A CARIOCA
Encontrei, aqui no Maranhão, uma referencia à prática da ‘carioca‘. Perguntei-me o que seria. Fora proibida, em codigo de postura de Turiaçú, do anos de 1884. Ao lado da palavra ‘capoeira’. Já escrevi sobre isso.
1884 - em Turiaçú é proclamada uma Lei – de no. 1.341, de 17 de maio – em que constava: “Artigo 42 – é proibido o brinquedo denominado Jogo Capoeira ou Carioca. Multa de 5$000 aos contraventores e se reincidente o dobro e 4 dias de prisão”. (CÓDIGO DE POSTURAS DE TURIAÇU, Lei 1342, de 17 de maio de 1884. Arquivo Público do Maranhão, vol. 1884-85, p. 124)
Depois, falando com alguns Mestres Capoeiras – Baé, Mizinho, Índio do Maranhão – tomei conhecimento, por Mizinho, de que em uma de suas apresentações em Cururupu um senhor já de mais de 80 anos, negro, disse que praticava aquele esporte, mas conhecia como ‘carioca’, não como capoeira. Logo depois, em aula sobre a história do esporte no Maranhão, referi-me à capoeira e à carioca, quando um dos alunos disse-me que acompanhava o avô, ex-estivador ali no Portinho, e quando de uma apresentação de capoeira que acontecia, este dizia-lhe que já praticara muito aquilo, mas era chamada pelos estivadores de ‘carioca…
2003 – Mestre Mizinho, natural de Cururupu, informa que naquela cidade também se praticava uma luta, semelhante a Capoeira, a que denominavam “carioca”:
2005 – Dilvan de Jesus Fonseca Oliveira informa que seu avô, falecido aos 92 anos, estivador do Porto de São Luís – Cais da Sagração, Portinho, Rampa Campos Melo – sempre se referia á “capoeira” como “carioca”, luta praticada em sua juventude. Mestre Diniz, nascido em 1929, lembra que “na rampa Campos Melo, quando eu era garoto, meu pai ia comprar na cidade e eu ficava no barco. Eu via de lá os estivadores jogando capoeira”.
- em Codó, entre os antigos, a capoeira é denominada de “carioca”.
Comecei a busca. Por volta de 1835 começa a importação de braços escravos, ora de África e após sua proibição, do Rio de Janeiro e Bahia. Escravos vindos do Rio de Janeiro… cariocas … será? Mais tarde, discorrendo sobre Capoeira(gem) no Maranhão e a busca do termo ‘carioca – escrecvendo sobre capoeira(s) primitiva, encontrei:
1820 – registra-se nesta data referência a “punga dos homens”, jogo que utiliza movimentos semelhantes à capoeira.
1825 Em “O Censor”, edição de 24 de janeiro, Garcia de Abranches ao comentar o posicionamento político do Marques governante – Lord Cockrane – compara alguns portugueses com os desocupados do Rocio – em sua maioria caixeiros – que “pela sua péssima educação, muitos brancos da Europa são tão vis, e tão baixos, como esses mulatos que andam a espancar, a roubar e a matar, pelas ruas da Cidade…” (p. 12-13). Estaria o Censor referindo-se aos capoeiras?
1829 – registram-se certas atividades lúdicas dos negros. Nesse ano é publicado no jornal “A Estrela do Norte” a seguinte reclamação de um morador da cidade: “Há muito tempo a esta parte tenho notado um novo costume no Maranhão; propriamente novo não é, porém em alguma coisa disso; é um certo Batuque que, nas tardes de Domingo, há ali pelas ruas, e é infalível no largo da Sé, defronte do palácio do Sr. Presidente; estes batuques não são novos porque os havia, há muito, nas fábricas de arroz, roça, etc.; porém é novo o uso d’elles no centro da cidade; indaguem isto: um batuque de oitenta a cem pretos, encaxaçados, póde recrear alguém ? um batuque de danças deshonestas pode ser útil a alguém ? “(ESTRELLA DO NORTE DO BRASIL, n. 6, 08 de agosto de 1829, p. 46, Coleção de Obras Raras, Biblioteca Pública Benedito Leite)
1835 – na Rua dos Apicuns, local freqüentado por “bandos de escravos em algazarra infernal que perturbava o sossego público”, os quais, ao abrigo dos arvoredos, reproduziam certos folguedos típicos de sua terra natural:- “A esse respeito em 1855 (sic) um morador das imediações do Apicum da Quinta reclamava pelas colunas do ‘Eco do Norte” contra a folgança dos negros que, dizia, ‘ali fazem certas brincadeiras ao costume de suas nações, concorrendo igualmente para semelhante fim todos pretos que podem escapar ao serviço doméstico de seus senhores, de maneira tal que com este entretenimento faltam ao seu dever…’ (ed. de 6 de junho de 1835, S. Luís.” (ECCHO DO NORTE – jornal fundado em 02 de julho de 1834, e dirigido por João Francisco Lisboa, um dos líderes do Partido Liberal. Impresso na Typographia de Abranches & Lisboa, em oitavo, forma de livro, com 12 páginas cada número. Sobreviveu até 1836 in VIEIRA FILHO, 1971, p. 36).
1843 – o Diretor da Casa dos Educandos Artífices do Maranhão em relato ao Presidente da Província informava que havia “um outro problema”: a segurança dos alunos e do patrimônio da casa, em razão da existência de vários capoeiras, entre eles negros escravos, alguns fugitivos do interior da província e outros alforriados, o que resultava em atos de violência cotidianos, pela falta de intervenção policial no local. Sobre os Capoeiras reclamava esse Diretor:
“Capoeiras que nem os donos das tavernas derrubam, nem a Câmara Municipal os constrange a derrubar, apesar das proximidades em que estão a respeito da Cidade cometessem por aqui crimes de toda a qualidade que por ignorados ficam impunes, tendo já sido espancado gravemente um quitandeiro, e já são muitas as noites em que daqui ouço pedir socorro, sendo uma destas a passada, na qual, às nove horas e quinze minutos, estando todos aqui já em repouso, ouvi uma voz que parecia de mulher ou pessoas moças, bradar que lhe acudissem que a matavam, e isto por vezes, indo aos gritos progressivamente a denotarem que o conflito se alongava pelo que pareceu que a pessoa acometida era levada de rojo por outra de maiores forças, o que apesar da insuficiência dos educandos para me ajudarem, atendendo as suas idades e robustez, e não tendo mais quem me coadjuvasse, não podendo resistir à vontade de socorro a humanidade aflita e não tendo ainda perdido o hábito adquirido na profissão que sigo, chamei dois educandos dos maiores e com eles mal armados, sai a percorrer as mediações desta casa, sem que me fosse possível descobrir coisa alguma, por que antes que pudesse conseguir por os ditos educandos em estado de me acompanharem, passou-se algum tempo e durante ele julgo que a vítima foi levada pelo seu perseguidor para longe daqui. Estes atentados são praticados pelos negros dos sítios que há na estrada que em conseqüência da má administração em que os tem, andam toda a noite pela mesma estrada, praticando tudo quanto a sua natural brutalidade lhe faz lembrar, e se V. Exa. se não dignar de tomar alguma providência a este respeito parece-me que não só a estrada se tornará intransitável de noite, como até pelo estado em que existem só os negros dos sítios e os vindos da Cidade se reúnem, entregues à sua descrição, podem trazer conseqüências mais desagradáveis [...] o que falo é para prevenir que este estabelecimento venha a ser insultado como me parecesse muito provável em as cousas como se acham. (FALCÃO, 1843). (citado por CASTRO, 2007, p. 191-192).
A Casa dos Educandos Artífices estava alojada em um edifício construído ainda no Século XVIII, situado num ambiente de “ares agradáveis, liberdade própria do campo, vista aprazível e fora do reboliço da cidade”, entre o Campo do Ourique e o Alto da Carneira – hoje, Bairro do Diamante, ocupado pelo Ministério da Agricultura. O Autor do relatório, José Antônio Falcão, era tenente-coronel reformado do Exército, e havia assentado praça
Mathias Assunção acredita que estava se referindo a capoeira, mato, ‘ que não consegue derrubar’. Mas ‘mato’ agride, rouba, mata?
1877 – MARTINS (
“JOGO DA CAPOEIRA “Tem sido visto, por noites sucessivas, um grupo que, no canto escuro da rua das Hortas sair para o largo da cadeia, se entretém em experiências de força, quem melhor dá cabeçada, e de mais fortes músculos, acompanhando sua inocente brincadeira de vozarios e bonitos nomes que o tornam recomendável à ação dos encarregados do cumprimento da disposição legal, que proíbe o incômodo dos moradores e transeuntes”. (MARTINS, 1989, p. 179)
PERNADA – Câmara Cascudo informa que assistiu a uma pernada executada por marinheiros mercantes, no ano de 1954, em Copacabana, Rio de Janeiro. Diziam os marinheiros que era carioca ou baiana. É uma simplificação da capoeira. Zé da Ilha seria o “rei da pernada carioca“; é o bate-coxa das Alagoas. Ainda Edson Carneiro (Dinâmica do Folklore, 1950) informa ser o batuque ou pernada, bem conhecido na Bahia e Rio de Janeiro, não passa de uma forma complementar da capoeira. Informa, ainda, que na Bahia, somente em arraiais do Recôncavo se batuca, embora o bom capoeira também saiba largar a perna. No Rio de Janeiro já se dá o contrário – a preferência é pela pernada, que na verdade passou a ser o meio de defesa e ataque da gente do povo.
SOARES (2005) em “Capoeira no Pará: resistência escrava e cultura popular (1849-1890, in COELHO, GOMES, QUIROZ, MARIN, e PRADO (org.) MEANDROS DA HISTÓRIA – trabalho e poder no Grão-Pará e Maranhão séculos XVIII e XIX, p. 145-160) ao referir-se a acontecimentos na Corte, compara-o à situações vividas em Belém, no ano de 1849. Refere-se, mais adiante, a recente trabalho de Vicente Salles (A defesa pessoal do negro: a capoeira no Pará, 1994) que revela a antiguidade da capeiora paraense, seu enraizamento, sua proximidade com a capoeira praticada no Rio de Janeiro e Bahia, e sua peculiaridade regional. Mais adiante, ainda, já se referindo a acontecidos nos anos de 1890, discorre:
“Sintomático também em Belém, muito precocemente, também fosse palco da Carioca, como nos mostra ofício [...] descreve uma patrulha na região de Ver-O-Peso: ‘estive em patrulha [...] quando vimos alguns individuos puçlando jogando carioca.” (AE. Secretaria de Segurança Pública. Autos-Crimes, 22/09/1892).
Soares (2005) refere-se, então, à repressão desencadeada em 1890, a criminalização no novo código penal da República. No Rio de Janeiro, nos últimos anos do século XIX, aparece a chamada Pernada Carioca, que consistia de golpes da capoeira tradicional, como a rasteira, camuflados em nova roupagem…
Mas em São Paulo temos pernada… de Sorocaba, e não conhecemos ‘a paulista’; conhecemos ‘a carioca’… Será?
Para saber mais:
Pernada de Sorocaba – ver crônica do folclorista
[1]
ARAÚJO, Maria Raimunda (org.). Documentos para a história da Balaiada. São Luís: FUNCMA, 2001
Bom, isso apenas para aguçar um pouco a curiosidade. Ainda pretendo me aprofundar nesse tema e escrever alguma coisa. Trata-se de material que estou a reunir para escrever… Será essa a origem da ‘carioca’ que aparece no Maranhão e no Pará???????
Próximo capitulo….
ps. este texticulo aparece em CEV Capoeira; CEV Maranhão; Portal MLB, e aqui está replicado…
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14 agosto, 2009 as 15:19
Meu caríssimo professor, e Mestre, Leopoldo Vaz.
Boa tarde.
Parabéns pelo magnífico trabalho de pesquisa. Evidentemente que você está trazendo à luz dos nossos dias a escuridão do século XIX, sobretudo no que se refere ao campo comportamental da sociedade maranhense de antanho. Mas não só isso, você resgata parte da historicidade sociológica da Ilha de Upaon Açu.
Contudo, o mais importante mesmo, é ver que esse seu trabalho vem contribuir para desfazer o caráter mítico da “negricidade” nacional, sobretudo no que se refere ao elemento histórioco-político tratado e entendido como “Democracia Racial”… Coisa “inventada” pelo mestre (?) Gilberto Freire, porém contraditado pelo Mestre Darcy Ribeiro.
Receba um grade abraço.
Do seu admirador.
João Batista do Lago