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O Processo contra Jesus Cristo

dom, 09/12/07
por rodrigo braga |
categoria Sem Categoria

A figura de Jesus Cristo sempre me pareceu muito interessante e, ao mesmo tempo, misteriosa. Perto do Natal, escrevo, propositalmente, não sobre o seu nascimento, mas sobre sua morte. Mais especificamente sobre o processo contra Ele.

Jesus foi acusado de ser o Rei dos Judeus (Rex Judaeorum), um crime de traição gravíssimo naquela época dado que não fora nomeado pelo Imperador, a quem todo o povo devia respeito e reverência, o grande Tibério Cezar. Foi Jesus sentenciado a morte porque “congregando e ajustando homens ricos e pobres, não têm cessado de promover tumultos por toda a Judéia dizendo-se FILHO DE DEUS e REI DE ISRAEL, ameaçando com a ruína de Jerusalém e do Templo, negando o tributo à CEZAR, tendo ainda o atrevimento de entrar com ramos e em triunfo, com grande parte da plebe, dentro da cidade de Jerusalém.”

A expressão “Rei dos Judeus” constou encimada na cruz, acima da cabeça de seu condenado, indicando a causa da pena, algo muito comum na lei romana.

O Juiz Haim Cohn, autor de The Trial and Death of Jesus, um dos poucos a estudar o processo, descreve Pilatos como um tirano que teria cometido diversos excessos despóticos, o que não se ajusta ao perfil do governante disposto a absolver e salvar Jesus contado nos Evangelhos. Revelo o objetivo de Cohn mais adiante.

Decerto, há muita polêmica sobre o processo que culminou com a decretação da morte do Nazareno. Entretanto, parece que há unanimidade entre os estudiosos quanto às inúmeras ilegalidades que o viciaram. O processo criminal contra Jesus nada difere dos muitos processos que se originam com um só objetivo: obter a condenação do acusado. Aplica-se, por assim dizer, o princípio da inocência às avessas. O sujeito é considerado culpado até prova em contrário.

Em essência, Jesus foi acusado duplamente. O primeiro processo, aberto por Anás, o Sumo Sacerdote, se deu perante os judeus, diante de um colegiado, que o acusaram de blasfêmia, um crime teológico. Embora vedado pelas leis judaicas, o acusado foi interrogado à noite e não pôde contar com testemunhas imparciais. Impedidos de executar a sentença por força da ocupação romana conduziram-no a Pilatos no dia seguinte. Cohn nega esta versão para isentar os judeus ao afirmar que não existiu processo, mas sim uma espécie de interrogatório na casa do Sumo Sacerdote. Sustenta que a Corte ainda tentou absolver o acusado caso este se comprometesse a não voltar a blasfemar nem reivindicar a condição do Messias.

Abro um parêntesis para dizer que a Galiléia, já ao tempo do nascimento de Jesus, era um conhecido foco de resistência judia contra Roma. O povo judaico esperava por um salvador revolucionário e libertador que recuperasse sua independência política perdida desde o exílio da Babilônia, no fim do século VI a. C. Vivendo sob a soberania romana resistiam em reconhecer Jesus como o salvador.

Já o segundo processo, de conotação política, se deu perante às autoridades romanas. O crime? Perturbação da ordem pública ou sedição, um atentado contra o domínio de Cezar. Porém, as leis judaicas estavam sujeitas às de Roma. Um preso não podia ser julgado por um delito pelo conselho de judeus e por outro por Herodes e Pilatos. Foi este o maior erro contido no processo criminal, o que, inapelavelmente, tornou nula a sentença.

Reparem que, mesmo diante da maior das injustiças, o nosso Messias não se rebelou. Permaneceu recluso em sua fé, assertivo em seus idéias e misericordioso em relação àqueles que o condenaram.

Fim da CPMF: pela nossa saúde financeira.

seg, 03/12/07
por rodrigo braga |
categoria Sem Categoria

Os brasileiros são avessos aos números. Estatísticas, nem pensar. Mas um pouco de lógica é necessária para reflexão do debate em torno da CPMF, essa vergonhosa contribuição que só existe em nosso país. O governo advoga a sua manutenção desafiando a nossa capacidade de crítica. Argumenta que a CPMF é necessária para cobrir despesas com a saúde.

O problema do Brasil, já se disse milhares de vezes, não está na arrecadação, mas no gasto público. A arrecadação cresceu 60% nos últimos dez anos. No mesmo período, o gasto público subiu 70%. A conta não vai fechar nunca.

A poupança pública vai ruir perto das eleições, na distribuição de verbas a torto e a direito. Isto aumenta a resistência do brasileiro em relação ao pagamento de tributos. A campeã de arrecadação é a União. Arrecada, mas não quer dividir com Estados e Municípios. A saída para a não repartição de tributos foi a proliferação de contribuições no âmbito federal. Por quê? Porque contribuição não se divide. A CPMF é uma delas.

Diz-se que a carga tributária atual é da casa de 35% do PIB. Depende do ponto de vista. Estudo da Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas (FIPE), da Universidade de São Paulo (USP), revela excesso de tributação sobre o contribuinte, por impacto superior a 45%, como no caso das famílias com renda de até dois salários mínimos (R$ 700,00).

A principal função da tributação é financiar o gasto público. Daí a premência do debate em torno do tamanho do Estado. Não sem razão, Delfim Neto, o guru das finanças, costuma afirmar que o Brasil precisa caber dentro do PIB. É a frase mais acertada que tenho ouvido nos últimos tempos.

Portanto, o problema não é ficar sem a CPMF. Nós, brasileiros, conseguiremos viver muito bem sem ela, ao contrário do governo. A CPMF é só mais uma justificativa para o governo federal gastar despudoradamente e como bem lhe aprouver. Se a carga tributária continuar nesse patamar, chegará o dia em que a informalidade assumirá proporções inimagináveis.

Não consigo compreender a lógica do Estado arrecadador. Ao invés de diminuir a carga tributária e aumentar a base de arrecadação, aperta os brasileiros que pagam, empurrando, a cada dia, milhões para a informalidade e a sonegação.

Por que não te cala, Lula?

sex, 16/11/07
por rodrigo braga |
categoria Sem Categoria

Por que não te cala, Lula?

Não agüento mais ouvir tanta bobagem! A coleção do Presidente Lula não tem limites e me faz lembrar o Paulo Brossard quando questionou a pertinência da ação de Deus que teria limitado a inteligência, mas não teria feito o mesmo em relação à ignorância.

A fraseologia do Lula é bem conhecida. São frases prontas, sopradas por algum assessor ou pessoa em quem ele confia. Quando ele arrisca o improviso ou tem que responder pergunta mais elaborada de imediato, o resultado é catastrófico. Beira às raias do risível, do caricato, da comicidade teatral.

E o festival de bobagens vai se transformando em matéria prima para compor o anedotário oficial, achincalhado. Não agüento mais ouvir o Lula! Perdi as contas de tantas frases desconsertadas, declarações mal formuladas, clichês do populismo nacionalista com um viés autoritário. Aqueles que o criticam são golpistas da primeira hora. A mídia é golpista, os empresários, que jamais lucraram tanto como em seu governo, reclamam de “barriga cheia”, os movimentos de esquerda que enxergam na sua política econômica um arremedo neoliberal não passam de rebeldes sem causa, como ele mesmo teria sido no passado, assumindo em tom confessional.

Saímos da cultura erudita do Fernando Henrique – de cujo governo guardo terríveis lembranças – e passamos ao culto à bobagem do Lula. Se bem que, como este afirma, diploma não significa nada.

“Nunca na história deste país…” fomos tão insultados vernaculamente falando. As expressões e as analogias do Presidente para explicar alguma idéia ou rebater alguma crítica são, invariavelmente, rasteiras e, quando nunca, impróprias para ser usadas por Chefes de Estado.

“Nunca na história deste país…” assistimos o loteamento de cargos públicos como agora, na tentativa desesperada do governo petista de quitar a dívida com os antigos “companheiros de luta” que se empenharam para fazer a esquerda assumir o poder, se é que é possível, hoje em dia, insistir nessas idéias ultrapassadas de esquerda e direita.

“Nunca na história deste país…” fomos tão covardes na política internacional ao nos curvarmos aos interesses e pressões de governantes de quinta categoria, como Chávez e Morales.

A última de Lula foi defender a democracia bolivariana de Chávez, que se esforça para alterar a Constituição prevendo a sua reeleição indefinidamente e solapar canais de televisão que lhe fazem oposição. Mas, segundo Lula, sobra democracia na Venezuela, desconhecendo o país conflagrado em lutas e protestos.

Por aí se vê que somos governados pela frouxidão de idéias, pela visão limitada e pelo conteúdo quase rudimentar de um dirigente sindical que se acostumou a fazer de nossos ouvidos repositórios de suas quinquilharias verbais. Por que não te cala, Lula?

Nosso desejo de ser terceiro mundo

qua, 31/10/07
por rodrigo braga |
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Estive em Luxemburgo, refúgio de paraíso fiscal, para um encontro mundial do departamento jurídico da empresa em que trabalho. Cheguei antes do evento, no final de semana, para curtir o domingo naquele país. Afora a qualidade de vida (primeiríssimo mundo) e o frio, estava lá a trabalho e tinha uma agenda cheia.

Só para se ter uma idéia da civilidade do lugar, havia um ônibus que saía do hotel às 8:31 para um “tour” pelo centro. Tomei o café da manhã e tornei ao quarto para buscar um agasalho. Às 8:35, o ônibus já havia partido, deixando-me para trás sem o menor constrangimento. Pobre brasileiro! Achar que o luxemburguês conhece tolerância….

Durante os nossos workshops, cada advogado tinha de relatar suas experiências e dizer o que vinha fazendo para sanar os principais problemas. Ao final, iríamos sumarizar as melhores propostas numa espécie de “best practices”.

Chegada a vez do Brasil, não havia como omitir o tamanho de nosso contencioso, ou seja, a quantidade de processos judiciais em curso, responsável por 80% do contencioso de todo o grupo, hoje presente em 61 países.

Confesso que relatei a nossa experiência não sem uma dose cavalar de vergonha. Ostentar o título de campeão em matéria de “litigation” não estava em meus planos. Tentei explicar as razões que levam o brasileiro a demandar em juízo.

Comecei pela abertura proporcionada pela Constituição de 1988, que escancarou as portas do Judiciário, franqueando o seu acesso a todos os desafortunados, passando pela nossa inclinação para a litigiosidade (não fomos educados a resolver as coisas amigavelmente) e terminando pelo fracasso do Estado brasileiro em assegurar direitos básicos do cidadão, o que importa na necessidade de se buscar a tutela ou a proteção dos mesmos direitos pela via judicial.

Procurei explicar também que a figura do empresário está associada à figura do fraudador ou do opressor. Neste caso, oprimindo o trabalhador, no sentido de subtrair-lhe direitos garantidos por lei. Em suma, estamos sempre nos nivelando por baixo.

O brasileiro encara o processo judicial como uma espécie de aplicação financeira ante a lentidão dominante. Os frutos serão colhidos pela segunda ou terceira geração. E o curioso é que ele já sabe disso antes de ingressar em juízo.

O tamanho de nosso contencioso, que não é diferente do contencioso de outras empresas similares, responde diretamente pelo chamado custo Brasil. Todos, direta ou indiretamente, não estão nem aí para o que isto significa. O que importa é tapar o buraco deixado por alguém, nem que se leve muito tempo para fechá-lo. Ao Judiciário, credita-se o papel de “tapar buracos”, num remendo vergonhoso incapaz de sanar o tamanho da ferida.

Enquanto isso, em Luxemburgo, cumpria o meu papel explicando ao mundo as razões de nossa eterna vocação terceiro-mundista.

Santiago – Um Documentário

seg, 01/10/07
por rodrigo braga |
categoria Sem Categoria

João Moreira Salles é um sujeito especial. Filho de diplomata e banqueiro bem sucedido, ele poderia ter escolhido a vida de um aristocrata medíocre. Mas, não. João é um documentarista que, ouso dizer, está entre os melhores que o Brasil já produziu. Seu último trabalho bem o demonstra.

João filmou um pouco do que foi Santiago Badarotti Merlo, seu mordomo por três décadas, que serviu a família Salles na residência da Gávea, hoje sede do Instituto Moreira Salles. O que existe de tão especial neste documentário? Tudo.

Quero dizer que nada é clichê ou lugar comum na filmografia de João. As coisas são vistas por um ângulo severo e o enquadramento obedece a um rigor extraordinário.

A história é contada com base nas reminiscências de sua memória, nas experiências da infância passada no casarão, permeada por festins, recepções e encontros com altas autoridades, empresários e políticos. O mordomo, personagem central do documentário, é um sujeito absolutamente excêntrico, apaixonado por música erudita e pela história da nobreza no mundo. Era um tipo que tocava castanholas e falava diversos idiomas. Chegou a escrever uma espécie de enciclopédia da história da nobreza, manuscrito que o acompanhou até a morte, em 1994.

Santiago, já octogenário, morava sozinho num apartamento no Leblon, cercado de vida, como ele mesmo chegou a afirmar. Vivia num mundo completamente seu, num mundo em que ele, reservadamente, apreciava e curtia como quem saboreia um vinho de refinada procedência. Ao piano, tocando castanholas, fazendo movimentos com as mãos, como quem as faz bailar, Santiago viveu com dignidade. Talvez tenha sido isto o que ele queria passar nas suas entrevistas. Uma vida digna de um nobre, como ele efetivamente era.

Um mordomo nobre, digno e culto.

Santiago é um documentário imperdível que nos faz refletir sobre o destino a que estamos condenados. Ainda não sei se Santiago viveu como nobre, na pele de um mordomo, ou se foi um mordomo na pele de um nobre.

Afinal, quem é o mandante?

ter, 18/09/07
por rodrigo braga |
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?

Estava fora do país quando soube da absolvição do Renan Calheiros à revelia do clamor público pela sua cassação. O voto secreto tem dessas coisas. Um senador jura que vota pela cassação. Mas o faz jogando para a platéia enquanto combina com o acusado que o absolverá na “hora da verdade.” Isto faz parte de um processo político deturpado, degradado e corporativista.

Sempre questionei a legitimidade do mandato eletivo quando o parlamentar já não preenche as qualidades ou os requisitos que o levaram a vencer as eleições. Digo isso porque, se o síndico do prédio onde moramos desviar-se de suas funções poderemos destituí-lo dentro de um processo regular de destituição. Se o presidente do clube em que freqüentamos estiver roubando poder-se-ia destituí-lo através de mecanismos legais ou mesmo através das regras do estatuto social. E assim ocorre em diferentes setores da vida privada. O mesmo deveria ser observado na vida pública, sobretudo na política.

É que no mandato eletivo quem o outorga somos nós, pobres mortais. Portanto, nós, como mandantes, poderíamos destituir ou revogar o mandato do parlamentar que se afastou da ética e que, consequentemente, não mais preenche as condições de nos representar. Neste caso, podemos dizer que foi quebrada a fidúcia, base de sua legitimidade na Casa Legislativa.

A experiência de revogação de mandato é conhecida em países como os Estados Unidos, usualmente chamada de “recall.”

Entre nós, existe em tramitação a PEC (Proposta de Emenda Constitucional) 73/2005, de autoria do ilustrado senador Eduardo Suplicy, a partir de proposta da Ordem dos Advogados do Brasil, que trata da possibilidade de revogar o mandato do Presidente da República ou membros do Congresso Nacional após transcorrido um ano da data da respectiva posse por referendo popular. Busca-se alterar o art. 3º. da Constituição Federal. Embora careça de alguns reparos, a PEC considera a possibilidade de revogação de mandato eletivo, outorgando poderes ao mandante para fazê-lo. Devolve-se ao povo um poder que ele jamais poderia ter renunciado quando tal matéria foi discutida durante a Constituição de 88.

A todos nós compete pressionar os parlamentares para fazer essa PEC andar. Não interessa a eles que isto aconteça, para falar o óbvio. Escreverei aos senadores Demóstenes Torres e Pedro Simon, relatores da matéria, engrossando o coro dos que se filiam a favor da PEC.

Afinal, o mandante somos NÓS!

Enquadrando os mensaleiros

ter, 28/08/07
por rodrigo braga |
categoria Sem Categoria

Eu, que fiquei doente durante toda a semana passada e acompanhei, pela TV, prostrado na cama de meu quarto, boa parte do julgamento do mensalão, tive a clara sensação de que o STF quer e vai enquadrar os mensaleiros.

Não tenho a menor pretensão à mediunidade, mas o desenrolar dos acontecimentos no Supremo demonstram a disposição do relator, Min. Joaquim Barbosa, de passar por cima de algumas formalidades em prol da verdade real. Sim, pois a denúncia do Digno Procurador Geral da República pecou pela generalização, não sendo suficientemente clara em individualizar as condutas de alguns acusados.

Mas a sociedade brasileira verá a vontade do Supremo em combater o maior caso de corrupção que se teve notícia na história do Brasil e que maculou profundamente o Parlamento, deixando cicatrizes para o todo sempre.

Deve-se ter em mente que a corrupção é prática condenável, secular, gerada pelo sentimento egoísta do homem em geral e do brasileiro em particular de querer levar vantagem sobre tudo e sobre todos. Essa prática é facilitada pelo ambiente institucional inseguro e indiferente às auditorias. Não por outra razão ocupávamos, já em 2002, a vergonhosa septuagésima posição no ranking da corrupção entre 160 países avaliados. Somos vizinhos de Sri Lanka, Malauí, Peru e Jamaica…

O atual nível da corrupção é o pior em dez anos, segundo relatório anual de governança produzido pelo Banco Mundial (Bird) e divulgado em julho deste ano. De acordo com o levantamento, o país está em nível inferior ao que se encontrava quando a entidade começou a fazer esse estudo, em 1996.

Em um país como o nosso, o Judiciário tem o dever de endurecer o jogo. É o que o STF vai fazer. Não tenho dúvida. Desta vez, até os Ministros “cansaram.”

Sou a favor da tese de que qualquer autoridade pública, seja ela qual for, pega recebendo dinheiro de particular, responda por corrupção passiva sem que se precise provar o ato de ofício a seu comando. Diríamos que o ato de ofício ficaria subentendido, presumido, intrínseco. O contrário seria verdadeiro, isto é, mais nada seria exigido do particular. Deu dinheiro, presumida estaria a vantagem ilícita, enquadrando-se o sujeito como corruptor, sem prejuízo de outros crimes, como formação de quadrilha, lavagem de dinheiro e por aí vai.

Só assim para dar um exemplo eloqüente a esse bando de inconseqüentes que acredita seriamente na impunidade. Nós, brasileiros, aguardamos com ansiedade a resposta final do STF, sem maiores delongas. Por enquanto, a Corte apenas recebeu a denúncia do Procurador. Queremos mais. Queremos a punição para todos aqueles que foram pegos dando e recendo dinheiro, cuja origem reside em empréstimos simulados, onde bancos amigos do Poder jamais cobrariam pelas dívidas. Ou cobrariam de “outra forma.”

28/06/07 12:24:58 Status: Publicado

qui, 28/06/07
por rodrigo braga |
categoria Sem Categoria


Tempo Insípido

Fui cobrado por não atualizar o meu blog. A reclamação é procedente. Fiquei pensando, então, sobre o que escrever. E me vi diante de um vazio. Procurei ajuda na internet, este instrumento poderoso concebido para facilitar a nossa vida, produto da revolução tecnológica.

Nada me ocorreu. É que a enxurrada de informações que recebemos daquela fonte não garante qualidade tampouco confiança. Para além disso, confirma a nossa suspeita de que é preciso ter muito cuidado para não cair em armadilhas. Como se não bastasse, a quantidade de lixo é enorme, o que demanda um trabalho de garimpagem permanente.

A minha decepção maior ainda estava por vir. Após horas de consulta, não consegui um tema que me estimulasse ao exercício da escrita, minha declarada paixão. Assim, tive a sensação de estar vivendo um vazio de idéias, em um tempo insípido, sem graça. As notícias são sempre as mesmas. È a velha roubalheira que não cede, a violência sem limites, a politicagem medíocre, os protestos de uma juventude desprovida de ideologias, uma sociedade sem charme, uns intelectuais cooptados pelo regime.

Estamos sem assunto. Há um vazio de idéias. Um governo estagnado. Uma degradação do homem público. Uma ética distorcida, a quem alguém já rotulou de a “ética da malandragem”. A banalização do tempo moderno me assusta. Não precisa ir longe. Na década de 60, existia assunto, motivo, causa suficiente para a rebeldia da juventude, dos intelectuais, dos artistas, dos boêmios, dos professores, dos políticos… Existiam dois regimes de forças que se contrapunham abertamente. Os teóricos se dividiam entre marxistas e liberais. Pela arte, pela literatura, pelos movimentos sociais, a sociedade expressava o seu descontentamento, o seu desencanto. Vivenciamos um “boom” de idéias e de ebulição cultural.

O que a juventude de hoje está produzindo? O que a sociedade atual está fazendo? Quem é quem nessa roda viva?

Tempo insípido! Quero restaurar os encontros para discutir os autores clássicos, quero resgatar o cinema francês, quero reabilitar os programas de rádio, quero assistir as verdadeiras telenovelas, e gostaria, mas gostaria muito, de ver um Celso Furtado no INCRA, de ver um Caio Prado Junior no Ministério do Desenvolvimento, de ver um Gustavo Capanema no Ministério da Educação, de ver um Santiago Dantas na pasta da Justiça, de ver um Afonso Arinos na Cultura. Será isto possível?

Tragam-me assuntos… antes que eu caia no vazio de minhas próprias idéias.

Rodrigo Bernardes Braga é advogado e escritor.

O amor mudou de tom

sex, 20/04/07
por rodrigo braga |
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Há quem sinta saudosa lembrança do amor nos tempos de nossos pais e avós. Era um outro amor, inegavelmente. Talvez o amor de Florentino Ariza por Fermina Daza, que persiste a vida inteira e que não cede a nenhum outro mesmo diante da rejeição. Era o amor dos poetas, dos românticos, dos bailes e das operetas. O amor tinha o tom das operetas!

E o que mudou de lá pra cá? Mudaram o verbo e o substantivo. O verbo “amar” não mais se conjuga naquele tempo passado, em que os minutos do relógio eram mais generosos, custando a passar, sobretudo quando o homem esperava pela mulher para algum encontro a dois. Era um tempo mais manso, mais calmo, mais solidário e mais conservador. E o amor corresponde ao tempo. Por isso era um amor mais romântico e mais teatral, no sentido de ser impregnado de lirismo e fantasia. O substantivo, por sua vez, tinha outro significado. O amor era algo para a vida inteira, promessa de vida a dois, na saúde a na doença, até que a morte o interrompesse.

Hoje, o amor tem o tom do “jazz,” aquela bagunça organizada, aquele ritmo veloz e que nos remete a idéia de muita coisa ao mesmo tempo. Isto é assim porque o amor corresponde ao tempo, como assinalamos. E o tempo em vigor é o da correria e o da vida em alta rotação. Só existe uma certeza: que estamos eternamente atrasados para alguma coisa.

O amor corrente é linear, auto-explicativo, menos sofisticado. É um amor alimentado pelos influxos do dia-a-dia, do computador, do trabalho, do lucro e da necessidade de sobrevivência num mundo capitalista. É um amor mais pedestre, menos teatral, mais realista e menos sujeito aos caprichos do destino. É um amor que se adapta com mais facilidade às adversidades, indiferente à classe social, etnia e religião. Em uma palavra: é um amor mais democrático e liberto de amarras.

Com efeito, não há razão para comparações. Há diferenças, não resta dúvida. Mas não dá para dizer que o amor de nossos pais e avós era melhor ou pior do que é hoje. O que se pode dizer, sem medo de errar, é que ele mudou de tom.

Rodrigo Bernardes Braga é advogado e escritor.

Ao meu Pai

seg, 02/04/07
por rodrigo braga |
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Aos três dias do mês de abril, Paulo Roberto Gomes Braga, o Paulinho, como era carinhosamente chamado pelos amigos, completaria 66 anos. De família muito humilde, meu pai começou o seu ofício como “impressor” numa gráfica tradicional de Niterói, minha cidade natal.

Aos poucos, lutando contra o mau tempo, acabou formando sociedade com o sogro, um ex-taxista loquaz e trabalhador, lacerdista por convicção. A empresa prosperou. E ele, meu pai, foi amealhando patrimônio a ponto de sustentar a família com algum conforto. Nada de exageros, mas o suficiente para nos considerarmos privilegiados em relação à maioria.

Há três anos falecia, vítima de câncer, no leito de um hospital, o brasileiro Paulo Roberto. Mas a pergunta que vocês podem estar se fazendo neste instante é: O que temos a ver com o seu pai? Tudo. Meu pai foi um exemplo de cidadão, que soube honrar a sua classe de industrial honesto. Presidiu o sindicato estadual, foi Juiz Classista, integrando a Magistratura Trabalhista fluminense, membro da Federação das Indústrias do Estado do Rio (FIRJAN), um exímio conselheiro e apaixonado pela casa e pela família. Gostava de viver cercado de amigos e de parentes. Pouco afeiçoado às letras, não se abalava diante de pequenos deslizes de gramática. Isto, tampouco, foi motivo para privá-lo de importantes companhias.

Um dia, alguém tentou corrigi-lo, ao que ele prontamente advertiu, em tom jocoso: “eu não erro, minha senhora, no máximo me engano.”

Assim era Paulo Roberto. Ele fazia parte de um grupo em franca extinção: o grupo de brasileiros que se mantém na retidão de princípios.

No próximo dia 3, o exemplo desse senhor de cabelos de algodão e de uma bondade infinita, como o guardo até hoje em minhas lembranças, poderia servir de alento para um país que se acostumou a conviver com a corrupção e a não temer pela sua escalada progressiva.

Rodrigo Braga é advogado e escritor.



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