprando, não presenteando com armas de brinquedos, não estimulando as crianças a praticarem a violência, sob qualquer forma. Denunciando essas práticas nocivas, estaremos contribuindo para um mundo mais pacífico, salvando a vida de milhares de pessoas, dentro dos anseios de paz universal que deve ser a grande utopia deste milênio. 

ivansarney@uol.com.br

A cidade é nossa própria história e identidade

seg, 05/03/12
por Ivan Sarney |
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Alegra-nos o fato de nosso mais importante conjunto arquitetônico, tombado inicialmente pelo Iphan, esteja completando 15 anos de inscrição como Patrimônio Cultural da Humanidade, pela Unesco, no ano em que comemora  400 nos de sua fundação. Isso aconteceu em 1997. Iniciado por nosso querido Josué Montello, quando Adido Cultural do Brasil, na França, no governo do Presidente José Sarney, esse trabalho foi continuado pelo empenho obstinado da governadora Roseana, ainda em seu primeiro mandato.

Depois desse reconhecimento, nossa cidade foi considerada a Capital Brasileira da Cultura, em 2009. Agora, já neste ano de 2012, recebemos o título de Capital Americana da Cultura. Além disso, por votação, mais de seis mil brasileiros elegeram 0s 7 (sete) tesouros de nossa cidade: Palácio dos Leões, Praça Gonçalves Dias, Igreja da Sé, Teatro Arthur Azevedo, convento das Mercês, Azulejaria e Rua Portugal.

Todo esse acervo de conquistas, todavia, aumenta nossas responsabilidades, como brasileiros, como maranhenses, como ludovicenses, quanto à preservação desse nosso patrimônio cultural, do qual São Luís é o receptáculo físico mais relevante. 
No entanto, também considero oportuno, refletir sobre a situação dos prédios que integram esse acervo, no que concerne a seus estados de conservação, usos, e perspectivas de manterem suas formas originais, ante o avanço incontido do interesse comercial, sobre a área onde se encontram localizados.

A Defesa Civil e o CREA vêm alertando, a cada novo inverno, o precário estado de conservação de dezenas desses prédios, integrantes desse acervo tombado, incluindo a área inscrita na Unesco como Patrimônio Cultural da Humanidade, e sua área vizinha, tombada pelo governo federal e pelo governo estadual, donde resulta o grande acervo tombado do Centro Histórico de São Luís. 

Quando esse trabalho teve início, há dez anos,  eram 35 prédios. Hoje, já são 55. A evidência é de uma situação mais grave, pelo acréscimo quantitativo, e pelas condições de degradação continuada, com comprometimento de estabilidades, e ameaças iminentes de desabamentos, na maioria dos casos, pelo estado de abandono em que se encontram.
Quase todos esses prédios pertencem a particulares, que decaíram de suas condições financeiras ou perderam o interesse de preservá-los, para seu próprio uso. Uns poucos são propriedades do Estado.

A legislação que disciplina a matéria – no âmbito federal, estadual ou municipal -  representa instrumento eficaz para a ação do poder executivo e, mesmo da sociedade, através de ação popular. Isso, para obstar a realização de um ato atentatório à integridade de um bem tombado ou para exigir a obrigação, de fazer ou não fazer, de uma pessoa ou instituição, em relação ao bem, quer seja propriedade sua ou não.

No entanto, o processo judicial é lento. A justiça é um caminho muitas vezes, necessário e definitivo, mas não o mais prático, na dinâmica do cotidiano da preservação.
Muitas vezes, o proprietário não está agindo de má fé, quanto à preservação do bem.
Simplesmente, ele não dispõe de recursos para mantê-lo preservado. Diz a lei que, se o proprietário, comprovadamente, não dispuser de condições financeiras para realizar os trabalhos de conservação que o bem tombado exigir, o órgão responsável pelo tombamento realizará o trabalho, com seus próprios recursos. A Superintendência Regional do Iphan vem praticando esse dispositivo legal, com competência. Mas, de forma insuficiente para atender todas as necessidades.

Muitos engenheiros e arquitetos urbanistas são de opinião que é através do Plano Diretor que vamos conseguir um melhor disciplinamento das ações do interesse do capital e dos cidadãos, na preservação de conjuntos urbanos que são sítios históricos. Isso me parece absolutamente lógico, do ponto de vista formal. É o Município que detém a competência para legislar sobre a ocupação e uso de seu espaço territorial. O Estatuto da Cidade reafirma e amplia esses direitos sobre o ordenamento do solo urbano, inclusive pelo instituto da preempção.
Mas os Planos Diretores também são mutáveis. A reflexão deve ir mais longe, contemplando estímulos que podemos dar aos proprietários desses imóveis tombados, de modo a atrair seus interesses pelo capital.

A lei municipal, que instituiu a proteção do patrimônio cultural, é de minha autoria e representa uma declaração incontestável de que o Município de São Luís está, definitivamente, instrumentado para a preservação de seu acervo cultural. Através de outra lei, também de minha autoria, foi criado o estímulo aos proprietários de imóveis tombados, no Centro Histórico, isentando-os de pagamento do IPTU, em nome do interesse público da preservação.

Os prédios, que estão na iminência de desabar, merecem atenção especial e urgente. A primeira é o de escoramento. Mas escoramento feito com cuidados técnicos.  A outra providência é a compra ou desapropriação, por parte do governo estadual ou municipal, para dar-lhes um novo uso, contemplando moradias, escolas, pousadas, centros de referência e outras funções desejáveis ali.

A preservação de nossa memória e identidade nacional está ligada, intrinsecamente, à preservação de nossa diversidade regional, do acervo de bens culturais que nos particularizam e distinguem enquanto pessoas e comunidade. A cidade é nossa própria história, nossa casa sem portas, além dos limites de nós mesmos. Amar a cidade é cuidar de sua história. É preciso amar a cidade.

ivansarney@uol.com.br

Feliz Ano Velho, feliz Ano Novo

seg, 05/03/12
por Ivan Sarney |
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O ano de 2011, neste domingo, já pertence ao passado, com todos os fatos que imprimiu em nossas vidas, independente do conceito que dele possamos ter. Independente de tudo, o ano que passou levou consigo uma parte de nossos sonhos, de nossos êxitos, de nossas conquistas, de nossos insucessos, de nossas desventuras. Estamos vivos para o novo ano, para as aventuras das novas vidas que viveremos, então.

O que foi desejo, muitas vezes ansiado, já se integrou definitivamente ao mundo das lembranças. É lembrança e passado, respaldando  nossos passos presentes, projetando nossos sonhos futuros, e nos motivando a escrever nossos destinos, de forma renovada.

Cada dia é uma vida nova e nos convida a novas utopias, levando-nos à compreensão de que somos seres emergentes, propensos a nos descobrir, a nos desenvolver como pessoas, a amar, a buscar a nossa transcendência, nos elevando para a compreensão da energia difusa e una que é Deus.

Os dias que se sucedem vão registrando os referenciais de nossa vida presente, pretérita e futura, dando-nos a oportunidade de repartir, com outros, um pouco da luz que conseguimos absorver, em nossa trajetória pessoal; de rever nossos passos, os caminhos que trilhamos, de absorver a energia e os ensinamentos de nossos semelhantes e de todas as outras espécies de vida que podem interagir conosco.

Para onde vão nossos passos? Para onde levamos nosso amor, nosso ódio, nosso perdão, nossa iniquidade? Para que servem os instantes de êxtase, de perplexidade, de encanto e prazer, em que nosso corpo e nossa alma mergulham, ao longo de nossa existência temporal?

Estamos a serviço de quem, a serviço de quê, no curto tempo de nossa permanência na face da Terra? Estamos a serviço da vida, talvez! Estamos a serviço de um aprimoramento espiritual, de um aprimoramento humano, na essência de nossa espécie evolutiva. Estamos a serviço do ser e do tempo, a serviço de Deus, assim como Deus está a serviço de todos nós.

Nossos ancestrais não amaram, certamente, como amamos, porque não tinham o acervo de conhecimento de que hoje dispomos sobre nós mesmos, sobre o amor e sua complexidade. Não tinham a compreensão que temos, hoje, sobre as forças cósmicas do universo em movimento, com seus campos magnéticos, suas emanações de luz, suas distâncias e proximidades, suas forças em constantes movimentos, que a tudo e a todos nos fazem vivos.

Dessas lições cósmicas, talvez a mais permanente, a mais profunda e mais essencialmente útil para nós, seja a compreensão de que tudo no universo é movimento e que, a cada milésimo de segundos, os cenários da ordem universal mudam e não se repetem nunca, da mesma maneira. Vivemos num mundo de exclusividades, de unicidades paisagísticas, que se transfere para todas as espécies vivas. Nenhum ser vivo é igual a outro, ainda que da mesma espécie e gêmeos, de quaisquer tipos.

Somos seres únicos no Mundo e somente isso já nos dá uma exata dimensão de nossa importância pessoal, da relevância de nossa vida para a compreensão de outras vidas, para a celebração da supremacia humana, sobre todas as outras criaturas vivas, que Deus colocou na face da Terra. Além disso, de todas as suas criações, o homem é a única que pode raciocinar, formular conceitos e teorias, conhecer intelectualmente qualquer aspecto de uma realidade. Somos, portanto, a mais bela criação Divina, reinando sobre todas as outras, julgando-as, compreendendo suas utilidades, pela exclusiva capacidade intelectual de que somos dotados.

Como é útil poder raciocinar que toda a realidade física, em torno de nós, muda em segundos e que nós, por força dessa mudança, também mudamos sob o aspecto físico, emocional, sentimental, procurando, mesmo sem sabermos, nos adaptar às novas condições do meio e a ele sobreviver, buscando realizar nossa destinação para o amor e para a liberdade.

Além de cada um de nós, no entanto, está nossa alma coletiva, um sentimento que não é individual, e que reflete a condição humana como um todo, inclusive com heranças ancestrais de nossos antepassados. Essa alma coletiva traduz anseios, esperanças que muitas vezes nem sabemos que possuímos, mas que estão latentes em nossos atos, nos atos de nossos semelhantes e que, por isso mesmo, nos irmanam. Por isso mesmo, também, nossa alma coletiva nos transcende, é maior que nós e se projeta por séculos, por gerações, se transformando em códigos genéticos e orais que determinam o caráter, a índole de um povo, com todos os seus usos e costumes.

A cidade em que nascemos tem esse dom de ser receptáculo de todo esse código ancestral, de ser o ponto de referência principal daquela parte nossa que não nos pertence a nós mesmos, porque está irmanada a todas as outras almas, ao longo do tempo, no universo.

Nossa vida não nos pertence isoladamente, egoisticamente. Mas pertence ao acervo de nossa espécie humana. Somos seres transitórios. Apenas as cidades são permanentes; transcendem os séculos, como testemunhos vivos de tantos anseios, códigos e tempos que se dobraram, nos calendários finitos dos homens.

Abrindo nossas janelas pessoais para o novo ano, nos mostraremos mais coletivos aos olhos e aos sentimentos dos nossos semelhantes e poderemos, mais facilmente, ser iluminados pelos focos de suas luzes positivas, enquanto iluminamos seus espaços de sombra. Amar a cidade é reconhecer-se um ser coletivo e repartir-se com seus semelhantes. É preciso amar a cidade. Feliz Ano Velho! Feliz Ano Novo!

ivansarney@uol.com.br

Os sinos do Natal que tocam em mim

seg, 05/03/12
por Ivan Sarney |
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O Natal é chegado, novamente. Basta olhar a natureza, incontestável, e ver as cores com que se vestem as manhãs, tão fartas de sol. Ainda é primavera nos jardins e na fertilidade nossas almas. Basta olhar em torno de nós e ver, e sentir que a natureza inteira tem perfume de frutas, flores silvestres, e exibe um cenário de mutações de cores, a partir do verde.
Tudo é harmonia, música, lição de vida e cor, na natureza inteira, tão cheia de nuances e matizes. O que predomina, no entanto, é um sol claro, muito quente e excitante, diferente do cinzento nostálgico das eternas manhãs de dezembro, em nossa cidade.

Numa dessas manhãs, em outros tempos, entrou, pelos meus olhos de adulto, a luz brilhante e aguda dos olhos azuis de uma menina adolescente. E ficou por longo tempo, parada, presente, doce e fraterna, como o clima do Natal. Era claramente dezembro e eu próprio era a mais íntima e nítida primavera, espargindo folhas, flores e frutos.

Papai Noel já deixara de visitar nossa casa; deixara de se esgueirar entre as redes armadas na sala, no quarto, entre nossa alegria pueril de quem sonhava com brinquedos e bondades do eterno velhinho. Já não precisava se preocupar com nossos pedidos e com a forma de atendê-los. Ele já era mais que real. Para mim, para meus irmãos, e para todos de nossa geração, ele havia se transformado no que é agora: uma lembrança maravilhosa da infância, um imorredouro encanto com que a tradição nos embalou o sono e os sonhos de crianças, levando-nos, de certo modo, a nos pautarmos dentro de limites aceitáveis do comportamento infantil, sob a doce ameaça de não recebermos seus presentes, as graças do “bom velhinho” se tivéssemos um mau comportamento.

Entre as lembranças do comportamento reprovado, a amarga e equivocada penitência que os padres prescreviam, no confessionário, nos dizendo que a descoberta do nosso corpo, o toque, o prazer íntimo e solitário, divino, natural e construtivo, era pecado e, como tal, tinha que ser pago com penitência de orações. Éramos crianças e não tínhamos a idéia clara do que era pecado. Nem mesmo a idéia de Deus havia tomado conta de nossa alma, com o vigor e a densidade com que mais tarde nos habitaria. 

Era dezembro, sim.  Em nossa casa, onde abundava a ternura e o convívio fraterno entre irmãos, entre filhos e pais, havia um oratório em torno do qual papai e mamãe nos reuniam para rezar. Santo Antônio estava ali, como está em nossas vidas, na casa e na devoção de cada um de nós. Era dezembro e D. Joana vinha temperar o peru, que reinava orgulho no quintal, e era  embriagado com álcool, de véspera, antes de ser abatido. Só no dia seguinte, depois de dormir no vinha d’alho, ia para os fornos da Padaria Veneza, de onde voltava para ser o destaque da ceia. 

Os anos se sucederam, implacáveis com nossas vidas. Nossos pais já não estão entre nós. Nem nossos avós, nem nossa tia Alzira, podem contar nossa história. Só nós mesmos podemos recolher na alma, as lembranças do tempo e de tudo aquilo que nos alimentou, ao longo de toda essa trajetória. O Natal, com suas luzes e seus símbolos, permaneceu e permanecerá em nossas lembranças mais definitivas e inapagáveis. O Natal que passamos a nossos filhos teve e tem o mesmo grande encanto, a mesma branca e fraterna paz que alimentou nossa alma, se projetando em nós e em nossos destinos.

Olho a cidade neste dia de dezembro. Vejo-a com suas luzes, com suas ruas, com seus comércios enfeitados. Tudo nos fala desse tempo, tudo nos conduz ao encontro dos outros, buscando a linguagem universal do amor, do carinho, da fraternidade, da solidariedade entre os homens de boa vontade. Como faz bem, para nosso convívio, ver  desfraldada a bandeira da paz sobre o coração dos homens. Como faz bem ver a cidade assim, ver as pessoas assim, predispostas à ternura, predispostas a darem as mãos e a sonharem os mesmos sonhos que têm alimentado os povos, no mundo inteiro: sonho de igualdade, de justiça, de liberdade, de paz. Como faz bem saber que estamos trabalhando por ideais pacifistas, a partir da escola, da família, na campanha Adeus às Armas; repartindo nossos sentimentos bons com os outros cidadãos, plantando as sementes da esperança, nos anseios de nossa sociedade.

Desse modo, estou sentindo a cidade, imersa em suas luzes e seus enfeites de Natal. Espaços públicos estão mais bem iluminados, com esses motivos. Espaços privados como residências, comércios, shopping, também estão. Os lojistas estão dando um exemplo de como podemos ser criativos, produzindo apelos visuais condizentes com os anseios, os sentimentos da população, gerando oportunidades de convívio e compras, mas, sobretudo, embelezando e humanizando a cidade.

A cidade estava precisando desse tipo de carinho, daqueles que a habitamos e queremos vê-la projetada no tempo, com sua história, seus usos e costumes. Apelo, portanto, a todas as pessoas, que abram suas janelas espirituais, que exponham suas alegrias e sentimentos fraternos, enfeitando árvores, jardins, parapeitos, tudo o que ficar exposto, voltado para a rua e a população. Enfeitem com as cores mais lindas, com os símbolos mais universais do Natal e abram seus corações para celebrar o nascimento do menino Jesus, cuja força espiritual transformou o Mundo. Somos, nós mesmos, transformadores do mundo. Cada um a seu modo, ao modo possível por nossas limitações humanas, mas somos. Que reine e viva a paz, em nossas famílias, em nossa cidade, em nós mesmos, que somos beneficiários ou as vítimas mais graves de toda a condição humana. Amar a cidade é viver sua fraternidade e construir sua paz, a partir de nossos exemplos.

ivansarney@uol.com.br

A garça solitária e encanto da lagoa

seg, 05/03/12
por Ivan Sarney |
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Costumo vê-la, sempre, bem cedinho, no encanto de minhas caminhadas matinais, em torno da Lagoa da Jansen. Eu, na tarefa de cuidar de mim, sentindo meu corpo harmonizar-se, inteiro, com o que há de energia no verde vegetal das árvores, das folhas, no vento fresco e brando que as sacode; no sol, que vai aquecendo as peles e dourando os corpos; nas pessoas que ali registro, em encontros fortuitos e pontuais; nos pássaros que voam, cruzam nosso caminho e cantam, tagarelas, se exibindo para chamar a atenção de Janaína, especialmente os bem-te-vis.  

É sempre ali que costumo vê-la, sentindo a presença de Deus na sinergia da vida que esplende, em torno de nós. Nem a manhã, na umidade de suas relvas orvalhadas, nem o sibilo dos pássaros, nem a sonata do vento nas cordas verdes do mangue e das palmeiras que ali vicejam; nada a ela se compara, pelo charme, pela beleza, pela elegância com que resume a paisagem que integra.

Refiro-me a uma garça majestosa que pode ser vista ali, mais ou menos em frente ao Buteko da Lagoa, onde árvores frondosas emergem das águas como ilhas de preces, como mãos de súplicas, destacando-se no cenário pela curiosa paisagem que compõem.

É dela o privilégio de mirar-se no espelho d’água em que se encontra e de mover-se, com serena elegância, como quem confere as formas, como quem avalia seus domínios, como quem consagra seu espaço e confere, com seu    olhar de conquista, a extensão de sua posse, onde parece reinar sobre os peixes, ás águas e tudo o que há de vida no cenário que a realça.

É dela o privilégio de andar devagar, quase com mesma leveza do vento; de pisar suave, como as manequins; de alongar o pescoço sinuoso e recolhê-lo em seguida, com a mesma elegância com que evita molhar suas penas, e faz exibir sua formosura no espaço que domina. Passo a passo, com gestos comedidos, move seu corpo elegante entre as águas mansas, ora alongando o pescoço, como quem quer ver mais adiante; ora o recolhendo, para manter a postura de quem se deu, finalmente, por convencida.

Refiro-me a ela, dentro de mim, como a dona da lagoa, pela forma com que parece dominar a vida natural que ali se encontra. Mas esse domínio, se ele de fato existe, ela o exerce com extrema naturalidade, a notar pelo modo silencioso com que se move e pára, como quem cumpre uma rotina de inspeção e conclui pela normalidade.

Gosto de vê-la em seus gestos elegantes, em seu garbo, em seu narcisismo, quando se mira e move-se, contemplando-se no espelho das águas que lhe servem de cenário. Nem o vento forte, tão próprio da estação, parece alterar o rito de seus movimentos, a saudação que faz às manhãs e à primavera que se denuncia toda, em cores, em formas e perfumes.

Do outro lado da lagoa, e em quase toda a sua extensão, a beleza de muitas outras garças brancas enche de vida a paisagem cotidiana. Mas essas outras garças, conquanto belas e elegantes, não ostentam o mesmo charme e não inspiram os mesmos sentimentos que a garça que me seduz, exatamente ali, onde quase perfuma o vento fresco da manhã.

Pelo porte que ostenta, pela forma como se impõe, é como se fosse a mãe de todas as outras garças que ali vivem. E vivendo semeiam, na alma de cada um de nós que as vemos, a reflexão sobre a pluralidade da vida, em suas formas variadas e em sua importância natural.

Aos meus olhos, repletos de humanismo, a primeira emoção sugere o encanto de viver entrelaçado ao belo; a reflexão de que a vida é arte, em que os elementos leveza, cor, forma, ritmo, textura, luz, sombra, perspectiva, são explicitados por tudo o que tem movimento próprio, tudo o que é vivo, na natureza. A paisagem como símbolo de fusão desses elementos, como cenário natural, como ponto de fuga, de toda a obra criada por Deus.
   
Uma garça branca e bela, integrada à paisagem da manhã, pode ser motivo de outras reflexões e o símbolo de muitas esperanças que construímos em nossa vida, e que não podem estar contrapostas à vida que existe na lagoa. Uma garça na lagoa é mais necessária ao equilíbrio da vida na lagoa, como predadora de pequenos peixes, do que aos meus olhos de contemplação. Ou ainda, a garça está na lagoa não para que eu a veja, para que a vejamos e com ela nos encantemos. Uma garça está na lagoa para completar seu ciclo de vida, para perpetuar sua própria espécie, para dar vida a outras formas de vida que ali se desenvolvem.

Mas nem por isso é menos bela e menos garça, em sua aparente solidão. E falo de solidão porque sempre a vejo sozinha, em gestos narcisísticos de mirar-se no espelho das águas, e de admirar sua própria beleza. Talvez não seja essa uma peculiaridade das garças que voam em bandos, que vejo em bandos do outro lado da lagoa, a defenderem seus espaços de caça, mas quase sempre, juntas.

A garça que me encanta não. Ela está sempre sozinha, solitária em seu espaço de domínio, como se bastasse a si própria, como se estivesse além de si, além daquele espelho d’água, onde se mira e onde é refletida em sua brancura e solidão.

Às vezes, precisamos estar como a garça solitária, para refletir e nos recompor, para nos aprimorar e nos encontrarmos em nossa unidade de corpo, alma e espírito, para fortalecer e elevar nosso ego. Outras tantas vezes, não. Precisamos estar entre os outros, na comunhão de nossos sentimentos, de nossos seres transitórios, construindo a beleza o encanto de ver, de sentir, de sonhar e projetar esperanças. Amar a cidade é extrair do exemplo da natureza o encanto de viver. É preciso amar a cidade.

ivansarney@uol.com.br

A recorrente e dramática violência urbana

seg, 05/03/12
por Ivan Sarney |
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Registro que a violência urbana tem sido um tema recorrente, de forma cotidiana, no noticiário nacional. A notícia e a exposição sistemática da violência, nas telas da televisão, parecem contribuir para um aumento efetivo da violência, por expor métodos, formas e, de certa maneira, notabilizar seus autores, gerando um processo de imitação, nas fronteiras psicológicas do crime.  Indignados, vamos assistindo a toda essa barbárie moderna, banalizando a vida, fugindo amedrontados dos riscos que nos ameaçam, contabilizando as vítimas, e questionando as previsões positivas de um futuro mais luminoso para nossos descendentes, para as novas gerações.

Os crimes se multiplicam nas grandes cidades, com os requintes das especializações, e vão migrando para as cidades de porte médio. Já, agora, estão migrando para as pequenas e pacatas cidades, onde o sistema de segurança pública exibe maior precariedade.

O elenco de crimes vai desfilando sua nomenclatura, indo do crime passional ao crime político, com assassinatos de encomenda, seqüestros relâmpagos, assaltos a bancos e residências. Além disso, roubos, latrocínios, incestos, estupros, homicídios, cárceres privados, torturas. Não faltam motivos, muitas vezes banais, para justificar tanta violência, ceifando preciosas vidas humanas, até por balas perdidas. Tem crime para toda indignação, para muitos compêndios de estudos sobre suas características, seus autores e suas motivações.

Para agravar essas constatações, a cada dia, cresce o número de jovens, menores de 18 anos, envolvidos nesses crimes, como autores ou co-autores de crimes hediondos, com agravantes da maior crueldade. Esse indicador (aumento da criminalidade juvenil) é o suficiente para acender todas as luzes vermelhas de alerta, em nossa sociedade, exigindo políticas públicas de profundo alcance social, para a reversão desse problema, começando pelo fortalecimento da família.

São Luís não foge a essa dramática realidade nacional, muito embora, em proporções de menor ocorrência, mas da mesma natureza e complexidade. O índice de violência urbana, em nossa cidade, está crescendo de forma assustadora e cruel. Basta olhar o noticiário que a imprensa, diariamente, estampa nas páginas policiais, nas manchetes e nas fotografias que publica, nos relatando os mais cruéis e frios homicídios, assaltos, roubos, estupros, sob o império de quadrilhas organizadas, como as gangues, ou de criminosos ocasionais, sob o incentivo do álcool. O álcool e outras drogas estão, quase sempre, presentes em todo esse elenco de comportamentos criminosos, que tantas vidas tem ceifado ou tanto trauma tem causado a suas vítimas.

Por onde andamos, sentimos que está crescendo o número de excluídos sociais e que essa exclusão, com absoluta certeza, está alimentando o crescimento vertiginoso da violência que grassa em torno de nós, e ameaça a paisagem de nosso amanhã.

Quais são esses excluídos? Os analfabetos, os que não têm escola, não têm empregos, não têm moradia, não têm assistência à saúde, não têm vestuários dignos e não têm sequer o que comer, no dia a dia. São aqueles para os quais a sociedade atual fechou suas portas, negou o exercício de seus direitos de cidadãos e não tem qualquer perspectiva de futuro melhor, para lhes oferecer. Esse contingente vem crescendo, atingindo a classe média empobrecida, tolhendo a dignidade humana, numa sociedade que privilegia o capital, a tecnologia e o mercado de consumo. 

No meio disso está o poder público, o Estado institucional, com suas políticas neocapitalistas, e o mundo de economia globalizada, que nos faz reféns de interesses econômicos dos países ricos (agrupados em blocos), interessados sem ampliar o mercado de consumo para seus produtos, e em afirmar seus domínios sob os destinos do Mundo.

Tudo isso leva a uma situação de agravamento de nossas tensões sociais, do aumento da disparidade entre pobres e ricos, da excessiva concentração de riquezas nas mãos de poucos. Este, em síntese, em minha forma de ver, é o panorama que nos envolve, e que está exigindo sacrifício de todos nós, que pagamos impostos, e temos deveres a cumprir com a criação de nossos filhos.    
    
Como não vejo nenhuma ação pública consistente, que possa estancar em curto prazo esse processo conjuntural de exclusão, é sensato supor que essa situação ainda perdurará por vários anos, com gravíssimas conseqüências para o nosso país, em longo prazo.    

Precisamos, como homens de boa fé, em nome de alguns postulados morais, éticos, adotar medidas protetoras da sociedade, para que ainda possamos cumprir a trajetória de nossas vidas, com sonhos, com esperanças, com algo que nos conforte como seres humanos, nascidos para a liberdade, para o amor e para a busca da plenitude.

A segurança deve ser um dos pontos de maior determinação e empenho do poder público, porque ela envolve a vida, os projetos futuros, a ordem social, sem cujo estabelecimento a própria governabilidade se esvai e deixa de ser exercida, para imperar a desordem, a impunidade, a lei dos mais fortes, o império do crime.

Precisamos construir perspectivas de melhor participação social dos jovens, através da educação, do esporte, do trabalho – com o respaldo da família – livrando-os do assédio das drogas e da sedução do ócio e da violência. Os jovens precisam de nós. Eles são o futuro de nosso país e do próprio Mundo. Amar a cidade é adotar medidas preventivas para proteção de seus cidadãos, com ênfase nos jovens.

ivansarney@uol.com.br

Um dever irrecusável de todos nós

seg, 05/03/12
por Ivan Sarney |
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 Todo cidadão é responsável pela preservação do meio ambiente. Esse preceito está em nosso texto constitucional. No mundo inteiro, a consciência da preservação ambiental está ocupando o centro das preocupações humanas, como um dever inelutável, para que possamos assegurar melhor qualidade de vida, em nosso planeta.

Aos cientistas, aos técnicos, cabem as pesquisas, os estudos das causas e dos efeitos, a orientação de como devemos proceder, a constatação dos indicadores que nos avisam sobre os riscos da civilização predatória que desenvolvemos. A nós, como cidadãos, cabe a apropriação dessas informações e os procedimentos que vão nos conduzir a outros caminhos, com maior respeito a nossos ecossistemas, à biodiversidade, como uma aspiração da felicidade do homem ou ainda, como uma determinante para a própria sobrevivência da espécie humana, e de centenas de outras espécies de vida, na Terra.

Esse trabalho de mudanças, de fomento de uma permanente consciência preservacionista, tem que começar na família, como todo o processo de nossa formação humana. É no aconchego familiar, nos ensinamentos que as palavras e o exemplo dos pais vão incutindo na formação dos filhos, que começa a construção do homem integral.

O homem integral é aquele que desenvolve suas potencialidades emocionais e intelectuais, com harmonia. O homem que tanto pode ser um escritor ou um médico, mas que cultiva sua vertente emotiva, com as letras, com as artes, com as singelas coisas do cotidiano, sem constrangimentos de amar, de repartir seu universo interior com o seu semelhante; e que consegue ver, na grandeza de todas as coisas, a energia imarcescível de um Ser criador.
O homem do novo século, do terceiro milênio, será um homem renovado por muitos anseios, buscas e necessidades, um homem comprometido com uma vida mais coletiva, mais plural e, cada vez menos, singular.

O epicentro de união dos homens e dos povos, em todo o mundo, será a questão ambiental. Como exemplo disso está o elemento água, que é uma fonte de recurso esgotável, e que será um dos pontos críticos da vida humana, a prosseguirmos com as devastações das matas ciliares, com o desmatamento de grandes áreas verdes, com as queimadas; com o aumento da emissão de gás carbônico, na atmosfera, tornando a Terra mais quente, pelo efeito estufa, acelerando a evaporação das águas, em nosso Planeta.

Evoluímos para a criminalização dos danos ambientais, punindo seus autores, com prisão e com multas. Estão sendo criadas varas judiciais, para tratar especialmente das demandas ao meio ambiente. Nas escolas, no entanto, ainda não está inserida a educação ambiental, como conteúdo obrigatório, no ensino de primeiro e segundo graus, permeando todas as disciplinas.
A escola não pode estar ausente desse processo de formação do novo homem, do homem integral. Ela tem que participar, fazendo um esforço didático e metodológico, para ser um instrumento de transmissão de conhecimentos ambientais úteis aos cidadãos que ali se encontram, em busca de formação, para enfrentarem a vida competitiva e árdua de agora.

Como pais, temos o dever impostergável de transmitir aos nossos filhos o melhor que temos dentro de nós. Essa transmissão será tanto mais útil e marcante, quanto mais úteis e marcantes forem os exemplos que dermos, no dia a dia, ante os problemas e as situações do cotidiano.

Cada um de nós, também, como cidadão, deve dar a sua parcela de luta, de postura, de denúncia, de ação que seja edificante para a defesa do meio ambiente sim, mas também para a defesa da vida, como um todo, visando a construção do novo homem. A nenhum de nós é perdoado fugir desse embate, dessa contribuição para a vida de todos.

Afinal, a qualidade de vida das futuras gerações depende de nós, de nossos compromissos com o uso racional dos recursos naturais; de nossas determinações de legar-lhes um mundo em que eles possam desenvolver suas potencialidades humanas, desfrutando, de forma saudável, do conjunto de elementos naturais que concorrem para a vida, em nosso planeta.
Nossa responsabilidade, portanto, deve evidenciar seu compromisso de forma prática, dando exemplos de conduta, abrindo caminhos para outros seguirem por eles. É tarefa da família, da escola, das entidades de classe, dos agentes políticos, do poder público e de todo o conjunto da sociedade organizada.

A cada nova manhã, cabe a pergunta: o que fizemos ontem para a proteção do meio ambiente?  E cabe a determinação do quê fazer, a cada novo dia, para esse propósito de compromisso com a sobrevivência da espécie humana e com a melhor qualidade de vida para todos nós. Precisamos refletir e adotar procedimentos pró-ativos, no que concerne ao uso sustentável de nossos recursos naturais.  Amar a cidade é usar, de forma sustentável, nossos recursos naturais. É preciso amar a cidade.

ivansarney@uol.com.br

O crescimento das cidades e o convívio negado

seg, 05/03/12
por Ivan Sarney |
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O direito de ir e vir é uma das garantias essenciais do cidadão, elencadas em nosso texto constitucional, no capítulo dedicado aos “direitos e garantias individuais e coletivos”. Tal garantia constitui uma das premissas do estado democrático de direito que, por sua vez, fundamenta-se no poder que emana do povo. A democracia constitui-se no regime de governo do povo, por excelência. Além disso, nossa atual constituição é, preponderantemente, cidadã.
 
A cada dia que passa, as cidades estão abrigando um número maior de cidadãos, quer pelo aumento da taxa de natalidade social, que pela migração interna, entre estados, entre municípios. As capitais, ou os grandes centros urbanos, continuam constituindo o maior poder de atração desses migrantes, na maioria das vezes, egressos de zonas rurais, em busca de melhor qualidade de vida.

As cidades, então, especialmente as capitais, estão cada vez mais demandadas por pessoas, em seus espaços públicos: ruas, avenidas, praças, edifícios, equipamentos de laser, centros comerciais, shoppings, na busca interminável do homem, por satisfazer suas necessidades sociais.

Tudo isso torna extremamente difícil a vida de um grande contingente de cidadãos, nossos irmãos de espécie, quem têm, muitas vezes, que permanecerem reclusos em suas residências, pelas dificuldades de acesso a locais singelos como cinemas, escolas, teatro, restaurantes, igrejas, e a toda uma gama de espaços de necessidades habituais para um cidadão comum, sem restrições locomotoras. Refiro-me aos portadores de necessidades especiais; aos paraplégicos ou tetraplégicos, em geral, um cadeirante.

Quem anda, no dia a dia, em nossa cidade, tão bela em sua história; tão exuberante em suas riquezas naturais; tão expressiva em sua arquitetura; tão acolhedora, na fidalguia de seus filhos que a habitam; quem anda, por nossas ruas, é levado a pensar que não temos portadores de necessidades especiais, por aqui. Ledo engano. Semelhante ao que acontece na maior parte das cidades, em nosso país, eles estão em casa, guardados, inibidos, cerceados, em aspectos essenciais de suas vidas, porque essas cidades não estão preparadas para acolhê-los como cidadãos, como seres humanos, com suas imanências e com seus anseios.

Nossas ruas quase não possuem equipamentos urbanos, que contemplem a necessidade desses cidadãos brasileiros, irmãos nossos de espécie viva, irmãos de origem e de destino, que precisam exercer a parcela de suas vidas, de uma forma mais participativa, de uma forma mais socialmente justa, do ponto de vista de suas necessidades. Raríssimas são as calçadas com rampas e os lugares reservados para embarque e desembarque de cadeirantes. Raríssimos também são os telefones públicos sinalizados; as informações em braile para os deficientes visuais. Não conheço um só semáforo sonoro que possa orientar os portadores de deficiência auditiva.  Essas pessoas representam uma parcela desconhecida de nossa população, mas certamente considerável em seu contingente  quantitativo também.

O mesmo acontece com os edifícios públicos: hospitais, escolas, creches, repartições. Nada exibe essa preocupação do poder público. Nada, absolutamente, nada. Do mesmo modo, as edificações privadas, que acolhem grande número de pessoas e que representam lazer, divertimentos, serviços, como os shoppings, também não estão preparadas para acolher portadores de necessidades especiais e suas necessidades de convívio.

Quando estive vereador, fui o autor da lei municipal que instituiu a obrigatoriedade da frota de ônibus de nossa cidade ser equipada com elevador mecânico, para acesso rápido e fácil aos portadores de necessidades especiais. Os ônibus equipados com elevadores mecânicos oferecem maior comodidade aos portadores de necessidades especiais, especialmente aos paraplégicos, tetraplégicos, deficientes visuais e outros, que têm dificuldades locomotoras e que precisam de auxílio, para que possam exercer uma considerável parcela de suas vidas. Já estão circulando esses ônibus, mas ainda não atingimos nem a metade da frota, o que é lamentável, sob o aspecto da inclusão, do exercício da cidadania, da cidade solidária e humanizada que precisamos consolidar.

Precisamos realizar conquistas, avançando em busca dos ideais, dos sonhos, em busca do futuro, contemplando as esperanças que podem nos conduzir à construção de um nível de felicidade, de satisfação com a vida, de forma mais fraterna e participativa. Os que têm a responsabilidade de conduzir, de orientar, de apontar os rumos para onde deverão seguir nossos destinos de povo, não podem abdicar desse direito, nem fugir dessas responsabilidades.

Os portadores de necessidades especiais se inserem em nossas  preocupações, por serem cidadãos como nós e, de uma forma especial, por estarem precisando de nós, de nossas ações, de nossos gestos responsáveis. Ninguém é portador de necessidade especial porque desejou ser. Tudo é o imponderável: destino, casualidade, mistério. Mas somos todos irmãos. Somos todos responsáveis pelo nível de vida, de satisfação, de todos os nossos semelhantes, em qualquer meio, em qualquer espaço que estejamos, no cumprimento de nossos destinos temporais.  

Muitos já estão de mãos dadas, construindo com seu trabalho, dias melhores para esses cidadãos que precisam de nós. Para esse tipo de trabalho, mais que em muitos outros, é preciso dedicação e perseverança. Estamos dando a nossa parcela. Amar a cidade é promover ações de inclusão para os portadores de necessidades especiais, trabalhar pela acessibilidade de todos, aos espaços de trabalho, de lazer, de convívio humano. É preciso amar a cidade.

ivansarney@uol.com.br 

Os camaleões e o muro

dom, 13/11/11
por Ivan Sarney |
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Há algum tempo, em nossas caminhadas matinais pela lagoa da Jansen, venho observando, na diversidade das vidas que ali se exibem e desenvolvem,  alguns camaleões que costumam ficar sobre um muro mal cuidado que dá para um terreno baldio, onde brotam chananas amarelas, em qualquer estação.  

O muro, de média altura e tijolos aparentes, delimita um terreno edificado, cuja frente dá para a Rua das Andirobas, no bairro Renascença. O terreno baldio dá para a pista de Cooper e para a pista de bike; dá para o manguezal que margeia a lagoa, naquelas imediações; dá para a paisagem mais verde e bela da lagoa, que é bela pelo espelho de águas serenas, pelo mangue que emerge das águas, em ilhas de folhas, de sombras e verdes, onde garças, marrecas, jaçanãs, se abrigam e acasalam, enchendo de sons as manhãs alvorecidas. 

A lagoa dá para o verde que a margeia, em toda a sua extensão; dá para o dia que amanhece, com todos os bem-te-vis que ali cantam; dá para o verde que floresce em cada um de nós que ali caminhamos, independente do odor que dela se desprende, em algumas épocas, bem mais distante dali, do outro lado, já perto da Ponta D’areia.

No entanto, indiferentes ao dia que amanhece naquele espaço ou à manhã que alvorece em nós que os vemos e, ali, caminhamos, os camaleões se deixam ficar sobre o muro desprezado, como parte da paisagem daquele cenário, quase sempre no mesmo espaço, e nas mesmas posições.
Não passam de quatro, quando mais se exibem. Na maioria das vezes, são apenas três. Mas conseguem, mesmo sendo tão poucos, marcar as horas do dia e chamar a atenção dos que ali passamos, olhando, em torno de nós, o que há de forma e cor na paisagem que nos cerca.

Vendo de onde os vemos, numa distância não maior que quinze metros, parecem uma família. O maior, o mais robusto, tem rabo longo, tem crina alta, tem papo grande, a cabeça ornada de símbolos. O segundo maior não tem a opulência do primeiro, não tem a mesma robustez, nem tão acentuados sinais de espécie, como crina, papo, rabo. A ao vê-los, assim, de onde os vemos, parecem macho e fêmea, na tarefa de se reconhecerem, a cada dia, para decidirem se acasalar, para repetirem o acasalamento, para, simplesmente, se enternecerem à luz da manhã.

Por isso, se postam um diante do outro, a pouca distância, e ficam, quase estáticos, olhos nos olhos, numa troca de mensagens simbólicas, de energias que se enlaçam e os tornam muito verdes, sob um sol muito claro e uma manhã muito morna, ainda.  Assim, ficam, por muito tempo, por quase uma hora, talvez brincando de estátua, para ver quem primeiro se move, sabendo que aquele que primeiro se move é o perdedor.

Quando não caminhamos, conto o tempo de uma hora pelas quatro voltas de bicicleta que fazemos, completando o circuito de nosso condicionamento físico, em torno da lagoa, meu amor e eu.

Os camaleões menores, quando são dois, ficam bem mais distantes dos dois adultos, quase dispersos, como se fossem estranhos àquela relação, àquele quadro, àquele cenário que compõem. Mas eles, os menores, como filhotes que parecem ser, talvez observem, de longe, para sentir, para aprender os jogos de sedução que há entre machos e fêmeas, para saberem praticar na época de procriação.

Mas, se ainda não for isso, talvez estejam no aprendizado de viver com seus próprios esforços, buscando alimentos sem o auxílio, caçando nas imediações as presas possíveis a seus imaturos recursos. Tudo isso, sem a vigilância, sem a atenção dos pais que, em extremo magnetismo, vão se deixando ficar em contemplação, em atração absoluta, criando condições para multiplicação da vida, para a reprodução da espécie que representam, no estreito espaço de um muro mal cuidado.

Meses atrás, um camaleão macho, talvez o mesmo que vem chamando minha atenção em cima do muro, agora, era o mais destacado e exótico visitante de uma árvore, de copa muito vasta e viçosa, não muito distante do muro mal cuidado. Mas do lado oposto, margeando as águas da lagoa. Ficava ele, ali, no seu mimetismo, exuberante, curvando galhos com seu peso, tão verde e tonalizado como as próprias folhas da árvore que lhe servia de abrigo ou palco.
Muitas vezes, meus olhos não conseguiam distingui-lo entre as folhas, tal era a perfeição de sua camuflagem, para fugir ao risco que nossa presença humana trazia para sua segurança de camaleão.

Os camaleões que se deixam ficar sobre o muro, talvez por se sentirem mais seguros, não parecem necessitar da camuflagem para estarem ali, em plena manhã alvorecida. No entanto, talvez a usem, em menor intensidade, apenas para se seduzirem mutuamente ou, ainda, para o macho seduzir a fêmea, mostrando seus encantos, sua beleza cromática.

Muitas pessoas, a exemplo dos camaleões do muro mal cuidado, se deixam ficar sobre muros, na tentativa de atrair, de seduzir pessoas, de esconder propósitos, de não assumir posições que consideram inoportunas, de não mostrar, claramente, suas idéias, suas convicções, seus propósitos. Muitas pessoas, como os camaleões, usam seu mimetismo social, que tanto pode ser a roupa, quanto pode ser a mudez e a fala, o recolhimento ou os gestos, para enfrentarem dificuldades, para passarem em brancas nuvens, para não serem notados, para poderem se defender, para poderem atacar. Enquanto caminhamos, os camaleões do muro mal cuidado se enternecem ou se preparam para acasalar. E a vida vai oferecendo lições de viver, nas cenas que protagonizam na manhã alvorecida. Amar a cidade é aprender suas lições de vida. É preciso amar a cidade.

ivansarney@uol.com.br

Ante os olhos lenientes do estado

qui, 10/11/11
por Ivan Sarney |
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Escrevi, há algumas semanas, um artigo, nesta coluna, sob o título: A família contra a parede, onde abordei o drama da instituição família, na sociedade contemporânea, entre o crescente aumento de violência perpetrada contra ela, por parte de descendentes drogados, ceifando vidas de pais, de avós, de tios, numa verdadeira síndrome, dramática, da violência doméstica de nosso tempo.

O artigo suscitou muitas manifestações positivas, por parte dos leitores, gerando solicitações que o republicasse, para atender a interesse de muitos que não puderam lê-lo, e de outros que gostariam de vê-lo mais difundido.

Para esses, e para aqueles que gostariam de relê-lo, estou reproduzindo o seu conteúdo, na íntegra, com o complemento do título atual, o que permitirá sua leitura, a partir do seguinte título: A família contra a parede, antes os olhos lenientes do estado. 

- A mídia eletrônica e impressa tem exposto, no dia a dia do noticiário que divulga, um drama que está atingindo a família, em boa parte do mundo civilizado, mas que alcança especial relevo em nosso país. Esse drama tem como protagonistas, de um lado, adolescentes usuários de drogas e, do outro lado, familiares desses mesmos adolescentes. O drama tem tido como desfecho a morte de familiares, quase sempre pais ou mães, mas, também, avós, irmãos, e todos os que possam representar obstáculos à sanha incontrolável de obtenção de dinheiro para a compra de drogas, por parte dos viciados agressores.

Esta semana, a mídia noticiou o caso do jovem que assassinou a mãe, por estrangulamento, no auge de uma discussão em que pretendia mais dinheiro para compra de drogas. Pretensão essa que não tem fim.

Na matéria em que noticiou o fato, uma rede de televisão fez divulgar, também, matérias alusivas a crimes pretéritos, recentes, com o mesmo drama familiar e as mesmas motivações de viciados. O jovem que assassinou a avó e uma servente da casa, que foi preso dopado, em estado de letargia, após os crimes e o uso das drogas que tanto buscara. Um outro jovem que assassinou o pai, por motivações semelhantes: desejo incontrolável de mais dinheiro para a compra de drogas, para alimentar um vício que pede para ser satisfeito a cada momento em que passam os efeitos da última ingestão, segundo os viciados e as pesquisas científicas.

Os criminosos, nesses casos, são criminosos ocasionais, que agem pelo impulso, por estarem tomados pela necessidade de viciados, que submete o corpo e a mente às ações mais cruéis e condenáveis como o assassinato de genitores ou outros familiares, pelo fato de representarem obstáculo e, ao mesmo tempo, meio para a obtenção das drogas que tanto precisam para alimentar seus vícios e suas próprias vidas.

Começam por gastar além do que podem, para alimentar um vício que acontece como um processo. Primeiro, provam gratuitamente. Depois, começam a comprar, em pequenas quantidades, drogas de custo mais barato. Depois, ainda, são induzidos a comprarem drogas mais pesadas e caras. E quando estão nos limites de suas dependências, de suas possibilidades financeiras, roubam dinheiro em casa; vendem aparelhos domésticos e bens móveis de seus familiares; pressionam os pais, cada vez mais, para que lhes dêm dinheiro e, quando não conseguem mais, até mesmo por os pais não disporem de mais, acabam por cometer os homicídios, num gesto inconseqüente e desesperado, ante a negativa dos pais ou outros familiares.

O arrependimento e a depressão vêm depois, quando, presos e em crise forçada de abstinência, conseguem compreender a extensão e o caráter criminoso de seus atos. Assassinos dos próprios pais a quem, quase sempre, eram ligados por fortes laços afetivos. Pais com quem viviam, e que os alimentavam e vestiam, cumprindo seus deveres paternos.

A família está contra a parede, sob os olhos lenientes do estado. Contra a parede pela dificuldade de criar e educar, dentro de padrões éticos e morais que sejam socialmente comprometidos com o passado, o presente e o futuro, num mundo que troca de valores como troca de moda: a cada estação. Contra a parede pela ausência de instituições públicas que apossam ampará-la, nos casos de graves conflitos, por usuários de drogas, adolescentes ou adultos. Contra a parede porque os pais têm sido as maiores e mais graves vítimas desse processo dramático, no cumprimento de seus deveres legais, afetivos, biológicos. Contra a parede porque, na medida em que cresce o número de usuários de drogas, entre adolescentes, e esses adolescentes, quase sempre, vivem com seus pais, aumenta potencialmente o número de pais que poderão ser vitimados por esse processo cruel.

Contra a parede, também, pois na medida em que a família estiver, estará a sociedade, que tem na família a sua base constitutiva, a sua principal célula. Contra a parede acabará ficando nosso país e alguns países do mundo, se não forem adotadas medidas eficazes de combate ao narcotráfico, aos traficantes, buscando estancar, por um lado, a oferta dessas drogas que tanto comprometem a juventude, e nosso futuro. Por outro lado, precisamos adotar medidas de proteção à família, instrumentando-a para o melhor cumprimento de suas responsabilidades, com o aval direto e determinado do estado.

Os jovens precisam de esperanças, de utopias que possam construir, e que constituam motivações positivas para as perspectivas do futuro. Essas motivações podem ser dadas pela família, com o exemplo dos pais, num primeiro momento. Em maior escala, devem ser dadas pelo poder público. A família está contra a parede, sob os olhos lenientes do estado. O tecido social continua apodrecendo, em função da criminalidade visceral dos jovens viciados. Amar a cidade é proteger a família. É preciso amar a cidade.

ivansarney@uol.com.br



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