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Investimento Seguro

ter, 06/05/08
por rodrigo braga |
categoria Sem Categoria

Custou para o Brasil entender que se paga um preço muito alto pela democracia, mas vale a pena quando o país consegue conciliar os valores democráticos com uma política econômica responsável que não represente rupturas com os contratos firmados nem manobras arriscadas que coloquem em risco a estabilidade da moeda, tampouco que atropele os preceitos constitucionais.

O governo que bate no empreendedor é um governo desmiolado. Bater no investidor é bater na população, pois a melhoria das condições de vida da população está associada à capacidade do governo de atrair investimentos, desde que este investimento seja bem orientado e compromissado regionalmente, onde ele exercerá maior influência.

O nosso governo tomou juízo quando resolveu dar uma guinada ideológica, preservando a política macro-econômica concebida pelo governo que lhe antecedeu e virando às costas para os esquerdistas xiitas que pregavam a moratória e a quebra de contratos. Resultado: maior capacidade do país de atrair investimentos gerando uma taxa de crescimento convincente, só limitada pelo nosso mais que decantado atraso na infra-estrutura. Há, em andamento, inúmeros projetos “green field”, isto é, saindo do zero, em gestação, para serem implantados pela iniciativa privada. Basta que os governos não atrapalhem e assumam seu papel de indutor do crescimento, oferecendo condições básicas de infra-estrutura e orientando os investimentos a fim de que o crescimento se traduza, finalmente, em desenvolvimento.

Falta gente qualificada. As empresas se digladiam na busca de bons profissionais. Estamos vivenciando uma fase exponencial, que não sabemos exatamente até quando vai perdurar. Tudo depende, fundamentalmente, da conjuntura internacional.

Estampar a condição de grau de investimento ou “investment grade” significa que o país amadureceu, que a comunidade internacional olha o Brasil como uma alternativa concreta onde se pode investir com segurança. Que existe uma proteção minimamente satisfatória para o investidor.

Viver numa democracia é viver num estado de liberdade relativa e não absoluta. É saber que valores como liberdade de expressão e manifestação devem ser condicionados ao respeito à propriedade privada, ao direito de não lesar ninguém, sabendo que atos de vandalismos e violência contra pessoas e bens constituem crimes, sujeitando-se o indivíduo às penas da lei. É viver sob o manto de uma Constituição que assegura, entre os seus muitos princípios, o da segurança jurídica, preservando aquilo que foi acertado, tornando intocável o direito adquirido e o ato jurídico perfeito, consumado sob regras vigentes ao tempo de sua prática.

Ninguém aceita que o mesmo Estado que dá algum benefício ao empreendedor com uma das mãos o retire com a outra, na maior desfaçatez.

Custou, mas parece que o país vem entendendo que o empresário não é o monstro que assusta criancinhas, e que o lucro é o fim de qualquer atividade econômica.

Minha última quase aquisição

qui, 17/04/08
por rodrigo braga |
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Sou assíduo freqüentador de leilões de arte. Assim que recebo os catálogos em casa fico contando os dias para o grande evento. Não é qualquer objeto que me agrada, deixe-me antecipar. Em verdade, meu gosto vai das telas às esculturas. Ou melhor, telas e esculturas. Nada mais. A propósito, recomendo uma visita ao sítio do Brennand, em Recife, o genial ceramista amigo de Cícero Dias, este já falecido.

Em meu último leilão, arrematei um Del Pino, pintor mineiro. Era um óleo sobre tela, não sei precisar a medida, mas um grande quadro, em todos os sentidos. O título: Ouro Preto. Arrematei, ainda, um Sylvio Pinto, grande pintor carioca. Lembro-me que em visitas ao Rio de Janeiro, costumava me hospedar no Meridien, ali em Copacabana, na Princesa Isabel, esquina com a Atlântica. Na recepção, havia uma marinha, de Sylvio Pinto, belíssima. Sempre me impressionei com aquela obra. Passados tantos anos, carrego com desvelo a tela do pintor, arrematada no mesmo leilão.

No dia imediatamente seguinte, fui até o local e paguei pelas obras. Em casa, fiz questão de reservar um bom espaço na sala para o Del Pino. Para o escritório, iria o Sylvio Pinto.

Dois dias depois, o rapaz do leilão me telefonou. O Del Pinto que eu havia arrematado não era aquele. Era uma outra tela, menor, menos vistosa, que ostentava outro título: Sobrados. Quando vi esta tela, percebi que o rapaz, de fato, havia se enganado e eu, maravilhado com a tela errada, me deixei levar, confiante que havia feito um bom investimento.

Continuo com o Del Pino, mas não posso deixar de reconhecer que a tela “Ouro Preto”, levada por engano, preencheu a minha sala, deu nova vida aos meus almoços e jantares, particularmente sob a luz moderada de um abajur.

Há coisas que não nos pertencem. Percebi que aquela obra um dia pode ser minha, desde que seja merecedor dela.

Lombroso e o crime da menina Isabella

sex, 11/04/08
por rodrigo braga |
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Itália, século XIX. Nascia o criminalista Cesare Lombroso, célebre por promover estudos no campo da caracterologia, segundo a qual o criminoso sempre guarda traços físicos e mentais perfeitamente identificáveis. Ele tentou relacionar esses traços físicos com a psicopatologia criminal, como o tamanho da mandíbula do sujeito, dimensões do crânio, entre outras características.

Anos mais tarde, a teoria lombrosiana foi cientificamente desacreditada, mas serviu como inspiração para outros estudos, semeando aquilo que conheceríamos como “antropologia criminal.”

Pois bem. O caso da menina Isabella Nardoni, de apenas cinco anos de idade, chocou o país. Todos, de certa forma, perguntam até que ponto um sujeito é capaz de chegar. Ali, os requintes de crueldade não deixam margem para dúvida: o assassino é um insano. Alguém com uma mente doentia e perturbada, uma visão obscurecida e uma capacidade espantosa de dissimulação.

Longe de querer antecipar os fatos, mas a versão dos suspeitos está cada vez mais difícil de emplacar. A sociedade, incrédula, não quer acreditar que foi o pai o responsável por tamanha atrocidade, a despeito de sua mandíbula. Nem eu quero acreditar nessa hipótese absurda.

Nessa etapa, não se fala em culpados, mas em investigados. Não sou adivinho, mas acho que ouvindo os irmãos da menina a resposta vem à tona, embora a polícia já saiba o que ocorreu naquela noite sinistra.

A teoria de Lombroso caiu. Não dá para responsabilizar ninguém por enquanto. Por outro lado, outros crimes igualmente bárbaros contra crianças aparecem no noticiário.
Talvez a tecnologia nos ajude a traçar o perfil do criminoso, retirando das ruas assassinos e psicopatas que matam friamente, sem remorso, criando uma versão high tech da teoria lombrosiana. Só não nos esqueçamos de dar os créditos para esse italiano visionário.
bernardesbraga@hotmail.com

Os Esqueletos de Bush

qui, 27/03/08
por rodrigo braga |
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Ontem, o New York Times trouxe uma matéria de capa relatando as últimas no Iraque. Os jovens especialistas americanos, bem treinados, têm enfrentado focos de resistência altamente preparados. De um lado, soldados norte-americanos bem pagos para executar ordens da Casa Branca de pôr fim aos rebeldes. De outro lado, homens bombas descarregando o seu arsenal sem a menor piedade.

Em duas operações no subúrbio da Vila de Turki, em Diyala Province, os americanos enfrentaram dias de confronto com direito a granadas e minas terrestres. Os insurgentes haviam cavado um buraco profundo, servindo como uma trincheira, que fez relembrar os tempos da Primeira Guerra Mundial.

Dois meses depois, o especialista em armamentos, Jerry King, que havia participado na linha de frente do combate na Vila de Turki, escrevia em seu computador os horrores que suportara, afirmando que aquela experiência mudara para sempre a sua visão das coisas. O seu relato é datado de março de 2007.

Um mês depois, o mesmo King estava em seu posto de combate, numa abandonada escola em Sadah, quando um homem bomba suicida explodiu dois caminhões do lado de fora do prédio. A escola implodiu, matando King em 23 de abril daquele ano, além de oito soldados que participavam da mesma missão, fazendo do evento um dos mais letais para os americanos na guerra do Iraque.

Naquele instante, o atleta da Georgia, Jerry King, engrossava as estatísticas macabras na estúpida incursão americana, sendo um dos 4.000 membros em serviço mortos no Iraque após cinco anos de batalhas.

2007 foi um ano especialmente complicado para os Estados Unidos no Iraque. Muitas mortes foram resultado da estratégia norte-americana de intervir diretamente no confronto entre sunistas e xiitas, na capital Baghdad. No fim do ano passado, a estratégia, suportada pelas novas alianças com o Chefe Tribal Sunita e a decisão do clérigo Xiita Moktada al-Sadr de ordenar o cessar fogo levaram a um período de relativa calmaria entre Outubro e Dezembro.

O desafio para o novo Presidente está posto. Antes, acabar com a banalidade de uma guerra sem propósitos. Depois, resolver a crise econômica que se agrava paulatinamente.

São os esqueletos do Bush filho.

Entre Malcolm Gladwell e Nelson Rodrigues

sáb, 01/03/08
por rodrigo braga |
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Não tenho problema algum em admitir certa repugnância ao “bestseller.” Tudo que é muito comentado e cai na boca do povo costuma causar-me alguma desconfiança. Talvez o problema esteja mais localizado na preferência popular, de quem invariavelmente desconfio. Mas isto é um outro assunto.

O certo é que “The Tipping Point”, de Malcolm Gladwell, é mesmo um livro e tanto. O autor foi repórter do Washington Post de 1987 a 1996. Atualmente, ganha a vida como escritor. Em resumo, o livro aborda uma questão muito interessante sobre como as pequenas coisas podem fazer grandes diferenças. O nosso Nelson Rodrigues, a seu tempo, parecia concordar com esta sentença. Disse ele, certa vez, que as pequenas coisas costumam gerar grandes tragédias. Como advogado, pude atestar a sua frase em diferentes oportunidades.

Bem, mas o que Gladwell pretendeu foi descrever situações que fugiram ao controle por algum motivo aparentemente banal ou pequeno. Sua análise tanto aponta para aspectos negativos quanto positivos. Ele se refere a uma epidemia quanto ao sucesso de um produto ou uma marca. Em “A Lei de Poucos”, que forma um capítulo de seu livro, o autor narra a história de um garoto que trabalhava numa estrebaria em Boston. Na tarde de abril de 1775, o mesmo garoto ouviu um oficial britânico comentar com outro sobre possível incursão no dia seguinte. Imediatamente, correu até a casa de um colono, chamado Paul Revere. Este o ouviu gravemente. Naquele mesmo dia, Revere já havia ouvido falar da disposição dos militares nas imediações do porto de Boston. Não teve dúvida. Em companhia de seu amigo Joseph Warren, decidiram pôr em alerta toda a comunidade vizinha, insuflando os rebeldes locais. Naquela noite, Revere chegou a Charlestown; de lá cavalgou até Lexington, passando por Charlestown, Medford, North Cambridge, Menotomy e batendo de porta em porta para espalhar a notícia, solicitando aos líderes locais que a transmitissem para outros. Os sinos das igrejas começaram a dobrar, os tambores rufaram. A notícia espalhou-se como vírus. Quando os britânicos, finalmente, começaram a sua marcha na manhã do dia 19 em direção a Lexington, encontraram uma resistência organizada sem precedentes. Em Concord, naquele dia, eles foram confrontados e subitamente batidos por uma milícia rebelde, dando início, assim, a Revolução Americana.

Em outro capítulo intitulado “O Poder do Contexto”, Gladwell conta a história de Bernhard Goetz. Em 22 de dezembro de 1984, este homem deixou o seu apartamento em Manhattan e caminhou até a estação de metrô. Entrou no trem e sentou próximo a quatro jovens negros. Havia perto de vinte pessoas no mesmo vagão, quase todas evitaram sentar próximas aos citados rapazes, que agiam com desordem e de forma ameaçadora.

- Como é que é? – perguntou um deles a Goetz, visivelmente perturbado, enquanto o outro pedia cinco dólares.

Um terceiro, que participava do grupo, enfiou a mão na bolsa insinuando possuir uma arma.
- O que você quer? – perguntou Goetz.

- Cinco dólares. – respondeu o jovem.

Goetz olhou para o rapaz, que tinha os olhos em chamas e se divertia muitíssimo. Sacou de sua mochila o revólver cromado, atirando em cada um dos quatro jovens. Um deles, abatido, gritava no chão, enquanto Goetz aproximava-se:

- Você me parece tão bem! – disse Goetz, aplicando-lhe o quinto tiro na coluna que o paralisaria por toda a vida.

No tumulto, várias pessoas pularam do trem, enquanto outras permaneciam em pânico. Goetz, calmamente, perguntou se todos estavam bem. O condutor, agora na cena do crime, indagou se o atirador era policial.

- Não. – respondeu. Eu não sei por que fiz isto.

Alguns dias após o evento, o caso se transformou em sensação nacional, culminando no momento de maior tensão durante aquele ano. Descobriu-se que os jovens do metrô possuíam antecedentes criminais. Os tablóides noticiaram o caso enaltecendo Goetz. Alguns o descreviam como “O Vigilante do Metrô”. Nas ruas, ele era tratado como herói. O homem que realizou a secreta fantasia dos nova-iorquinos de intimidar assaltantes no auge da onda de criminalidade que se abateu por ali nos anos oitenta. A despeito de sua celebridade, ele foi extraditado de Nova Iorque. O New York Post estampou duas fotos em sua primeira página: uma de Goetz algemado sendo conduzido à prisão. Outra de Troy Canty, um dos rapazes do metrô, recuperado, saindo do hospital. Naquele período dramático da história americana, as estatísticas demonstravam bem mais de 2000 assassinatos e 600.000 crimes de graves proporções ao ano.

O que Malcolm Gladwell e Nelson Rodrigues têm em comum é o fato de que ambos previram um raro fenômeno social. As pequenas coisas geram grandes tragédias!

bernardesbraga@hotmail.com

b>Padrões Modernos

sex, 15/02/08
por rodrigo braga |
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Nos aeroportos do mundo, vejo homens com “blackberry” acessando e-mails e antenados com os assuntos em andamento nas suas empresas ou escritórios. Pessoas andando de um lado a outro, correndo, acenando, tentando embarcar a qualquer custo.

Os aeroportos são termômetros dos novos tempos. Um cidadão americano encontra um colega espanhol e, por acaso, descobrem que estão no mesmo vôo. A mesma destinação. Comunicam-se em inglês, o idioma universal. Um vai atender a uma reunião convocada pelo seu cliente e o outro vai analisar um projeto de investimento.

Nunca fomos tão conectados, tão cúmplices no destino. Nunca tivemos tantos interesses em comum. As janelas de oportunidades que se abrem para jovens engajados nunca foram tão amplas. Deixamos de sonhar com um emprego em nosso país para sonhar com um emprego em qualquer lugar do mundo que ofereça condições de vida digna e que esteja à altura de nossas competências.

A nossa identidade é o nosso passaporte. O homem que acessa o “blackberry” é aquele cuja agenda não comporta mais compromissos estritamente locais. Ele atende a uma reunião em Nova Iorque como atende a uma reunião em Paris ou em São Paulo. As distâncias foram encurtadas mercê da revolução tecnológica que não deixou espaço para hábitos aparentemente obsoletos, como escrever uma carta ou datilografar na velha Olivetti. Novos tempos! Bem ou mal, certo ou errado, fomos arrastados pela avalanche de informações e pela internet, pelos meios de comunicação cada vez mais universalizados, tornando-nos reféns uns dos outros. A economia de mercado e a globalização financeira padronizaram certas condutas, aplicáveis a todos os atores do comércio internacional. Por isso, queda aqui, repercussões acolá.

É difícil admitir que, de certa maneira, fomos “padronizados”. Mas é a realidade. Pior, padronizaram as condutas como padronizaram as linguagens. Basta assistir a um programa de televisão que fale de negócios. Os executivos utilizam uma linguagem comum, termos e expressões que traduzem idéias universais, e isto tem que ver com a formação e a influência que vêm recebendo das universidades e academias.

As organizações, por sua vez, estão muito parecidas. Os modismos são replicados. A gestão obedece a padrões corporativos e o ritmo de trabalho tem se acentuado muitíssimo. Nada melhor do que munir o homem do aeroporto de ferramentas para que ele possa estar acessível vinte e quatro horas por dia. Afinal, tempo é recurso precioso, e cada vez mais escasso. Ele produz quatro, cinco vezes mais que antigamente. Imagine se esta produção dependesse de uma análise acurada e meticulosa. Não! Não há tempo para isso. A tomada de decisão é estimulada pela intuição e experiência e menos pelo raciocínio maturado e reflexivo.

Do ponto de vista da competição, pode-se dizer que esta forjou estratégias tomadas no âmbito da empresa. Estratégias, diga-se, nem sempre leais. Fusões e aquisições tornaram-se interessantes mecanismos de crescimento para a empresa que não quer ser engolida pela concorrente. Liderar o mercado onde a empresa atua significa possuir informações privilegiadas e vigiar cada passo do adversário.

A vida moderna impõe um ônus demasiadamente estressante. Podemos aspirar à condição de velocistas, mas não devemos subestimar as lesões decorrentes deste esforço.

O Carnaval dos Cartões

ter, 05/02/08
por rodrigo braga |
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Foi o Presidente Lula quem aperfeiçoou o uso do cartão corporativo. Instrumento já previsto em governos passados, o cartão de pagamento do governo federal (CPGF) foi largamente disseminado neste governo. Foi Lula quem editou o Decreto n. 5.355, de 2005, dando ao cartão uma nova roupagem.

Curioso que o nosso Presidente tenha feito o que fez, mesmo diante de tantas irregularidades denunciadas ao TCU. Até a própria mulher do Presidente chegou a ser envolvida. Maria Emília Évora, que cuida das despesas pessoais da primeira dama da República, contabilizou faturas de R$ 441 mil entre janeiro e agosto de 2004, sendo R$ 198 mil sacados em dinheiro. O Ministro Ubiratan Aguiar já teve oportunidade de apreciar algumas irregularidades na gestão do Presidente atual, ficando o acórdão assim redigido:

Processo: 007.512/2006-0
Natureza: Relatório de Auditoria
Entidade – Unidade: Secretaria de Administração da Casa Civil da Presidência da República
Interessados – Responsável: Romeu Costa Ribeiro Bastos, Secretário de Administração e Gilton Saback Maltez, Diretor de Orçamento e Finanças
Sumário: RELATÓRIO DE AUDITORIA. EXAME DA REGULARIDADE DOS DOCUMENTOS FISCAIS UTILIZADOS PARA COMPROVAR A REALIZAÇÃO DAS DESPESAS EFETUADAS COM O CHAMADO CARTÃO CORPORATIVO. DETECÇÃO DE ALTO ÍNDICE DE NOTAS FISCAIS INIDÔNEAS. CONSTATAÇÃO DE PAGAMENTOS INDEVIDOS DE DIÁRIAS EM VIAGEM PRESIDENCIAL. DETERMINAÇÃO PARA QUE SEJA OBTIDO O RESSARCIMENTO DESSES VALORES. ENCAMINHAMENTO DE CÓPIA DO RELATÓRIO DE AUDITORIA A DIVERSOS ÓRGÃOS, PARA A ADOÇÃO DAS PROVIDÊNCIAS PERTINENTES, NO TOCANTE ÀS IRREGULARIDADES FISCAIS.

Uma vez mais, o uso irregular dos cartões corporativos atormenta o governo. Primeiro derrubando Ministros, agora colocando o Presidente numa situação embaraçosa.

A previsão do uso do cartão é aquele definido no art. 2º do Decreto mencionado, que não vale a pena reproduzir aqui. Quem tiver interesse, basta acessar o sítio do Palácio do Planalto. Certo é que, em hipótese alguma, o cartão deve ser usado para cobrir despesas pessoais.

Os gastos com o cartão corporativo somaram R$ 75,6 milhões em 2007 –mais que o dobro do ano anterior (R$ 33 milhões). Do montante gasto por ministros e servidores, mais da metade (R$ 45 milhões) foi sacada em dinheiro.

A devassa nos cartões é uma necessidade inadiável. Há muito mais a apurar. E a sociedade cobra, indignada, transparência do governo que se elegeu empunhando a bandeira da moralidade, perdida há muito pelos sucessivos escândalos que têm marcado a atual administração.

O carnaval dos cartões ainda dará muita dor de cabeça ao governo. A ressaca poderá vir em forma de CPI. Só depende da oposição.

As FARC não são terroristas?

ter, 22/01/08
por rodrigo braga |
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Que a nossa tosca diplomacia não se engane. As FARC são terroristas, sim.

Esse grupo foi fundado em 1964 com propósitos marxistas. O sonho da tomada do poder pela revolução armada foi nutrido, no passado, por um bando de criminosos que hoje ostenta o título de guerrilheiros. O seu líder maior, Manuel Marulanda, passou a comandar um exército poderoso, que chegou a contar com quase 30 mil homens na fase de maior evidência.

A desestruturação do grupo, ocorrida anos depois, levou a um racha na organização. Os rebelados, despojados de uma causa para a luta armada, iniciaram a pilhagem da população civil. Atentos ao movimento então deflagrado, os poderosos coronéis da região, latifundiários com largo poder econômico, recrutam as quadrilhas para proteger as suas terras, dando origem aos primeiros grupos paramilitares.

O Plano Colômbia, financiado pelos Estados Unidos, interessa ao governo Uribe, um aliado das elites agrárias, pois visa exterminar os grupos revolucionários, mas vira às costas para a realidade social do país, onde mais de 60% da população está afundada na pobreza. Cartazes espalhados pelo país ilustram a situação local: “Plan Colombia, los gringos ponen las armas, Colombia pone los muertos.”

A partir de 1990, as FARC mudaram o seu foco. Pressionadas pelos ataques dos grupos paramilitares e pelo aparelho do Estado, passaram a ter um contato mais próximo com o tráfico de drogas, levantando dinheiro para a sua “causa.” O grupo há muito perdeu a sua ideologia para administrar o lucrativo negócio de drogas. Os seqüestros tornaram-se prática comum, agora um fim em si mesmo. Estima-se que a organização seqüestrou cerca de seis mil pessoas nos últimos dez anos. Daí porque o percentual de 93% de rejeição que possui na Colômbia.

A idéia bizarra de Chávez de retirar o grupo da lista de organizações terroristas (eles são assim considerados pelos governos da Colômbia, Estados Unidos, União Européia e outros) embora possa apetecer a diplomacia brasileira, deve ser rechaçada por qualquer cidadão de mediana inclinação democrática. Um “nonsense” completo que parece encontrar entre a nossa esquerda boa acústica. Não esquecer que as FARC enviaram carta ao Presidente Lula o saudando pela vitória nas urnas.

Se Uribe não pode invocar a condição de bom negociador que pôs fim ao terror, como prometeu quando estava ainda em campanha, muito menos as FARC podem se intitular organização revolucionária com atuação política. São, isto sim, terroristas que seqüestram, matam e torturam, aniquilando as esperanças da pavimentação da via democrática na América Latina.

Exposições, Devassas e Arapongagem

qui, 03/01/08
por rodrigo braga |
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Vivemos em um período estranho no Brasil, confirmando a suspeita do provérbio secular de que não basta ser honesto, é preciso parecer honesto. Cidadãos de bem estão tendo suas contas bancárias e sua intimidade devassada por conta de supostas fraudes e crimes imaginários.

Tome-se o exemplo do caso Banestado, tornado público a partir de agosto de 2004, através do qual a extinta agência daquele banco, em Nova Iorque, realizava pagamentos aos beneficiários e irrigava outras contas mantidas por meio de remessas ilegais de recursos originários do Brasil por instruções de doleiros e empresas de fachada, muitos deles titulares das contas suspeitas. Investigado o fato e apurada a ilegalidade, descerram-se as cortinas do espetáculo, expondo quem quer que tenha depositado dinheiro naquela agência ou remetido recursos ao exterior ao dramático e perigoso mundo das especulações, sem o mínimo cuidado de separar o joio do trigo.

Apanha-se, na rede da repressão, qualquer depositante ou remetente. O crime? O só fato de ter efetuado o depósito. Quebra-se o sigilo bancário dos investigados, passa-se a uma condenação sumária, expõe-se o sujeito aos efeitos da mídia devastadora, para só depois, muito tempo depois, revelar-se a verdade: Nem todos são culpados!

A arapongagem oficial, praticada por uma polícia pouco zelosa, aliada a sanha do Ministério Público pela condenação a qualquer custo, tem revelado ao país a faceta arbitrária da autoridade. O abuso de quem tem o poder de investigar. Em tempo de “denuncismos”, forçoso nos rebelar contra o abuso e a arbitrariedade para que amanhã não sejamos vítimas dela.

E a autoridade, encarregada de investigar, agora conta com mais um aliado: o governo federal. Na surdina, como costuma agir os covardes, o governo editou instrução normativa publicada no Diário Oficial da última quinta-feira, em que pretende obrigar às instituições financeiras a repassarem semestralmente à Receita Federal dados sobre a movimentação financeira de pessoas físicas que atinjam R$ 5.000,00 no semestre. Para pessoas jurídicas, o valor é de R$ 10.000,00. O argumento palaciano é sempre curioso. Com o fim da CPMF, que facilitava a fiscalização de movimentações bancárias suspeitas, o governo precisa criar mecanismos para evitar a prática de crimes.

A reação ao arbítrio – quebra de sigilo bancário só através da Justiça -, parece vir da OAB, que já se manifestou contrariamente à ignominiosa instrução.

Preservemos o Estado de Direito. Ele é o que garante os direitos individuais contra as investidas ardilosas da autoridade.

2008 – Elogio ao Respeito

qui, 27/12/07
por rodrigo braga |
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A pedra de toque numa sociedade civilizada é o respeito. Mercadoria em falta nas prateleiras de nossas casas, o respeito sumiu das ruas, das esquinas, dos pontos de ônibus, do elevador, das filas de banco, do ambiente de trabalho.

Lamentavelmente, o individualismo exacerbado esnobou o coletivo, passou por cima da boa educação, como um rolo compressor. Nunca se olhou tanto para o próprio umbigo. O indivíduo fechou-se em copas, sem tempo para um cumprimento respeitoso, um simples “bom dia” ou coisa que o valha.

Mas assim como o indivíduo virou às costas para o coletivo, este também abusou do individualismo, desrespeitando-o reiteradamente, como sucedeu ao professor solitário que viu sua casa invadida por uma família de malucos na obra prima do mestre Visconti, em “Violência e Paixão”, filme memorável rodado na saudosa Roma deste primoroso Diretor italiano.

O desrespeito coletivo foi tropicalizado em atos de vandalismo praticados pelos membros do MST. Assim como o professor do filme de Visconti, famílias tiveram seus imóveis invadidos por grupos numerosos, incentivados por políticos e falsos profetas que vendem o sonho da reforma agrária pelo método da luta armada.

Na cidade, bandidos tomaram conta das ruas. O que antes era feito às ocultas, ao cair da noite, hoje é realizado sob a luz do sol, debaixo do nariz do Estado omisso e faltoso. O crime desafiou à autoridade, desrespeitou-a por inteiro, deixando no ar a desagradável sensação de impotência. Exemplo eloqüente do desrespeito foi a morte recente de um grande amigo, Eduardo, o Dudu Demoro, policial do CORE, alvejado por uma bala disparada por traficantes enquanto cumpria uma operação no Morro do Adeus, no Rio de Janeiro.

Compreendamos, urgentemente, que o elogio ao respeito é o hino que não tocou este ano, abafado pela agenda egoísta que temos insistido em manter em nosso dia-a-dia. A criança no semáforo que pede esmola merece respeito, a nossa empregada merece respeito, como respeito merece o Presidente de nossa empresa e o vizinho que mora na cobertura do prédio de luxo.

Para 2008, muito respeito a todos vocês.



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