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A Magistratura não intimidada

qua, 21/09/11
por James Magno Farias |
categoria DIREITO

21 de setembro de 2011 anuncia-se como um dia histórico. Não exatamente porque a Presidente Dilma foi a primeira mulher a discursar na abertura da Assembleia Geral da ONU, mas sim porque nesse dia a Magistratura e Ministério Público do Brasil saíram dos fóruns e foram ao Congresso Nacional e ao Supremo Tribunal Federal em Brasília pedir respeito à ordem constitucional, no dia da valorização das duas carreiras. Foram pedir respeito à segurança na carreira, negada há tempos e culminada com o covarde assassinato da juíza Patrícia Aciolly, quando chegava desarmada em sua residência em Niterói; ou ainda representada nos outros juízes que já foram vitimados e na quase centena de magistrados ameaçados de morte país afora, inclusive vinte e três colegas maranhenses.

Foi também um manifesto para pedir a votação do projeto de lei prevaricado no Congresso que nega a reposição inflacionária garantida anualmente aos magistrados no texto constitucional. E ainda para resgatar a integralidade previdenciária. E resgatar o respeito às carreiras, objeto de constante ridicularização na mídia e nas ruas.

Ainda que os críticos de plantão venham a ironizar o movimento, parece que há um ponto de não retorno naquilo que Werneck Vianna anuncia há tanto tempo: a inserção da magistratura na vida política do país, em atenção a um direito responsivo que substituiu com eficiência o direito repressivo.

Claro que as imperfeições judiciárias brasileiras têm nome: lentidão, acúmulo processual e ineficiência. Mas para elas existem respostas: desenvolvimento tecnológico, dedicação e investimento. Qual o Judiciário que se quer? E a qual custo? Com orçamento reduzido é impossível qualificar pessoal, melhorar a estrutura física dos fóruns e acelerar o julgamento de milhões de processos em andamento, afora as duas dezenas de milhões de novas ações anuais.

Depois do enorme mal que Collor legou ao país ao menosprezar as carreiras de Estado e ao alcunhar todos de ‘marajás’,  existem os que só veem males na justiça brasileira. Por isso o olhar estrangeiro talvez nos traga alguma surpresa. Luc Lavrysen, um juiz belga da Corte Constitucional Europeia, quando esteve no Brasil em 2010, manifestou sua agradável surpresa com alguns aspectos da magistratura brasileira: a maioria dos juízes é jovem e há muitas mulheres na carreira; as audiências são públicas; há concursos públicos para ingresso e, sobretudo, o que ele chamou de ativismo judiciário: a inserção do juiz na sociedade,abrindo suas portas, convidando o cidadão a conhecer seu dia a dia. Segundo ele o futuro é promissor com a justiça brasileira: os juízes, que hoje são jovens, em pouco tempo terão grande experiência e disposição para enfrentar as enormes agruras da carreira; a seleção por concurso escolherá naturalmente os melhores candidatos; e o ativismo judiciário desenvolvido principalmente pelas associações de classe e pelas escolas judiciais formará opiniões menos raivosas acerca da importância da magistratura. No modelo daqui os juízes não são indicados pelo monarca (como na Bélgica) ou eleitos pela população (como no EUA). Resta-nos então formar quadros humanos aptos a destrinchar as complexas relações sociais com ousadia, coragem, honestidade e segurança.

Parece que o ponto de não retorno é o ativismo judiciário. Os magistrados vivenciando sua importância na sociedade. E não se intimidando com as ameaças dos sicários de plantão, sob qualquer carapuça, ainda que disfarçados de político, policial ou jornalista, pseudos profissionais ou algo mais.

Algo está mudando. O silêncio rompido. E eu estava lá no dia 21 de setembro. Vi o mar de gente engolindo o Salão Negro do Congresso, em enorme adesão associativa. E depois a grande marcha à sede do STF, sob um belíssimo céu azul até à sombra da estátua de Themis, na entrada da Suprema Corte. Todos testemunharam o absoluto sentimento de civilidade que reinou; eu diria até de alegria pela coesão associativa. Movimentos assim talvez passem despercebidos da sociedade civil, ou até causem estranheza, mas demonstram o grau democrático que o país assumiu. Se antes era algo impensável, hoje parece natural que os magistrados, que defendem e garantem o direito de toda a sociedade, também mereçam ter respeitado o próprio direito.

London calling

qua, 17/08/11
por James Magno Farias |
categoria SOCIEDADE

Irônica ou profeticamente uma música de 2004 do grupo de rock britânico Franz Ferdinand dizia “Este fogo está fora de controle; estou indo queimar esta cidade toda” (This fire). Parece óbvio que Alex Kapranos, o líder escocês da banda, não estava incitando as turbas (riot) que violentamente atearam fogo à fleumática capital do Império Britânico desde o início de agosto, com milhares de presos, danos materiais enormes e que se espalhou por outras cidades e deixou atônitas as autoridades inglesas, surpreendidas com uma onda de violência como já não se via desde 1981, quando o bairro de Brixton e adjacências viraram campo de batalha.

Alguns cientistas políticos viram nesses distúrbios alguns dos elementos presentes na Primavera Árabe, a série de revoltas populares que se iniciou na Tunísia, derrubou o ditador do Egito, atormentou Khadaffi na Líbia, cancelou um grand prix de F1 no Bahrein e solapou a autocracia dos Assad na Síria: elementos como insatisfação juvenil, desilusão, desemprego e sentimento de protestar contra falta de liberdade (no caso inglês, não contra a falta de liberdade, mas, em tese, contra os cortes sociais anunciados pelo Partido Conservador). Outros intelectuais viram nisso apenas desordem e saqueadores aproveitadores, que usaram a cortina de fumaça para furtar roupas de grife, tênis e eletrônicos.

A morte do traficante Mark Duggan com um tiro no peito disparado pela polícia londrina foi o estopim dos confrontos. Até hoje não se sabe se ele era mesmo traficante, gangster ou colateral, mas logo após sua morte foi veiculada na web a informação de que a polícia havia assassinado um estudante negro indefeso etc, etc. A falta de informação concreta, os traumas de Brixton 85 e a pressa típica da vingança aceleraram os eventos e literalmente propagou as chamas de um movimento organizado a partir de redes sociais na internet.

Analistas políticos advertiram que a partir dos violentos protestos em Atenas contra os cortes sociais ordenados pela União Europeia, todo o continente corria risco de ver protestos e conflitos de rua semelhantes. Paris já viveu isso recentemente em alguns banlieus e a globalização permite que Santiago do Chile também sofra com as turbas violentas, normalmente compostas por estudantes que confrontam o establishment, com as reivindicações típicas do saudosismo do mundo bipolar.

Três fatos chamam atenção na crise londrina: o uso da web como ferramenta de articulação, a indecisão inicial da polícia em agir e a rapidez rigorosa da Justiça britânica em julgar os 1277 transgressores processados. Em dois casos a pena por estimular a adesão aos conflitos através do Facebook foi de quatro anos de prisão, demonstrando os juízes britânicos que a desordem pública não seria mais tolerada; pessoalmente, nesses dois casos, entretanto, eu vejo a pena como desproporcional e elevada. Ainda mais que a Justiça britânica não teve o mesmo rigor quando absolveu os policiais londrinos que mataram Jean Charles de Menezes com sete tiros, quando ele estava dentro de um vagão de metrô, desarmado, vítima colateral da paronoia terrorista pós 11 de setembro de 2001.

O uso da internet virou uma faca de dois gumes: primeiro é usada para articular o movimento; depois, a Justiça usa as postagens contra os próprios transgressores, a exemplo do que foi feito aqui no Brasil pela Justiça Federal contra a lunática paulista Maiara Petruso que incitou pelo Twitter a morte de nordestinos, quando da campanha eleitoral de 2010.

Peter Gabriel, o genial músico e ativista cultural inglês, há mais de uma década mantém um sítio na web chamado witness.org, uma espécie de Youtube político, pelo qual as pessoas postam videos de denúncia de violação de direitos humanos. Gabriel diz que se Orwell previu o uso da vigilância do Grande Irmão contra os indivíduos, chegou a hora de os indivíduos usarem seus celulares e filmadoras para denunciar os atos violadores do Grande Irmão. Não é à toa que autocracias como China, Irã e Síria vigiam (ou tentam) o uso da internet. Entretanto, a inventividade humana fura constantemente o bloqueio estatal e as imagens de Pequim, Teerã e Damasco navegam web afora.

Enfim, quem melhor resumiu tudo foi a crônica de Ivan Lessa para a BBC, denominada sensacionalmente de “verão londrino, primavera árabe”.

O Clube dos 27

qui, 11/08/11
por James Magno Farias |
categoria CULTURA POP

A morte precoce de Amy Winehouse aumentou o Clube dos 27 (também conhecido como Forever 27 – Para sempre 27), uma forma comum dirigida a um grupo de músicos famosos e talentosos que morreram aos 27 anos de idade, normalmente em decorrência do consumo de álcool, drogas ou acidentes.

Maldição? Coincidência? Tentação? Cabala? Fraqueza? Playground dos deuses? Quem sabe?

A lista estelar inclui Brian Jones (fundador dos Rolling Stones, afogado em sua piscina, provavelmente assassinado); Kurt Cobain (vocalista do Nirvana, morte por suicídio após depressão causada por heroína); Robert Johnson (bluesman morto envenenado); Jim Morrison (cantor do The Doors, morto em circunstâncias misteriosas em um hotel de Paris); Jimi Hendrix (sufocado após misturar vinho com sonífero), Janis Joplin (morta por overdose de heroína); Pete de Freitas (baterista do Echo & The Bunnymen, morto em acidente de moto); D. Boom (vocalista do  Minutemen, acidente automobilístico); Ron Pigpen (Grateful Dead, morto por hemorragia decorrente de alcoolismo).

 

A lista fatídica tem muitos outros nomes menos famosos como Richey James Edwards (do Manic Street Preachers, desaparecido em 1995 e dado como morto em 2008), Freak Tay (rapper do Lost Boyz, baleado), Chris Bell (cantor do Big Star, morto em acidente de carro) e Alan Wilson (vocalista do Canned Heat).

Em comum, todos tiveram uma vida intensa, como naquela frase de Lobão “é melhor viver 10 anos a mil do que mil anos a 10”.

A perda de uma pessoa amada, seja precocemente ou por idade avançada, quase sempre causa um vazio tão grande, uma dor tão angustiante, que retira uma quantidade imensa de alegria e pode levar à angústia e negação da vida. Um amor intenso que une pessoas pode transformar-se em medo ou vergonha de voltar a amar; uns não conseguem superar a perda, por achar ser egoísmo ou tomados por extrema tristeza.

Eu já escrevi antes que todos os que passaram nesta vida, em seu tempo respectivo, nos deixaram alguma herança, nos legaram atos e realizações; governantes sábios deixaram uma linha política democrática; escritores nos tornaram mais apaixonados e felizes; esportistas deixaram seus recordes; cineastas imortalizaram imagens que se juntaram à história; nossos parentes nos legaram amor, ética e eternas palavras de carinho e proteção. Os músicos nos deixaram suas memórias pautadas.

Todos nós sofremos pelos nossos amados que já partiram desta vida; lembraremos sempre dos momentos de ternura e proteção; lembraremos com lágrimas das palavras que nem chegaram a ser pronunciadas; mas os que já passaram não nos deixaram totalmente: sua vida agora eterna deixou de eterno também o amor marcado na pele do coração; a lembrança do riso fácil nos momentos festivos; a fotografia alegre guardada no álbum; o momento de ternura e de proteção. A herança deixada está no ensinamento de saber caminhar sozinhos, de realizar nossa missão e deixar nossa marca para os que ficarão após nossa partida.

Erich Fromm escreveu certa vez que “A principal tarefa do ser humano nesta vida é dar a luz a si mesmo.” Ele também disse que “Morrer é dolorosamente amargo, mas a idéia de ter de morrer sem ter vivido é insuportável”.

Seja o que for o Clube dos 27 ele é precoce, porém.  Passa longe da normalidade, mas o enorme legado dos falecidos serve de aviso para os que vivem muito e pouco realizam. E serve de inspiração para realizar mais, viver mais, amar mais.

 

Faz bem ou faz mal?

qui, 09/06/11
por James Magno Farias |
categoria SOCIEDADE

Todo dia uma nova pesquisa científica é publicada no mundo, sobre os mais variados temas.
As conclusões são surpreendentes e muitas vezes totalmente contrárias umas às outras.
A lista é enorme. Eis alguns exemplos.
Ovo faz mal. Ovo faz bem.
Chocolate faz bem. Chocolate faz mal.
Usar fone de ouvido relaxa. Usar fone de ouvido causa surdez.
Beber água gelada faz mal. Beber água quente também.
Levar prato plástico ao microondas é ato cancerígeno. Levar prato plástico ao microondas não é cancerígeno. 
Refrigerante é cancerígeno. Apenas refrigerantes amarelos são cancerígenos. Nenhum refrigerante é cancerígeno.
Suco de polpa de fruta não tem vitaminas. Sucos artificiais possuem corantes letais. Sucos de frutas sempre são nutritivos, até os artificiais.
Celular causa câncer ou celular não causa câncer?
Tomate é mágico, desde que seja orgânico, pois o que está no supermercado está sempre contaminado por agrotóxicos.
Ler em veículo em movimento causa descolamento de retina ou ler em veículo em movimento não causa descolamento de retina?
Assistir tv gera miopia?
Carne vermelha faz mal?
Carne de porco também faz?
Comer muito peixe é fatal?
Café faz mal para o organismo ou café faz muito bem para o organismo?
Jogar videogame exercita os reflexos e é relaxante ou jogar videogame causa dependência e violência?
Dormir muito é causa de obesidade ou dormir muito faz bem à saúde?
Dizem que até fazer um vistoso mega hair faz mal, pois gera lesões no couro cabeludo!
Acho que a única certeza é que ler pesquisas causa incerteza…

Discografia básica: Metrô

qui, 09/06/11
por James Magno Farias |
categoria CULTURA POP

METRÔ – “Déjà-vu” (Trama)

O Metrô tem uma história interessante. Surgido na década de 80, junto com a explosão do rock brasileiro, fazia um popinho bem inocente, em músicas como “beat acelerado” e “Johnny Love” que tocaram ad nauseam nas rádios fm’s. Em 1987 a vocalista Virginie resolveu deixar o grupo e em seu lugar entrou o português Pedro Parq; aí ocorre o inesperado, o grupo faz um disco bem experimental, sem nenhuma concessão, intitulado “A mão de Mao” (lançado em cd pela Sony por volta de 2004) e depois encerra suas atividades. Quinze anos depois o Metrô voltou com uma terceira proposta musical. Nem tão pop, nem tão experimental, apenas com Virginie, Danny e Yann. O Metrô vem com um som bem próximo ao que vem fazendo Bebel Gilberto, Fernanda Porto ou às vezes Everything But The Girl, naquilo que se convencionou chamar de new bossa ou bossa eletrônica, ou seja a velha mpb bossa nova misturada com elementos eletrônicos de sequenciadores, tronic beats e teclados delicados. A participação de Otto não deixa dúvidas quanto à vontade de ser moderno. As versões de “mensagem de amor” (Paralamas) e “que nega é essa” (Jorge Benjor) “coração vagabundo” (Caetano Veloso) são bem legais. “Aquarela do Brasil”(Ary Barroso) recebeu roupagem lenta e hipnótica. “Beat acelerado” e “Johnny Love” também receberam novas versões e estão presentes.
Déjà-vu, tudo bem, nenhuma novidade, mas este é um disco para escutar baixinho, em fim de tarde, como uma surpresa boa ao final do dia.

Ameaça de extinção: lojas de discos

qui, 02/06/11
por James Magno Farias |
categoria CULTURA POP

Passar uma manhã de sábado perdido na Modern Sound, a tradicional loja de discos na rua Barata Ribeiro, em Copacabana, era um dos momentos preferidos em todas as vezes em que eu viajava ao Rio. Lá, eu iniciava o dia remexendo as prateleiras, escutando o show ao vivo no bistrô, regado a bolinhos de bacalhau e chopp glacial. Só depois de ter cumprido esse ritual o meu dia começava e eu partia para o resto da Cidade Maravilhosa. Em dezembro de 2010 inesperadamente a loja fechou! A exemplo de outras tradicionais lojas de música mundo afora, como a Virgin em NY, a Gramophone e Hi-Fi no Brasil, a Modern Sound não resistiu a um dos aspectos mais perniciosos da globalização: a pirataria musical e a queda acentuada na venda de cds.
Não é de hoje que eu reparo que as antigas lojas desapareceram e continuam a desaparecer das ruas brasileiras. Os grandes magazines tomaram seu lugar físico e o grande estoque fica trancado em algum galpão da cidade, já que a melhor parte dos lucros já vem da venda nos sítios de web.
A indústria da música vive um paradoxo. Com tanta informação na Net hoje é fácil gravar um disco; mas quem vai comprar se tudo pode ser baixado de graça? E se também é fácil e barato comprar direto de sites estrangeiros. Dez anos atrás diziam que as livrarias também desapareceriam, mas sua longevidade chega a ser melhor do que a dos discos. A variedade de títulos, de interação com o público em oficinas, a diversificação de produtos (até discos e blurays) e palestras mostra um caminho interessante a ser trilhado.
As lojas físicas estão fadadas a sumir e tudo será virtual. Mesmo as que mesclam venda de discos, com equipamentos musicais ou bar-restô, como era a Modern Sound, correm risco.
Claro que as grandes gravadoras provaram do próprio veneno e são responsáveis pela sua derrocada; primeiro ao praticar preços extorsivos pelos discos durante décadas. E por continuar com os preços elevados mesmo depois dos sinais de que as gerações mais novas não têm apreço pela bolachinha prateada e pegam tudo de graça da internet.
A verdade é que apenas colecionadores, saudosistas e apaixonados pela música continuam a comprar discos. É certo que é muito mais fácil e prático manter arquivos compactos em ipods e hds; o problema é quando eles queimam. Pelo menos o sistema de compra da iTunes store permite um backup do que foi comprado legalmente lá.
Não raro sinto-me dinossáurico ao comprar cds. Mesma na cult Galeria do Rock, na região da República, em S. Paulo, procuro lojas antigas e vejo em seu lugar surgirem butiques, tattoo studios e salões de beleza. Ver a resistência da London Calling ou Baratos Afins é fato animador, é bem verdade.
Na época do fechamento da Modern Sound, o cantor e compositor Marcos Valle, em entrevista para o Globo, disse que seu fim era uma perda irreparável: “Além de uma loja sofisticada, virara uma casa de shows excelente, perfeita para o lançamento de CDs, com shows que atraíam grande público e davam trabalho a muitos músicos. Sinceramente, lamento profundamente, como o fiz no fechamento do Mistura Fina”. Também o compositor Ronaldo Bastos lamentou o fim de “um oásis de cultura e sofisticação”; ele disse que “uma instituição como a Modern Sound quando fecha o que se perde é o que a indústria da música mais precisa e, paradoxalmente, deixou se esvair pelo ralo: mágica. É lamentável ver que essas ilhas estejam sendo submersas enquanto quem deveria procurar a solução repete um discurso técnico contaminado por essa vanguarda do atraso que hoje toma conta da mídia e das instituições culturais, arrotando de boca cheia bobagens como o fim do disco, o fim do quadro, o fim dos direitos etc. Algo ideologicamente oposto aos interesses fundamentais da indústria cultural”.
Eu não sabia que minha visita em março de 2010 seria a última à Modern Sound. Guardarei sua lembrança, já que a música evoca lugares, pessoas, aromas, sentimentos… Da última visita eu trouxe de lá o disco do SambaJazzTrio, que a todos encantava nas manhãs de sábado e outros muitos mais.
Vem imensa saudade quando observo os adesivos nos discos com as logomarcas das lojas. Na minha memória afetiva os selos são a certidão de nascimento dos discos; alguns deles serão inesquecíveis: Pat Metheny, “The first circle”, meu primeiro cd, comprado na Mesbla, São Luís, 1989. Lloyd Cole & The Commotions, “Rattlesnakes”, vinil, comprado na Bruno Blois, SP, 1986, na companhia de meu Pai. Legião Urbana, “Dois”, vinil, comprado na querida Discomania, em São Luís, 1986. The Cult, “Ceremony”, cd, comprado na Hi-Fi, SP, 1992. Peter Gabriel, “Passion”, cd, Modern Sound, RJ, 2010. Todas já fecharam.

A Guerra ao terror

ter, 03/05/11
por James Magno Farias |
categoria SOCIEDADE

A morte de Bin Laden não encerra a chamada guerra ao terror. Exatamente dez anos depois do sangrento setembro de 2001 a guerra ainda parece longe de terminar. A complexa forma de organização da Al Qaeda não garante sua quebra dorsal com a morte de seu general mais famoso. As células espalhadas mundo afora garantem a permanência do estado de vigilância contra atentados terroristas.

Bin Laden é fruto da Guerra Fria; teve oportuno apoio da CIA na Guerra do Afeganistão contra a invasão soviética em 1979 e depois se voltou contra os americanos, em nome de uma visão religiosa radical. Em uma guerra os resultados sangrentos são inerentes ao processo destrutivo. Bin Laden era um assassino, responsável pela inteligência de diversos atentados contra alvos civis e militares mundo afora. As três mil vítimas dos dois ataques ao World Trade Center são exemplos de colaterais a essa disputa ideológica e política, revestida de tons religiosos.

Os americanos pagam pela Doutrina Monroe, que desde o século XIX prega a ideia da América para os americanos, mas que tenta impor sua visão democrática pela forma autocrática do ‘big stick’. Enquanto os americanos continuarem a agir como a polícia do mundo eles terão inimigos furiosos e vingativos mundo afora. Quem passeia pela animada Time’s Square nem lembra que os Estados Unidos estão em guerra; sim, em guerra iniciada pelos EUA antes mesmo dos atentados terroristas de 11 de setembro de 2001. Na Primeira e na Segunda Guerra Mundial eles garantiram a preservação das liberdades fundamentais para a humanidade. Mas depois de 1945 eles já estiveram em guerra na Coréia, no Vietnam, no Panamá, para citar alguns, além de operações secretas diversas e escaramuças na Baía dos Porcos, Irã, América Latina…

Eu já disse antes que não sou maniqueísta para reprovar ou endeusar tudo que vem dos Estados Unidos. Sei de seus podres poderes, mas sei que a eles devemos um riquíssimo legado cultural e democrático, que será duradouro não apenas no mundo ocidental. Prefiro-os aos nazistas ou stalinistas no século passado. Com pontuais restrições ainda prefiro suas instituições, que nos deram pensadores como Ronald Dworkin ou John Rawls ou H. L. Hart e uma forma preciosa e exemplar de atuação judiciária. Prefiro sua ampla liberdade de expressão à ‘liberdade’ chinesa ou cubana ou ao modo de ver o mundo dos alienados chauvinistas do Hamas, Hezbollah ou Al Qaeda.

A guerra está longe de terminar. Preocupa-me o número de vítimas e inocentes ainda por vir, em qualquer lugar do mundo árabe ou ocidental.

E la nave va.

São Luís em um milhão de vozes

ter, 05/04/11
por James Magno Farias |
categoria SOCIEDADE

São Luís do Maranhão tinha 265.000 habitantes em 1970. Pacata, tranquila, já órfã dos bondes, mas com crianças jogando bola na rua, cadeiras nas portas das casas sem grade. Tinha que crescer e cresceu a passos largos em quarenta anos para atingir um milhão de habitantes no início do século 21.
Durante anos havia um sentimento coletivo de que a marca de um milhão de pessoas era visto como sinal de desenvolvimento, de demonstração de crescimento e da transformação da acolhedora cidade em uma metrópole regional.
Pois um milhão de ludovicenses e agregados já convivem na Ilha! Muitas coisas boas foram trazidas pela prosperidade econômica: boas universidades, bons restaurantes, lojas variadas. São Luís tem IDH mediano de 0,778 e concentra mais de 60% de todo o orçamento do Estado. Mas eis que uma aura triste se abateu sobre a cidade às vésperas de seu aniversário de 400 anos. Uma espécie de inferno astral jogou um manto sombrio sobre a cidade. Ser agora o 15º município mais populoso do Brasil trouxe efeitos colaterais. Um milhão de pessoas transitando nas mesmas ruas antigas ou nem tão novas assim. Milhares de carros, motos e bicicletas disputam centímetros, quase sempre sem cordialidade. A gentileza e o sotaque ludovicense, de tanto orgulho ancestral, estão sendo violados cotidianamente pela ignorância e modos vis. Cada vez mais motoristas estressados e trapaceiros ignoram solenemente a Lei de Trânsito, com suas investidas contra sinais vermelhos, faixas de pedestres e ciclistas incautos. Os buracos nas ruas de todos os bairros demonstram a péssima qualidade do asfalto e do serviço de recapeamento.
Todas as esferas públicas falham. Os governos estadual e federal cuidam mal do centro histórico e lá os casarões teimam em ficar de pé, apesar de todas as tentativas do descaso de derrubá-los.
As áreas turísticas deveriam receber uma atenção maior, pois é por lá que circulam os visitantes que vêm e voltam (ou não). Mas não recebem atenção melhor; se existe algo constitucionalmente igualitário nesta Ilha é que todos os bairros recebem o mesmo tratamento: todos estão mal conservados, todos sofrem igualmente. A Praia Grande está suja e sombria; a Lagoa com mato avançado; a Litorânea com sua eterna briga de barracas inadequadas e um mar poluído. O centro de Convenções do Estado é feio por fora e lindo por dentro (ao contrário do ditado popular da viola e do pão bolorento); precisa resolver questões de infraestrutura básica, limpeza e segurança do estacionamento. Basta uma péssima impressão ao turista e São Luís nunca mais!
O Aeroporto Mal. Cunha Machado, no Tirirical está literalmente caindo aos pedaços. Diz a sabedoria popular que alguém não sendo belo, pelo menos deveria ser bom em alguma coisa. Ou ao contrário. O aeroporto, por sua vez, nunca foi bonito, mas nem eficiente poderia ter sido? Pequeno, acanhado, modesto, planejado sem visão de futuro e desconfortável. E para piorar a prefeitura ainda escolheu fazer o aterro sanitário na rota de pouso do voos, para risco dos aviões e dos pobres urubus. Apenas duas coisas se salvam no aeroporto, as duas boas pistas e um bom restaurante Palheta. Muito pouco para quem pretende ser internacional.
O estádio Castelão está mergulhado em uma longa noite escura. O ginásio Costa Rodrigues desapareceu a golpes de martelo.
Não é só. A rede de ensino público definha. O sistema de saúde privado e público é precário. O sistema de transporte público piorou (boas idéias naufragaram, como os microônibus chamados ‘fresquinhos’).  Há muito a ser feito.
Veja o exemplo da PEC que tenta passar para as Assembléias Legislativas o poder de criar novos municípios. Acho temerário e irresponsável pensar em criar mais quatro municípios nesta Ilha minúscula (Itaqui Bacanga, Cidade Olímpica, Panaquatira e Maiobão). Serão oito municípios! A mera busca de recursos públicos para os novos municípios não deve ofuscar o fato de que um novo município traz a necessidade de muitos quadros de servidores, secretarias, automóveis, cargos, cargos e mais cargos públicos.
Ora, os moradores da área Itaqui Bacanga massivamente trabalham onde? Nas áreas centrais de São Luís. Para lá eles se deslocam e outros fazem o sentido inverso para trabalhar. Se houver a secessão o que acontecerá? Simplesmente toda a arrecadação do Porto do Itaqui, da Petrobrás, da Vale do Rio Doce, Alumar e empreiteiras passará para o novo município. E o que sobrará para a velha São Luís, além do trânsito infernal em suas ruas estreitas?
A solução já existe há tempos e está em todos os programas de campanhas eleitorais: criação de subprefeituras e orçamento participativo.  Isso trará desenvolvimento para as áreas que, justificadamente, são carentes do poder público.  
Rogo que as pessoas que amam esta cidade lutem por sua transformação social, educacional, legal, permitindo uma convivência pacífica, serena e humanista.
Temos que brigar pelo básico: por asfalto decente, esgoto, limpeza, por casarões recuperados, polícia vigilante. Mas temos que pensar grande também: por um sistema de metrô, por um belo aeroporto, por novas avenidas, por pessoas lúcidas, honestas e responsáveis na gestão pública. 

Estádios e Aeroportos

ter, 22/02/11
por James Magno Farias |
categoria SOCIEDADE

O Rei Pelé sempre causa alguma comoção quando fala sobre as coisas do futebol. Nem sempre com razão. Mas a declaração da semana passada de que o Brasil corre o risco de passar vergonha na administração da Copa do Mundo foi a coisa mais acertada que o Rei falou nos últimos tempos. Tentando não ser muito pessimista ou otimista eu penso que o Brasil tem que correr contra o tempo se quiser organizar uma Copa do Mundo razoável. Não se pode deixar tudo para a última hora, deve ser abandonado o improviso e o maldito jeitinho. Um mega projeto assim envolve prazos alterados, fiscalização intensa dos Tribunais de Contas e do Ministério Público.
Além dos estádios, claro, cinco outros pontos são urgentes: aeroportos, hotelaria, segurança, infraestrutura de transportes e energia.
Os aeroportos são o primeiro fantasma da Copa no Brasil. A Infraero diz que tudo acabará bem. Se é Copa do Mundo então vamos torcer, não é? Como eu conheço quase todos os 12 aeroportos das cidades sede eu arrisco dizer que apenas Recife e Fortaleza estão próximos do desejável. Curitiba terá apenas o problema do tempo invernal à época dos jogos. O Galeão, hoje inadequado, promete terminar sua reforma do novo terminal a tempo da Copa das Confederações.
Manaus tem boa pista e péssimo terminal. Brasília, BH, Salvador e Porto Alegre também precisam melhorar os terminais, notoriamente os guichês da imigração da Polícia Federal. Já a adorável Natal vai precisar de tudo novo no Salgado Filho.
São Luís deveria aproveitar o investimento como sub sede e pedir melhorias para o Tirirical (mais três ou quatro fingers para os portões de embarque, aumento das esteiras de bagagem e aumento dos portais de inspeção). O problema de nosso aeroporto, que já passou há muito tempo do ponto de normalidade, é uma concentração de chegadas e saídas em horários simultâneos (principalmente entre 23h. e 2h.), enquanto em grande parte da manhã e do final da tarde opera ocioso. A Anac deveria rever esses horários. Por exemplo, há um voo da Gol e um voo da TAM que pousam em Imperatriz quase ao mesmo tempo pela manhã e à noite! Por que isso? Por que não pousam em horários mais diferenciados e espaçados ao longo do dia?
Já Guarulhos merece todos os seus adjetivos: esgotado, superlotado, estressante, ridículo para atender uma metrópole! Irresponsavelmente, a reforma de Viracopos, que ajudaria São Paulo a respirar, só sairá após a Copa! E o trem bala virou promessa. E as rodovias brasileiras…
De certa forma foi arriscado a FIFA ter deixado Belém de fora: o aeroporto de Val de Cans mereceria poucas reformas, a exemplo do Mangueirão; a rede hoteleira, motivo maior da recusa, teria tempo de crescer e o povo paraense, apaixonado por futebol, certamente lotaria com rapidez os jogos e a cidade receberia bem os visitantes. O mesmo vale em relação a Goiânia, com melhor estrutura do que Cuiabá.
De qualquer forma a reforma e modernização dos aeroportos será um legado precioso para o país.
Quantos aos estádios eu creio que, tirando as escaramuças acerca dos de São Paulo e Natal, não haverá maiores problemas e todos os demais ficarão muito bons.
Em relação à abertura da Copa eu penso que deveria ser em Brasília; primeiro porque o Estádio Nacional deverá ter 70 mil lugares; segundo, porque a cidade tem mais de 25 mil quartos disponíveis (segundo a organização) para acomodar os visitantes; e os chefes de estado que vierem para a abertura terão o apoio de todas as suas respectivas embaixadas; e, afinal, Brasília é a capital federal.
Segurança é outro fator de risco – e não preciso falar disso para nenhum brasileiro entender. Nesse caso rezar não faz mal.
O transporte público é outro problema antigo. A pequena rede de metrô mal atende a demanda diária. E as elites míopes do Brasil não ajudam; aqui é o único país do mundo onde os moradores se reúnem para protestar contra a construção de uma estação de metrô no bairro. Isso aconteceu de verdade no bairro paulistano de Higienópolis. Não se tem notícia de que os moradores do Upper West Side em Nova York tenham adotado atitude estúpida semelhante contra linhas de metrô. Mas, por outro lado, os projetos de VLT de Fortaleza e Brasília devem ser os únicos a sair do papel. Os demais mudaram para o corredor de ônibus, bom, os ônibus… Os taxistas devem passar por algum tipo de treinamento para permitir uma comunicação pelo menos inteligível quando do Mundial.
O risco de falta de energia deve ser levado em consideração pelos recentes apagões; mas o governo federal disse que não haverá problemas. A capacidade de transmissão de dados deve ser monitorada e planejada, pois o fluxo à época do Mundial deverá ser multiplicado.
Outras coisas não preocupam em 2014: haverá boa qualidade da transmissão de imagens em HD, estádios cheios, cidades em festa, turistas animados, restaurantes cheios e comércio festejando.
Os supersticiosos lembrarão que o dia 13 de junho de 2014, data do jogo de abertura, será uma sexta feira 13! Mas isso não passará de detalhe se nesse dia toda a organização estiver perto do razoável; bastará então vestir a amarelinha e torcer pela sexta estrela da seleção canarinho, em campo com Julio Cesar, Daniel Alves, David Luiz, Ganso, Kaká, Ronaldinho…

A primeira década

qui, 06/01/11
por James Magno Farias |
categoria SOCIEDADE

Poucos notaram, mas já acabou a primeira década do novo Milênio. Os tais anos 00. Mas qual foi a cara da primeira década? Aliás, quais as marcas das últimas décadas?

A década de 60 ainda foi uma década eurocêntrica, na concepção equivocada de que em primeiro lugar vinha o primeiro mundo, depois o que sobrar dele. Mas os baby boomers estavam chegando à adolescência, fermentando o caminho para a aparição da contracultura, dos hippies, do reinado dos Beatles, Doors, Hendrix, Dylan; Os homicídios dos dois Kennedy traumatizaram os norte-americanos. Veio o início da insana guerra do Vietnã e da multiplicação das ditaduras nascentes com a Guerra Fria e esta ameaçou explodir o mundo algumas vezes em estágio Defcon 2. Rolling Stones, ainda com Brian Jones, já eram um enorme sucesso. O espião 007 surge com sucesso na pele de Sean Connery. Pelé era o ‘Rei’. Na mesma época em que os astronautas pousavam na Lua, uma tal série ’Jornada nas Estrelas’ ia galáxias muito além, com uma tripulação multirracial e internacional, que falavam em celulares flip e usavam computadores tablet, coisa esquisita disseram, por isso durou pouco a saga de Spock e Kirk na careta tv aberta americana.

Na década de 70 veio a primeira crise mundial do petróleo, o primeiro susto dado nos ianques pelos árabes; no Brasil, Chico Buarque narrava a vida sob a pesada mão da ditadura de Médici, Geisel e Figueiredo; na Alemanha, o trágico ataque terrorista nas Olimpíadas de Munique; mas lá depois desfilou Cruyff e sua onipresente Laranja Mecânica na Copa de 74; na Copa seguinte foi a vez do grande Kempes e da chuva de papel picado na fria Argentina invernal em 78. A década de 70 foi a da inimaginável derrota americana no Vietnã e do início da aventura desastrada dos soviéticos no Afeganistão. Lá perto, os aiatolás iranianos começaram a mudar o tabuleiro político mundial. Os Rolling Stones, agora sem Brian Jones, continuavam a fazer um enorme sucesso, cometendo o genial ‘Exile on main street’. Pink Floyd lança ‘The dark side of the moon’ e subverte o rock. No cinema, Operação França e o Poderoso Chefão ditam as regras. Kojak e a Família Walton dominam a televisão (ainda majoritariamente p&b no Brasil). Led Zeppelin botou pra quebrar, mas David Bowie foi a cara da década, reciclado, elegante, bebendo no melhor soul e depois indo revirar a euromusic em Berlin com Brian Eno. Roxy Music destilou álbuns deliciosos. Mas aí apareceram os Sex Pistols, que incendiaram tudo com o movimento punk em 77; ao mesmo tempo surge a disco music e Tony Manero dita as regras; mas James Bond continua bem, obrigado, veio até visitar o Brasil atrás do foguete da morte. ’Jornada nas Estrelas’ volta aos cinemas em sequências de enorme sucesso, mas também é a estréia da saga Guerra nas Estrelas, que marcaria uma geração inteira.

Anos 80. A década mais querida por nove entre dez. Muita cor no pós Punk; veio a New Wave, Cold Wave e New Romantics. Madonna, Michael Jackson e até Miles Davis tocou Cindy Lauper! Duran Duran, Eurythmics, Police, Echo & The Bunnymen, New Order, The Clash, Talking Heads, The Cure, The Smiths, The Cult, Siouxsie… U2 apareceu devagarzinho com ‘Boy’ e depois deslanchou. Depois do Rock in Rio 1 despertou a cena do Rock Nacional, com Paralamas, Blitz, Titãs, Capital e Legião Urbana. Veio a redemocratização do Brasil sob o Presidente Sarney. Fim da censura! Promulgação da Constituição Federal de 1988. O dinheiro andava curto, mas Juba, Lula, Bacana e Zelda Scott garantiam armações ilimitadas. Os clips da MTV anunciam algo novo no ar. Surge Indiana Jones. Com ‘De volta para o futuro’, os filmes de John Badham e Star Wars, Hollywood enche os cofres. Feliz Ano Velho, de Marcelo Rubens Paiva foi o livro que mudou uma geração. O Flamengo dominou o mundo! Mas Paolo Rossi bem que deveria ter sido banido do futebol antes da Copa de 82! Os americanos se enrolam em novas escaramuças militares pela America Central. O Narcotráfico começou a assolar o continente inteiro. O vinil definha, surge o CD. Os Rolling Stones, com Mick Jagger ensaiando carreira solo, tiveram uma queda de vendagens, mas não se separaram. Roger Moore foi um agente 007 adequado ao clima festivo dos 80’s. Surge o Capitão Picard. Surge Gorbatchov. Cai o Muro!

A década de 90 começa na ressaca do fim da Guerra Fria. As fronteiras mudam: a União Soviética se separa rapidamente, sem muita resistência, noves fora a Chechênia; a Tchecoslováquia se divide com a suavidade do veludo. Mas a Iugoslávia paga um preço cruel pelas rivalidades históricas e se engalfinha no pior conflito militar europeu após a II guerra mundial. No mundo capitalista, a cobra muda de pele novamente: agudas crises econômicas mundo afora. Argentina quebrada. México e Rússia também. Os tigres asiáticos recolhem as garras; o capitalismo se recicla e logo se foram as crises. O Brasil muda de rumo com o bem sucedido Plano Real de FHC. A computação permite um salto gigantesco da humanidade. A Microsoft e seu Windows dominam o mundo. Se Romário é o cara, a Internet não fica atrás! Televisão por assinatura cresce e aparece no Brasil. Celulares flip de meio quilo da Motorola são o sonho de consumo de nove entre dez terráqueos. O CD ainda não sabe, mas corre sério risco com o surgimento do MP3. O U2 lança o antológico álbum ‘Achtung Baby’. Enquanto isso, em Seattle, surgem as bandas que lançam o grunge rock: Nirvana, Pearl Jam e Soundgarden. A Inglaterra devolve na mesma moeda com o genial Radiohead. 007 é agora quase um pastiche na pele de Pierce Brosnan. Os Rolling Stones, que ameaçavam aposentadoria a qualquer momento, conseguem emplacar enorme sucesso com ‘Voodoo lounge’. A Enterprise ganha novas dobras temporais com as novas séries Deep Space Nine e Voyager.

No novo milênio o mundo mudou. Começou logo sob o manto da guerra contra o terror, após os ataques terroristas contra Nova York e Washington em 11 de setembro de 2001. Em cenário que remete à ficção os EUA são atacados por radicais islâmicos, herdeiros dos treinamentos dados a seus ascendentes pelos comandos militares nos Oriente Médio. Bush II, sentado em uma escolinha infantil na Flórida recebe a notícia e fica catatônico. Segue a invasão do Iraque, mais atentados mundo adentro, Afeganistão, Bin Laden, Paquistão, mais atentados… Ainda não terminou. No novo milênio está a era de ouro da comunicação, as pessoas se conhecem antes pela internet, depois pessoalmente. As Redes Sociais dominam. É o tempo do Facebook e Orkut. Dr. Google responde tudo. Imagem vale tudo. O uso do e-mail ajuda a desafogar os correios, que compensam seus lucros com o aumento do transporte de mercadorias diante das trocas globais que se intensificam; é fácil comprar de tudo; com um clique em um site de Cingapura, Taiwan ou Bauru tudo pode ser encontrado; e todos podem ser encontrados nesta Aldeia Global! O CD definha com o avanço do MP3 e os Ipods dominam o mundo. Um mundo novo aparece nos monitores Lcd ou Led em alta definição. A Microsoft cai, a Apple ressurge. O turismo intensifica-se; o dinheiro aumenta no mundo, até que a bolha especulativa americana começa a espocar em 2007. Os Brics navegam na marolinha e dão as cartas no G-20. A Europa tropeça. A China é a fábrica do mundo; o Brasil é a fazenda; a Índia é a contabilidade; a Rússia é a xerife. Os EUA tentam mudar de atitude, mas a herança que Obama recebe de Bush II é sinistra. O Tea Party assusta com seu discurso de retorno à America profunda. O crescimento do Brasil de Lula assombra o mundo! Dilma será a primeira mulher a presidir este país. Hugo Chávez e Evo Morales aparecem como personagens anacrônicos de filme da década de 60. JJ Abrahms conta em novo Star Trek a origem da Enterprise, o que já tinha sido ensaiado com a série de tv de mesmo nome. A indústria de videogames é uma das mais vigorosas no mundo. Jogar online é show! Celulares flip são coisa do passado, agora é o tempo de smartphones e tablets (como os usados ‘no futuro’ pelo Sr. Spock). Lost empolgou milhões de fãs pelo mundo. O mesmo efeito impactante teve o desfecho da trilogia O Senhor dos Anéis, de Peter Jackson. O agente 007 ressurge muito bem na pele de Daniel Craig, com estilo mais durão e realista. Os ingressos para shows do U2 mundo afora esgotam em horas. Sintomático. Inúmeros artistas voltam a fazer longas turnês diante da acentuada queda na venda de discos. Paul MacCartney volta ao Brasil para três shows antológicos em 2010. O público ganha com isso. No futebol Ronaldo foi um verdadeiro fenômeno e o Brasil leva a quinta Copa do Mundo! Os Rolling Stones, ainda vibrantes, foram magistralmente filmados em NY por Martin Scorsese e fizeram uma grande turnê mundial, inclusive tocando no Rio, em 2006, com enorme sucesso. Mick Jagger, milionário, sexy symbol, mito e lenda viva ganha uma inusitada fama de pé frio por sua ida à Copa da África do Sul, com a eliminação de seu English Team pela poderosa Alemanha (com uma ajudinha do juiz que não viu o ‘gol de empate’ de Lampard que entrou) e da seleção Canarinho de seu filho brasileiro Lucas. Pensando bem, parece que o pé frio era Dunga, que apanhou da Holanda na Copa, da Bolívia nas eliminatórias e da Argentina nas Olimpíadas de Pequim 2008.
A década acabou, mas a história continua!

2011…

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P:S. FELIZ ANO NOVO A TODOS OS AMIGOS E QUERIDOS LEITORES!
SORTE, SAÚDE, PAZ E SUCESSO EM 2011!



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