CARTA AO REDATOR D’ O IMPARCIAL
Senhor Redator,
Primeiro, gostaria de agradecer as materias publicadas sobre a questão do Vinhais Velho; desde a década de 1990 contamos com reportagens desse magnifico jornal para divulgar as ações empreendidas pela COMISSÃO DE PRESERVAÇÃO DA VILHA VELHA DE VINHAIS (constituida em 1985); e mais recentemente, desde o inicio do ‘caso’ Via Expressa, das demais Comissões e Comitês que surgiram em defesa dessa ancestral comunidade.
Sobre a reportagem publicada hoje, pag. 3, (Política), COMUNIDADE: “VINHAIS VELHO NA PAUTA DO GOVERNO’, temos a esclarecer a Vossa Senhoria, ao mesmo tempo que solicitamos a correção, que a comissão que está intermediando as negociações entre Moradores – as oito famílias desapropriadas, de suas casas, devido ao traçado da Via Expressa, dentro da Vila Velha de Vinhais, dividindo-a ao meio -, e o Governo do Estado, na pessoa do Sr. Vice-Governador Washington Luis, acerca das compensações pela destruição causada pela ação intempestiva da Secretaria de Infraestrtutura – sem os estudos necessários e os realizados incorretos – causando sérios danos ao Patrimonio Arqueológico e Ambiental – objeto de TAC com as Promotorias estadual e federal -,
Vimos informar que a Comissão que está fazendo a intermediação NÃO SE TRATA DA COMISSÃO ‘SÃO LUIS 400 ANOS‘, mas sim, da COMISSÃO DOS 400 ANOS DA IGREJA DE SÃO JOÃO BATISTA E DA VILA VELHA DE VINHAIS, constituída por moradores da região, Vinhais Velho e dos bairros de seu entorno, formada por Leopoldo Gil Dulcio Vaz (Vice-presidente do IHGM, sócio efetivo ocupante da cadeira 40); Sra. Nalda Aragão (Micro-Empresária), Sra. Veronica Florcely Ramalho (Psicóloga, funcionária da Secretaria da Mulher), Sr. Luis Roberth (Funcionário público federal), Profa. Delzuite Dantas Brito Vaz (Professora de História do CEM Liceu Maranhense).
Em segundo lugar, essa Comissão dos 400 anos da Igreja de São João Batista do Vinhais foi constituida para a comemoração dos 400 anos de Evangelização do Maranhão, haja vista que sua Igrejinha foi construida ao tempo dos franceses, rezada a primeira missa no dia 20 de outubro de 1612; daí a comemoração de 400 anos da Igreja de São João Batista, antes, São João dos Poções, localizada na então Aldeia da Doutrina (1617 ou 1619, pelos Jesuítas), mais junto da aldeia Tupinambá de Uçaguaba – ou Uçagoiaba, como alguns a grafam) – Terra onde se comem caranguejos.
Esclarecemos que os Tupinambás se instalam na Ilha Grande – Upaon-Açú – por volta de 1535, expulsando para terra firme (continente) os Tapuias, possivelmente Tremebé, certamente da etnia Jê, estabalecidos em terras maranhenses há pelo menos 9 a 13 mil anos, segundo recentes datações, inclusive os novos sítios arqueológicos recém-descobertos na área de construção da refinaria Premium da Petrobrás, em Bacabeira/Rosário; e estudos dos Sambaquis da Ilha dos Tupinambás, desde 1916x feitas por Raimundo Lopes (do IHGM), continuidade dos trabalhos pelo Dr. Simões (Museu Emilio Goeldi) secundado pelo antropologo maranhense Olavo Correia Lima (do IHGM), nas décadas de 1980/90; continuidade dos trabalhos pelo Dr. Deusdédith (década de 1990), e mais recentemente, pelo Dr. Arkley Bandeira (a partir de final dos anos 1990).
Uçaguaba abrigou uma feitoria francesa, do Capitão Jacques Riffault, aqui chegado p0or volta de 1594, sendo seus prepostos ou loco-tenentes os interpetres (trouchements ) Charles Des-Vaux e Davi Migan; essa feitoria, identificada nos mapas entregues por LaRavardiére a Diogo de Campos Moreno, quando da tregua estabelecida em 1614 como sendo MIGANVILLE/uçaguaba, e que no redesenho feito pelo cartógrafo real Albernaz toda e qualquer referencia francesa desaparece (1627), inclusive essa ocupação francesa, que era constituida por cerca de 400 europeus, pois quando da chegada de armada de Daniel de La Touche encontrou, já estabalecido há 18 anos na Ilha “Du Manoir, Riffault, Des-Vaux e os piratas de Dieppe, encontravam-se fundeados no porto, confirmam a presença continuada dos exploradores de todas as procedências nas costas do Maranhão, e do Norte em geral: uma companhia holandesa presidida pelo burgomestre de Flessingue, ingleses, holandeses e espanhóis negociando com os índios o pau-brasil; armadores de Honfleur e Dieppe; o Duque de Buckigham e o conde de Pembroke e mais 52 associados fundaram uma empresa para explorar o Brasil; espanhóis de Palos”.
O historiador Antonio Noberto (do IHGM) informa-nos: “[...] tanto comércio fez com bretões e normandos se estabelecessem com feitorias na Ilha Grande, e um desses lugares era a aldeia de Uçaguaba / Miganville (atual Vinhais Velho), misto de aldeia e povoação européia. [...]”.
O chefe maior de tudo isso era David Mingan, o Minguão, o “chefe dos negros” (daí o nome de Miganville), que tinha a seu dispor cerca de 20 mil índios e era “parente do governador de Dieppe”.
Pianzola, em sua obra “OS PAPAGAIOS AMERELOS – os franceses na conquista do Brasil (1968, p. 34) apresenta decalque de mapa datado de 1627, cujo original desapareceu, feito em torno de 1615 pelo português João Teixeira Albernaz, cosmógrafo de sua Magestade, certamente feito a partir daquele que LaRavardiére deu ao Sargento- Mor Diogo de Campos Moreno durante a trégua de 1614. O autor chama atenção para os nomes constantes dos mapas, entre os quais muitos de origem francesa, ‘traduzidos’ para o português. Vê-se, na Grande Ilha dentre outros, Migao-Ville, propriedade do intérprete de Dieppe, David Migan, seguramente um psudônimo, no entender de Pianzola:“[...] No último quartel daquele século, o que era apenas um posto de comércio, sem maior raiz, tornou-se morada definitiva dos corsários gauleses, vindos de Dieppe, Saint-Malo, Havre de Grace e Rouen, que aqui deixavam seus trouchements (tradutores) que viviam simbioticamente com os tupinambá (escreve-se sem “s” mesmo). Entre estes estava David Migan, o principal líder francês desta época. Ele era o “chefe dos negros” (índios) e “parente do governador de Dieppe”. Tinha a seu dispor cerca de vinte mil guerreiros silvícolas e residia na poderosa aldeia de Uçaguaba (atual Vinhais Velho), apelidada de Miganville[...].
Continuemos com Noberto Silva (2011):“[...]Na virada do século, segundo o padre e cronista Luis Figueira, que escreveu sua penosa saga na Serra de Ibiapaba, os franceses no Maranhão contavam, inclusive, com “duas fortalezas na boca de duas grandes ilhas”. Uma destas fortificações, por certo, era o Forte do Sardinha, localizado no atual bairro Ilhinha, nos fundos do bairro Basa em São Luís. Esta, em mãos portuguesas, foi nomeada de Quartel de São Francisco, que deu nome ao bairro. Servia de proteção ao lugar, em especial, a Uçaguaba, reduto de Migan”.
Quando da implantação da França Equinocial esse complexo passou para mãos oficiais. Uçaguaba/Miganville passou a ser chamada pelos cronistas Claude Abbeville e Yves d’Evreux de “o sítio Pineau” em razão de Louis de Pèzieux, primo do Rei, ter adotado o local como moradia:“(…) levaram-nos os índios, de canoa, até Eussauap, onde chegamos no sábado seguinte ao meio-dia. O sr. de Pizieux e os franceses que com ele aí residiam receberam-nos com grande carinho (…)”. (D’ABBEVILLE, 1975, p. 114).
Capistrano de Abreu esclarece que: “EUSSAUAP – nom do lieu, c’est à dire le lieu ori on mange les Crabes. – Bettendorf leu em Laet Onça ou Cap, que supôs Onçaquaba ou Oçaguapi; mas tanto na edição francesa, como na latina daquele autor, o que se lê, é EUSS-OUAP. Na história da Companhia de Jesus na extinta Província do Maranhão e Pará, do Padre José de Morais, está Uçagoaba, que com melhor ortografia é Uçaguaba composto de uça, nome genérico do caranguejo, e guaba, participio de u comer: o que, ou onde se come caraguejos, conforme com a definição do texto ...”.
Vencidos os franceses em Guaxenduba (19/11/1614), os portugueses se estabelecem no Maranhão, vindo com Jeronimo de Albuquerque os padres Manuel Gomes e Diogo Nunes, aqui permanecendo estes até 1618 ou 1619:”A primeira missão ou residência, que fundaram mais junto à cidade para comodidade dos moradores, foi a que deram o nome de Uçagoaba, onde com os da ilha aldearam os índios que haviam trazido de Pernambuco …”. (MORAES, 1987, p.58)
A residência dos jesuitas em Uçagoaba é ocupada com a chegada da segunda turma de jesuitas ao Maranhão, os padres Luis de Figueira e Benedito Amodei. De acordo com CAVALCANTI FILHO (1990) a missão jesuitica no Maranhão inicia-se com a chegada dos padres Figueira e Amodei: “… Ao que tudo indica, a aldeia de Uçaguaba, situada a margem esquerda do igarapé do mesmo nome, teria sido o ponto de partida dessa missão … desta primeira, denominada ‘Aldeia da Doutrina’”.(p. 31).
COELHO (1990) em seu “Política indigenista no Maranhão Provincial”, ao analisar “o lugar do índio na legislação: a questão da terra”, afirma que ” a situação das terras dos indigenas é caracterizada por um acúmulo de esbulhos e usurpações” e o processo oficial do sequestro dessas terras se dá pela ação de Pombal, que prescreveu, em 1757, a ” elevação das aldeias indígenas, onde haviam missões, à categoria de vila ou lugar, de acordo com o número de habitantes“. Cita, dentre outros exemplos, que ” a aldeia da Doutrina, em 1º de agosto de 1757, foi elevada à categoria de vila, com o nome de Vinhais”.
PIANZOLA, Maurice. OS PAPAGAIOS AMERELOS – os franceses na conquista do Brasil. São Luis: SECMA; Rio de janeiro: Alhambra, 1968
Evandro Junior, in Jornal O Estado do Maranhão, 18.12.11: Saint Louis Capitale de La France Equinoxiale, disponível em http://maranhaomaravilha.blogspot.com/2011/12/saint-louis-capitale-de-la-france.html
ABBEVILLE, Claude d’. HISTÓRIA DA MISSÃO DOS PADRES CAPUCHINHOS NA ILHA DO MARANHÃO E TERRAS CIRCUNVIZINHAS. Belo Horizonte: Itatiaia; São Paulo: USP, 1975, p.107
CAVALCANTI FILHO, Sebastião Barbosa. A QUESTO JESUÍTICA NO MARANHÃO COLONIAL. São Luís : SIOGE, 1990.
MORAES, José de. HISTÓRIA DA COMPANHIA DE JESUS NA EXTINTA PROVÍNCIA DO MARANHÃO E GRÃO-PARÁ. Rio de Janeiro : Alhambra, 1987.
COELHO, Elizabeth Maria Beserra. A POLÍTICA INDIGENISTA NO MARANHÃO PROVINCIAL. São Luís: SIOGE, 1990
Como se vê, Sr. Redador, Vinhais é mais velha que São Luis!!! existe como lugar ocupado por europeus – cerca de 400 – desde 1594!!! Comemoramos, neste ano de 2012, então, os 400 anos da Igreja de São João Batisia, que deu inicio à Evangelização do Maranhão, constituida como ALDEIA DA DOUTRINA, modelo que seria estabelecido pelos Jesuítas quando da expansão das fronteiras maranhenses…
Leopoldo Gil Dulcio Vaz
Instituto Histório e Geográfico do Maranhão
Comissão dos 400 anos da Igreja de São João batista de Vinhais
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