La Bluette
Tão logo entrou em cartaz no Brasil o filme Rede Social, minha caixa de e-mail não sossega com a chegada de inúmeras mensagens convidando-me para fazer parte do Facebook. A Internet, através das redes sociais, tem permitindo disseminar notícias e garimpar informações numa velocidade surpreendente. A um simples comando suas idéias podem ser compartilhadas e difundidas mundo afora.
Após o término da Segunda Guerra Mundial, muitos europeus encheram-se de esperanças e tentaram construir uma nova vida longe de suas pátrias. Deixaram para traz os horrores da Guerra e bens materiais e trouxeram apenas o coração cheio de saudades da família.
No início de 1949 partia da Espanha com destino à Venezuela, um veleiro trazendo uma pequena leva de imigrantes recrutados para trabalhar na exploração de madeiras no Novo Mundo. Charles Dell´Eva e Lúcia Paullete, dentre muitos outros, faziam parte desse grupo.
La Bluette era o nome da embarcação. Após uma conturbada travessia do Atlântico sob fortes ventos e tempestades o barco é desviado de sua rota original e sofre graves avarias. Sem o astrolábio, navegaram dias e noites perdidos e sem rumo na imensidão do mar. Era 18 de fevereiro de 1949 quando avistaram, ao longe, a luz de um farol. Na manhã seguinte ancoraram na baía de São Marcos em São Luís do Maranhão.
Durante a Guerra, enquanto trabalhava como enfermeira no Hospital da Cruz Vermelha em Paris, Lúcia Paullete seguia um rigoroso tratamento orientado pelo Dr. Jassoneneix para livrar-se de um fibroma. Anos mais tarde, ainda sem ter se curado do tumor, embarcou na Espanha munida de fortes doses de Ergotamina para agüentar a longa travessia. Sobreviveu às inúmeras hemorragias ao longo da viagem e chegou a São Luís pesando míseros 40 quilos.
Hospedados no Hotel Central Charles e Lúcia decidiram por permanecer em São Luís em busca de cuidados médicos que ela tanto carecia. Lá conheceram Dr. Pedro Braga filho. Por ele foram apresentados ao Sr. Francisco de Paula Gomes que lhes acolheu e propôs uma alternativa de trabalho.
− Charles! Perguntou Paula Gomes. − Você saberia fazer tijolos e telhas?
− Et porquoi pas!? Apressou-se em responder Charles.
Foi assim, em companhia de Auguste e Guy, dois compatriotas companheiros da árdua travessia, que iniciaram a vida no Brasil amassando barro e transformando em telhas e tijolos na Olaria situada às margens do Rio Bacanga no sítio do “Tamancão”.
Alugaram uma residência no distante bairro da Alemanha – Casa Veneza – que Charles descrevia como “longe de tudo e perto de nada”… Após meses de tratamento e repouso absoluto Lúcia engravidou e as hemorragias voltaram a ser freqüentes. Atendida pelo doutor Bacelar Portela, ela foi informada que deveria ser submetida a uma delicada intervenção cirúrgica. A criança estava bem, no entanto os exames mostravam a presença não de um, mas, de dois fibromas que deveriam ser removidos imediatamente para garantir a vida do bebê.
Naquela época era uma cirurgia de alto risco. Marcada para o Hospital Português, a operação, assistida pela Irmã Bernadette do colégio Santa Teresa, foi realizada e considerada um grande sucesso da medicina. Além do mais, a barriga aberta surpreendeu a equipe médica. Tratava-se não de dois, mas de apenas um tumor e dois bebês…
Joanna Alice, esse é o nome de um daqueles bebês, nascidos em São Luís do Maranhão numa plena terça feira de Carnaval, em 14 de fevereiro de 1949, data essa em que se comemora, na França, o Dia dos namorados.
É de Joanna Alice o mais recente e-mail que recebo, em busca de mais informações que possam completar essa interessante história de vida.
Nesse mesmo mês de fevereiro as fortes chuvas que desabaram sobre São Luís destruíram a Olaria do Bacanga levando com ela, além dos tijolos e telhas, os sonhos e as esperanças de Charles.
Para quem enfrentou as tormentas em alto mar e vivenciou os horrores da Guerra não seriam as águas de fevereiro que iriam afogar a obstinação de Charles. Desolado, mas com a ajuda de seus amigos de São Luís, empreende um novo negócio: Em julho de 1950, Inaugura o restaurante “A Brasileira” na Rua Godofredo Viana entre a Rua Grande e a Rua da Paz.
Durante quase dois anos a Casa passa a ser conhecida como “o restaurante dos franceses” e é freqüentada pelos artistas famosos, intelectuais e até o ex-presidente Getúlio Vargas tem seu nome registrado no Livro de Ouro do restaurante.
(Quem conhecer mais detalhes sobre o Bluette fineza informar para zecadejorge@gmail.com)
P.S.: A foto da embarcação é do historiador Pablo Hernandez Ortega, de las Palmas – Espanha.
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