DIA DOS PAIS
Sou um pai feliz. Todos os dias, os dias todos. Thaís, a primogênita, 11 anos incompletos, e Rômulo Filho, 6 anos, fizeram-me um novo homem e, diariamente, dão-me motivos de sobra para que eu continue a ter orgulho deles, como tenho do meu pai, Manoel Barbosa, pai de 12 filhos, e de quem recebi a melhor herança que um pai pode legar: uma vida de honradez, trabalho, humildade e fé.
Há dois anos, escrevi a crônica abaixo. O que eles – Thaís e Rômulo Filho – fizeram e disseram depois disso, daria um livro. Mas, é com ela que, com a licença dos leitores, quero prestar a minha homenagem aos colegas pais…
SEM PEDIR LICENÇA
Não há experiência mais surpreendentemente bela que acompanhar o crescimento dos filhos. A cada dia, uma novidade – nem sempre boa, é verdade -, mas uma novidade, que transforma as nossas vidas e nos faz ainda menores frente à dádiva da existência humana.
Irmão de muitos irmãos, nunca dantes houvera percebido essa engenharia divina, até ser pai. Quando bebês, frágeis, delicadíssimos, queremos mostrá-los ao mundo como frutos do amor (ou de um amor), símbolos da sentença bíblica: “crescei –vos e multiplicai-vos”.
Quando vão crescendo – e como crescem -, assola-nos a constatação do poeta Afonso Romano de Santanna, revelada na crônica “Antes que elas cresçam”: “Há um período em que os pais vão ficando órfãos dos próprios filhos. É que as crianças crescem. Independentes de nós, como árvores, tagarelas e pássaros estabanados, elas crescem sem pedir licença. (…) Mas não crescem todos os dias, de igual maneira; crescem, de repente.Um dia se assentam perto de você no terraço e dizem uma frase de tal maturidade que você sente que não pode mais trocar as fraldas daquela criatura.”
E eu vivo, todos os dias e como milhões de pais, essa saudável perplexidade oferecida pelos nossos rebentos. O meu filho-varão, que carrega – para protesto de alguns que vêem no fato algum pedantismo, e para orgulho futuro dele – o meu próprio nome, foi delicadamente apelidado por um amigo de “tsunami” e, depois, de “Conan, o bárbaro”. Mas isso foi há dois anos… Hoje ele já tem…quatro… Isso mesmo, quatro aninhos. Já não risca tanto as paredes, nem joga o meu telefone celular e o relógio do sétimo andar.
Agora é diferente. Quer testar as coisas. Felizmente temos rede de proteção na varanda. À repreensão de que se engolisse uma bateria – daquelas redondinhas, para brinquedo – poderia morrer, acercou-se, certo dia, da cama onde eu cochilava e disse-me com um ar de orgulho: “papai, não morri!”. Bem, eu tinha certeza disso, afinal, ele estava ali, diante de mim, exalando peraltice por todos os poros. E repetiu: “papai, não morri!”. Resolvi desvendar o mistério e, singelamente, perguntei-lhe: “não morreu por que, meu filho?”. Ao que ele, triunfante, respondeu: “Engoli uma bateria e não morri!”. Eu quase morreria depois disso, entre ligações para médicos, raio-X, e buscas das quais nós – a mãe e eu – preferíamos esquecer.
Doutra feita, na volta do colégio, tentei puxar conversa: “E aí, meu filho, como foi o dia na escola, hoje?”. “Legal, pai”, replicou na bucha, sem demonstrar qualquer interesse no diálogo que eu queria estabelecer. Insisti: “E então, o que você fez hoje?”. “Tudo o que a tia mandou, pai”. E nada mais foi dito nem perguntado, no trajeto de três minutos que separam a nossa casa do colégio. Frustrado, até hoje não consegui descobrir o que “a tia mandou”.
O contato dele com a tecnologia foi cedo. Mal sabia falar e foi flagrado mexendo no computador. Já tinha ligado estabilizador, CPU e monitor. Estava, agora, fazendo diatribes com o mouse e o teclado. “Que é que você está fazendo aí, meu filho?”, inquiri em tom ameaçador. “Estou entrando na ‘intenét’, papai”, respondeu, fazendo inveja ao Bill Gates.
A irmã, meu Deus, a irmã, só vem com perguntas de alta complexidade. Tem oito anos e, aos seis e meio, no mesmo revelador caminho para a escola, o rádio tocando um hit da Rita, a Lee, apoderou-se do refrão da música e tascou: “o que é amor, papai?”. Enquanto eu ganhava tempo para responder àquela indagação filosófica e ela, ao mesmo tempo, ouvia o resto da canção, emendou outra: “e sexo, papai?”. Fiquei com raiva do programador da rádio. Não tinha nada que estar tocando essa música às sete e pouco da manhã. Que coisa!
E, agora, quer saber de tudo: “papai, qual o país mais tecnológico do mundo?; Por que tanta violência nos telejornais”; Por que a guerra no Iraque?; E a Operação Navalha, pai?”. O quê, Como, Onde, Por quê? É bem verdade que, sendo filha de dois jornalistas, essas perguntas lhe tenham cabimento, mas…
Acho que é mais fácil preencher o formulário anual do Imposto de Renda do que ter tudo “na ponta da língua” para saciar a sede de conhecimento dos pimpolhos.
Conforta-me, mais uma vez, o mestre Romano de Santanna: “É que as crianças crescem. Independentes de nós, como árvores, tagarelas e pássaros estabanados, elas crescem sem pedir licença”.
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10 agosto, 2009 as 09:22
“papai eu não morrri” é ótimo. tô rindo até agora… crianças aprontam mesmo e por isso são maravilhosas.
23 novembro, 2009 as 01:06
Hahaha!
Ri muito!
E me sensibilizei.
Parabéns, papai. E obrigado pelo texto.
Abrs.
Magno
30 janeiro, 2011 as 10:06
Rômulo, sem palavras …
Acabo de ler um cotidiano …
Vc, fala vom a alma de um pai, cumpridor de suas obrigações, lindo, preocupado com o futuro, família …
É esse o sentido da vida, darmos continuidade, às vezes relevadas, mas, jamais esquecidas …
Somos hoje, o reflexo do ontem !
BOM DOMINGO !
Obrigado, pela essência da vida – família !
Bjus, muitos deles …
Flaviana R. M. Freire