Parábola de Carnaval
A idéia de que o Carnaval é um hiato entre as regras de bons costumes e a completa perversão moral já foi explorada por alguém. Só não me recordo o nome de quem o fez. É nesse período que a moral afrouxa, como diria o teatrólogo Décio de Almeida Prado. Tolera-se, por assim dizer, pequenos deslizes de consciência; um pecadinho aqui, outro ali. Tudo em nome da liberdade infinita que nos é concedida durante três dias de festa.
Quando o Carnaval ganhou ares de festa popular, conta-se que um senhor afortunado, de linhagem nobre, culto e pudico, tomou-se de impulso festeiro e entregou-se ao prazer mundano. Na Igreja que freqüentava, diriam que aquilo era coisa do Diabo! E devia ser mesmo. O Diabo, no inconsciente coletivo, sopra no ouvido das pessoas e influencia terrivelmente a ponto de cedermos aos seus apelos. Assim aconteceu ao recatado senhor. Deixou-se seduzir pelas trevas.
Lá pelas tantas, conta-se que ele estava entregue às bebidas e às mulheres, dançando as marchinhas em pleno salão, cercado de amigos que se banqueteavam a sua custa.
O Diabo, feliz da vida, zombava de Deus e dava gargalhadas do alto:
- Tá vendo, meu prezado. Esse se dizia seu servo fiel. Mudou de lado, pelo visto.
E contabilizava mais um para o seu rebanho do mal. Deus, na sua sabedoria imanente, silenciou, enquanto o Diabo continuava se deliciando com os foliões alucinados. A sua empresa prosperava. O exemplo do senhor pudico era o melhor entre muitos. A certa altura, chegou-se a temer pela desagregação social, pela desunião da família, pelo declínio da religião. Estaríamos perto do fim?
Durante a terça gorda, podia-se ver foliões, ainda metidos em suas delirantes fantasias, jogados aos cantos, embriagados, puxando, em meio a convulsivos soluços, as marchinhas em moda. O Diabo dava rasantes pela Terra: aplaudia, ria, exaltava o nosso Carnaval.
É chegada a quarta-feira de cinzas. Percebe-se que o clima já não é mais o mesmo. A euforia deu lugar ao silêncio. As mulheres se endireitaram, voltaram a vestir as suas roupas comportadas, fecharam-se em seus lares. Mas como? O mesmo fenômeno sucedia com os homens.
A quinta-feira viria desmistificar o Diabo que, a essa altura, recolheu o riso. Franziu a testa, preocupado com a visível mudança de comportamento de seus recentes afilhados. Mal sabia ele que o pior estava por acontecer. Lembram daquele senhor abonado? Pois é, na alvorada de quinta-feira, acordou como de costume, envergou o terno elegante, tomou o café e, quando seguia em seu automóvel na direção do escritório, ordenou ao motorista que parasse defronte a Igreja.
- Aguarde-me um minuto. disse.
Entrou no templo do Senhor, para o desespero do Diabo, que assistia aquela cena incrédulo. E o sujeito, já curvado, orou, como sempre fazia. Nem parecia o folião enlouquecido de outrora. Isto se deu com a maioria das pessoas. As antigas virtudes eram praticadas: a comunhão familiar, os cultos, os bons modos…
Que coisa, não?
O Diabo não teve dúvida. Agendou uma audiência com o Senhor. Munido de provas e trêmulo de raiva, foi ter com Deus, a quem debitou todo o seu fracasso na singela tarefa de corromper almas, cujo êxito lhe pareceu evidente. Pôs-se a blasfemar, a insultar a Igreja, a responsabilizar o Senhor por usar métodos de coerção moral sobre os indivíduos, a reclamar de maneira escandalosa e, por fim, exigiu justificativas para aquela mudança de atitude social. Deus o ouviu, pacientemente. Em nenhum instante foi capaz de interrompê-lo. Assim que o interlocutor terminou de tagarelar, Ele sentenciou:
_ Apressaste na avaliação sobre os homens na Terra. Conheço-os de longa data. E este Carnaval está apenas começando. É a eterna contradição humana.
Rodrigo Bernardes Braga é advogado e escritor.
rss do blog