Mortes violentas de torcedores de futebol: da barbárie ao efêmero
O Sociólogo Maurício Murad apresentou um estudo, com base “[...] em dados fornecidos por jornais, revistas e rádios das principais cidades do país entre os anos de 1999 e 2008.”, que revela tendências alarmantes em relação à quantidade de mortes provocadas por motivações vinculadas ao futebol. Os dados indicam que atualmente o Brasil é o campeão mundial de mortes decorrentes de conflitos entre torcedores de futebol, no entorno dos estádios, após a realização de jogos de futebol profissional. Foram 42 mortes nos últimos dez anos, média de 4,2 por ano; ou 28 mortes nos últimos cinco anos, média de 5,6 por ano; ou 14 mortes nos dois últimos anos, média de 7,0 mortes por ano.
O autor associa esse crescimento ao aumento da violência no país, decorrente da impunidade e da corrupção no Brasil. Contudo, a matéria (http://noticias.uol.com.br/cotidiano/2009/07/19/ult5772u4685.jhtm) não apresenta os índices sociais comparativos, de violência e de corrupção, a que se referiu o autor.
Como contribuição ao “debate”, trazemos algumas considerações.
Uma delas se relaciona à natureza da motivação que conduz alguém a assassinar outro “alguém” que, em essência, é um “igual” (torcedor de futebol, tanto quanto o outro). Na condição de seres humanos, um assassinato seria condenável sob qualquer aspecto; contudo a questão que mais intriga as “pessoas de bem” é o fato de que a motivação para a manifestação de violência física, explícita e fulminante, “nasce” do princípio da rivalidade, entre clubes de futebol! Esse é um pressuposto primário, e que esconde as verdadeiras razões para esse comportamento primitivo, mas, infelizmente, frequente em muitas sociedades ditas civilizadas.
Porém, há um contexto subjetivo que esconde essa aparente relação direta (futebol e morte). A exacerbação sem limites ascende da intolerância à diferença. Diferença essa, como se verá adiante, que é criada subjetivamente, por mecanismos psicológicos internalizados pelo sujeito, que passa a acreditar e a exacerbar o que julga como diferença.
Ambos (o que mata e o que é morto), quando no caso de torcedores rivais em confronto direto, não admitiam, no momento em que um assassinou o outro, a coexistência daqueles que os “ameaçam” – mesmo que no imaginário de cada um-, principalmente próximo ao “campo sagrado de batalha”, que é o chão onde ocorrem as representações dos espetáculos (muitas vezes nem tanto) esportivos, ou seja, o campo de jogo.
Lá onde ocorre o jogo é uma “fábrica” de emoções, de ilusões e potencialmente promotora de paixões e violência simbólica. Lá onde o confronto acontece é o local onde os torcedores projetam suas expectativas, suas apostas, suas identificações. É lá, ainda, onde os torcedores “delegam” representações imaginárias aos jogadores que defendem “seu” time de coração; mesmo que, o representante (jogador profissional que atua lá no campo, seu local de trabalho) nem se dê conta do que está representando, do ponto de vista das produções simbólicas e psicológicas daqueles que o assistem.
Portanto, para os torcedores que integram grupos organizados de “iguais”, nada é mais extasiante e compensador do que a vitória de “seu” time sobre um adversário rival. A ele, torcedor que “pertence” a uma facção específica e torcedora de um determinado time de futebol, não basta a vitória, mas, se possível, a humilhação do “derrotado”; a “morte” simbólica do rival!
Esses componentes psicológicos, em muitos casos, se associam à agressividade e ao sentimento de fortalecimento que se frutifica em decorrência da “soma” das forças negativas, digamos, (entendam como desejarem) dos demais “companheiros” que pertencem ao mesmo grupo, à mesma horda.
A discussão é longa e quase infindável, mas, esse recorte, de certa forma permite traduzir, e nunca justificar, os motivos pelos quais ocorrem os confrontos físicos que chegam a causar mortes. A associação entre sentimentos de frustração; de ressentimentos acumulados no dia a dia; de auto-avaliação em relação à percepção de exclusão social; de auto-afirmação perante os demais pertencentes do mesmo grupo; enfim, de inúmeros outros componentes simbólicos que habitam esse contexto de agressividade e violência, caracterizam um conjunto de fatores que promovem esses comportamentos. Contudo, o papel do grupo social a que pertence o sujeito que chega a praticar esses comportamentos de agressividade e extrema violência, é preponderante.
Observem que o futebol, em si, é apenas um pretexto, embora a organização de alguns grupos torcedores (ou torcidas organizadas), que em muitos casos já foram classificados como gangs pela Polícia, Ministério Publico e setores da mídia, principalmente nos grandes centros urbanos do país, tenham se originado a partir da referência simbólica de clubes de futebol.
Com o advento da tecnologia via web, encontros “amistosos” de grupos rivais são pré combinados, e não é para trocar flores ou para se confraternizarem. É possível até mesmo se imaginar uma tecnologia de estratégia de guerrilha urbana.
Voltando a questão dos “templos sagrados” (estádios de futebol), ressaltamos o ritual como elemento de “aquecimento”, para torcedores com o perfil caracterizado anteriormente. Neles está incluído, entre outros fatores, o uso das camisas do grupo (que nos grandes centros, em dia de jogo, somente são vestidas após a chegada em “local seguro”) com impressões do símbolo do clube; os cantos dos hinos do grupo, as palavras de ordem e os gritos de guerra; dentre outros procedimentos usuais. Posteriormente, a organização do grupo no estádio e os rituais de apoio, de pressão, de vibração, de xingamentos, de exaltação e de enaltecimento do próprio grupo, como se em uma batalha. As turbas se “organizam” para a batalha !!!
Não há possibilidade de se pensar um jogo de futebol profissional sem todos os componentes simbólicos e subjetivos que se acionam antes, durante e após os “espetáculos”. Para alguns, apenas estar presente e torcer, vibrar ou lamentar é suficiente; para outros são detalhes de uma etapa, pois, lá fora (dos estádios) começará o terceiro tempo do “jogo”, o jogo da violência. E o inimigo é o rival que precisa ser “destruído”, quem? Qualquer um poderá ser vítima!
Trazemos à discussão alguns outros elementos que não se contrapõem ao estudo de Maurício Murad, entretanto, nos fazem ficar ainda mais preocupados com a capacidade que alguns seres humanos possuem de ceifar a vida alheia por motivos absolutamente fúteis e sem sentido, efêmeros por natureza. Ou seja, que argumento seria justo para matar alguém devido ao fato de serem (o assassino e a vítima) torcedores de times de futebol diferentes?
Percebam que, no cotidiano, as pessoas convivem com esse tipo de diferença, e , ao contrário, até mesmo conseguem se utilizar de argumentos provocativos, mas, providos de certa dose de humor, ou porque “seu time” perdeu ou porque ganhou. Enfim, “gozações” que integram as relações sociais de uma forma saudável.
A questão que indigna os cidadãos de bem é a irracionalidade daqueles que criam “necessidades” que os remetem a se confrontar até a morte, porque o outro é ”diferente”, não sendo. Observem que não há diferença em ser torcedor de um clube de futebol, mesmo, e principalmente, se o torcedor “pertencer” a um grupo organizado (e ainda assim, é de conhecimento geral que existem vários grupos “diferentes” de torcedores organizados do mesmo time de futebol, como ocorre, por exemplo, em relação aos grandes clubes. Há várias torcidas organizadas de clubes como Corinthians, Flamengo, Palmeiras e Vasco. Ou seja, ser torcedor é ser torcedor! Tudo o que tem sentido para um torcedor de um clube tem sentido para o torcedor de outro clube, obviamente em relação ao “seu” próprio clube, mas, na essência, do ponto de vista de cada um, não há diferença. Apenas poderíamos tentar classificar os “níveis” distintos de torcedores: os que apenas assistem aos jogos pela TV; os que vão aos estádios e ficam nas cadeiras com seus familiares ou amigos; os que se organizam em grupos e permanecem em grupos do começo ao fim dos jogos (é aí que “mora” o perigo!). Enfim, seja o clube que for não há parâmetros para determinar quem é mais torcedor do que o outro, ou, melhor torcedor do que o outro, portanto, são “iguais” nesse sentido.
As diferenças residem no imaginário, nos valores e princípios que acreditam cada componente de cada grupo, como já dissemos, mas, na essência (ser torcedor de um clube de futebol), não há diferença! A não ser na imaginação, ou percepção equivocada, daqueles que se julgam melhores do que outros, sem perceberem a dimensão de que as supostas diferenças (neste caso analisado) pressupõem sempre componentes comuns em ambos os grupos, que são negados ou ignorados.
A pesquisa do sociólogo Maurício Murad também revela o perfil dos mortos por conflitos decorrentes de razões relacionadas ao futebol: a maioria “[...] era composta por jovens entre 14 e 25 anos, de classe baixa ou média baixa, com escolaridade até o ensino fundamental e, em geral, desempregada”.
Se atentarmos bem, são “iguais” até mesmo socialmente. Portanto, a diferença está no imaginário, na crença de que “eu tenho que aniquilar o rival, o que concorre comigo em relação a um espaço (ser campeão, mesmo que por “procuração”, já que, quem joga e ganha “por mim, é o outro!”) que só pode ser de um, o campeão, o “vencedor”.
O fato lamentável é que a morte física foi banalizada, seja pelo motivo que for, os crimes se tornaram tão comuns que não causam mais impactos (salvo para os familiares que sofrem as perdas), viraram estatísticas. É terrível a constatação de que as pessoas não acreditam mais nos poderes constituídos, que deveriam prevenir, julgar e condenar os criminosos.
Pior ainda é a “morte” do sentimento de respeito à diversidade, seja ela da natureza que for. O “fair play” que deveria caracterizar o “espírito” do jogo deu espaço para o jogo simbólico que motiva a morte de “inimigos iguais”.
PAZ”mem“!
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