PARA EFEITO DE INFORMAÇÃO, APENAS… O CASO DA VILA VELHA DE VINHAIS
Mudei-me para São Luis em 1979, aqui chegando no mes de janeiro, indo morar na Paulo de Frontin (Retiro Natal). No ano seguinte, comprei minha casa no Recanto de Vinhais, financiamento em 30 anos… estou aqui até hoje. Nesse tempo – 32 anos, já… vi muitas coisas acontecendo por aqui; nestes tempos, a polemica em torno da Via Expressa e a preservação do patrimonio histórico de uma cidade que vai completar 400 anos, São Luís.
Aqui, no Vinhais Velho, não vamos comemorar, pois o núcleo original tem bem mais de que os 400 anos da Cidade do Maranhão – aceita sua fundação francesa por Daniel de Latouche em 8 de setembro de 1612; há controvérsias…
Documentos recentes, que estão aparecendo nos últimos anos, dão conta de que o estabelecimento definitivo, com moradia e amplo comércio – escambo -, com os índios se dá a partir de 1594 com o estabelecimento de uma feitoria por Jacques Riffault.
A partir de 1576, Catarina de Médicis confia a Felipe Strozzi a organização de missões ao Brasil, dirigidas por Coquigny e Jacques des Vaux. É desse período que aparece em nossa História Jacques Riffault, que com tres naus passa a patrulhar as costas do Rio Grande do Norte ao Maranhão, e aqui se estabelecendo. O objetivo dos franceses era o Maranhão, onde Guérad e Du Manoir instalado uma feitoria e Carlos des Vaux de Saint Maure – associado de Riffault -, mantinha contato amistoso com os índios. Estabelecidas relações com Jupiaçú; a partir de 1597 Jean Guérad estabelece uma linha regular entre o porto de Dieppe e o Maranhão.
Capistrano de Abreu (in Salvador 2010, servindo-se de Abbeville) conta que Riffault partiu com tres navios para o Brasil em 1594, disposto a fazer conquistas com o auxílio de Ouirapiue, Pau Seco. Seu principal navio encalhou; dissensões e desarmonias privaram-no do outro; reduzido a um só, abaixou muitos companheiros em terra e voltou para França. Por sua vez Feliciano Coelho anuncia apenas que dera a costa um navio de Rifoles. Devia ter sido seu companheiro o língua Migan, morto na batalha de Guaxinduba depois de ter escapado quatorze vezes das mãos dos portugueses. Meireles (1982, p. 34) traz que David Migan, natural de Vienne, no Delfinado, há tanto já vivia em Upaon-Açú.
Datado de 26 de julho de 1603 há um arresto do tenente do Almirantado em Dieppe relativo a mercadorias trazidas do Maranhão, ilha do Brasil, pelo Capitão Guérard. Meireles (1982, p. 34) traz também Du Manoir em Jeviré; Millard e Moisset, também encontrados na Ilha Grande. Os comandados de Du Manoir e Guérard chegam a quatrocentos; há esse tempo já dois religiosos da Companhia de Jesus haviam estado no Norte do Brasil.
Segundo o sócio do IHGM Antonio Noberto, é confirma a presença de franceses pelo Padre Luis Figueira, em sua Relação do Maranhão (de 1608): “Mandamos recado a outra aldea para sabermos se nos quirião la e q’ viessem alguns a falar cõ nosco, e tãbem nos queriamos emformar dos q’ tinhão vindo do maranhão q’ la estavão principalmente acequa dos frãcesez que tinhamos por novas que estavão la de assento com duas fortalezas feitas em duas ilhas na boca do rio maranhão”.
Em 1607 – ou 1609 – Carlos Des-Vaux retorna à França cansado de esperar por Riffault, e é recebido por Henrique IV. Ainda em 1609, Daniel de LaTouche e Charles Des-Vaux visitam o Maranhão.
De LaTouche certifica-se de que as informações sobre a terra eram verdadeiras e pede licença ao rei para explorá-la. Mas com o assassinato de Henrique IV, sucede-lhe ao trono Luis XIII, ainda menor, governando em seu nome Maria de Medicis. É esta quem concede licença à Daniel de La Touche, Senhor de La Ravardiére, de formar uma companhia para explorar as “terras” de Riffault: “[...] e havendo ele feito duas viagens às Índias para descobrir as enseadas e rios próprios para o desembarque e estabelecimento de colônias, no que seria bem sucedido, pois apenas chegou nesse país soube predispor os habitantes das ilhas do Maranhão e terra firme, os tupinambás e tabajaras, e outros, a procurarem nossa proteção e sujeitarem-se à nossa autoridade, tanto por seu generoso e prudente procedimento [...] de lhe fazer expedir nossas cartas patentes de outubro de 1610 para regressar, como Chefe, ao dito país, continuar seus progressos, como teria feito e aí demorar-se-ia dois anos e meio com os portugueses.”, em paz e 18 meses tanto em guerra como em tréguas”.
A Ilha Grande dos Tupinambás, à chegada dos franceses, era ocupada pelos… Tupinambás! que começam a ocupar Upaon-Açí lá por volta de 1535. Antes deles, pelos Tapuias, provávelmente do macro-filo Jê, dentre eles os Tremembés… e recentes descobertas arqueológicas tanto na Ilha quanto em Bacabeira (em área da Refinaria da Petrobrás) são datadas de até 9 mil anos antes do período atual… daí…
Mas voltemos a Uçaguaba e Miganville. A 24 de julho de 1612, Daniel de La Touche, Francisco de Rasilly e o Barão de Sancy largam âncora na ilha de Sant’ Ana e a 6 de agosto a esquadra entra no golfo, indo fundear frente a Jeviré (ponta de São Francisco), onde se localizavam as feitorias de Du Manoir e do Capito Guerard.
Os franceses atravessam o braço de mar, indo se fixar em um promontório onde, a 12 de agosto, uma sexta-feira, dia consagrado a Santa Clara, celebram o santo ofício da missa. A 8 de setembro, uma quarta-feira, dia consagrado à Santíssima e Imaculada Virgem Maria, é realizada a solenidade de fundação da Colonia.
Du Manoir, Riffault, dês Vaux e os piratas de Dieppe, encontravam-se fundeados no porto, confirmam a presença continuada dos exploradores de todas as procedências nas costas do Maranhão, e do Norte em geral: uma companhia holandesa presidida pelo burgomestre de Flessingue, ingleses, holandeses e espanhóis negociando com os índios o pau-brasil; armadores de Honfleur e Dieppe; o Duque de Buckigham e o conde de Pembroke e mais 52 associados fundaram uma empresa para explorar o Brasil; espanhóis de Palos…
O historiador Antonio Noberto continua: “Segundo, tanto comércio fez com bretões e normandos se estabelecessem com feitorias na Ilha Grande, e um desses lugares era a aldeia de Uçaguaba / Miganville (atual Vinhais Velho), misto de aldeia e povoação européia. Terceiro, o porto usado nessas atividades era o de Jeviré (Ponta d’Areia)”.
Para Noberto, é quase inimaginável que todo esse aparato comercial existisse sem uma forte proteção das armas. Some-se que o chefe maior de tudo isso era David Mingan, o Minguão, o “chefe dos negros” (daí o nome de Miganville), que tinha a seu dispor cerca de 20 mil índios e era “parente do governador de Dieppe”. Por fim, a localização da fortaleza está exatamente no lugar certo de proteção do Porto de Jeviré e da entrada do rio Maiove (Anil), que protegeria Miganville.
Pianzola, em sua obra “OS PAPAGAIOS AMERELOS – os franceses na conquista do Brasil (1968, p. 34) apresenta decalque de mapa datado de 1627, cujo original desapareceu, feito em torno de 1615 pelo português João Teixeira Albernaz, cosmógrafo de sua Magestade, certamente feito a partir daquele que LaRavardiére deu ao Sargento- Mor Diogo de Campos Moreno durante a trégua de 1614.
O autor chama atenção para os nomes constantes dos mapas, entre os quais muitos de origem francesa, ‘traduzidos’ para o português. Vê-se, na Grande Ilha dentre outros, Migao-Ville, propriedade do intérprete de Dieppe, David Migan, seguramente um psudônimo, no entender de Pianzola: “[...] No último quartel daquele século, o que era apenas um posto de comércio, sem maior raiz, tornou-se morada definitiva dos corsários gauleses, vindos de Dieppe, Saint-Malo, Havre de Grace e Rouen, que aqui deixavam seus trouchements (tradutores) que viviam simbioticamente com os tupinambá (escreve-se sem “s” mesmo). Entre estes estava David Migan, o principal líder francês desta época. Ele era o “chefe dos negros” (índios) e “parente do governador de Dieppe”. Tinha a seu dispor cerca de vinte mil guerreiros silvícolas e residia na poderosa aldeia de Uçaguaba (atual Vinhais Velho), apelidada de Miganville[...].(NOBERTO SILVA, 2011).

É NO QUINTAL DA 'GRANJA' QUE ESTA MACHADINHA DE PEDRA FOI ENCONTRADA, ALGUNS DIAS, AQUI ANUNCIADO SEU ACHADO PELOS MORADORES. NUM LOCAL QUE SE AFIRMA NÃO HAVER VESTÍGIOS ARQUEOLÓGICOS - CONSTA DOS RELATÓRIO OFICIAIS QUE NÃO HÁ NADA POR LÁ. AS PROVAS CONTESTAM. AGUARDA-SE NOVA VISITA DO IPHAN PARA CERTIFICAR SER OBJETO LÍTIO, TALVEZ PERTENCENTE AO PERÍODO PRÉ-COLONIAL. TUPINAMBÁ? TREMEMBÉM? LEMBRANDO QUE O TRAÇADO DA VIA ESTÁ A MENOS DE 30 METROS DO PORTÃO DA FRENTE E A MENOS DE 20 METROS DOS FUNDOS... A MACHADINHA FOI ENCONTRADA ENTRE ESSES DOIS PONTOS DA OBRA. E AGORA????
AT. JULIO MEIRELES – MATERIAL ARQUEOLÓGICO
Para iphan-ma@iphan.gov.br
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Julio
Estive em visita ao Vinhais Velho, ontem à tarde. Lá tomei conhecimento, através de um dos moradores – casa de muro branco, em frente à Igreja, não recordo o nome… – de que achara no quintal de sua casa um artefato – uma machadinha de pedra – provavelmente do período pré-colonial.
Me preocupa, pois há uma construção de via – Via Expressa -, com passagem prevista pelo local em que o objeto foi encontrado, no mesmo sitio. As máquinas estão, já, aproximadamente 20/30 metros do terreno em que se localiza essa casa, caminhando nos dois sentidos, no de frente e pelos fundos, com a construção de uma ponte que chegará aos fundos.
Ali, nesse terreno, funciona uma granja, fácil de achar, pois.
Pela urgência que o caso requer, sirvo-me desse expediente, correio eletrônico, para solicitar a presença, urgente, de equipe de arqueologia, tendo por base Portaria 230/2002 do próprio IPHAN, que protege sítios arqueológicos.
Leopoldo Gil Dulcio Vaz
Professor de Educação Física
Sócio efetivo do Instituto Histórico e Geográfico do Maranhão
vazleopoldo@hotmail.com
98 3226 2076 98 8119 1322
Rua Titânia, 88 – Recanto Vinhais
MACHADINHO
Para vazleopoldo@hotmail.com
Prof. Vaz!
Antes de tudo, gostaria de parabenizá-lo pela atitude em favor do patrimônio arqueológico da região. Essa instituição somos todos nós.
Estamos monitorando as obras referidas a risca e um projeto de resgate arqueológico está sendo autorizado na área, a fim de mitigar impactos.
Segundo a lei 3924/61, que protege os sítios arqueológicos pré-históricos, a sua iniciativa se enquadra no artigo 18º, achado fortuito e vossa senhoria passa a ser considerado fiel depositário do achado. Portanto, até que o IPHAN/MA se pronuncie o senhor está responsabilizado por ele e não pode repassar a guarda a outros.
Estou a informar a nossa superintendente sobre o fato e propor:
* nova vistoria arqueológica;
* uma atividade de educação patrimonial junto aos seus alunos e outros interessados.
Seria necessário encontrá-lo no local. Isto é possível?
Atenciosamente, Julio MEirelles STeglich – Arqueólogo IPHAN/MA 1538255
FW: MACHADINHO
Para [...]@iphan.gov.br
Julio, já estou em São Luis, cheguei agora, às 18 horas. Estou a tua disposição.
Quanto à idéia de fazer palestras sobre a atividade arqueológica, e os procedimentos para quem achar algum material, especialmente neste momento em que toda área esta sendo revolvida, acho de importância fundamental. E urgente!!!
A Comissão dos 400 anos está à disposição, para articular juntos aos demais componentes e moradores, quando e quantas vezes forem necessárias.
Estou encaminhando aos outros membros e interessados…
Inclusive, coloco o IHGM à disposição, para ações conjuntas, para reforçar a importância desse evento.
Leopoldo
COMISSÃO DAS COMEMORAÇÕES DOS 400 ANOS DA VILA DE VINHAIS VELHO e sua IGREJA DE SÃO JOÃO BATISTA
São Luis, 27 de dezembro de 2011
À Senhora Kátia Santos Bogéa
Superintendente do IPHAN no Maranhão
Endereço: Rua do Giz, 235 – Centro
CEP: 65.010-680 – São Luís-MA
Telefone: (98) 3231-1388
e-mail: iphan-ma@iphan.gov.br
Senhora Superintendente
Nós, da COMISSÃO DAS COMEMORAÇÕES DOS 400 ANOS DA VILA DE VINHAIS VELHO e sua IGREJA DE SÃO JOÃO BATISTA, vimos através desta pleitear junto a Vossa Excelência a intervenção desse órgão junto à área ocupada pela Vila Velha de Vinhais, e sua Igreja de São João Batista, patrimônio estadual tombado.
Como já comunicado a essa instituição através de mensagem eletrônica endereçada ao Sr. Julio Meirelles Steglich, Arqueólogo IPHAN/MA, referente à descoberta de objeto lítio no sítio acima referido, em uma residência pertencente ao Sr. Carlos, situada em frente à Igreja de São João Batista.
Informamos a Vossa Excelência de que essa residência está entre aquelas em processo de desapropriação, por onde deve passar o traçado da Via Expressa, ora em construção; que as escavações e movimento de terras para tal, já se encontra bem próximos do local onde foi encontrado o referido objeto, uma machadinha de pedra. Temos informações, ainda não confirmadas, de encontrados outros objetos, o que esperamos seja confirmado quando da visita de técnicos desse IPHAN, já programada, à área em questão. Desnecessário referir-se à urgência dessas providencias.
Mas o que nos move, neste momento, é a informação precisa e técnica, que somente esse IPHAN pode nos oferecer, quanto à idéia de que seja arqueologia, qual o trabalho do IPHAN e, sobretudo, na orientação à população em identificar e quais procedimentos a tomar, quando da descoberta de novos objetos, seja, Educação Patrimonial.
Vimos, pois, solicitar de Vossa Excelência sejam designados técnicos do IPHAN para, junto à nossa população da Vila Velha de Vinhais e demais comunidades de seu entorno, especialmente à população estudantil, seja ministrado Curso de Educação Patrimonial, podendo ser através de série de palestras, a diferentes públicos: alunos da rede municipal de ensino, moradores das áreas atingidas pela intervenção estatal, demais moradores da área. Desnecessário falar, também, da urgência dessa intervenção por parte do órgão que dirige.
Ao mesmo tempo, identificados os objetos, e declarado – após estudos – sua autenticidade e estabelecido o período em que foi confeccionado e por quem, nos seja permitido permanecer na posse do mesmo, assim como de outros objetos de interesse científico e histórico, através da constituição de um Museu do Vinhais Velho sob a responsabilidade direta do IPHAN. Como é de seu conhecimento, a Vila do Vinhais Velho, como é conhecida hoje, se constitui núcleo residencial de índios e brancos desde tempos imemoriais, e precisa preservar sua memória.
Assim como é de seu conhecimento que a população do entorno da Igreja de São João Batista, com a proficiente orientação de Vossa Excelência e seus técnicos, vem mantendo a memória desta comunidade e de seu Patrimônio Histórico vivo, inclusive com a recuperação física da referida Igreja de São João Batista, sem ajuda governamental, seja, recursos financeiros dos poderes públicos.
Pedem, em nome das Comunidades do entorno da Igreja de São João Batista do Vinhais Velho, neste ano de comemoração dos 400 anos.
Senhora Superintendente,
A História, e nosso Patrimônio, não poderão subsistir sem a interferência institucional do IPHAN e sua, em particular.
Pela COMISSÃO DAS COMEMORAÇÕES DOS 400 ANOS DA VILA DE VINHAIS VELHO e sua IGREJA DE SÃO JOÃO BATISTA,
LUIZ ROBERTO M. DE ARAUJO
FRANCINALDA ARAGÃO LIMA
DELZUITE DANTAS BRITO VAZ
Pelo INSTITUTO HISTÓRICO E GEOGRÁFICO DO MARANHÃO, e membro da Comissão dos 400 anos do IHGM e da Vila de Vinhais
LEOPOLDO GIL DULCIO VAZ – Vice-Presidente – Gestão 2010/2012, Morador do Recanto Vinhais
LIMA, Calos de. HISTÓRIA DO MARANHÃO – A COLONIA. São Luis: Geia, 2006, p. 174.
PIANZOLA, Maurice. OS PAPAGAIOS AMERELOS – os franceses na conquista do Brasil. São Luis: SECMA; Rio de janeiro: Alhambra, 1968
SILVA, Antonio Noberto. In Blog de Antonio Noberto O Maranhão francês sempre foi forte e líder. http://antonio.noberto.zip.net/, publicado em 03/11/2011
Evandro Junior, in Jornal O Estado do Maranhão, 18.12.11: Saint Louis Capitale de La France Equinoxiale, disponível em http://maranhaomaravilha.blogspot.com/2011/12/saint-louis-capitale-de-la-france.html
MEIRELES, Mário Martins. FRANÇA EQUINOCIAL. 2 ed. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira; São Luis: Secretaria de Cultura do Maranhão, 1982
SALVADOR, Frei Vicente do. HISTÓRIA DO BRASIL. Brasília: Senado Federal, 2010, p. 254
WEHLING, Arno; WEHLING, Maria José C. de. FORMAÇÃO DO BRASIL COLONIAL. Rio de Janeiro: Nova Fonteira, 1994, p. 75
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